Do pioneirismo de Charles Deep aos conceitos de José Boto e Filipe Luís

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O Botafogo deixou o sarrafo elevado no ano passado ao montar um timaço. Conquistou a Libertadores e o Campeonato Brasileiro com base em um recurso aparentemente moderno: excelência nos departamentos de scout e de análise de desempenho. As peças foram se encaixando com a sabedoria de quem sabe brincar de lego. A combinação tem tudo para ser copiada pelos concorrentes nesta temporada. Um deles está em Brasília.

O Flamengo enfrenta o Volta Redonda hoje, no Mané Garrincha, trazendo na delegação um dos experts no assunto. O diretor executivo de futebol José Boto revolucionou o departamento de scout do Benfica de Portugal. O caça-talentos também teve êxito no Shakhtar Donetsk da Ucrânia. Por isso, o executivo português foi ungido pelo presidente eleito Luiz Eduardo Baptista, o Bap.

Embora pareça novidade, a análise de desempenho, por exemplo, é um recurso raiz. Modernizou-se, gourmetizou-se e dá impressão de ter reinventado o futebol. Só que não.

O uso de estatísticas no futebol de maneira científica — e não mais empírica — começou nos anos 1950 com Thorold Charles Reep. O contador era um ex-comandante da Força Aérea Britânica. O militar inglês catalogou dados de três mil partidas e concluiu: 80% dos gols tinham origem em sequências de três passes ou menos.

A interpretação de Reep foi de que os clubes deveriam fazer a bola avançar o mais rápido  possível — dando munição aos treinadores que argumentavam à época a favor da bola longa como estratégia. Os dados amenizavam a técnica e a habilidade e favoreciam jogadores altos, fisicamente mais fortes.

A revolução do Benfica tocada, entre outros, por José Boto, tem influência de Charles Reep. De acordo com o estudo, 60% dos gols saem de jogadas iniciadas em um raio de 32 metros da meta adversária. Portanto, era necessário recuperar a bola rapidamente o mais próximo possível do gol adversário ao perdê-la, ou seja, pressionar o contra-ataque. Os conceitos de Reep foram atualizados. Passaram do tempo analógico do bloquinho de anotações para a era digital e caminham rapidamente para a inteligência artificial.

José Boto conhece bem essa engrenagem. O Benfica Lab era formado por jovens gênios formados em cursos de ciência do esporte nas universidades de Lisboa. O setor tinha quatro departamentos: nutrição, observação, análise de desempenho e psicofísica — relação entre estímulos mentais e desempenho físico.

Em tese, os conceitos de José Boto combinam com o do técnico Filipe Luís. Uma das máximas do Benfica, por exemplo, era a de Johan Cruyff: “Está estaticamente provado que, em média, cada jogador tem a posse de bola de fato por apenas três minutos em uma partida. Ou seja, o mais importante é o que ele faz nos 87 minutos em que não está com ela”, recomendava, por exemplo, a turma da base de dados.

O Flamengo fazia isso nos tempos de Jorge Jesus e certamente deve retomar o conceito da base ao profissional com Boto e Filipe Luís, No Benfica, câmeras registravam comportamentos a cada transição de jogo, com ou sem a bola, e não somente o espetáculo em torno de quem tem a posse. Indicativos de como pode ser o novo — e científico Flamengo.

*Coluna publicada neste sábado na edição impressa do Correio Braziliense

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Marcos Paulo Lima

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