Como truques de Ricardo Teixeira inspiram Ednaldo Rodrigues na escolha do novo técnico da Seleção

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Ricardo Teixeira deixou a CBF há 10 anos, mas fez escola. Sem querer, querendo, o presidente Ednaldo Rodrigues segue a cartilha de quem comandou a entidade por 23 anos no período de 1989 a 2012. Quando a escolha do técnico da Seleção Brasileira estava embaraçada, o ex-cartola nomeava um interino a fim de ganhar tempo nas negociações com seus sonhos de consumo. Pelo menos três tampões comandaram o time canarinho em uma operação tapa-buraco: Ernesto Paulo, Candinho e Zagallo esquentaram o banco para as chegadas de Carlos Alberto Parreira, Émerson Leão e novamente Parreira, respectivamente. Em 2002, Teixeira, inclusive, inventou uma partida festiva de despedida para o Velho Lobo contra a Coreia do Sul enquanto lutava para convencer Parreira a trocar o ciclo para a Copa 2006.

Qualquer semelhança com o que faz o atual presidente Ednaldo Rodrigues ao nomear Ramon Menezes como interino não é mera coincidência. O ex-presidente da Federação Baiana de Futebol tem Ricardo Teixeira como uma das referências em gestão esportiva. Assumiu a entidade em 2001, catapultado pelo ex-mandatário Virgilio Elísio, que deixou a federação para assumir o cargo de diretor de competições na CBF, e logo se tornou forte aliado de Teixeira. 

Há semelhanças na paciência de Jô para tomar uma decisão importante sem pressa e até na ousadia. Em 1990, Teixeira surpreendeu ao apostar em Paulo Roberto Falcão. A inspiração dele era Franz Beckenbauer. O Kaizer havia levado a Alemanha ao tri, na Itália. Em 2006, tirou Dunga da cartola. O capitão do tetra nunca havia sido técnico durante a aposentadoria.

Ednaldo Rodrigues vai além: quer a Seleção Brasileira liderada pela primeira vez por um estrangeiro na Copa do Mundo. Dá de ombros até para o retrospecto: em 92 anos de história, o torneio quase centenário jamais foi conquistado por um treinador importado.

Inspirações e coincidências à parte, o ciclo da Seleção para a Copa de 2026 começa mal. Se o Brasil ainda não tem técnico porque escolheu agir estrategicamente para contratar o melhor profissional europeu possível, a melhor decisão era abrir mão de amistosos na Data Fifa de março. Não haveria prejuízo algum. Nem sequer financeiro aos abarrotados cofres da CBF. Simples assim. Além disso, as agendas dos clubes agradeceriam muito.

É mais produtivo retomar a caminhada rumo ao hexa do zero com treinador, comissão e projeto novinhos em folha do que o improviso, a falta de um norte. Nada contra o interino Ramon Menezes. Camisa 20 do Brasil na Copa das Confederações de 2001 sob a batuta de Émerson Leão, o ex-meia fez belíssimo trabalho na conquista do Sul-Americano Sub-20, porém não havia necessidade de colocá-lo na fogueira nesse amistoso de março.

A menos que o amistoso contra Marrocos seja usado como ensaio da Seleção Sub-20 para o Mundial da categoria, em maio, na Indonésia. Aí, sim, uma excelente oportunidade de testar a força máxima contra uma seleção africana quarta colocada na Copa 2022. Ou então inaugurar o projeto pela terceira medalha de ouro consecutiva. Afinal, daqui a pouco  tem Pré-Olímpico para os Jogos de Paris-2024. Ramon Menezes é o eleito para chefiá-la.

A CBF prefere a Seleção principal em ação contra Marrocos. Os supersticiosos estão eufóricos com algumas coincidências. As campanhas do tetra e do penta tiveram a colaboração de técnicos interinos. O ciclo para a Copa de 1994 começou sob a batuta de Paulo Roberto Falcão. No entanto, o vice na Copa América de 1991, no Chile, encerrou a passagem dele pelo cargo. O presidente Ricardo Teixeira queria ganhar tempo na escolha do sucessor e optou por um treinador interino. Telefonou para Ernesto Paulo e pediu para que ele comandasse o Brasil na derrota por 1 x 0 para o País de Gales, em Cardiff.

“Eu estava descansado quando tocou o telefone e era o Ricardo Teixeira, que pediu para eu ir na casa dele. Aí ele falou: ‘Eu não estou querendo contratar ninguém agora, vão ter quatro jogos da Seleção, já estão agendados e você vai fazer esse jogo em Cardiff’. Não estava tão preparado para dirigir uma seleção principal. Cheguei em casa em êxtase”, contou Ernesto Paulo em 2014. Era 1991 e ele tocava o Brasil Sub-23 pensando nos Jogos de Barcelona-1992. O projeto fracassou no Pré-Olímpico de 1992, no Paraguai.

A Seleção foi comandada duas vezes por um profissional interino no ciclo para a Copa de 2002. O assistente Candinho entrou em ação duas vezes. Na primeira, a pedido do chefe à época, Vanderlei Luxemburgo. O líder da principal havia escolhido se dedicar ao grupo convocado para o Pré-Olímpico e delegou ao homem de confiança o empate por 0 x 0 com a Espanha, na Europa. A segunda, quando a CBF despediu Luxa. Candinho comandou o Brasil na goleada por 6 x 0 contra a Venezuela pelas Eliminatórias enquanto Ricardo Teixeira convencia o alvo, Émerson Leão, a assumir a prancheta.

Luiz Felipe Scolari anunciou o fim do ciclo depois da conquista do penta. Comandou a Seleção contra o Paraguai num jogo festivo, em Fortaleza, e depois disso o Brasil passou 140 dias sem treinador. No meio do caminho havia um compromisso com a Coreia do Sul. Mário Jorge Lobo Zagallo foi nomeado interino e a partida virou jogo de despedida do Velho Lobo do cargo de técnico da amarelinha. Paralelamente, Teixeira ganhava tempo para passar a lábia em Carlos Alberto Parreira — oficializado como sucessor de Felipão em 2003. Portanto, há semelhanças entre Ednaldo e Teixeira até na paciência para escolher.

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Marcos Paulo Lima

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