Como o futebol ajuda a explicar a guerra entre Rússia e Ucrânia no Leste Europeu

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Rússia e Ucrânia só se enfrentaram duas vezes depois da extinção da União Soviética (URSS). Ambas no fim do século passado, pelo Grupo 4 das Eliminatórias da Euro-2000. Os ucranianos venceram por 3 x 2, em 5 de setembro de 1998, em Kiev. Houve empate por 1 x 1, em Moscou. Daquele 9 de outubro de 1999 em diante, os países em guerra desde a última quinta-feira viraram fardos controversos para a Fifa e a Uefa.

Enquanto as entidades máximas do futebol mundial e europeu agiam diplomaticamente nos bastidores com sorteios dirigidos, a fim de evitar que as seleções e os clubes dos dois países se encontrassem, dirigentes das ligas nacionais das duas nações articulavam explicitamente a fusão dos campeonatos russo e ucraniano. A Crise da Crimeia, em 2014, abortou o plano embrionário.

A Revolução Ucraniana engatinhava quando os campeões e os respectivos vices das duas ligas nacionais disputavam, em Petah-Tikva, Israel, a Supercopa Unificada. Shakhtar Donetsk e Metalist representavam a Ucrânia. A Rússia competia com CSKA Moscou e Zenit São Petersburgo. Na última rodada, o Metalist derrotou o Zenit; e o Shakhtar venceu o CSKA. Era fevereiro de 2014.

Aqueles duelos foram os últimos entre times dos dois países. Um mês depois, a Rússia anexou a Crimeia, região ucraniana pró-Moscou. Na sequência, houve prolongado conflito armado na região de Donbass — onde fica Donetsk. O estádio do Shakhtar foi bombardeado e o time virou sem teto. Passou a mandar jogos em Lviv e Kiev.

Protótipo de uma liga nacional unificada, a Supercopa disputada em Israel distribuía premiação de 1 milhão de euros, mas era considerada pirata. Não havia aval das respectivas federações. Muito menos da Uefa e da Fifa. O evento era influenciado pelo ex-jogador e técnico russo Valery Gazzaev, turbinado pela gigante russa Gazprom.

Uma Supercopa unificada disputada em Israel, país neutro, explica a guerra entre Rússia e Ucrânia. À época, um dirigente que pediu anonimato praticamente implodiu a fusão das ligas nacionais. “Nossa posição sempre foi e é claramente negativa. A tentativa de realizar o Torneio Unificado, assim como a tentativa de criar um campeonato conjunto, é considerada um passo puramente político, uma traição aos interesses nacionais de ambos os países.”

Mais uma prova do jogo ideológico: em 17 de agosto de 1969, o Karpat Lviv, da Ucrânia, venceu o SKA Rostov por 2 x 1 na final da Copa da União Soviética. Os torneios eram unificados, mas havia sentimento separatista. Ingressos dos jogos do Karpaty eram fornecidos a agentes da KGB. O serviço secreto soviético flagrava, na arena, gritos de conotação política. Pois naquela decisão, os torcedores do Karpaty entoaram canções ucranianas no Estádio Luzhnik, em Moscou. O povo de Lviv chorou ao escutar seu idioma ecoar na capital russa. O futebol explica a guerra.

Coluna publicada na edição impressa deste sábado (26.2.2022) do Correio Braziliense.

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Marcos Paulo Lima

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