Como a réplica de Fernando Diniz deixou Vítor Pereira sem tréplica no debate tático do Fla-Flu

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Os colegas da política costumam usar o Fla-Flu como metáfora da batalha ideológica no período das eleições, o tal Fla-Flu político. Pego emprestado o clichê para tentar explicar a conquista do bicampeonato tricolor na Taça Guanabara nesta quarta-feira na virada por 2 x 1 justamente sob um viés político. Se fosse um debate, por exemplo, diríamos que o candidato Fernando Diniz deixou o concorrente Vítor Pereira sem tréplica no rico debate de ideias no Maracanã.

O português  ganhou o primeiro bloco do duelo tático de uma maneira ousada. Escalou o time com apenas dois titulares: Gabriel Barbosa e Arrascaeta. Apostou em nove reservas. Baixou a média de idade da equipe de 29,9 anos contra o Vasco para 25,4 diante do Fluminense em busca de juventude, velocidade, intensidade. Formatou o onze ideal no 3-4-3. O modelo não é novidade na biografia dele. Foi usado em 15 dos 25 jogos dele no Fenerbahçe antes de assinar com o Corinthians. Resta saber se o modelo foi minimamente ensaiado na segunda, terça ou quarta-feira.

Vítor Pereira usou Matheuzinho e Everton Cebolinha como alas. Gerson e Igor Jesus por dentro e o trio de ataque tinha Matheus França, Gabriel Barbosa e Arrascaeta na linha de ataque. No Fenerbahçe, o trio ofensivo contava com Diego Rossi aberto na direita, Mesut Ozil na esquerda e Mergim Berisha no papel de centroavante no mesmo sistema 3-4-3.

O plano de jogo funcionou no primeiro tempo. O Flamengo se protegeu bem. Cedeu poucas oportunidades ao Fluminense. Tirou o tricolor da tal zona de conforto e marcou dois gols. O de Everton Cebolinha valeu. O de Gabriel Barbosa, não. Por pouco, o time rubro-negro não deixou o gramado com vantagem de 2 x 0 na decisão da Taça Guanabara.

Fernando Diniz preparou a réplica do debate no intervalo. A “equipe de campanha” detectou os pontos vulneráveis da proposta de Vítor Pereira e foi cirúrgico no retorno para o segundo bloco. Um dos candidatos a sucessor de Tite na Seleção Brasileira, o comandante tricolor mostrou repertório para competir pelo cargo com o italiano Carlo Ancelotti, o espanhol Luis Enrique, os lusitanos José Mourinho, Jorge Jesus, Abel Ferreira ou quem quer que seja.

A réplica de Diniz transformou André de volante em zagueiro ao lado de Nino. Melhorou a saída de bola tricolor e fortaleceu o meio de campo com as entradas do criativo Lima praticamente na função de primeiro volante e de Gabriel Pirani na proteção ao setor esquerdo do sistema defensivo. O Fluminense passou a dominar a zona de criação, reteve a bola e contava com as escapadas de Arias para acelerar o duelo em busca da reação.

O atual campeão carioca chegou ao empate graças ao carrasco Germán Cano, autor de cinco gols em seis Fla-Flus, e com a estrela do iluminado Gabriel Pirani para detectar a virada e o título no Maracanã. No campo das ideias, Diniz deixou Vítor Pereira sem tréplica para buscar o empate — resultado necessário para o time rubro-negro conquistar a taça.

A virada do Fluminense desmantelou o planejamento do Flamengo. Vítor Pereira irritou a torcida ao trocar Gabriel Barbosa por Mateusão e Arrascaeta por Ayrton Lucas. Ouviu gritos de burro da torcida rubro-negra e teve o nome ironicamente ovacionado pelos tricolores.

Apesar da derrota, Vítor Pereira pode até ser demitido, mas foi para casa pela primeira vez com a sensação de que escalou o Flamengo como queria, assumiu riscos e quase obteve um triunfo autoral ao montar o time de acordo com o adversário. O prejuízo da derrota são dois clássicos contra o Vasco nas semifinais, provavelmente em desvantagem.

Do outro lado, os olhos de Diniz brilhavam antes de receber a Taça Guanabara. Título menosprezado, mas relevante na carreira dele. O primeiro em um clube tradicional do país depois de conquistas modestas, porém importantes pelo Votoraty na Copa Paulista e na Série A3 do Paulistão; e com a prancheta do Paulista de Jundiaí na Copa Paulista.

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Marcos Paulo Lima

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