Aos 23 anos, Jair Ventura (D) foi tema de matéria sobre imigrantes do Mulhouse, da França. Foto: Reprodução
Jair Ventura esquece o sobrenome soviético, lituano que tem: Zaksauskas. Sua mãe, Thereza Christina Zaksauskas Ribeiro Ventura, mulher de Jairzinho, o Furacão do tri, há 43 anos, provavelmente seja descendente de lituanos — não conheço sua genealogia. Nem se soubesse teria o direito de acusar seus avós, bisavós, tataravós de terem imigrado para o nosso país com a intenção de tirar oportunidades dos brasileiros. Certamente seus antepassados trabalharam duro por aqui para para ajudar a construir essa nação.
Jair Ventura esquece que o Brasil é exportador — talvez o maior — de pés de obra para o mundo. Por sinal, nos tempos de boleiro, Jair foi aceito aos 23 anos no time do Mulhouse, da França, onde surgiram os jogadores e hoje técnicos Arsène Wenger e Raymond Domenech. Foi tema até de matéria sobre imigração. Passou pelo mesmo time o ganês Abedi Pelé — que não deve ser acusado de ter tirado vaga de ninguém no clube da quarta divisão do Campeonato Francês.
Jair Ventura se esquece que, um dia, o TP Akwembe, do Gabão, abriu as portas para ele, como jogador, e o pai, treinador do clube. Nem por isso, Jair Ventura deve ser acusado de ter impedido o surgimento de novos Aubameyangs na nação africana. Por sinal, Jairzinho também comandou a seleção do Gabão.
Jair Ventura esquece que seu pai, como jogador e técnico, foi praticamente um missionário da bola. Passou por Olympique de Marselha, da França; Kaizer Chiefs, da África do Sul; Jorge Wilstermann, da Bolívia; Portuguesa, da Venezuela; 9 de Octubre, do Equador; Kalamata, da Grécia; Al Wahda, dos Emirados Árabes Unidos; e Ettifaq, da Arábia Saudita. Nem por isso deve ser acusado de ter tomado espaço de alguém em suas peregrinações pelo mundo.
Jair Ventura esquece que tem três importantes jogadores estrangeiros no Botafogo — Carli, Valencia e Gatito. Esquece que um dos ídolos recentes do clube, com quem inclusive trabalhou no papel de auxiliar, é o centroavante uruguaio Loco Abreu, herói do título carioca de 2010.
Jair Ventura talvez não saiba que o Botafogo acolheu um judeu estrangeiro nascido na Hungria — Nicolas Ladanyi — mentor de dois títulos cariocas, em 1930 e em 1932, numa época marcada pelo antissemitismo. Nem por isso o Botafogo deixou de formar bons e vitoriosos técnicos brasileiros ao longo de sua bela história.
Jair Ventura esquece que até pouco tempo seu livro de cabeceira era “Guardiola Confidencial”. O treinador catalão que o inspira já passou pelo Bayern de Munique, da Alemanha, e agora milita no Manchester City, da Inglaterra.
Jair Ventura talvez não saiba que até a Seleção Brasileira já teve um técnico estrangeiro. O argentino Filpo Núñez foi um dos mentores da academia do Palmeiras, um dos maiores times da história do nosso futebol. Nem por isso o Brasil e o clube de origem italiana deixaram de fabricar técnicos de ponta.
Quem acompanha o blog sabe que considero o trabalho de Jair Ventura um dos três melhores do país na temporada, ao lado de Fabio Carille e de Renato Gaúcho. Mas, ao defender Em entrevista ao FOX Sports reserva de mercado na chegada do colombiano Reinaldo Rueda, ou de qualquer outro técnico importado ao Brasil, a minha opinião é a seguinte: Jair Ventura desperdiçou a chance de ficar calado. Perdeu a oportunidade de ser no mínimo elegante com a Colômbia, e por tabela com o cidadão colombiano que esbanjou elegância ao ser o primeiro a abrir mão do título da Copa Sul-Americana no dia do acidente aéreo da Chapecoense.
Hoje, Reinaldo Rueda está chegando para trabalhar no Brasil. Amanhã, Jair Ventura pode receber convite para comandar um time francês — idioma que ele aprendeu quando defendeu o Mulhouse. Nem por isso deverá ser acusado um dia de tirar espaço dos técnicos de lá.
Foi um gol contra, senhor Zaksauskas!
NOTA OFICIAL DE JAIR VENTURA
“Observando a repercussão de minha declaração sobre a contratação do treinador colombiano Reinaldo Rueda, avaliei que talvez não tenha sido bem claro quando me expressei.
Quero esclarecer que acho legítimo o direito de qualquer clube brasileiro contratar um treinador estrangeiro. Há muitos profissionais competentes em outros países, com condições de repetirem aqui o sucesso que tiveram em outros lugares, como é o caso de Reinaldo Rueda, que tem um currículo admirável.
O que questiono e me deixa triste é ver que treinadores brasileiros são vistos com desconfiança e encontram dificuldades para trabalhar no exterior. Além de questões legais, como não reconhecimento de nossa habilitação profissional no mercado europeu. Nossa licença não é aceita na Europa, ao contrário da dos argentinos, por exemplo. Temos que refletir, discutir e buscar maneiras de mudar essa situação.
E como posso criticar os estrangeiros, se convivo com vários no Botafogo? Eu mesmo morei mais de nove anos fora do país quando jogador e tive essa vivência. Reitero que defendo uma maior valorização dos treinadores brasileiros, de competir em igualdade de condições com os estrangeiros no mercado externo. Infelizmente, a nossa licença ainda não nos dá esse direito.”
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