Brasiliense se despede da Série D no Abadião: rotina de frustrações. Divulgação/Jessica Lineker
As oitavas de final da Série D do Campeonato Brasileiro começam neste sábado com mais um duro golpe para o combalido futebol candango em competições nacionais. Com a eliminação do Brasiliense no último domingo, no Abadião, diante do Nova Venécia, a capital do país mantém o retrospecto de jamais ter catapultado um time à Série C desde a criação desde 2009, ano em que a quarta divisão foi criada pela CBF.
O Distrito Federal não tem representante na Série C desde 2013, quando o Brasiliense caiu para a D. No ano que vem, o futebol local completará 10 anos atolado na pior divisão do país. Em uma projeção para lá de otimista, só retornará à elite em 2026. Isso com acessos sucessivos, um por ano, a contar de 2023. Há um porém publicado aqui no blog neste ano: somente 6 dos 267 clubes que disputaram a Série D conseguiram a proeza de cumprir o trajeto da quarta até a primeira divisão: Chapecoense, Cuiabá, CSA, Santa Cruz, Joinville e Juventude. Isso equivale a 2%.
A seguir, o blog aponta 10 razões para o fracasso do Brasiliense nesta temporada na Série D. Protagonista da segunda melhor campanha geral da primeira fase entre 64 clubes, atrás apenas do também eliminado Retrô-PE, o atual bicampeão do Distrito Federal frustrou a torcida. O time de maior potencial financeiro da capital não consegue sair da quarta divisão desde 2014. Um desperdício. Esse não é o lugar do clube. O time deveria, no mínimo, figurar entre as séries C e B do Brasileirão.
Mostro faz tempo aqui no blog que times da Série D com média de idade elevada são condenados a não subir. Fiz, inclusive, um levantamento mostrando que a maioria alcança o acesso com média inferior a 30 anos. O que fez o Brasiliense no jogo do último domingo contra o Nova Venécia? A média de idade do time titular era de 32 anos! Dos onze, oito estão na casa dos 30 anos. Dois têm 37: Zotti e Aloísio. Do outro lado, o Nova Venécia mandou a campo uma formação com média de 25,9. Emerson Martins era o único acima dos 30. A política de investir em jogadores depreciados pelo tempo funcionou lá atrás, em 2000, quando o Brasiliense foi fundado. Hoje, não mais. O futebol demanda cada vez mais velocidade, intensidade. O Nova Venécia era simplesmente sete anos mais jovem.
O Brasiliense tem um dos melhores centros de treinamento do Distrito Federal, mas comete um erro grave: trabalha distante do seu reduto. Nos bons tempos do clube, a torcida prestigiava as atividades do time no campo anexo ao Serejão ou no próprio estádio. Os jogadores gostavam do contato com o torcedor no dia a dia. O fã respirava o time do coração. A mudança para o Setor de Clubes Sul é compreensível, mas a diretoria erra ao não realizar pelo menos um um dois treinos da semana perto de quem gosta do time. Essa deveria ser uma das prioridades quando a equipe voltar a mandar jogos na Boca do Jacaré.
A casa do Brasiliense é o Serejão. Ali o time foi vice da Copa do Brasil em 2002, construiu a campanha do título na Série C em 2002, conquistou o acesso para a elite em 2004 e escreveu a história de outras conquistas como a Copa Verde, em 2020. As informações são de que o clube deu um trato na arena, arrumou o gramado, mas não conseguiu mandar partidas na Boca do Jacaré por falta de laudos. O GDF não disse que ajudaria os clubes da cidade no início da temporada? Não houve vistoria? O fato é que o Brasiliense perambulou pelo Abadião, Defelê e até em Cariacica (ES) na temporada como se fosse um sem teto.
Vou usar uma metáfora. Guardadas as devidas proporções, o Brasiliense é uma espécie de “Paris Saint-Germain do Candangão”. Nada de braçada no campeonato local e atropela todo mundo no estilo “comigo ninguém pode”. É o atual campeão do Distrito Federal com todos os méritos. Porém, na hora da Série D, o Jacaré perde as garras. Comporta-se exatamente como o PSG. Manda no quintal de casa e frustra os torcedores em competições de ponta. O time francês empilha fracassos na Champions League. E o rico Brasiliense, na Série D.
O Brasiliense teve a segunda melhor campanha entre os 64 clubes na primeira fase. Isso deu pinta de um dos times a ser batido. Há um porém. O grupo dos times candangos costuma ser frágil. Enquanto Brasiliense e Ceilândia competiam com Anápolis, Costa Rica, Operário de Várzea Grande, Iporá, Grêmio Anápolis e Ação no Grupo 5; o Nova Venécia terminou em quarto no 6, diante de concorrentes bem mais qualificados. Deixou para trás, por exemplo, dois paulistas: Internacional de Limeira e Ferroviária. Portanto, alguém cometeu grave erro de avaliação ao projetar mamão com açúcar por se tratar de um quarto colocado. Detalhe: todos os times do grupo do Nova Venécia estão nas oitavas de final. Real Noroeste, Bahia de Feira e Pouso Alegre são os outros três. Nenhum time do grupo do Brasiliense avançou,
- As decepções do Jacaré na quarta divisão
2014: eliminado pelo Brasil de Pelotas-RS (quartas de final0
2015: não disputou
2016: não disputou
2017: não disputou
2018: eliminado pelo Sergipe-SE (segunda fase)
2019: eliminado pelo Vitória-ES (segunda fase)
2020: eliminado pelo Mirassol-SP (oitavas de final0
2021: eliminado pela Ferroviária-SP (segunda fase0
2022: eliminado pelo Nova Venécia-ES (segunda fase)
A perda do jogador com mais identidade com o Brasiliense desde a aposentadoria do ídolo Iranildo foi um duro baque. O centroavante entregou 12 gols na campanha da Série D em 2020; e outros 7 em 2021. Os problemas pessoais do atacante e o rompimento do contrato com o time enfraqueceram o setor ofensivo e diminuíram o respeito ao ataque amarelo. Hernane Brocador balançou a rede seis vezes. Fez a parte dele. mas dois centroavantes seriam melhor do que apenas um. Zé Love daria outra dinâmica ao Brasiliense.
Insisto. A formação de jogador é a alma de um clube. É nela que o garoto aprende a amar a camisa que veste e entende o espírito do time que defende. Infelizmente, o Brasiliense abandonou o trabalho de formação. Resultado: falta amor à camisa. Jogadores vêm e vão sem o mínimo apego ao uniforme amarelo. Na contramão, rivais combalidos financeiramente como Ceilândia e Gama enfrentam as dificuldades de investir na base, dão as caras nas categorias inferiores e estão classificados para a Copa São Paulo Júnior de 2023. O Brasiliense disputou a competição, tinha base, mas largou mão.
O Brasiliense nasceu gigante para a realidade do futebol local. Em cinco anos, saltou da segunda divisão do Candangão à Série A do Campeonato Brasileiro. Foi vice-campeão da Copa do Brasil (2002), campeão da Série C (2002) e da B (2004), voltou às semifinais da Copa do Brasil em 2007, ganhou a Copa Verde em 2020, mas precisa resgatar o respeito. Em 2023, completará 10 temporadas consecutivas longe da Série C. Um desperdício tratando-se do clube com maior potencial financeiro na capital do país.
O Brasiliense acumula eliminações contra clubes do Espírito Santo. São três em quatro anos. O trauma começou na Copa Verde de 2018 diante do Atlético Itapemirim. No ano seguinte, deu adeus à Série D contra o Vitória. O carrasco da vez é o Nova Venécia. Quando a pedra no caminho não é um time capixaba, é um paulista. As quedas em 2020 e 2021 foram contra Mirassol e Ferroviária, respectivamente.
As eliminações do Brasiliense são construídas no primeiro jogo do mata-mata. A maioria com erros individuais e outros coletivos. Contra o Nova Venécia, por exemplo, houve falha nos quatro gols sofridos. No ano passado, o atual bicampeão candango perdeu em casa para a Ferroviária na ida e não deu conta de virar no controverso duelo de volta, em Araraquara (SP). Em 2020, amargou goleada por 4 x 0 contra o Mirassol no primeiro round disputado no interior paulista. Desta vez, foi surpreendido pelo revés por 3 x 1 em Nova Venécia e empatou por 1 x 1 em casa. O time precisa entender que mata-mata se resolve em 180 minutos, não em um jogo só. O planejamento para o duelo de ida é tão ou mais importante que o da volta.
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