Primeiro Copom após as eleições no centro das atenções 

Publicado em Política

Por Rosana Hessel (Interina)

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não dá sinais de que cumprirá a promessa de fazer um governo “diferente”, o mercado financeiro ficará atento ao sinais do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, na penúltima reunião do ano, entre 3 e 4 de novembro. Será o primeiro Copom após as eleições. As apostas de manutenção da taxa básica da economia (Selic), atualmente em 13,75% ao ano, aumentaram e é praticamente um consenso, diante da piora das expectativas para a economia. Se houver essa confirmação, será o fim do ciclo de corte gradual dos juros, iniciado em março. Um dos motivos é a piora do cenário, especialmente para a inflação com a disparada do dólar após o resultado do segundo turno. A moeda norte-americana encerrou a semana em R$ 5,44, alta acumulada 9,04% — a maior desde a crise financeira global, em outubro de 2008.

A piora das expectativas do mercado para juros futuros segue em escalada. No câmbio, o novo patamar do dólar, de R$ 5,40 para este ano, e de R$ 5,60 em 2027, conforme projeções atualizadas do Itaú Unibanco, por exemplo. Para a inflação, há projeções acima de 5%, neste ano, e no próximo. Para 2027, estimam até que pode chegar a 6%.

Escolha de Sofia

A decisão do próximo Copom não será fácil, como disse Luis Leal, economista-chefe da G5 Partner, à coluna. “Vai ser um Copom difícil. Por um lado, há a necessidade de reduzir os juros devido às condições econômicas e, principalmente, às creditícias. O endividamento, o comprometimento da renda com serviço da dívida e a inadimplência atingem os níveis mais altos da série histórica. Por outro lado, o mercado está muito sensível e reduziu de forma relevante a expectativa de corte de juros nessa reunião. Portanto, a escolha do BC estará entre afrouxar o torniquete de um paciente que dá sinais de problemas de circulação, e correr o risco de trazer mais volatilidade aos ativos — notadamente o dólar —, ou esperar a poeira abaixar, manter os juros e correr o risco de deixar o torniquete tempo demais”, diz. Ele espera que o BC mantenha os juros no patamar atual e aguarde para ver o que acontece até dezembro. “Uma ou duas reuniões de espera vão trazer mais benefícios do que malefícios ao mercados e à economia, do que forçar um queda nesse momento”, aconselhou.

Teste da autonomia do BC

A reunião do Copom também será um teste sobre a autonomia do BC, conquistada em 2021. É o que diz Eduardo Velho, economista-chefe da Bravonte Capital. Ele crê que o presidente do BC, Gabriel Galípolo, não poderá ignorar a piora nas expectativas do mercado. E precisará dar sinais de que a autoridade monetária é realmente independente da política. Na avaliação de Velho, um BC mais prudente demanda manutenção da Selic em 13,75% ao ano, “já precificada na curva futura de juros”. Além disso, lembrou que a taxa de desemprego reduzida em 5,2% e o aumento da população ocupada “reforçam o espaço para a cautela”.

Itaú piora projeções

Abrindo a onda de revisões, o Itaú Unibanco atualizou as projeções macroeconômicas e fez alertas não muito animadores diante do aumento das incertezas após as eleições. Além de reduzir de 1,7% para 1,6% a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano — e cortar de 1,2% para 0,5% a estimativa de alta em 2027 —, o banco reforçou a necessidade de um corte de 4% do PIB (R$ 520 bilhões), “centrado no controle das despesas”, para estabilizar a trajetória de crescimento da dívida pública. Ainda defendeu uma “âncora fiscal crível” para permitir a redução estrutural dos juros reais. Com a piora do cenário, prevê a Selic em 13,75%, na próxima reunião do Copom e ao longo de 2027. Antes, a previsão era de queda para 12,50% anuais até dezembro do ano que vem.

Sinais trocados do governo

A atual equipe econômica de Lula e os ministros palacianos continuam dando sinais trocados sobre o compromisso do governo com a responsabilidade fiscal. Enquanto integrantes da Fazenda e do Planejamento sinalizam que pretendem elaborar uma proposta de emenda à Constituição (PEC) de corte de despesas obrigatórias — ainda mal explicada —, os ministros da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, disse que ajuste fiscal “não é prioridade”. Já o da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, botou lenha na fogueira ao afirmar que quem defende o ajuste “não entendeu nada do que foi essa eleição”. “O tesouraço foi derrotado nas urnas pela mobilização popular”, escreveu. Segundo analistas, Boulos e Guimarães ajudaram a colocar o dólar acima de R$ 5,40, que vai pesar na inflação.

O otimista e o cético

Apesar do pessimismo do mercado, o economista e professor do Insper Sergio Firpo está na torcida para que o governo Lula faça um ajuste fiscal no quarto mandato. Ex-secretário de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas e Assuntos do Ministério do Planejamento e Orçamento, Firpo deixou o governo em maio de 2025. Já o economista e ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman afirma que o governo Lula 4 não deverá fazer ajuste. Segundo ele, corre o risco de caminhar pelo mesmo caminho do segundo mandato de Dilma Rousseff. “Acho que veremos o aprofundamento da atual desaceleração”, alertou.

Perdas de quase R$ 1 trilhão

Em meio a esse cenário incerto, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) desabou 18,12% na semana — o maior tombo desde março de 2020. As empresas listadas na B3 acumularam, desde a vitória de Lula nas urnas, perdas R$ 963 bilhões em valor de mercado, segundo levantamento da Elos Ayta. Esse montante equivale a 1,31 vezes o valor de mercado da Petrobras, atualmente estimado em R$ 734 bilhões.