Cosette Castro
Brasília – Vivemos em um país onde a televisão e as redes sociais digitais estimulam e reverenciam, todos os dias, a perfeição dos corpos, a beleza e a juventude.
Como se fossem elementos essenciais para uma vida feliz.
Dentro das famílias, as mulheres são ensinadas desde a infância a esconder a idade. Como se envelhecer fosse um defeito. Haja pintar os cabelos, arrancar os fios brancos. Comprar cremes que “apagam” o cansaço pela sobrecarga diária e “reduzem” a idade.
Para estimular a performance da perfeição, a indústria estética e farmacêutica oferecem diariamente novos produtos para homens e mulheres. Remédios “mágicos”, injeções, canetas, pílulas, soluções “milagrosas” para (tentar) manter os corpos perfeitos.
Esses três atributos – juventude, beleza e perfeição dos corpos – parecem ser passaportes para o êxito e o gozo, onde as soluções individuais resolveriam tudo.
Como se não vivêssemos dentro de um contexto familiar, social e econômico. Nem em um país cheio de violências.
Como se o êxito social fosse responsabilidade de cada pessoa. Algo individual que gera culpa quando esses ideais não são alcançados.
Essa é a armadilha da performance da perfeição. Ela estimula os “cases de sucesso”, dilui as desigualdades, ignora as fragilidades e as deficiências e aplaude o resultado individual.
Esse tipo de performance não contabiliza o tempo nem o cuidado coletivo. E no mercado deixa de lado o processo e a experiência acumulada. Vive em uma lógica de constante renovação. De busca pelo novo, deixando de lado a memória e a história.
Nessa perspectiva, basta se esforçar, trabalhar bastante, inclusive sem direitos sociais, para que o sucesso chegue automaticamente. Aliado, é claro, aos marcadores de perfeição, beleza e juventude.
Basta querer e se parecer com pessoas de sucesso, em sua maioria brancas.
Só que a realidade não congela os corpos. O tempo não pára. Nem corresponde ao desejo de eterna juventude.
Ainda assim, muitas pessoas seguem negando o próprio envelhecimento. Elas não querem ser desvalorizadas nem descartadas em uma sociedade que tenta apagar socialmente as pessoas 60+. Muito menos se aproximar da finitude.
Essa negação também ocorre no nível institucional.
Não é por acaso que existem mais academias privadas no Distrito Federal do que uma robusta rede pública que promova a saúde de todas as idades. Há cerca de 1.600 academias particulares, proporcionalmente o maior número do país. Já na saúde pública há apenas 181 Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 13 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) para atender 35 regiões administrativas.
Apesar de 535 mil pessoas idosas morarem no Distrito Federal, não há serviços públicos especializados como Centros dia e instituições de longa permanência para pessoas idosas, os antigos asilos. Muito menos residências temporárias para pessoas com 60 anos ou mais que sofrem violência familiar, negligência e abandono.
Em termos psicanalíticos, o apagamento social fala mais sobre quem comete o apagamento do que sobre quem é apagado (vítima). Diz mais sobre o que a pessoa que apaga não quer olhar em si mesma.
Mas em termos coletivos, 80% do meio milhão de pessoas idosas que vivem no DF e dependem exclusivamente do SUS são diariamente prejudicadas, negligenciadas e abandonadas pelo governo distrital. Ao ponto de, no dia 20/06, um homem ter morrido enquanto esperava atendimento na UPA de Recanto das Emas.
Até quando as pessoas terão vergonha e medo de envelhecer no Brasil?
Até quando o governo distrital vai deixar de lado as pessoas 60+ com suas diferentes velhices e necessidades?
Até quando vamos esperar para ser criada uma Secretaria da Pessoa Idosa com orçamento próprio?.
PROGRAMA TERCEIRAS INTENÇÕES
Nesta terça-feira, dia 22/06, das 19 às 20h, ao vivo, vai acontecer o Programa de Entrevistas mensal TERCEIRAS INTENÇÕES, com a jornalista Mônica Carvalho. A convidada do Junho Violeta é a Delegada Chefe da Decrin/DF, Ângela Santos.
Link para assistir e fazer comentários online: https://streamyard.com/br6ssve29n

