O Encantamento de Paulo Andrade

Publicado em Artes Plásticas

Cosette Castro &  amigos do Paulinho

Brasília – Ontem a cidade acordou com uma manhã cinza, de chuva e  frio.  Foi nesse clima que chegou a notícia que Paulo Andrade,  artista plástico, designer gráfico e ilustrador já não estava mais aqui. Encantou, segundo as tradições indígenas.

O texto de hoje resgata um pouco do Paulinho. Ele foi escrito a várias mãos, entrelaçando memórias, afeto e diferentes décadas.

Conheci a obra de Paulinho Andrade muito antes dele.  Em 2014, vi aquarelas com cenas do metrô de Nova Iorque  na casa do psicanalista Fausto Faria. Ele e Fausto se tornaram amigos na  efervescência cultural de Brasília nos anos 80. E foi o Paulinho que, em uma visita a sua casa ainda em Curitiba, o levou para conhecer outro Paulo, o Leminski e seus hai kais.

Fiquei impactada com a força das ilustrações, serigrafias, aquarelas, colagens com um tom político entre o sarcástico e o mordaz. Nos conhecemos em 2023, quando ele convidou para que escrevesse um texto para o livro-caixa “Narciso”, tema clássico da Psicanálise. E aí começou a amizade.

Através do Paulinho conheci o arquiteto, pintor e poeta José Leme Galvão Jr, o Soneca, amigo de décadas.  “Em 1977 Paulinho ficou amigo do Batata, que já era meu cunhado pelo namoro com a Graça. Todos os amigos dos Nobre Mendes eram de casa e o Paulinho é irmão natural.
A gente era muito lugarosa e pertencida, de vida muito encontrada nas casas, no Beirute, na uênebê, na Escola Parque, no Galpão.
Muito inventados também os momentos duradouros no Cabeças, Údi Grúdi, Liga-Tripa, os grupos de teatro… Paulinho sempre lá, até quando não tava, tava.
Quando o Batatinha se foi a irmandade se uniu mais. Como agora que se foram Néio e Paulinho. Se não, a gente se perde na estranheza das perdas.
Seguiram casamentos de amigos, encontros, aniversários nossos e de tantos se achegando, reforçando a teia.
Depois, mudanças de cidade, o câncer da Andrea, a viuvez e o retorno a Brasília. Ficamos mais perto. Almoços memoráveis em casa entre fofocas e gargalhadas.
A pandemia, as vacinações, o eixão de máscaras, a operação urgente e recuperação lenta, o câncer da Graça…  As produções artísticas atentas, sofridas, revelando nossa humanidade.
O calvário do Paulinho recrudescia. A cirurgia da hérnia, a recuperação que cobrou um preço alto. Na madrugada de domingo, terminou o calvário.”

A jornalista mineira Márcia Brandão conheceu o artista nos anos 80 em Brasília. E teve oportunidade de hospedá-lo em sua casa há 03 anos. “Conheci o Paulinho nas priscas eras dos bares frequentados por jornalistas em Brasília. Efervescência. Fui uma das compradoras da série dele sobre indígenas.  Eu tinha o jovem Raoni. A última vez que vi Paulinho foi em minha casa mineira, onde ele dormiu por uma noite antes de seguir viagem para a cidade onde nasceu, em Teófilo Otoni. Como sempre, uma noite de ótimas conversas. Ele me presenteou com o quadro Flores de Ipê Rosa, da série sobre Plantas do Cerrado. O quadro está na sala, marcando a presença dele.”

Como amigas sugerem amigas, a  Márcia lembrou da Ana Costa, médica e amiga. “Conheci Paulinho nos anos 70 na efervescência cultural brasiliense do Galpão, Galpãozinho, Cabeças, Grande Circular e do bar Beirute da Asa Sul que juntava todo mundo. Depois, Bom Demais. Paulinho circulava por todas as partes e era o menino risonho total. Ria boca, ria olhos azuis e, por cima, dono da gargalhada mais escandalosa do Cerrado, mantida e conservada até mesmo nos últimos dias de seu sofrimento imenso pela doença. Nosso convívio é um filme de lembranças: Brasília, João Pessoa, Nova Iorque e, de novo, Brasília…Nos últimos muitos anos convivemos mais em divertidos jogos de cartas, tardes de prosa, vinho e longos cafés da manhã em virtude da vizinhança amiga e solidária que compartilhamos.”

Nos anos 90 Paulinho era pai e cultivou amigos na escola dos filhos. Ele e a esposa Andrea fizeram parte da Escola Vivendo e Aprendendo, modelo de educação transformadora no Distrito Federal. Entre as amigas desse período está Luciana Leite que foi se despedir no hospital. “Nossas filhas eram da mesma turma e nos aproximamos. Nossas famílias ficaram amigas. Sempre admirei o Paulinho e a Andrea. Ele estava sempre presente. Voltamos a nos aproximar anos depois. Sempre admirei sua arte e sua visão política”.

Quem fecha o texto de hoje é a jornalista e escritora Madalena Rodrigues. “Paulinho. Eu o chamo do mesmo modo carinhoso como me tratava e a todos. Transpirava arte, desenho, pintura, apertava os olhos quando ria, e a conversa fluía prazerosa, quando nos encontrávamos na feira da Ponta Norte. A doença o maltratava e foi-se intensificando, perversa. Até que, em um sábado recente, seu abatimento flagrante, no agito da feira lhe perguntei se queria se sentar. Ele suspirou e respondeu de um jeito dúbio, que só depois me perguntei se foi apenas um desabafo ou se seria uma despedida. Balançou a cabeça, cansado, e disse: ‘Quero ir embora’.”

Ele foi. Mas segue entre nós.

PS: Nesta terça-feira, 26, tem Programa Terceiras Intenções com a jornalista Mônica Carvalho. O tema de maio é “Quem Cuida de Quem Cuida?”. Ao vivo, às 19h, no canal do YouTube do Coletivo Filhas da Mãe.

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