Cosette Castro
Brasília – O show de Shakira na noite de sábado, 02/05, foi mais do que um sucesso de público.
Foi uma grande onda que tomou conta da orla de Copacabana no Rio de Janeiro reunindo mais de 2 milhões de pessoas.
Essa onda também entrou nas casas brasileiras pela televisão, pelos celulares e computadores de todos os tipos e tamanhos. E se expandiu pelo mundo, reverberando até agora.
Para além da performance da cantora colombiana, o show foi uma denúncia em alto e bom tom sobre o trabalho invisível de cuidado familiar e de cuidado doméstico realizado pelas mulheres brasileiras todos os dias.
Shakira se referiu especificamente às 20 milhões de mães solo que sobrevivem diariamente realizando duplas e triplas jornadas de trabalho. Mas sua voz foi muito mais ampla.
Ela falou sobre a realidade de todas as mulheres brasileiras que cuidam familiares gratuitamente. Entre elas crianças, adolescentes, namorados e maridos, país e outros familiares sem remuneração. Shakira também falou sobre a invisibilidade do trabalho de cuidado doméstico, repetitivo, realizado pelas mulheres dia após dia ao longo da vida.
No Brasil há 20 milhões de mães solo que estão sobrecarregadas física e mentalmente. E há 20 milhões, de pais abandonadores, muitos deles sem cumprir os deveres básicos de manutenção financeira, participação e cuidado afetivo de seus filhos e filhas. Uma parte deles considera o filho/a como um ‘gasto’ .
A voz de Shakira tem dimensão mundial e segue repercutindo entre diferentes gerações. Particularmente as mais jovens.
Já o Portal da Transparência do Registro Civil chama os pais abandonadores de ‘pais ausentes’.
Esse é um conceito encontrado nos estudos da Sociologia da Família e também na Psicologia. Mas ainda é pouco. Os pais ausentes podem ser aqueles que, mesmo estando dentro de casa, não se fazem presentes nem tampouco acolhem os filhos e filhas.
Pais abandonadores deixam marcas físicas e emocionais do abandono ao longo da vida dos filhos e filhas. E são uma péssima referência sobre o que é ser pai e sobre paternidade. Além de deixar as mães constantemente sobrecarregadas, sob o risco do adoecimento físico e mental.
O abandono masculino não é uma exceção. Ele não acontece apenas em relação aos filhos e filhas. Se estende por quem necessita cuidados na família, sejam os pais ou a própria esposa/ companheira.
Dados da Sociedade Brasileira de Mastologia (2023), por exemplo, apontam que 70% das mulheres com câncer no Brasil são abandonadas pelos maridos/companheiros. Logo eles que passam a vida sendo cuidados. Essa situação se repete entre mulheres diagnosticadas com outras doenças, entre elas o Alzheimer.
Enquanto as mulheres foram educadas para serem cuidadoras invisíveis e gratuitas, os homens foram educados para serem cuidados, sem retribuição. Por isso, muitos deles acham ‘natural’ que não ocorra uma divisão igualitária nos cuidados. Que mulheres ganhem menores salários para as mesmas funções no mercado e ainda cheguem em casa e sigam cuidando e trabalhando.
Está mais do que na hora de que a corresponsabilidade do trabalho de cuidado não remunerado prevista na Política Nacional de Cuidados (2024) passe a ocorrer na prática com campanhas públicas nacionais permanentes e com cursos de formação sobre cuidado para os homens, etc. Para que o trabalho de cuidado de pessoas e doméstico seja repartido igualmente entre homens e mulheres dentro das famílias.
Não é favor. É lei.
É cuidado familiar e coletivo.

