Até Quando Vamos Ter Vergonha de Envelhecer?

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Cosette Castro

Brasília – Em tempos de envelhecimento populacional, a maior parte do país ainda segue acreditando que pode congelar o tempo e se manter “jovem”. Mesmo que o Brasil esteja entre os três países que envelhecem mais rapidamente no mundo.

Muitas pessoas seguem negando a passagem do tempo e as marcas do próprio corpo. Essa negação pode ser vista em rostos esticados, através de diferentes procedimentos estéticos que comprometem o orçamento, principalmente das mulheres, as mais cobradas pela idade. Entretanto, esses procedimentos não duram muito, assim como as possibilidades de dissimulação sobre a idade.

Não é por acaso que crescem no país as academias que podem ser encontradas em quase todos os bairros das pequenas, medias e grandes cidades do Brasil. Mais do que manter um corpo saudável e ativo, o que se observa são pessoas que dedicam horas do seu tempo livre para (tentar) moldar corpos “perfeitos”. Muitas delas são estimuladas por “influencers” nos canais do You Tube, do Tik Tok, Instagram, X, assim como em diferentes sites.

Em uma Sociedade da Violência como a brasileira, com enormes desigualdades sociais, é preciso dar visibilidade a essa violência simbólica que estimula o “congelamento” do tempo para mulheres de todas as idades.

Na Sociedade da Violência envelhecer ainda é sinônimo de vergonha e tentativas constantes de apagamento social. Ao ponto de as mulheres ainda serem criadas e incentivadas a “esconder a idade”, como se isso fosse possível após os 60 anos ou mais. Algumas delas ainda acreditam que é um elogio quando alguém diz: “você nem parece a idade que tem”. Não é. Trata-se de idadismo, preconceito de idade naturalizado, travestido de elogio.

Em vez das famílias estimularem as relações intergeracionais, com respeito, cuidado e convivência entre diferentes gerações, o que se observa é grupos de jovens, em especial mulheres, tentando também congelar o tempo cada vez mais cedo. Repetindo a tentativa de mães e avós, mesmo que elas estejam fadadas ao fracasso e a frustração.

São jovens, cada vez mais jovens, inclusive ainda com corpos em formação, na busca do nariz, dos olhos ou da boca “perfeita”. Sem contar as outras partes do corpo. Em geral, às custas de pais que aceitam e estimulam a “perfeição”, principalmente das filhas.

Ao invés da aceitação dos diferentes corpos, há incentivo a padronização de cabelos (lisos, longos), sobrancelhas, tipos de nariz (europeu/branco), peso, tamanhos de seio, arcada dentária, etc.  O que sobra da pessoa original?

A própria noção de autocuidado é virada ao avesso. Se torna uma não aceitação constante, gerando angústia, comparações e expectativas que nem sempre podem ser cumpridas.

A boa notícia é que nem tudo está perdido. Uma parte cada vez maior de pessoas, leia-se mulheres, está se olhando no espelho e gostam do que estão vendo. Apesar da sobrecarga física e mental diária de cuidado doméstico e de cuidado de pessoas não remunerado.

Uma parte importante delas são mulheres que atuam em rede, nas comunidades, estimulam o autocuidado e o cuidado coletivo. Elas encontram no afeto, na solidariedade e na busca por equidade de gênero formas de estar, se conectar e (tentar) melhorar o mundo. Como o Coletivo Filhas da Mãe.

Entre as atividades do Coletivo está a participação em Conferências livres, em Conferências distritais e nacionais para refletir e propor políticas públicas para o envelhecimento saudável, ativo e cidadão para todas as pessoas idosas, em especial para as mulheres.

Em breve estaremos participando da Conferência Livre das Mulheres Idosas contribuindo para garantir políticas públicas para mulheres com 60 anos ou mais. Além de estarem envelhecendo, estão empobrecendo, estão endividadas e com sobrecarga de cuidado física e emocional.

Coletivo Filhas da Mãe, todos os dias desconstruindo preconceitos. Todo o ano convidando as pessoas a descobrirem a beleza em todos os corpos e idades.

Cosette Castro

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