Memórias e Desmemórias

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Cosette Castro

Brasília – Neste domingo, 25, os moradores da Capital Federal tiveram oportunidade de assistir gratuitamente o filme “Desmemórias”.

Dirigido por Armando Fonseca, o filme foi disponibilizado no Cine Brasília, o único cinema de rua da Capital Federal. O espaço icônico está situado no coração da Asa Sul, o primeiro bairro do Plano Piloto.

A obra trata sobre a fragmentação da memória da personagem principal, Narcísia (Rita de Almeida Castro). E, ao mesmo tempo, resgata a memória da Capital Federal. Um presente para quem viveu no cidade desde os seus primórdios. E para quem chegou depois.

No âmbito individual o filme mostra a memória afetiva da personagem no Plano Piloto. E também no lago Paranoá que, nos anos 60, 70, ainda não era ocupado nem desfrutado pela população como ocorre hoje.

No âmbito coletivo apresenta para audiências de diferentes idades uma Brasília que existe e resiste na memória das pessoas com 60 anos ou mais. E nos documentos históricos.

Não por acaso o filme começou a ser exibido nas escolas de Brasília. Trata-se de uma história ficcional sobre Alzheimer, sobre perdas e esquecimentos e a relação de familiares com a doença. Mas também resgata a história coletiva da Capital Federal.

Com isso, recupera a centralidade de ruas como a W3 Sul nos anos 60 e 70, hoje tão desvalorizada e esquecida. Ou a importância do primeiro clube, o Vizinhança, situado na Quadra 109 Sul.

Mais que uma homenagem familiar, a obra de ficção é uma homenagem à cidade. E um alerta para que a memória coletiva não se perca.

Para as novas gerações o filme apresenta “novidades analógicas”. Entre elas discos de vinil e músicos da época, projetor de slides com fotos de família em preto e branco e filmes históricos sobre a Capital Federal. A obra traz de volta resquícios de uma época que, em tempos de internet e fotos digitais, quase não existe mais. E faz isso de forma afetuosa.

O nome da personagem, Narcísia, remete a Narciso, mito grego que se apaixona por sua própria imagem no lago. Narciso não conseguia ver ninguém a sua volta, pois olhava apenas para si e vivia dentro de si mesmo, com reduzido amor pelos outros. Mas diferente do Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), conceituado por Sigmund Freud (1914), as demências são caracterizadas pela crescente perda cognitiva, de linguagem, motora e emocional.

Em alguns momentos, o filme lembra o roteiro de “Meu Pai” (2020), dirigida por Florian Zeller. A obra teve como protagonista Anthony Hopkins e recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. O texto que foi escrito para o teatro, mostra a perda cognitiva e a confusão de tempo, espaço e pessoas do personagem principal.

Há muito carinho na história contada pelo grupo Teatro do Instante. Seja por resgatar Brasília, seja por compartilhar memórias afetivas da equipe, de seus familiares e conhecidos. E, principalmente, pela tentativa de tornar compreensível a perda progressiva da memória e a confusão mental.

Pacientes com Alzheimer, a mais conhecida das demências, perdem a memória recente. Essas pessoas passam a viver em um mundo do passado onde mortos e vivos “convivem” em uma mesma dimensão.

Mas o filme vai além. Mostra a solidão que permeia a personagem principal, perdida em um mundo particular. E mostra a solidão dos familiares, também perdidos. Em geral, com poucas informações sobre as fases de demências como o Alzheimer.

Sem informações e campanhas públicas é difícil para quem cuida um familiar compreender os sintomas e a progressão da doença, ainda sem cura. Na vida real, muitas vezes, os familiares confundem um sintoma com um ataque pessoal contra eles.

Estranhamente no filme a personagem é cuidada por dois homens, algo raro de acontecer no Brasil. Vivemos em um país onde mais de 90% das pessoas que cuidam sem remuneração são mulheres.

Mas talvez a obra de ficção tenha se adiantado à realidade atual.

Quem sabe o roteiro assinado por Armando Fonseca e Rita de Almeida Castro esteja mostrando o futuro, quando os homens de todo o país assumirão a co-responsabilidade do cuidado familiar? E assim estarão cumprindo a Política Nacional dos Cuidados (Lei 15069/2024) e reduzindo a sobrecarga física e mental das mulheres.

Cosette Castro

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