O caos da despedida

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Consequentemente, o ambiente é de confronto, com as esquerdas forçando a barra para que esses protestos saiam de controle e acabem fazendo um mártir entre esses estudantes. Desse modo, trata-se da velha aposta no tudo ou nada.

Para Lula, que de modo ambicioso nunca deixou surgir entre suas hostes um herdeiro político, essa seria uma maneira de perder a eleição de um jeito menos patético. No entanto, o fato é que Lula, como outros déspotas que não fizeram herdeiros políticos, envelheceu da pior maneira possível. Assim, acumulou adversários, repetiu erros, mentiu e prometeu um futuro de abundância que parece ter chegado apenas para as pessoas do seu entorno imediato. Por isso, de pai dos pobres, Lula transformou-se no pai da pobreza e das crises. Sua saída de cena não poderia ser feita de outra forma que não em meio ao caos que construiu ao longo de duas décadas.

A despedida de Lula e o cenário pós-primeiro turno reacendem o tom do “nós contra eles”, raiz de toda a polarização política que o país vive desde a chegada do PT ao poder. Numa atitude de quase desespero, o presidente convoca a militância a vir para as ruas para impedir o que chama de retrocesso. O chamamento atendeu logo e de imediato os estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vieram protestar contra as eleições que obrigaram o mandatário a disputar o segundo turno em desvantagem.

A Semeadura da Divisão na Política Nacional

Não há nada de acidental nesse desfecho. A política, como a agricultura, devolve a quem a pratica aquilo que foi semeado. Por conseguinte, Lula semeou, durante anos, a divisão como método de governo. Ao dividir o país entre “nós” e “eles”, entre o povo e as elites, entre os bons e os maus, ele transformou o adversário em inimigo e o debate em trincheira. Ele fez isso quando era conveniente e fez isso quando não era necessário. Agora que a trincheira se volta contra ele, surpreende-se com a hostilidade de metade do eleitorado, como se ela tivesse brotado do nada.

Primeira Colheita: A Crise de Confiança e Escândalos

A primeira colheita é a da desconfiança. O PT chegou ao poder em 2003 prometendo ética na política e entregou, poucos anos depois, o escândalo do Mensalão, seguido do Petrolão, que revelou um esquema de desvio de recursos públicos em escala poucas vezes vista no país. Além disso, entre os escândalos que marcaram a trajetória recente do governo, acrescenta-se o Caso Master, ampliando as controvérsias de gestão.

Posteriormente, Lula acabou condenado, preso e libertado. Teve as condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021 por questões de competência do foro, e não por um julgamento de mérito que o declarasse inocente. Preferiu, porém, tratar a anulação como absolvição moral e o passado como página virada. Entretanto, milhões de brasileiros não a viraram. Quando o escândalo dos descontos indevidos em benefícios do INSS veio à tona, atingindo justamente aposentados e pensionistas, a memória coletiva fez o resto. Assim, a promessa de proteger os mais pobres convivia, mais uma vez, com a sombra da apropriação do dinheiro público.

A gangorra de Lula e Bolsonaro

Segunda Colheita: O Retorno da Realidade Econômica

A segunda colheita é a da economia. Lula voltou ao Planalto vendendo a lembrança dos anos de bonança das commodities, como se a prosperidade do passado fosse um atributo pessoal, e não o produto de um ciclo externo irrepetível. Por outro lado, tratou o equilíbrio das contas públicas como obsessão de rentistas e viu o desconforto do mercado como mera conspiração.

O resultado foi um governo que gastou mais, convenceu menos e conviveu com juros em patamares elevadíssimos, dólar pressionado e alimentos caros na mesa do trabalhador. Desta forma, o brasileiro que ouviu falar de picanha barata e churrasco farto encontrou, no supermercado, uma realidade bem menos generosa. Afinal, prometer abundância e entregar escassez é a forma mais rápida de transformar um líder em personagem de sua própria ironia.

Terceira Colheita: A Solidão Política e a Sucessão

A terceira colheita é a da solidão política. Lula nunca tolerou sombras. Dilma Rousseff, escolhida sem ter feito carreira eleitoral, foi a síntese desse método: um nome de confiança, jamais um rival. Fernando Haddad, em 2018, foi o substituto improvisado de um líder que não aceitava deixar o palco. Nos anos seguintes, quem ousou crescer dentro do partido acabou contido, absorvido ou esquecido.

Como resultado, no momento em que o eleitor pediu renovação, o PT só soube oferecer a mesma figura, aos quase oitenta anos, de volta para mais uma batalha. Consequentemente, quem não prepara a sucessão não pode reclamar quando a sucessão se transforma em disputa selvagem, ou quando o seu fim de carreira se parece mais com um acerto de contas do que com uma despedida.

Quarta Colheita: Credibilidade Externa e Alianças Internacional

A quarta colheita é a da credibilidade externa e dos aliados escolhidos. A diplomacia que se dizia soberana e pragmática mostrou-se, em muitos momentos, fiel a afinidades ideológicas. Observa-se o afago a regimes autoritários na América Latina, a relutância em criticar eleições contestadas e a leniência com ditaduras desde que se declarassem de esquerda.

Portanto, um país que se apresenta ao mundo como defensor da democracia perde autoridade quando seu presidente escolhe a quem cobrar e a quem perdoar. O mesmo vale dentro de casa. Nesse sentido, quem passou anos chamando de golpe qualquer derrota e de fascismo qualquer divergência não tem crédito para pedir serenidade agora.

Quinta Colheita: O Entorno do Poder e o Aparelhamento

A quinta colheita é a do entorno. Em cada governo petista, a promessa de que o Estado serviria aos mais pobres encontrou o obstáculo de uma máquina pública ocupada por aliados, sindicatos e partidos satélites. Estes passaram a tratar cargos e orçamentos como patrimônio. Por causa disso, a distância entre o discurso e a prática ficou evidente.

O líder que dizia governar para quem mais precisa governava, na prática, com quem mais o cercava. O benefício chegou, sim, a muita gente. Contudo, o sentimento que se consolidou na parcela do eleitorado que o abandonou foi o de que a abundância prometida tinha endereço certo, e que esse endereço não era o da periferia que o consagrou.

Sexta Colheita: Relação com as Instituições e a Verdade

A sexta colheita é a da relação com as instituições e com a verdade. Lula atacou a imprensa quando a imprensa o incomodou. Além disso, desqualificou o Judiciário quando o Judiciário o condenou e passou a elogiá-lo quando o Judiciário o beneficiou. Tratou a Constituição como escudo nos dias bons e como obstáculo nos dias ruins.

Do mesmo modo, prometeu, em campanha, o que sabia ser difícil cumprir, desmentiu-se em discursos sucessivos e passou a acusar de mentira quem apontava as contradições. Num país em que a confiança nas instituições já estava corroída, a atitude do presidente não ajudou a reconstruí-la. Em vez disso, aprofundou a erosão que ele mesmo dizia combater.

O Apelo às Ruas no Segundo Turno

É nesse ponto que o apelo às ruas, feito depois do primeiro turno, ganha seu verdadeiro sentido. Não se trata de defender a democracia, a qual está funcionando e acaba de impor ao presidente a obrigação de disputar um segundo turno. Trata-se de reagir ao desagrado das urnas com a velha pedagogia da mobilização, na qual a rua serve de pressão sobre quem votou, sobre as instituições e sobre a narrativa do dia seguinte.

Quando um governante responde a um resultado eleitoral convocando militantes para o confronto, ele diz, na prática, que só reconhece a vontade popular quando ela lhe é favorável. Assim sendo, é a mesma lógica do “nós contra eles”, agora em sua versão final.

O Custo Social da Polarização Política

O custo dessa semeadura não foi pago apenas pelo presidente. Foi pago por famílias que deixaram de conversar à mesa, por amigos que se afastaram, por um debate público reduzido a gritos e por uma política em que quase ninguém ouve ninguém. A polarização que Lula alimentou, e que seus adversários também souberam explorar, tornou o país mais áspero e mais difícil de governar, inclusive para ele.

Certamente, um presidente que depende de maioria para aprovar o que promete precisa de pontes. Por outro lado, quem passou anos dinamitando pontes descobre, tarde demais, que governar exige o que o palanque dispensa.

A Defesa dos Apoiadores no Debate Eleitoral

Há, é claro, a defesa que seus apoiadores farão, e ela não deve ser ignorada. Dirão que o governo reduziu a fome, ampliou programas de transferência de renda, reconstruiu políticas públicas desmontadas nos anos anteriores e que o país cresceu e gerou empregos sob sua gestão.

Além disso, dirão que a anulação das condenações foi uma correção de abusos de uma operação que desrespeitou o devido processo legal, e que a polarização é obra de um campo político inteiro, e não apenas de um homem. Dirão ainda que mobilização popular é direito democrático, e não ameaça. São argumentos legítimos e fazem parte do debate. Mas cabe ao eleitor, no segundo turno, pesar essa defesa contra o balanço que este editorial procurou fazer.

O Balanço Final e o Legado da Divisão

O fato permanece: os governantes não escapam de si mesmos. Lula teve, em três mandatos, a oportunidade rara de ser lembrado como o líder que reconciliou o país e preparou o futuro.

Contudo, preferiu o conforto da divisão, a vaidade da indispensabilidade e a ilusão de que bastaria o carisma para sustentar o que as entregas já não sustentavam. A despedida que se desenha, em meio a protestos, desconfiança e ressentimento, é a conta de um longo processo. O país, cansado, seguirá em frente. Resta saber se o ex-metalúrgico que prometeu unir os brasileiros terá a grandeza de reconhecer, ao final, que a cizânia que agora o cerca tem, em boa medida, a sua assinatura.

A frase que foi pronunciada:

“O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.” Maquiavel

História de Brasília -A Quadra 48 ainda é a grande sem sorte da W-3. Começaram o serviço de urbanização. Deixaram pelo meio, com esgotos e telefones cortados. Consertaram, e diante à poeira. Agora, está sendo preferida pelos ladrões de automóveis. (Publicada em 25.05.1962)

A Areia Movediça da República: A Polarização Política no Brasil e o Esgotamento Institucional

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A imagem ilustra a metáfora da "Areia Movediça da República", mostrando as instituições e a sociedade civil afundando em meio ao caos gerado pela polarização política e pela desinformação.

Se você ainda não rompeu com amigos ou familiares por motivos eleitorais, aproveite este momento. Portanto, o tempo para a sanidade prevalecer parece escasso. Antigamente, tal afirmação soaria como um exagero retórico. Hoje, no entanto, ela retrata um cenário surreal de antagonismo na sociedade contemporânea. A polarização política no Brasil tensiona o tecido social ao limite. Dessa forma, uma lógica binária elimina qualquer chance de diálogo ou consenso. Segundo pesquisas recentes do Datafolha, cerca de 82% dos brasileiros relatam desgaste nas relações pessoais devido a divergências ideológicas.

VISTO, LIDO E OUVIDO
Coluna criada em 1960 por Ari Cunha
(In memoriam) no Correio Braziliense

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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A Origem da Polarização Política no Brasil: Dividir para Dominar

Quem observa a história reconhece a raiz desse fenômeno social. Trata-se da antiga estratégia de poder: dividir para dominar. Infelizmente, essa tática funciona com precisão matemática para impedir a pacificação nacional.

Ao longo da última década, os atores políticos cultivaram a discórdia no país. Assim, transformaram o mote “nós contra eles” em uma verdadeira ferramenta ideológica de controle.

Consequentemente, espalhou-se a ideia de que o adversário político é um inimigo. Não o tratam mais como um concidadão com ideias divergentes sobre o Estado. A meta virou extirpar o opositor da praça pública.

Desde então, a situação desandou completamente no cenário nacional. A retórica inflamada de palanque ganhou corpo de gigante. Por conseguinte, algoritmos e câmaras de eco alimentam esse monstro diariamente. Hoje, a polarização política no Brasil ameaça desabar sobre as instituições a cada novo ciclo eleitoral.

Redes Sociais, Fake News e a Guerra de Narrativas

Atualmente, habitamos um mundo dominado pela ameaça das notícias falsas (fake news). Além disso, enfrentamos uma constante guerra de narrativas no espaço público.

As bolhas ideológicas relativizam o conceito de verdade. Por isso, os fatos objetivos perdem relevância diante de crenças pré-estabelecidas. Dados do Digital News Report do Reuters Institute revelam que 63% dos brasileiros declaram preocupação constante com a desinformação online.

Portanto, a desinformação não representa um mero acidente de percurso. Ela funciona como um modelo de negócios rentável e uma arma de engenharia social.

Neste ecossistema incerto, até os termômetros da nossa democracia falham. Os institutos de pesquisa de opinião encontram sérias dificuldades metodológicas. Por exemplo, eles não capturam com precisão o eleitor escondido. De forma idêntica, sofrem bombardeios sistemáticos contra sua credibilidade.

Assim, a sociedade sente uma vertigem constante. Caminhamos diariamente sobre areia movediça. Em suma, nenhum dado parece sólido para sustentar um debate racional na política brasileira.

A Crise Institucional e a Fadiga Anticorrupção

Nos salões do poder, os líderes travam batalhas retóricas de curto prazo. Contudo, eles esquecem que a base da pirâmide social atingiu seu limite.

A sociedade civil sente exaustão após sucessivas décadas de escândalos de corrupção. A impunidade sempre marcou a formação estatal brasileira. No entanto, o combate à corrupção trouxe reveses históricos em um passado recente. Com efeito, o cidadão alimentou a esperança de ver a lei aplicada a todos.

Todavia, as reviravoltas dramáticas levaram a população ao desespero. Diante da desilusão com o Executivo e o Legislativo, o cidadão busca o Poder Judiciário. A população esperava encontrar no Judiciário um bastião de moralidade e ordem.

Infelizmente, a crise de credibilidade também tragou a última fronteira de segurança institucional. Esse cenário aprofunda ainda mais a polarização política no Brasil.

Os Três Pilares da Vertigem Social

  • Efeito da Desinformação: O Brasil lidera índices globais de uso de redes sociais. Desse modo, o país virou terreno fértil para campanhas de desconstrução de reputações e criação de realidades paralelas.
  • Fadiga Anticorrupção: O país assistiu a um retrocesso sistemático após prisões de figuras poderosas. Como resultado, gerou-se um profundo cinismo na população quanto à eficácia da lei.
  • Insegurança Jurídica: Mudanças repentinas de jurisprudência nos tribunais superiores criam um ambiente imprevisível. Consequentemente, afastam o capital social e a confiança mútua na sociedade.

O Desmonte Institucional e a Erosão da Confiança

Juristas independentes e editoriais jornalísticos alertaram sobre essa crise. Afinal, o que começa mal não pode terminar bem.

Atualmente, assistimos a um desmonte institucional promovido pelos próprios guardiões da estabilidade. Ocorreram descondenações surpreendentes e anulações de processos por questionamentos territoriais tardios. Da mesma forma, chicanas jurídicas afrontaram o senso comum de justiça. Por conseguinte, a espinha dorsal da confiança nas instituições sofreu uma fratura exposta.

Os cidadãos comuns pagam impostos altos e cumprem a lei rigorosamente. Todavia, eles não contam com bancas milionárias de advogados. Por isso, essas manobras jurídicas transmitem uma mensagem letal à sociedade. Fica a impressão de que os donos do poder moldam as regras do jogo conforme sua conveniência.

Quando o povo desacredita da imparcialidade do árbitro, o jogo democrático perde o sentido. Em consequência, abre-se espaço para a barbárie, para o radicalismo e para o desgaste do sistema republicano.

Portanto, a sensação de irrealidade não surge do nada. Ela reflete decisões judiciais e discursos desconectados da realidade nacional. Colhemos agora a tempestade de ventos semeados por décadas de permissividade, agravados pela pós-verdade digital.

A frase que foi pronunciada:

“Ao invés de uma festa cívica, estamos passando por momento de imenso perigo para a normalidade democrática, com risco às instituições da República”

Carta em Defesa da Democracia e pelo sistema eleitoral, divulgada pela Faculdade de Direito da USP, em 11 de agosto de 2022

História de Brasília

A mais bela superquadra de Brasília, ninguém pode negar, é a do IAPB. E principalmente por causa dos jardins. Pois bem. Um dos homens que fez aqueles jardins, depois de nos deliciar com seu trabalho, acaba de ser demitido.

(Publicada em 26.05.1962)