O que as escolas deixaram de ensinar na crise da educação nacional

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Em setembro, a OCDE divulgou os resultados do Pisa 2025. O Brasil marcou 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, ficando abaixo da média da organização nas três áreas. Ficamos em 71º lugar em matemática, 67º em ciências e 52º em leitura entre os países com resultados comparáveis. Em ciências, apenas cerca de 48% dos nossos estudantes de 15 anos alcançam o nível básico de proficiência. Na média da OCDE, por sua vez, esse número atinge 74%. Além disso, em leitura, apenas 1% dos alunos chega aos níveis mais altos, contra 6% da média dos países ricos. Desse modo, surge inevitavelmente o debate sobre o que as escolas deixaram de ensinar ao longo dos últimos anos.

VISTO, LIDO E OUVIDO
Coluna criada em 1960 por Ari Cunha
(In memoriam) no Correio Braziliense

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Questionamento de fundo sobre os objetivos da educação brasileira

Esses dados já são amplamente conhecidos. A cada nova edição, produzem o mesmo ritual de lamento, promessas e planos governamentais. Contudo, raramente se faz a pergunta de fundo sobre a real aplicação das horas letivas. Se o resultado final permanece tão baixo, talvez o problema não esteja apenas nos recursos investidos, mas nas metas do sistema.

Analisando o impacto econômico, observa-se que esse atraso possui um custo concreto para o país. Em 2022, a OCDE estimou que estudantes de Singapura estavam até cinco anos de escolaridade à frente da média. Consequentemente, jovens que saem da escola sem dominar leitura e matemática chegam ao mercado com sérias limitações intelectuais. Onde o ensino falha, sobra inevitavelmente a dependência individual.

Tese de Bernardin sobre Maquiavel Pedagogo e a engenharia social

Essa reflexão dialoga diretamente com a obra Maquiavel Pedagogo, do engenheiro francês Pascal Bernardin. Publicado em 1995 e traduzido no Brasil em 2013, o livro sustenta uma mudança discreta nos objetivos educacionais. Segundo o autor, organismos internacionais deslocaram o foco da transmissão do conhecimento para a alteração de comportamentos. Assim, a criança deixa de ser alguém a instruir para se tornar matéria a moldar.

Analisando o método, Bernardin destaca o uso de um vocabulário técnico e atraente. Termos como “competências”, “habilidades”, “inovação” e “protagonismo” dificultam a crítica pública. Afinal, quem questiona tais conceitos é rapidamente rotulado como conservador ou ultrapassado.

Conexões teóricas entre Gramsci e a Escola de Frankfurt

Essa transformação educacional dialoga com duas correntes teóricas marcantes. Primeiramente, refere-se ao pensamento de Antonio Gramsci sobre a conquista da hegemonia cultural antes da tomada do poder. Em segundo lugar, conecta-se à Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, que usou a cultura para desconstruir valores sociais.

Nessa perspectiva, o ensino rigoroso de conteúdos perde o protagonismo. Ler com fluência, calcular com precisão e argumentar logicamente passam a ocupar um papel secundário. Prioriza-se, dessa forma, a tarefa de “conscientizar” ideologicamente os estudantes.

Diagnóstico das falhas estruturais e da pedagogia engajada no Brasil

Diversos críticos apontam que o Brasil seguiu rigorosamente essa trajetória ideológica. Citam a obra de Paulo Freire como referência quase exclusiva nas faculdades de pedagogia. Além disso, observam que os cursos de licenciatura priorizam teorias educacionais em detrimento do domínio da matéria a ser lecionada.

Outro ponto levantado envolve o viés militante presente em materiais didáticos e currículos. Há uma clara desconfiança da autoridade do professor, do esforço individual, da repetição e das avaliações externas. Portanto, a estagnação nas avaliações do Pisa passa a ser vista não como um acidente, mas como consequência direta de prioridades equivocadas.

Aumento da desigualdade social provocado pela falta de conteúdo

Importante ressaltar que essa abordagem pedagógica gera profundas injustiças sociais. Famílias de renda mais alta compensam as falhas do ensino público com aulas particulares, colégios seletivos e livros. Em contrapartida, os alunos mais pobres dependem exclusivamente da escola pública.

Dados recentes do Pisa mostram que a distância em matemática entre as notas mais altas e as mais baixas aumentou entre 2022 e 2025. Desse modo, o abandono do conteúdo acadêmico aprofunda a desigualdade em nome de combatê-la. Quem tem alternativas aprende apesar da escola; os desfavorecidos aprendem apenas o que a sala de aula oferece.

Requisitos fundamentais para a reconstrução do ensino de qualidade

Educar consiste em introduzir as novas gerações no patrimônio cultural acumulado pela humanidade. Esse processo exige alfabetização sólida nos anos iniciais, matemática ensinada com rigor e amplo domínio da língua portuguesa. História e ciências devem ser tratadas como saber acadêmico, e não como instrumento de militância política.

Exige-se, da mesma forma, valorização da autoridade intelectual do professor e empenho dos estudantes. Uma instituição que informa e ensina a pensar forma cidadãos livres. Por outro lado, um sistema que conduz o aluno a conclusões preconcebidas gera apenas militantes.

Comparação com modelos internacionais de alto desempenho

Modelos bem-sucedidos em países como a Coreia do Sul demonstraram que reformas reais focam nos meios de ensino. Nesses locais, houve valorização docente, maior tempo de estudo e exigência acadêmica, em vez de experimentos ideológicos.

Sistemas que lideram o Pisa — a exemplo de Singapura, Japão e Estônia — compartilham currículos exigentes e avaliações constantes. Nenhum desses países utiliza o estudante como ferramenta para projetos políticos alheios ao aprendizado real.

Centralidade do método fônico e da alfabetização baseada em evidências

No tocante ao aprendizado inicial, a alfabetização surge como o teste mais claro dessa divisão. Atrasos na leitura nos primeiros anos geram defasagens que acompanham o estudante por toda a vida.

Defensores do ensino estruturado sustentam que a alfabetização explícita e sistemática deve prevalecer sobre teorias construtivistas. A ideia de que a criança é autora espontânea do próprio aprendizado falhou na prática. Afinal, ler é o direito básico de todo estudante.

Transparência e prestação de contas na gestão educacional

Diante do cenário atual, a discussão sobre os rumos da educação exige debate público imediato. Famílias, professores e pesquisadores precisam analisar abertamente currículos, diretrizes e materiais didáticos distribuídos pelo Estado.

Caso a escola esteja cumprindo sua missão de ensinar, os indicadores demonstrarão os avanços. Contudo, se os resultados permanecerem negativos, a sociedade tem o direito de saber a quem esses métodos estão servindo.

Ponto de vista oposto sobre os fatores socioeconômicos do Pisa

Para garantir a honestidade do debate, cumpre apresentar as objeções formuladas pelos críticos dessa tese. Quanto à obra de Bernardin, analistas lembram que o texto analisa reformas europeias e norte-americanas, sem provar causalidade direta com as notas do Pisa.

Argumenta-se também que os resultados brasileiros apresentaram avanços nas últimas duas décadas. Desde 2006, a distância para a média da OCDE caiu em matemática, leitura e ciências. Entretanto, especialistas ponderam que parte dessa aproximação decorreu da queda do desempenho dos países ricos.

Desafios operacionais e variações regionais no desempenho escolar

A maioria dos pesquisadores atribui os baixos resultados a fatores estruturais históricos. Entre eles, destacam-se a desigualdade socioeconômica, a formação deficiente de docentes, a jornada escolar reduzida e a precariedade das instalações. Adicionalmente, pontuam que até mesmo os alunos da rede privada brasileira pontuam abaixo da média da OCDE em matemática.

Por fim, dados regionais dentro do próprio Brasil trazem novos elementos para a reflexão. Sob as mesmas diretrizes curriculares nacionais, o estado do Paraná obteve 423 pontos em matemática no Pisa 2025 e São Paulo alcançou 404 pontos, resultados bem superiores à média nacional. Isso demonstra que a gestão escolar e as práticas pedagógicas adotadas em sala de aula exercem um peso decisivo no aprendizado real.

Despertar o aluno para ler o mundo

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VISTO, LIDO E OUVIDO Criada por Ari Cunha (In memoriam)

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

Nesses tempos politicamente conturbados em que o país vai atravessando, um fato merece a atenção, a dedicação e o zelo de todos os brasileiros: a única maneira de salvaguardar nossa sociedade e nossa democracia é pela via da educação. Não existe outra alternativa. Não só aqui no Brasil, mas em qualquer outra parte do planeta. Disso as nações mais desenvolvidas já sabem muito bem e há tempos vêm fazendo a lição de casa, preparando adequadamente as próximas gerações para os desafios do futuro.

Infelizmente, parece que o Brasil ainda não atinou para essa realidade e, se atinou, não se interessou pelo investimento. A crise persistente no Ministério da Educação fala por si. A chamada Escola sem Partido também. Nesse sentido, é preciso observar que absolutamente nenhuma ideologia política serve aos reais propósitos da educação, principalmente de uma boa educação, muito embora se saiba que o ato de educar seja uma manifestação política que busca a capacitação plena para o exercício da cidadania

É bom que a sociedade fique atenta e desconfie das manifestações que têm surgido em várias partes do país, principalmente nas redes sociais, visando fazer da metodologia construída pelo educador pernambucano, Paulo Freire, uma espécie de bode expiatório, culpando seu método pelo atraso verificado na educação brasileira. Antes de tudo, é preciso considerar que o chamado método Paulo Freire, segundo seu amigo e pesquisador José Eustáquio Romão, fundador também do Instituto que leva o nome desse famoso pedagogo, jamais foi aplicado e plenamente desenvolvido na educação brasileira.

Quando muito, afirma, tem servido como frase de efeito, título de biblioteca ou nome de salão. A perseguição à Paulo Freire e ao seu método de alfabetização se insere no mesmo e insano movimento de caça às bruxas promovido contra educadores, professores, pesquisadores e cientistas logo após o março de 64.

O valor pedagógico da obra de Paulo Freire vai muito além dessas querelas internas momentâneas. Freire é ainda, depois de quase meio século, da publicação de suas obras, o autor mais citado e respeitado em todo o mundo quando o assunto é educação. Países como a Finlândia, Estados Unidos, França, Inglaterra, África do Sul, Coreia do Sul e muitos outros empregam e citam com regularidade os métodos de educação e a obra desse pedagogo brasileiro. De fato, Paulo Freire, por sua inteligência e pelo caráter revolucionário de sua obra, tem sido um autor pouco compreendido em seu próprio país, o que prova o dito que ninguém é profeta em sua própria terra.

Acusado injustamente pela direita política de pregar o marxismo, Paulo Freire foi também usado inadequadamente pela esquerda brasileira para alcançar seus propósitos políticos, enquanto o alcance e significado de sua obra e de suas ideias permanecem ainda totalmente desconhecidas por um e por outro desses matizes ideológicos.

Nem um lado, nem outro, desse mundo bipolar político e obtuso compreendeu, até hoje, o significado do que queria Paulo Freire quando dizia que seu objetivo era despertar o aluno para ler o mundo, de forma a despertar a consciência de quem ele é e seu papel no meio em que ele vive, tornando-o protagonista de sua vida e de sua história.

Fato é que a pedagogia desenvolvida por Paulo Freire parece existir apenas para quem pensa e pratica educação no dia a dia, justamente pelo caráter prático dessa metodologia que vai buscar no mundo de cada aluno o conhecimento que vai integrá-lo ao mundo, o que permite a ele uma crítica da realidade a sua volta.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“O educador se eterniza em cada ser que educa.”

Paulo Freire

Foto: novaescola.org.br

 

 

Procura-se

Disse Ari Cunha nessa coluna, nos anos 60, que o primeiro busto inaugurado em Brasília foi o do maestro Villa Lobos, em frente ao Ministério da Educação.

Foto: biografiaresumida.com.br

 

Contrapartida

De 15 em 15 anos, é necessário que as emissoras de televisão tenham o aval para prorrogar a concessão. O que nenhuma instituição conseguiu mudar desde o movimento contra a baixaria na TV, o governo dá sinais de que é preciso um freio nas cenas desnecessárias e apelativas.

Foto: bastidoresdatv.com.br

 

Política Pública

Dos jovens abandonados pelas ruas do DF, o maior problema é o alcoolismo, na maioria das vezes, dos pais.  Segundo a pesquisa de Iza Beatriz Barreto Abdala, 62% dos jovens com problemas têm dificuldades de relacionamento com o pai. Bêbados, chegam em casa tirando a paz da família. É preciso apoiar os AAs e criar uma política pública para manter esses jovens seguros na própria casa.

Charge: bancariosce.org.br

 

Saúde

Tratamento com canabinoides melhora a qualidade de vida e aspectos comportamentais de crianças com transtorno do espectro autista-TEA. Após tratamento com canabinoides, índice de pacientes que afirmavam ter boa qualidade de vida dobrou; segundo a OMS, 1 em 160 crianças no mundo apresenta o transtorno. Dois de abril será o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo.

 

HISTÓRIA DE BRASÍLIA

Depois do trevo de triagem norte, na mão da Península para a cidade, pouco antes do viaduto, há um RN em pleno asfalto, que poderá provocar acidentes. A companhia que asfaltou o trecho não comunicou ao dr. Lúcio, e o resultado está lá, desafiando pneus. (Publicado em15.11.1961)