A pátria sem chuteiras

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VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960

hoje
Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade

Depois do apito final do jogo entre Brasil e Noruega, comentaristas de todas as áreas, não somente do futebol, mas de todas as áreas correram para apresentar explicações e visões dessa derrota ao grande público. O que sabemos desde há muito, é que a Seleção, como o nome indica como reunião dos melhores, é, antes de tudo a “pátria de chuteiras”. Somos nós mesmos em campo, com toda a nossa bagagem cultural e nossas idiossincrasias e nossos complexos. Apesar das mazelas que o país parece experenciar desde 1500, sempre acreditamos ser uma potência de primeiro mundo, quando o assunto é futebol. Perdendo essa que seria a nossa única qualidade perante o mundo, o que nos resta? Nesse caso antes mesmo de reformular o modelo e a arquitetura de nosso futebol profissional, sufocado pelos descaminhos da cartolagem e das contas mal explicadas de cada federação e mesmo da CBF, envolta agora em escândalos de toda a ordem, é preciso é mais a fundo e analisar essa derrota como um todo. Com isso fica patente que estamos em meio a uma crise não só no futebol mas em todas as áreas da vida nacional. A começar pelo Estado, pela República, pelos Poderes e por aí vai.
expressões definiram tão bem o Brasil quanto a célebre imagem criada por Nelson Rodrigues da “pátria de chuteiras”. O futebol nunca foi apenas um esporte entre nós. Foi uma forma de identidade nacional, uma linguagem comum entre ricos e pobres, uma rara ocasião em que o país parecia esquecer suas diferenças para reconhecer-se como nação. Durante décadas, a Seleção Brasileira representou algo muito maior do que onze jogadores em campo. Ela simbolizava a ideia de que, apesar de todas as dificuldades econômicas, políticas e sociais, havia pelo menos um território onde o Brasil permanecia soberano. Hoje essa certeza já não existe. A derrota para a Noruega, por si só, não representa uma tragédia esportiva. No futebol, perder faz parte do jogo. O que desperta inquietação é o contexto em que ela ocorre.
A Seleção parece ter perdido aquilo que durante décadas foi sua maior virtude: personalidade. Não faltam atletas talentosos. O Brasil continua exportando jogadores para os principais campeonatos do mundo. Os clubes europeus seguem disputando nossos jovens talentos antes mesmo que completem uma temporada no futebol profissional. O problema, portanto, não parece residir na matéria-prima. Talvez esteja naquilo que acontece antes que esses jogadores entrem em campo. O futebol brasileiro passou a refletir, de maneira quase perfeita, as virtudes e os defeitos da própria sociedade. A desorganização administrativa, a instabilidade institucional, a falta de planejamento de longo prazo, o excesso de personalismo, a dificuldade de prestar contas e a permanente sucessão de disputas pelo poder também encontraram espaço dentro das estruturas esportivas. A Confederação Brasileira de Futebol tornou-se, nos últimos anos, protagonista de sucessivas crises administrativas, disputas judiciais, mudanças de comando e questionamentos sobre sua governança. Em diversas federações estaduais, dirigentes permanecem décadas no poder, frequentemente protegidos por estruturas pouco transparentes e sistemas eleitorais que dificultam a renovação. O torcedor acompanha resultados dentro de campo, mas raramente conhece o funcionamento das instituições responsáveis por administrar o esporte mais popular do país. Nenhuma organização produz excelência esportiva quando sua administração convive permanentemente com incertezas
Quando a criatividade florescia na economia, na cultura e na vida pública, ela também aparecia nos gramados. Quando predominavam organização, disciplina e objetivos claros, essas qualidades igualmente se refletiam na camisa amarela. Hoje o espelho parece devolver outra imagem. Vivemos um período marcado por intensa polarização política, crescente desconfiança nas instituições, dificuldades econômicas persistentes, baixo crescimento da produtividade, deficiências educacionais, violência urbana e sucessivos escândalos envolvendo diferentes setores da vida pública. Independentemente das interpretações políticas que cada cidadão faça desse cenário, há um dado difícil de contestar: a confiança coletiva encontra-se profundamente abalada.
Durante décadas, o sucesso da Seleção serviu, em alguma medida, como elemento de compensação simbólica. Em meio às crises nacionais, permanecia a convicção de que ainda éramos referência mundial em pelo menos uma atividade. O futebol funcionava como uma espécie de patrimônio emocional da República. Essa função parece estar desaparecendo. A camisa amarela já não desperta unanimidade. A Seleção já não intimida adversários. O chamado “futebol-arte”, que encantou o mundo, tornou-se lembrança histórica mais do que realidade contemporânea.
O futebol tornou-se uma atividade altamente profissionalizada, baseada em ciência esportiva, planejamento estratégico, análise de desempenho, gestão financeira e formação continuada. A improvisação perdeu espaço. Outros países aprenderam. A derrota diante da Noruega, portanto, talvez não seja apenas um resultado esportivo. Ela funciona como metáfora de um país que parece ter perdido parte de sua capacidade de transformar talento em excelência, potencial em realização e tradição em liderança. A Seleção permanece sendo a pátria de chuteiras. Se ela hoje parece jogar abaixo de sua história, talvez seja porque reflete, com fidelidade desconfortável, as dificuldades, as incertezas e as contradições de um Brasil que ainda procura reencontrar seu próprio rumo em pleno século XXI.

ROGACIANO

Será inaugurada em Fortaleza, no próximo dia 23, a partir das 19h, a exposição “Rogaciano Leite e os Congressos de Cantadores”
A mostra será realizada no Espaço Cultural da Cegás, no bairro José de Alencar, e vai até o dia 28 de agosto.
Rogaciano Leite (1920 -1969) foi jornalista, compositor e poeta.
É autor de “Carne e Alma”, obra poética aplaudida pela critica nacional.
O jornalista e poeta Nonato Freitas, amigo de Rogaciano Leite, do qual foi colega de jornal, em Fortaleza, escreveu um cordel sobre o notável bardo.
A obra escrita por Nonato Freitas fará parte da exposição.
Helena Roraima Leite, filha de Rogaciano, é uma das organizadoras do evento.

 

A frase que foi pronunciada:
No futebol, a pior cegueira é só enxergar a bola.”
Nelson Falcão Rodrigues

História de Brasília
As crianças no Hospital de Sobradinho viveram momentos horríveis nestas noites de frio. Dormiam em caixotes de madeira com serragem, por falta de cobertores. (Publicada em 24.05.1962)