A conta alta que chega em janeiro de 2027

Publicado em Deixe um comentárioÍntegra

Os desafios econômicos do Brasil em 2027 mostram-se extremamente complexos. O segundo turno de 25 de outubro opõe duas visões de país. Contudo, essa disputa coloca o vencedor diante de um mesmo problema fiscal. O Brasil chega a 2027 com inflação acima da meta. Além disso, os juros seguem entre os mais altos do mundo. A dívida pública mantém trajetória ascendente. Por conseguinte, existe um espaço político muito estreito para corrigir esses desequilíbrios.

O primeiro turno antecipou esse cenário de divisão. Flávio Bolsonaro (PL) somou 47,03% dos votos válidos. Por outro lado, Lula (PT) alcançou 45,16%. Portanto, o eleitorado mostrou-se dividido quase ao meio. Essa divisão antecipa um governo sem folga de capital político, independentemente do resultado. Se o eleito for de direita, o mercado esperará ajuste e reformas. No entanto, o eleitor exigirá a manutenção dos benefícios. Conciliar essas duas expectativas será o desafio central.

VISTO, LIDO E OUVIDO

Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com

instagram.com/vistolidoeouvido

facebook.com/vistolidoeouvido

O cálculo fiscal e os desafios econômicos do Brasil em 2027

O governo federal opera com déficit primário projetado em torno de 0,5% do PIB em 2026. Esse dado consta nos relatórios oficiais do Boletim Focus do Banco Central. Paralelamente, a dívida líquida do setor público deve passar de cerca de 70% do PIB neste ano para aproximadamente 79% em 2029. Além disso, a dívida bruta caminha para a casa dos 90%. Vale lembrar que essa é a métrica observada pelas agências de risco.

O arcabouço fiscal em vigor limita o crescimento real da despesa. Contudo, a norma depende de arrecadação crescente para ser cumprida. Dessa forma, boa parte do mercado duvida do alcance das metas dos próximos anos sem receitas extraordinárias. O novo presidente herda, portanto, uma decisão incômoda. Ele precisará perseguir o equilíbrio por meio de cortes politicamente custosos. Caso contrário, aceitará a deterioração e pagará o preço em prêmio de risco.

Juros altos e o peso da dívida pública

Esse movimento marcou o quinto corte consecutivo. A taxa Selic caiu para 13,75% ao ano em setembro. Apesar disso, a taxa permanece em patamar fortemente restritivo. Por conseguinte, o resultado nominal tem déficit próximo de 8,5% do PIB. É exatamente aí que a dívida cresce, pois o cálculo inclui os juros.

Cada ponto percentual de juros a mais encarece o serviço da dívida em dezenas de bilhões de reais por ano. A queda dos juros é o maior alívio fiscal disponível. No entanto, essa redução não se decreta por canetada. Ela depende de credibilidade no mercado. Se um governo sinalizar frouxidão nas contas, ele verá o efeito oposto. Nesse caso, a curva futura se afastará do desejado.

Inflação e a autonomia do Banco Central

As projeções para o IPCA de 2026 estão em torno de 5%. Esse valor fica acima do teto de tolerância da meta de 3%. Além disso, o Banco Central projeta inflação acima do centro da meta no horizonte relevante.

Um presidente eleito será tentado a pressionar por cortes mais rápidos de juros. Afinal, qualquer governante busca destravar o crescimento econômico. O respeito à autonomia da autoridade monetária será um teste de maturidade. Esse teste ocorrerá mesmo quando as decisões atrapalharem o calendário político. Afinal, interferir na instituição garante dólar mais caro e inflação mais persistente. Para um governo de direita, esse teste é ainda mais simbólico, pois ele se apresenta como fiador da ortodoxia.

Como superar os gargalos orçamentários nos desafios econômicos do Brasil em 2027

Orçamento rígido e promessas generosas

A maior parte da despesa federal é obrigatória. Esse grupo inclui Previdência, benefícios assistenciais, pessoal e pisos constitucionais de saúde e educação. Além disso, existe a vinculação do salário mínimo a diversos gastos. Somam-se a isso as emendas parlamentares impositivas. Essas emendas reduziram a margem de manobra do Executivo.

Há também a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Essa medida já está em vigor e é popular demais para ser revertida. Contudo, sua compensação depende de tributação mínima sobre rendas mais altas. Prometer redução de impostos, manutenção de programas sociais e ajuste fiscal ao mesmo tempo é aritmeticamente inviável. Portanto, o eleito terá de escolher o que será sacrificado. A conta do eleitor, em geral, chega muito depressa.

Governabilidade e o papel do Congresso Nacional

Qualquer agenda econômica passa necessariamente pelo Legislativo. O Congresso eleito em outubro tende a ser fragmentado e protagonista do Orçamento. Um presidente de direita poderá contar com uma bancada afinada em pautas liberais. Essas pautas incluem privatizações e desburocratização. No entanto, o apoio do Centrão costuma ter preço em cargos e emendas.

A tensão política é bastante conhecida no Brasília. A base que ajuda a aprovar reformas é a mesma que pressiona por gastos. Sem uma coalizão sólida, as reformas administrativa e previdenciária dificilmente avançam. Afinal, essas são as matérias mais difíceis no Parlamento.

Crescimento medíocre e produtividade estagnada

O mercado projeta expansão do PIB em torno de 1,9% em 2026. Esse ritmo esconde um problema estrutural do país. O crescimento potencial brasileiro é baixo, o mercado de trabalho está aquecido e a produtividade avança pouco. Com o desemprego em patamares reduzidos, qualquer estímulo de demanda converte-se em inflação. Ou seja, o estímulo não vira produção real.

A saída exige obrigatoriamente ganhos de oferta. Isso significa investimento em infraestrutura, melhora do ambiente de negócios e segurança jurídica para concessões. Além disso, exige qualificação da mão de obra. No entanto, essa é uma agenda de longo prazo que não rende dividendos eleitorais em quatro anos.

O cenário internacional e a estrutura fiscal de 2027

Reformas em transição e o impacto tributário

A reforma tributária sobre o consumo já foi aprovada. Porém, sua implementação se estenderá por anos. Esse processo trará regulamentações, conflitos federativos e riscos de aumento da complexidade. O próximo presidente terá de conduzir essa transição sem desfigurá-la.

Além disso, ele precisará enfrentar o que ficou de fora da proposta original. Isso inclui a tributação da renda e do patrimônio, além da reforma administrativa. Também exige a revisão de subsídios e renúncias fiscais. Afinal, esses benefícios consomem parcela relevante da arrecadação e raramente sofrem cortes.

Cenário externo, câmbio e geopolítica

O dólar projetado perto de R$ 5,20 depende de fatores externos e internos. Ele reflete a percepção de risco fiscal e o ciclo de juros americano. Além disso, as tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos afetam as projeções. A disputa tecnológica entre Washington e Pequim também gera impactos. Paralelamente, a dependência do agronegócio em relação à China exige uma diplomacia comercial pragmática.

Afinidade ideológica com Washington não garante concessões automáticas. Inclusive, um alinhamento automático pode custar mercados valiosos. A ratificação do acordo Mercosul-União Europeia e a reputação ambiental do país também pesam bastante. Especialmente após a COP30, esses fatores definirão o acesso a mercados e capital.

Famílias endividadas e o crédito caro

O crédito caro e o comprometimento da renda com dívidas reduzem o consumo. Por conseguinte, esses fatores aumentam a taxa de inadimplência. Medidas de renegociação parecem tentadoras para qualquer governo. Contudo, se forem mal desenhadas, elas estimulam novo endividamento e pressionam bancos públicos. Trata-se de um problema complexo que combina economia, política social e risco fiscal.

Previdência, estatais e as escolhas do novo governante

Previdência, indexação e gastos sociais

A pressão demográfica atua de forma lenta, porém implacável. O envelhecimento da população eleva despesas com aposentadorias e com o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Além disso, a regra de reajuste do salário mínimo transmite cada aumento a toda a folha de benefícios.

A reforma de 2019 comprou tempo, mas não resolveu o problema estrutural. Por isso, discutir a desindexação de benefícios ou rever pisos constitucionais é um tabu em ano eleitoral. Um presidente de direita precisará dizer com franqueza onde pretende cortar. Ele precisará agir sem atingir os mais pobres, que formam parte de sua base eleitoral. Programas como o Bolsa Família dificilmente serão desmontados. Portanto, a questão central é definir quem os financiará e com qual critério.

Estatais, preços administrados e investimentos

A política de preços de combustíveis e energia é fonte recorrente de atrito. O mesmo ocorre com a governança da Petrobras e o papel dos bancos públicos. Privatizar pode reduzir a pressão fiscal e atrair capital estrangeiro. No entanto, processos mal conduzidos geram contestação judicial e perda de valor.

Ao mesmo tempo, o investimento público encontra-se comprimido pelo custeio. Por essa razão, a infraestrutura depende de concessões e parcerias com o setor privado. Todavia, essas parcerias só aparecem quando há previsibilidade regulatória. A direita costuma prometer destravar o investimento privado. Para cumpri-la, ela precisará oferecer regras estáveis e respeitá-las no longo prazo

Dilemas do mandato e o que esperar de 2027

O dilema próprio da direita no poder

Um governo de direita enfrenta uma contradição que a campanha raramente admite. O discurso de redução de impostos colide com a necessidade de manter programas populares. Além disso, enfrenta o apetite do Centrão por recursos e a rigidez dos gastos obrigatórios.

Há também o risco de buscar resultados por atalhos. Esses atalhos incluem renúncias fiscais, créditos subsidiados ou pressão sobre estatais. Tais medidas desmontariam a credibilidade conquistada com o mercado. Por fim, existe a dimensão política. O capital eleitoral de um líder polarizador pode dificultar acordos no Congresso. Isso ocorre no momento em que as reformas exigem ampla interlocução.

Confiança, classificação de risco e fluxo de capital

O Brasil segue abaixo do grau de investimento na maioria das agências de risco. Por isso, o custo de financiamento do Tesouro reflete essa percepção negativa. Os primeiros sinais do presidente eleito serão lidos em tempo real pelos investidores. Essa leitura começará pela escolha da equipe econômica.

Nomes respeitados e um desenho fiscal crível podem reduzir o prêmio de risco. Por outro lado, ruídos ou interferências em instituições técnicas produzem o efeito inverso. A janela entre a eleição e a posse é o período em que a incerteza cobra seu preço no câmbio e nos juros futuros.

Custo de vida e poder de compra da população

Por trás dos indicadores agregados está o orçamento doméstico. Alimentos, aluguéis, serviços e tarifas pesam mais para quem ganha menos. Por conseguinte, o eleitor cobra do governo aquilo que sente no supermercado. Ele não julga o governo pelos relatórios do Banco Central.

Políticas de contenção de preços por meio de tabelamentos ou controle artificial aliviam apenas no curto prazo. Contudo, elas cobram uma conta alta no médio prazo. Essa conta vem na forma de déficits maiores ou represamento de tarifas. O presidente que resistir a esse atalho enfrentará impopularidade antes de colher resultados. Trata-se de um custo que poucos governantes aceitam pagar.

O que esperar do futuro econômico do país

O próximo presidente não terá lua de mel com o eleitorado. A janela de legitimidade, de poucos meses, deverá ser usada com extrema clareza. Ele precisará anunciar a âncora fiscal, definir a relação com o Banco Central e apresentar um calendário de reformas.

Um governo de direita que honre a responsabilidade fiscal poderá colher queda de juros e valorização do real. Contudo, se ceder à tentação de gastar para agradar o eleitor, repetirá erros históricos. Em ambos os casos, o país já não tem margem para adiar suas escolhas.

O caos da despedida

Publicado em Deixe um comentárioÍntegra

Consequentemente, o ambiente é de confronto, com as esquerdas forçando a barra para que esses protestos saiam de controle e acabem fazendo um mártir entre esses estudantes. Desse modo, trata-se da velha aposta no tudo ou nada.

Para Lula, que de modo ambicioso nunca deixou surgir entre suas hostes um herdeiro político, essa seria uma maneira de perder a eleição de um jeito menos patético. No entanto, o fato é que Lula, como outros déspotas que não fizeram herdeiros políticos, envelheceu da pior maneira possível. Assim, acumulou adversários, repetiu erros, mentiu e prometeu um futuro de abundância que parece ter chegado apenas para as pessoas do seu entorno imediato. Por isso, de pai dos pobres, Lula transformou-se no pai da pobreza e das crises. Sua saída de cena não poderia ser feita de outra forma que não em meio ao caos que construiu ao longo de duas décadas.

A despedida de Lula e o cenário pós-primeiro turno reacendem o tom do “nós contra eles”, raiz de toda a polarização política que o país vive desde a chegada do PT ao poder. Numa atitude de quase desespero, o presidente convoca a militância a vir para as ruas para impedir o que chama de retrocesso. O chamamento atendeu logo e de imediato os estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vieram protestar contra as eleições que obrigaram o mandatário a disputar o segundo turno em desvantagem.

A Semeadura da Divisão na Política Nacional

Não há nada de acidental nesse desfecho. A política, como a agricultura, devolve a quem a pratica aquilo que foi semeado. Por conseguinte, Lula semeou, durante anos, a divisão como método de governo. Ao dividir o país entre “nós” e “eles”, entre o povo e as elites, entre os bons e os maus, ele transformou o adversário em inimigo e o debate em trincheira. Ele fez isso quando era conveniente e fez isso quando não era necessário. Agora que a trincheira se volta contra ele, surpreende-se com a hostilidade de metade do eleitorado, como se ela tivesse brotado do nada.

Primeira Colheita: A Crise de Confiança e Escândalos

A primeira colheita é a da desconfiança. O PT chegou ao poder em 2003 prometendo ética na política e entregou, poucos anos depois, o escândalo do Mensalão, seguido do Petrolão, que revelou um esquema de desvio de recursos públicos em escala poucas vezes vista no país. Além disso, entre os escândalos que marcaram a trajetória recente do governo, acrescenta-se o Caso Master, ampliando as controvérsias de gestão.

Posteriormente, Lula acabou condenado, preso e libertado. Teve as condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021 por questões de competência do foro, e não por um julgamento de mérito que o declarasse inocente. Preferiu, porém, tratar a anulação como absolvição moral e o passado como página virada. Entretanto, milhões de brasileiros não a viraram. Quando o escândalo dos descontos indevidos em benefícios do INSS veio à tona, atingindo justamente aposentados e pensionistas, a memória coletiva fez o resto. Assim, a promessa de proteger os mais pobres convivia, mais uma vez, com a sombra da apropriação do dinheiro público.

A gangorra de Lula e Bolsonaro

Segunda Colheita: O Retorno da Realidade Econômica

A segunda colheita é a da economia. Lula voltou ao Planalto vendendo a lembrança dos anos de bonança das commodities, como se a prosperidade do passado fosse um atributo pessoal, e não o produto de um ciclo externo irrepetível. Por outro lado, tratou o equilíbrio das contas públicas como obsessão de rentistas e viu o desconforto do mercado como mera conspiração.

O resultado foi um governo que gastou mais, convenceu menos e conviveu com juros em patamares elevadíssimos, dólar pressionado e alimentos caros na mesa do trabalhador. Desta forma, o brasileiro que ouviu falar de picanha barata e churrasco farto encontrou, no supermercado, uma realidade bem menos generosa. Afinal, prometer abundância e entregar escassez é a forma mais rápida de transformar um líder em personagem de sua própria ironia.

Terceira Colheita: A Solidão Política e a Sucessão

A terceira colheita é a da solidão política. Lula nunca tolerou sombras. Dilma Rousseff, escolhida sem ter feito carreira eleitoral, foi a síntese desse método: um nome de confiança, jamais um rival. Fernando Haddad, em 2018, foi o substituto improvisado de um líder que não aceitava deixar o palco. Nos anos seguintes, quem ousou crescer dentro do partido acabou contido, absorvido ou esquecido.

Como resultado, no momento em que o eleitor pediu renovação, o PT só soube oferecer a mesma figura, aos quase oitenta anos, de volta para mais uma batalha. Consequentemente, quem não prepara a sucessão não pode reclamar quando a sucessão se transforma em disputa selvagem, ou quando o seu fim de carreira se parece mais com um acerto de contas do que com uma despedida.

Quarta Colheita: Credibilidade Externa e Alianças Internacional

A quarta colheita é a da credibilidade externa e dos aliados escolhidos. A diplomacia que se dizia soberana e pragmática mostrou-se, em muitos momentos, fiel a afinidades ideológicas. Observa-se o afago a regimes autoritários na América Latina, a relutância em criticar eleições contestadas e a leniência com ditaduras desde que se declarassem de esquerda.

Portanto, um país que se apresenta ao mundo como defensor da democracia perde autoridade quando seu presidente escolhe a quem cobrar e a quem perdoar. O mesmo vale dentro de casa. Nesse sentido, quem passou anos chamando de golpe qualquer derrota e de fascismo qualquer divergência não tem crédito para pedir serenidade agora.

Quinta Colheita: O Entorno do Poder e o Aparelhamento

A quinta colheita é a do entorno. Em cada governo petista, a promessa de que o Estado serviria aos mais pobres encontrou o obstáculo de uma máquina pública ocupada por aliados, sindicatos e partidos satélites. Estes passaram a tratar cargos e orçamentos como patrimônio. Por causa disso, a distância entre o discurso e a prática ficou evidente.

O líder que dizia governar para quem mais precisa governava, na prática, com quem mais o cercava. O benefício chegou, sim, a muita gente. Contudo, o sentimento que se consolidou na parcela do eleitorado que o abandonou foi o de que a abundância prometida tinha endereço certo, e que esse endereço não era o da periferia que o consagrou.

Sexta Colheita: Relação com as Instituições e a Verdade

A sexta colheita é a da relação com as instituições e com a verdade. Lula atacou a imprensa quando a imprensa o incomodou. Além disso, desqualificou o Judiciário quando o Judiciário o condenou e passou a elogiá-lo quando o Judiciário o beneficiou. Tratou a Constituição como escudo nos dias bons e como obstáculo nos dias ruins.

Do mesmo modo, prometeu, em campanha, o que sabia ser difícil cumprir, desmentiu-se em discursos sucessivos e passou a acusar de mentira quem apontava as contradições. Num país em que a confiança nas instituições já estava corroída, a atitude do presidente não ajudou a reconstruí-la. Em vez disso, aprofundou a erosão que ele mesmo dizia combater.

O Apelo às Ruas no Segundo Turno

É nesse ponto que o apelo às ruas, feito depois do primeiro turno, ganha seu verdadeiro sentido. Não se trata de defender a democracia, a qual está funcionando e acaba de impor ao presidente a obrigação de disputar um segundo turno. Trata-se de reagir ao desagrado das urnas com a velha pedagogia da mobilização, na qual a rua serve de pressão sobre quem votou, sobre as instituições e sobre a narrativa do dia seguinte.

Quando um governante responde a um resultado eleitoral convocando militantes para o confronto, ele diz, na prática, que só reconhece a vontade popular quando ela lhe é favorável. Assim sendo, é a mesma lógica do “nós contra eles”, agora em sua versão final.

O Custo Social da Polarização Política

O custo dessa semeadura não foi pago apenas pelo presidente. Foi pago por famílias que deixaram de conversar à mesa, por amigos que se afastaram, por um debate público reduzido a gritos e por uma política em que quase ninguém ouve ninguém. A polarização que Lula alimentou, e que seus adversários também souberam explorar, tornou o país mais áspero e mais difícil de governar, inclusive para ele.

Certamente, um presidente que depende de maioria para aprovar o que promete precisa de pontes. Por outro lado, quem passou anos dinamitando pontes descobre, tarde demais, que governar exige o que o palanque dispensa.

A Defesa dos Apoiadores no Debate Eleitoral

Há, é claro, a defesa que seus apoiadores farão, e ela não deve ser ignorada. Dirão que o governo reduziu a fome, ampliou programas de transferência de renda, reconstruiu políticas públicas desmontadas nos anos anteriores e que o país cresceu e gerou empregos sob sua gestão.

Além disso, dirão que a anulação das condenações foi uma correção de abusos de uma operação que desrespeitou o devido processo legal, e que a polarização é obra de um campo político inteiro, e não apenas de um homem. Dirão ainda que mobilização popular é direito democrático, e não ameaça. São argumentos legítimos e fazem parte do debate. Mas cabe ao eleitor, no segundo turno, pesar essa defesa contra o balanço que este editorial procurou fazer.

O Balanço Final e o Legado da Divisão

O fato permanece: os governantes não escapam de si mesmos. Lula teve, em três mandatos, a oportunidade rara de ser lembrado como o líder que reconciliou o país e preparou o futuro.

Contudo, preferiu o conforto da divisão, a vaidade da indispensabilidade e a ilusão de que bastaria o carisma para sustentar o que as entregas já não sustentavam. A despedida que se desenha, em meio a protestos, desconfiança e ressentimento, é a conta de um longo processo. O país, cansado, seguirá em frente. Resta saber se o ex-metalúrgico que prometeu unir os brasileiros terá a grandeza de reconhecer, ao final, que a cizânia que agora o cerca tem, em boa medida, a sua assinatura.

A frase que foi pronunciada:

“O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.” Maquiavel

História de Brasília -A Quadra 48 ainda é a grande sem sorte da W-3. Começaram o serviço de urbanização. Deixaram pelo meio, com esgotos e telefones cortados. Consertaram, e diante à poeira. Agora, está sendo preferida pelos ladrões de automóveis. (Publicada em 25.05.1962)

Os impactos das Eleições de 4 de Outubro

Publicado em Deixe um comentárioÍntegra

O futuro político do Brasil passará por transformações profundas logo após a contagem final dos votos deste pleito. Portanto, independentemente do resultado verificado nas urnas, nem a esquerda nem a direita sairão deste processo eleitoral do mesmo modo que entraram.

VISTO, LIDO E OUVIDO
Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
jornalistacircecunha@gmail.com
instagram.com/vistolidoeouvido
facebook.com/vistolidoeouvido

Nesse cenário de intensas transformações, observaremos o crescimento expressivo de um lado e a diminuição gradual do outro. Alternativamente, nenhum dos dois grupos exercerá um protagonismo tranquilo no poder. Afinal, a forte polarização política no país impede que qualquer governante eleito trabalhe sem enfrentar intensos entraves cotidianos da oposição.

O País que Sairá das Urnas e o Futuro Político do Brasil

Certamente, o país chega a este pleito sob uma visível sensação de esgotamento institucional e social. A disputa atual entre esquerda e direita vai muito além de debates puramente acadêmicos. Atualmente, esse confronto se manifesta nas ruas, nas conversas cotidianas e nas redes sociais de forma visceral.

Consequentemente, o eleitorado manifesta ressentimentos acumulados ao longo dos últimos anos. A população percebe que o destino imediato da nação depende diretamente do combate ideológico travado no ambiente político. Todavia, a realidade socioeconômica impõe desafios muito mais complexos do que a simples retórica partidária.

Por conseguinte, a população exige soluções imediatas para garantir a estabilidade do poder de compra, do trabalho, da segurança e da educação. Além disso, o cidadão busca segurança jurídica e eficiência administrativa por parte do Estado.

O Desgaste da Esquerda e a Redefinição de Forças

Historicamente, a hegemonia das esquerdas se estendeu por mais de duas décadas no cenário nacional. Contudo, essa força política enfrenta agora um desgaste contínuo e acelerado diante dos eleitores. Essa perda de espaço não decorre unicamente da atuação direta da oposição.

Pelo contrário, esse desgaste resulta diretamente de escolhas econômicas equivocadas adotadas pela má gestão pública. Ademais, episódios sucessivos de corrupção abalaram a confiança popular nas instituições governamentais. De fato, o cidadão comum reage às condições diárias do seu orçamento doméstico.

A Ascensão da Direita no Futuro Político do Brasil

Paralelamente, a ascensão da direita ocorreu de forma marcante e estruturada no ambiente político nacional. Esse grupo conquistou uma desenvoltura própria e conta com um expressivo apoio de diversos setores populares. Por essa razão, a antiga hegemonia de esquerda encontra-se verdadeiramente em xeque nestas eleições.

Nesse contexto, a sociedade civil demonstra um amadurecimento significativo em relação aos discursos partidários. De forma geral, os cidadãos rejeitam narrativas puramente ideológicas ou simplistas. Ao mesmo tempo, os eleitores cobram transparência na gestão dos recursos públicos de maneira incisiva.

Dessa maneira, a nova direita ganha espaço ao defender propostas de liberdade econômica e rigor fiscal. Consequentemente, o eleitor exige que a máquina pública funcione com eficiência máxima para atender aos anseios dos contribuintes que pagam os impostos mais altos do universo.

O Combate à Corrupção e a Transparência Pública

Além da questão fiscal, a corrupção continua figurando entre os temas centrais de indignação nacional. Historicamente, os escândalos recorrentes corroeram a credibilidade dos órgãos públicos de forma profunda. Portanto, a sociedade exige mecanismos rigorosos de controle e punição aos desvios de recursos.

Afinal, a população não tolera mais a seletividade no combate aos crimes contra o patrimônio público. Consequentemente, as instituições de fiscalização precisarão atuar de maneira independente e transparente. Apenas assim o governo conseguirá resgatar a confiança indispensável dos cidadãos e dos investidores internacionais.

Assim, o cumprimento estrito das leis torna-se o único caminho viável para assegurar a estabilidade institucional no futuro político do Brasil.

Pragmatismo, Ética e os Desafios do Novo Governo

A princípio, o eleitorado demonstrou um amadurecimento inequívoco ao longo deste pleito de 4 de outubro. Os cidadãos exigem responsabilidade fiscal, conduta ética e resultados concretos em prazos curtos. Dessa maneira, qualquer projeto de poder desconectado das reais necessidades populares ruirá com rapidez.

Em suma, o governante escolhido enfrentará um cenário com pouquíssima margem para erros na gestão econômica. O tempo das promessas demagógicas e dos subterfúgios discursivos esgotou-se definitivamente no país. Em conclusão, a legitimidade da próxima gestão dependerá exclusivamente da entrega de emprego, renda, estabilidade e segurança jurídica.

Por fim, o futuro político do Brasil dependerá da coragem do novo governante para implementar as reformas necessárias e construir uma nação próspera e justa.

A Frase Pronunciada

“Ditadores não têm interesse em permitir eleições que possam destituí-los do poder.”

— Gene Sharp

História de Brasília

A pena de tudo isto é, ainda, porque Claudionor Machado é ex-pracinha, tem medalha de campanha, e o presidente do IAPB não hesitou em jogá-lo na rua. É uma injustiça que o Ministro da Guerra bem poderia corrigir em despacho com o presidente da República. Há decreto amparando os ex-combatentes. (Publicada em 26.05.1962)

O trigo e o joio

Publicado em Deixe um comentárioÍntegra
CIArce

A menos de duas semanas do primeiro turno de 4 de outubro, o Brasil chega às urnas carregando, ao mesmo tempo, dois dos maiores escândalos de corrupção e eleições de sua história recente. O caso do Banco Master e o esquema de descontos indevidos sobre aposentadorias do INSS não são episódios menores nem circunscritos.

Lama

Esses fatos atravessam partidos, atingem o entorno da Presidência da República e, o que é mais grave para a estabilidade institucional do país, colocam sob suspeita parte dos próprios ministros do Supremo Tribunal Federal. É difícil lembrar de um momento em que a política, o sistema financeiro, a Previdência e a mais alta corte do país tenham sido salpicados pelo mesmo tipo de lama, ao mesmo tempo, às vésperas de uma eleição presidencial.

VISTO, LIDO E OUVIDO

Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

jornalistacircecunha@gmail.com
instagram.com/vistolidoeouvido
facebook.com/vistolidoeouvido

Os desdobramentos do Banco Master e o cenário político nacional

O Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 após acumular dívidas próximas de R$ 40 bilhões, deixou de ser apenas um caso de insolvência bancária. O processo tornou-se sinônimo de uma crise sistêmica profunda.

Seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso duas vezes: a primeira quando tentava deixar o Brasil de jato particular, e a segunda em nova fase da Operação Compliance Zero. Atualmente, Vorcaro negocia uma delação premiada cujo alcance ainda permanece desconhecido.

O que já se sabe basta para inquietar a opinião pública. Reportagens apontam repasses mensais a Guido Mantega e milhões pagos ao escritório da família do ex-ministro Ricardo Lewandowski.

Investigação

Além disso, destaca-se um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, interrompido apenas quando o banco foi liquidado. A lista de citados atravessa todo o espectro político, de Michel Temer a Flávio Bolsonaro, que teria negociado dezenas de milhões com Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. A investigação chegou também ao Senado, com apurações da Polícia Federal sobre o então líder do governo na Casa, Jaques Wagner.

A Operação Sem Desconto e as fissuras institucionais no STF

Em paralelo, o esquema de descontos associativos indevidos sobre benefícios do INSS, que a Operação Sem Desconto apura desde 2024, voltou a ganhar força ao longo de 2026. Houve o indiciamento de um ex-procurador-geral do instituto, a quebra de sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva autorizada pelo relator da CPMI autorizada pelo relator da CPMI e delações que envolveram até um ex-ministro do Trabalho.

Fatos

Além disso, destaca-se um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, interrompido apenas quando o banco foi liquidado. A lista de citados atravessa todo o espectro político, de Michel Temer a Flávio Bolsonaro, que teria negociado dezenas de milhões com Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. A investigação chegou também ao Senado, com apurações da Polícia Federal sobre o então líder do governo na Casa, Jaques Wagner.

Contudo, o ritmo das apurações, ainda sem data de julgamento para Vorcaro e sem desfecho conclusivo para a CPMI do INSS, mostra que essa clareza dificilmente chegará a tempo.

A responsabilidade compartilhada entre os Poderes da República

Nesse cenário, é justo cobrar também a condução do governo federal. Volta e meia se repete a crítica de que o presidente Lula tem dedicado parcela desproporcional de seu terceiro mandato a atos de palanque e à manutenção de uma campanha praticamente permanente.

Para os críticos, esse estilo se sobrepõe à rotina mais discreta de administrar as contas públicas com o mesmo cuidado que qualquer chefe de família aplica ao próprio orçamento doméstico. Trata-se de uma crítica legítima e recorrente ao estilo presidencial, ainda que seja preciso reconhecer que ela expressa um julgamento sobre prioridades de governo, e não um fato apurado por órgãos de controle.

Mas seria simplista atribuir a crise institucional que o país atravessa apenas ao Palácio do Planalto. O Supremo Tribunal Federal, que deveria ser o fiador da legalidade nesse processo, viu-se ele próprio salpicado pelos dois escândalos, de forma direta ou indireta, por meio de familiares, ex-integrantes e decisões contraditórias entre ministros.

Desmoralização e perda paulatina de poder

Quando a mesma corte que investiga é também, em algum grau, investigada, o desgaste não fica restrito ao governo de plantão. Esse fator afeta a arquitetura inteira de freios e contrapesos sobre a qual se apoia a democracia brasileira.

Nesse sentido, é razoável dizer que a responsabilidade pela atual crise de credibilidade não pertence a um único Poder. O problema decorre de um entrelaçamento complexo entre política, mercado financeiro e Justiça, setores que se acostumaram, ao longo de décadas, a naturalizar zonas de influência mútua.

O direito ao voto informado e os custos ocultos da corrupção

Diante disso, cabe a pergunta que qualquer eleitor tem o direito de fazer antes de votar: quem, entre os nomes que disputam ou sustentam candidaturas em outubro, esteve de fato alheio a esses episódios, e quem apenas não foi, até agora, formalmente citado?

“A República do rabo preso”

Trabalhador partido

No caso do INSS, milhões de aposentados sofreram descontos associativos retirados de seus benefícios sem autorização válida, causando um dano concreto. Fato recorrente ao orçamento de famílias que já sentem, na ponta, os efeitos da desaceleração econômica. Corrupção, nesses dois casos traduz-se em dinheiro público mal cuidado, ausência de fiscalização e benefício previdenciário corroído. Vale lembrar que tudo isso às vésperas de um pleito que decidirá quem lidará com as consequências fiscais desses episódios pelos próximos anos.

A Polícia Federal, a CGU e a própria CPMI seguem na apuração de fatos, depoimentos e produzindo provas, num processo lento, imperfeito e sem muita esperança de conclusão integral às vésperas do pleito. A opinião pública, por sua vez, manifesta ceticismo quanto ao fim dessas apurações e à efetiva condenação dos réus, sobretudo das elites no poder.

Separar o trigo do joio, portanto, configura uma tarefa urgente que deveria caber prioritariamente à Justiça. Contudo, na prática institucional vigente, não há, de fato, a quem recorrer internamente.

A frase que foi pronunciada:

” Se o Banco Master foi criado no governo Bolsonaro, Vorcaro virou banqueiro no governo Bolsonaro e virou prisioneiro no governo Lula, porque aliados de Lula não querem investigação? Para favorecer Bolsonaro? “

Dona Dita acompanhando o noticiário

História de Brasília

A Câmara dos Deputados perdeu 75 minutos discutindo o projeto revogando a proibição contra lutas de galos. Pois bem. Depois disso, em 45 minutos aprovou 17 outros projetos, muitos dos quais de grande importância. ( Publicada em 26.05.1962)