O pêndulo da história e os sinais de uma contrarrevolução

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Cenário econômico de 2026 deve ser marcado por desaceleração global Foto: iStock

 

Ciclos históricos raramente se desenvolvem em linha reta. Ao contrário, movem-se como um pêndulo, ora avançando em determinada direção, ora reagindo com igual intensidade no sentido oposto. Essa percepção, que atravessa séculos de reflexão política e filosófica, encontra eco até mesmo na ciência, na formulação clássica da Terceira Lei de Newton: a toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade. Aplicada à dinâmica das sociedades, essa ideia ajuda a compreender momentos de inflexão como o que parece se desenhar no mundo contemporâneo.

Nas últimas décadas, consolidou-se um modelo de globalização que buscava reduzir fronteiras econômicas, integrar culturas e promover fluxos intensos de pessoas, capitais e ideias. Esse movimento foi, em muitos aspectos, responsável por avanços tecnológicos, expansão do comércio e aumento da interdependência entre as nações. No entanto, como ocorre em todo processo histórico de grande escala, os efeitos não foram homogêneos nem isentos de tensões.

Em diversas regiões do mundo ocidental, parte significativa da população passou a perceber esse modelo não como progresso compartilhado, mas como uma transformação acelerada que afetava identidades culturais, estruturas econômicas e formas tradicionais de vida. Surge, então, o que muitos analistas descrevem como um movimento de reação. Não necessariamente organizado ou uniforme, mas perceptível em diferentes países e contextos. Trata-se de uma resposta social e política a mudanças consideradas excessivas ou desconectadas das expectativas de parcelas relevantes da população.

Na Europa, por exemplo, o crescimento de partidos e movimentos críticos à globalização, às políticas migratórias amplas e à centralização de decisões em organismos supranacionais revela uma mudança no humor político. Nos Estados Unidos, fenômenos eleitorais recentes também indicam uma reconfiguração do debate público, com maior ênfase em soberania nacional, controle de fronteiras e revisão de acordos econômicos. Esse movimento não pode ser compreendido apenas como uma rejeição simplista ao novo. Em muitos casos, ele expressa preocupações concretas com emprego, segurança, identidade cultural e coesão social. Ao mesmo tempo, também carrega riscos, especialmente quando se traduz em polarização extrema ou em soluções simplificadas para problemas complexos.

No Brasil, sinais desse pêndulo histórico também se manifestam. O país, que por décadas oscilou entre diferentes projetos políticos e econômicos, experimenta hoje um ambiente de forte polarização ideológica. Parte da sociedade demonstra resistência a agendas percebidas como impostas de cima para baixo, enquanto outra parcela defende a continuidade de transformações sociais e institucionais iniciadas nas últimas décadas.

Esse embate revela algo mais profundo do que simples divergência política. Ele expõe uma disputa sobre o próprio sentido do desenvolvimento, da identidade nacional e do papel do Estado. Em outras palavras, trata-se de uma disputa sobre quais valores devem orientar o futuro da sociedade.

O filósofo Friedrich Nietzsche já falava, no final do século XIX, sobre o avanço do niilismo a perda de referências tradicionais de sentido e valor. Para Nietzsche, esse processo poderia levar a uma crise profunda, na qual antigos sistemas de crenças deixam de oferecer respostas, sem que novos paradigmas estejam plenamente consolidados. A leitura contemporânea desse diagnóstico sugere que parte das tensões atuais pode estar relacionada a esse vazio de referências. Em um mundo onde tradições são questionadas, instituições são desafiadas e identidades são redefinidas, não surpreende que surjam movimentos de reação buscando restaurar algum tipo de estabilidade ou continuidade.

No entanto, é importante reconhecer que o pêndulo da história não opera de forma mecânica ou previsível. A reação a um determinado movimento não significa necessariamente um retorno simples ao passado. Muitas vezes, o que emerge é uma síntese imperfeita entre elementos antigos e novos, moldada pelas circunstâncias específicas de cada época. Nesse sentido, falar em “fim” de um determinado modelo pode ser menos preciso do que reconhecer um processo de transformação. O que está em curso não é apenas a rejeição de ideias associadas à globalização ou a determinadas correntes políticas, mas a tentativa de redefinir os termos do debate em um mundo cada vez mais complexo e interdependente.

O ponto central não está em tomar partido de uma ou outra direção do pêndulo, mas em compreender a lógica que move esse movimento. Ignorar os sinais de insatisfação social pode levar à intensificação de tensões. Por outro lado, respostas precipitadas ou simplificadoras podem agravar problemas que exigem soluções mais elaboradas. O desafio das sociedades contemporâneas é atravessar esse período de transição sem comprometer princípios fundamentais como liberdade, pluralismo e respeito às instituições.

Se há, de fato, uma contrarrevolução em curso, ela não deve ser entendida apenas como negação do que veio antes, mas como parte de um processo maior de ajuste histórico. O pêndulo se move, mas o ponto de equilíbrio ainda está em disputa. E talvez seja justamente aí que reside a principal lição desse momento: mais do que celebrar ou temer o movimento do pêndulo, é preciso compreender que a estabilidade duradoura não nasce dos extremos, mas da capacidade de construir sínteses que preservem o que há de essencial enquanto se adaptam às exigências do tempo presente.

 

A frase que foi pronunciada:
“A vida do Homem oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio, tais são na realidade os seus dois últimos elementos”.

Schopenhauer

Arthur Schopenhauer. Pintura de Jules Lunteschütz, 1855.

 

História de Brasília
Parece que foi ontem. O jornal ainda era um acampamento, todos nós morávamos no local de trabalho, porque ninguém tinha apartamento. Amanhecíamos e anoitecíamos juntos. Foi assim que equipe se consolidou. (Publicada em 16.05.1962)

Haveria sinais de um possível reset financeiro global? Parte 2

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Foto: Getty Images

 

Temos testemunhado a instabilidade crescente no mercado financeiro. Oscilações abruptas em bolsas de valores, mudanças rápidas na política monetária de bancos centrais e fuga periódica de capitais de economias emergentes indicam ambiente de incerteza prolongada.

Outro sinal relevante está na gradual contestação da centralidade do dólar no sistema financeiro internacional. Embora ainda dominante, a moeda americana passou a enfrentar questionamentos mais frequentes entre países emergentes.

A participação do dólar nas reservas internacionais caiu de cerca de 71%, em 1999, para menos de 60% atualmente. Paralelamente, bancos centrais passaram a ampliar reservas de ouro em ritmo acelerado. Segundo dados do Conselho Mundial do Ouro, compras de ouro por bancos centrais atingiram, em 2022, o maior nível registrado desde o início das estatísticas modernas.

O economista Ray Dalio argumenta que esse tipo de movimento costuma ocorrer em períodos de transição histórica entre ordens monetárias internacionais. Em estudo sobre ciclos de poder global, Dalio afirma que ordens financeiras baseadas em moedas dominantes costumam durar entre sete e dez décadas antes de sofrer transformações significativas. Iniciativas recentes reforçam esse movimento gradual de diversificação monetária. Países do bloco BRICS discutem ampliação do comércio bilateral em moedas locais. China e Rússia já realizam parcela crescente de suas transações energéticas utilizando yuan ou rublo.

Executivos do setor financeiro também demonstram preocupação crescente com a estabilidade do sistema econômico internacional. Larry Fink, CEO da BlackRock, afirmou em carta anual a investidores que o mundo atravessa transformação estrutural na forma como capital, cadeias produtivas e segurança energética se interconectam.

Jamie Dimon, executivo-chefe do JPMorgan Chase, disse em entrevista que a economia global enfrenta ambiente potencialmente mais perigoso do que qualquer outro observado nas últimas décadas, citando inflação persistente, tensões geopolíticas e fragilidade do sistema financeiro.

Outro fenômeno importante é a reorganização das cadeias produtivas globais. Após décadas de globalização acelerada, empresas multinacionais começaram a rever estratégias de produção. Pandemia, conflitos geopolíticos e rupturas logísticas expuseram vulnerabilidades de cadeias produtivas excessivamente concentradas.

As estratégias conhecidas como reshoring e friend-shoring passaram a ganhar espaço. Produção industrial começa a ser transferida para regiões consideradas politicamente mais alinhadas ou geograficamente mais próximas dos mercados consumidores.

Zoltan Pozsar, estrategista financeiro, conhecido por suas análises sobre sistema monetário internacional, chegou a sugerir que o mundo pode estar caminhando para uma nova configuração que ele descreveu como Bretton Woods III, na qual commodities estratégicas e alianças geopolíticas desempenhariam papel central na organização do sistema financeiro global.

Consequência desse processo tende a ser aumento de custos produtivos e possível persistência de pressões inflacionárias estruturais. Durante décadas, a globalização contribuiu para redução de preços ao deslocar produção para regiões de menor custo.

Relações entre Estados Unidos e China acrescentam outra camada de complexidade ao cenário global. Disputas envolvendo semicondutores, inteligência artificial e infraestrutura digital transformaram tecnologia em elemento central da rivalidade estratégica entre as duas maiores economias do planeta.

Economista Nouriel Roubini descreve esse contexto como início de uma era de megachoques. Segundo ele economia mundial passa a enfrentar simultaneamente pressões geopolíticas, transformações tecnológicas, mudanças demográficas e riscos climáticos capazes de gerar instabilidade prolongada.

O conjunto de todos esses fatores sugere que economia mundial pode estar atravessando período de transição comparável a outros momentos de inflexão histórica. Em 1914 o colapso do padrão ouro marcou fim de uma era de globalização financeira do século XIX. Em 1971 o abandono da conversibilidade do dólar em ouro redefiniu ordem monetária internacional. Em 2008 crise financeira global revelou fragilidades profundas do sistema bancário internacional. O momento atual talvez represente mais um desses pontos de inflexão. Não necessariamente um colapso imediato, mas um processo gradual de redefinição das bases econômicas e financeiras que sustentam o sistema internacional.

A história econômica mostra que grandes transformações raramente são percebidas em tempo real. Os sinais frequentemente aparecem de forma dispersa, interpretados como episódios isolados. Apenas retrospectivamente esses movimentos tornam-se evidentes como parte de uma mudança estrutural mais profunda.

Parece que hoje estão reunidos diversos desses sinais simultaneamente: rearranjos geopolíticos, pressões inflacionárias persistentes, reorganização das cadeias produtivas, questionamentos sobre moedas de reserva e instabilidade crescente nos mercados financeiros.

Chamar esse processo de reset financeiro global pode parecer exagerado para alguns analistas. Ignorar convergência desses fatores, porém, talvez represente erro ainda maior.

 

A frase que foi pronunciada:

“A liberdade financeira é mais uma jornada do que um destino.”

Rob Berger

Rob Berger. Foto: perfil oficial de Rob Berger na Rede Social X

 

História de Brasília

Os nossos agradecimentos às pessoas que nos telefonaram ou nos cumprimentaram pessoalmente pelo segundo aniversário desta coluna. E’ um estimulo para novas lutas e novas campanhas. (Publicada em 16.05.1962)

Davos entre dois mundos: globalismo em debate e o retorno do soberanismo

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Davos. Foto: Divulgação

 

Reuniões anuais do Fórum Econômico Mundial em Davos costumam funcionar como termômetro das grandes correntes de pensamento que atravessam a economia e a política internacional. Na edição realizada em janeiro de 2026, porém, o encontro revelou algo mais profundo do que debates sobre crescimento, tecnologia ou clima. O que se viu foi um confronto explícito entre duas visões distintas de organização do mundo: de um lado a perspectiva globalista, baseada na integração econômica e na governança internacional ampliada; de outro, o retorno vigoroso do soberanismo político e de uma leitura mais pragmática das relações internacionais.

Esse embate não surgiu de forma repentina. Ao longo da última década, crises sucessivas abalaram a confiança no modelo de globalização que se consolidou após o fim da Guerra Fria. A crise financeira internacional de 2008, os efeitos sociais da desindustrialização em várias economias ocidentais, a pandemia e os conflitos geopolíticos recentes contribuíram para fortalecer correntes políticas que defendem maior autonomia nacional nas decisões econômicas e estratégicas. Nesse contexto, lideranças políticas que defendem agendas mais voltadas ao interesse nacional passaram a ganhar espaço no debate global. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tornou-se um dos principais símbolos dessa corrente ao defender políticas comerciais protecionistas, controle migratório mais rígido e revisão de acordos multilaterais considerados prejudiciais à economia norte-americana. Seu discurso encontrou eco em diferentes regiões do mundo, alimentando uma onda política que passou a questionar abertamente o consenso globalista predominante em fóruns internacionais.

Na América Latina, o presidente argentino, Javier Milei, também tem sido uma das vozes mais críticas em relação a modelos internacionais de governança econômica. Em diversos pronunciamentos, Milei denunciou aquilo que chama de “burocracia global” e criticou políticas que, segundo sua visão, ampliam a intervenção estatal e reduzem a autonomia das nações. Seu discurso ganhou destaque internacional justamente por confrontar algumas das ideias mais presentes nos debates promovidos em Davos. Na Europa, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, representa outra vertente desse movimento. Meloni tem defendido publicamente políticas de fortalecimento das fronteiras nacionais e de revisão da política migratória europeia, argumentando que a União Europeia precisa equilibrar valores humanitários com a capacidade real de absorção econômica e social de novos fluxos populacionais. A questão migratória tornou-se, de fato, um dos temas mais sensíveis do debate europeu contemporâneo. Dados da Eurostat indicam que milhões de imigrantes chegaram ao continente ao longo da última década, pressionando sistemas de assistência social, políticas habitacionais e mercados de trabalho em vários países.

Enquanto defensores da integração global argumentam que a imigração pode compensar o envelhecimento demográfico europeu, críticos apontam dificuldades de integração cultural e desafios de segurança em determinadas regiões. Ao mesmo tempo, agenda ambiental e energética também esteve no centro das discussões em Davos. Propostas ligadas à transição energética, descarbonização da economia e investimentos em tecnologias verdes continuam sendo defendidas por organizações internacionais e por parte significativa da liderança política europeia.

Entretanto, opositores dessa agenda argumentam que determinadas políticas ambientais podem gerar custos econômicos elevados, especialmente em setores industriais tradicionais. Em alguns países europeus, protestos de agricultores e trabalhadores industriais têm expressado preocupações sobre o impacto de regulações ambientais mais rigorosas sobre competitividade e emprego. Essa divergência ilustra o núcleo do debate atual.

De um lado, defensores da governança global sustentam que problemas como mudança climática, migração e segurança digital exigem soluções multilaterais coordenadas. De outro, líderes e movimentos soberanistas argumentam que decisões fundamentais devem permanecer sob controle direto das nações, que seriam as verdadeiras responsáveis perante seus cidadãos.

A edição de 2026 do encontro em Davos tornou visível essa fratura intelectual e política. Propostas apresentadas no fórum enfatizaram cooperação internacional, investimentos sustentáveis e integração econômica ampliada. Paralelamente, discursos e posicionamentos de vários líderes políticos refletiram crescente eticismo em relação a projetos que possam reduzir a autonomia decisória dos Estados nacionais.

Europa aparece como um dos principais cenários dessa tensão. O continente enfrenta simultaneamente desafios demográficos, pressão migratória, competição econômica global e necessidade de adaptação energética. Nesse ambiente complexo, diferentes correntes políticas disputam interpretações sobre qual caminho seguir. Alguns defendem aprofundar a integração e fortalecer instituições multilaterais. Outros argumentam que a recuperação da capacidade decisória nacional representa condição necessária para preservar estabilidade econômica e coesão social.

 

A frase que foi pronunciada:
A globalização desenfreada beneficiou alguns, mas foi uma catástrofe para a maioria.
Marine Le Pen

Marine Le Pen. Foto: infomoney.com

 

História de Brasília
O comércio de Brasília está apavorado com o número de publicações que tem saido ultimamente. Quando sai uma publicidade local no Correio Braziliense, os nossos dêsses jornais” atiram-se contra os comerciantes, e, às vezes, ameaçam até chantagem. Denunciem, e nós publicaremos. (Publicada em 16.05.1962)

Promessas eleitorais afetam ciclos econômicos

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Foto: Hermínio Bernardo/TV Globo

 

Com o debate sobre a adoção ampla de uma jornada de trabalho do tipo “cinco por dois”, apresentada por setores políticos como avanço civilizatório e promessa de campanha, um ponto importante é recolocado no centro da agenda nacional acompanhado de uma questão clássica: até que ponto políticas trabalhistas podem ser dissociadas da produtividade real de uma economia. Em um país com crescimento modesto, elevada informalidade e carga tributária complexa e alta como o Brasil, mudanças estruturais no regime de trabalho exigem análise rigorosa de seus efeitos econômicos concretos, a médio e longo prazo. A discussão não é, em si, ilegítima.

Ao longo do século XX, a redução progressiva da jornada de trabalho acompanhou ganhos de produtividade, inovação tecnológica e expansão do capital humano. O problema surge quando a promessa de menos trabalho antecede, em vez de resultar, desses ganhos estruturais. Dados de organismos internacionais indicam que a produtividade do trabalho no Brasil permanece estagnada há décadas quando comparada a economias desenvolvidas e mesmo a países emergentes. Isso significa que o país produz menos valor por hora trabalhada do que a maioria de seus concorrentes globais. Quando a produtividade cresce, é possível trabalhar menos sem reduzir renda agregada. Quando não cresce, reduzir horas implica um dilema econômico inevitável, como manter salários com menos produção, elevando custos unitários; reduzir salários para preservar custos, afetando o poder de compra ou absorver o impacto via desemprego e informalidade.

Em setores de alta tecnologia, ganhos de eficiência podem compensar reduções de jornada. Mas a estrutura produtiva brasileira é fortemente composta por serviços de baixa margem, comércio e pequenas empresas, cuja capacidade de absorver aumento de custos é limitada. Com isso pequenas empresas, o elo mais vulnerável serão as mais afetadas. Mais de 90% das empresas brasileiras são micro e pequenas. São elas que concentram grande parte do emprego formal e informal do país. Para esse segmento, a jornada de trabalho não é apenas uma variável social, é uma variável de sobrevivência financeira. Uma redução compulsória de horas, sem contrapartida de produtividade ou desoneração tributária significativa, pode gerar efeitos encadeados tais como a necessidade de contratar mais trabalhadores para manter a operação; o aumento do custo trabalhista total; a elevação de preços finais; a perda de competitividade e a redução de postos formais.

Outro elemento estrutural do debate é o peso dos encargos sobre a folha salarial. O custo total de um trabalhador formal no Brasil ultrapassa significativamente o valor líquido recebido por ele. Qualquer alteração na organização da jornada que não enfrente essa distorção pode ampliar o descompasso entre custo empresarial e renda efetiva do trabalhador. Sem reforma tributária sobre o trabalho ou aumento relevante de produtividade, a redução generalizada de horas pode significar além de um custo maior para empregar, gerar incentivo à automação defensiva com redução de oportunidades para trabalhadores menos qualificados. O impacto distributivo é evidente. Políticas trabalhistas têm efeitos distributivos complexos.

Trabalhadores qualificados, inseridos em setores produtivos, tendem a preservar renda e benefícios. Já os trabalhadores de menor renda, mais expostos à informalidade e ao desemprego, absorvem a maior parte dos ajustes econômicos. Assim, uma política concebida como ampliação de bem-estar pode, paradoxalmente, aprofundar desigualdades no mercado de trabalho, caso não esteja ancorada em bases produtivas sólidas.

Em períodos eleitorais, propostas de impacto imediato sobre o cotidiano do trabalhador ganham apelo político. A redução da jornada é facilmente compreendida como melhoria direta da qualidade de vida. No entanto, políticas públicas estruturais não podem ser avaliadas apenas por sua atratividade simbólica, mas por sua sustentabilidade econômica. Experiências internacionais mostram que reduções bem-sucedidas de jornada ocorreram quando foram acompanhadas por um forte crescimento de produtividade; investimentos em tecnologia; reorganização produtiva e diálogo social amplo entre Estado, empresas e trabalhadores. Sem esses fatores, a política tende a gerar custos difusos e benefícios concentrados. O dilema é central. A pergunta fundamental não é se trabalhar menos é desejável, mas quando e sob quais condições isso se torna viável. Economias mais produtivas podem distribuir melhor o tempo de trabalho.

O debate sobre a jornada 5×2 deveria ser precedido por uma discussão mais ampla sobre: produtividade nacional; custo do trabalho formal; estrutura tributária; competitividade empresarial além de qualificação da força de trabalho. Sem esse alicerce, a promessa de trabalhar menos pode converter-se em um ajuste econômico mais severo do que o previsto  especialmente para os mais vulneráveis. O desafio do país não é escolher entre bem-estar e responsabilidade econômica, mas construir políticas que permitam ambos coexistirem de forma sustentável. Até agora nem uma coisa nem outra tem sido levado adiante com responsabilidade.

 

A frase que foi pronunciada:
“Uma nação desunida jamais vai prosperar.”
Senador Cleitinho

 

História de Brasília
Ninguém mais util, pois, do que aquelle que se destina a mostrar, com evidência, os accontecimentos do presente, e desenvolver as sombras do futuro”. (Publicada em 15.05.1962)

O dilema da sustentabilidade econômica brasileira

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Charge do @orlando.pedroso

 

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho, com o fim da escala 6×1 sem diminuição de salários, somada à proposta de tarifa zero nos transportes públicos, surge no debate nacional como bandeira política sedutora, especialmente em um contexto eleitoral. Segundo o atual governo e sua base de apoio, tais medidas atenderiam a uma “demanda popular” reprimida e representariam um avanço civilizatório. No entanto, quando essas propostas são analisadas à luz da realidade fiscal, demográfica e produtiva do Brasil, o que se revela é um quadro de alto risco econômico e social, com potencial para comprometer o futuro do país.

O ponto de partida dessa análise precisa ser objetivo: o Brasil não é um país rico sem trabalho. Apesar de seu tamanho continental, de seus recursos naturais abundantes e de sua população numerosa, a produtividade média do trabalhador brasileiro permanece baixa quando comparada a economias desenvolvidas e até mesmo a vários países emergentes. A renda per capita brasileira oscila em torno de US$ 10 mil anuais, enquanto países que adotam jornadas menores e ampla rede de bem-estar social apresentam rendas per capita duas, três ou quatro vezes maiores.

Esse dado isolado já deveria impor cautela a qualquer tentativa de importar modelos estrangeiros sem considerar as condições locais. Hoje, mais de 94 milhões de brasileiros, cerca de 44% da população, dependem diretamente de programas assistencialistas. O custo anual dessas políticas supera R$ 500 bilhões. Esse valor não surge do nada: ele é financiado por impostos, dívida pública e, em última instância, inflação.

Em termos matemáticos simples, trata-se de uma transferência maciça de renda de uma parcela produtiva cada vez menor da sociedade para uma parcela crescente que vive, total ou parcialmente, do Estado. Se considerarmos que a população ocupada no Brasil gira em torno de 100 milhões de pessoas, temos uma relação aproximada de um trabalhador ativo para cada beneficiário direto de programas sociais. Quando se excluem crianças, idosos e trabalhadores informais de baixa renda que também recebem benefícios, essa relação se torna ainda mais desfavorável. Em outras palavras, um contingente cada vez menor de contribuintes é chamado a sustentar um contingente cada vez maior de dependentes do Estado.

A proposta de reduzir a jornada de trabalho sem redução salarial agrava esse desequilíbrio. Do ponto de vista matemático, salário é remuneração por unidade de produtividade. Se um trabalhador produz X em 44 horas semanais e passa a produzir o mesmo X em 36 ou 40 horas, o custo por hora trabalhada aumenta automaticamente. Para empresas com margens apertadas, que são a maioria no Brasil, isso significa uma de três alternativas: reduzir contratações, aumentar preços ou fechar as portas. Nenhuma delas beneficia a sociedade no médio e longo prazo. Suponha-se, por exemplo, uma empresa com 100 funcionários que trabalham 44 horas semanais. A redução da jornada para 36 horas, sem redução salarial, representa uma perda de cerca de 18% da força de trabalho em termos de horas. Para manter o mesmo nível de produção, a empresa precisaria contratar, aproximadamente, 18 novos funcionários. Isso implica aumento de custos trabalhistas, encargos sociais, benefícios e riscos jurídicos.

Quando o Estado gasta mais do que arrecada, ele só tem três opções: aumentar impostos, emitir dívida ou inflacionar a moeda. O aumento de impostos penaliza diretamente quem trabalha e produz, desestimulando investimentos e incentivando a informalidade. A emissão de dívida empurra o problema para o futuro, elevando o custo do serviço da dívida e comprometendo gerações futuras. A inflação, por sua vez, funciona como um imposto oculto que corrói, principalmente, a renda dos mais pobres, justamente aqueles que os programas sociais afirmam proteger. Matematicamente, o modelo assistencialista em expansão enfrenta um limite intransponível: a base de arrecadação não cresce no mesmo ritmo que as despesas.

A desigualdade só é combatida de forma sustentável quando há aumento de produtividade, educação de qualidade, segurança jurídica e ambiente favorável ao empreendedorismo. Transferências de renda podem aliviar situações emergenciais, mas, quando se tornam estruturais e permanentes, sem contrapartidas claras, transformam- -se em armadilhas sociais e fiscais. O argumento de que países europeus adotam jornadas menores e forte proteção social ignora um detalhe crucial: esses países enriqueceram antes de distribuir. Construíram Estados de bem-estar após décadas ou séculos de acumulação de capital, industrialização e ganhos expressivos de produtividade.

Tentar inverter essa ordem é como querer repartir um bolo que ainda não foi assado. O Brasil, ao contrário, parece insistir em um modelo que penaliza sistematicamente quem produz e recompensa a dependência do Estado. A matemática não perdoa. Nenhuma sociedade prospera de forma duradoura quando mais da metade de sua população depende direta ou indiretamente do trabalho da outra metade, especialmente quando essa metade produtiva é sobrecarregada por impostos, burocracia e insegurança jurídica.

Se mantido o atual rumo de expansão de programas assistencialistas, redução artificial da jornada de trabalho e aumento de gastos públicos sem lastro produtivo, o futuro previsível é de baixo crescimento, desemprego estrutural, inflação recorrente e crises fiscais cada vez mais frequentes. A história econômica está repleta de exemplos. O Brasil corre o risco de repetir esse roteiro se insistir em políticas que ignoram limites fiscais e produtivos em nome de ganhos políticos imediatos. A verdadeira política social responsável não é aquela que promete benesses infinitas, mas a que cria condições para que menos pessoas precisem delas. Isso exige coragem para dizer o óbvio: não existe almoço grátis, não existe prosperidade sem trabalho, e não existe justiça social duradoura sem uma economia saudável. Ignorar essa equação é empurrar o país, lentamente, para o despenhadeiro.

 

A frase que foi pronunciada:
“A escala 6×1 é a mais cruel existente na face da Terra, em especial para as mulheres. E creio que o Brasil e a economia brasileira estão totalmente maduros para fazer a revisão da jornada máxima do país e, junto com isso, eliminar a escala 6×1”
Luiz Marinho, ministro do Trabalho e Emprego

Ministro de Estado do Trabalho e Emprego Luiz Marinho. Foto: gov.br

 

História de Brasília

Os Institutos de Previdência não estão acompanhando a espiral da inflação. O financiamento de casas para trabalhadores ainda é da ordem de 800 mil cruzeiros, quando uma casa popular quase sempre custa mais de um milhão. (Publicado em 13/5/1962)

The Economist, o recado está dado.

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Lula. Foto: Getty Images

Nessa semana, a revista The Economist mostrou reportagem em que faz severas críticas à pessoa e à atuação política do presidente brasileiro. Tanta repercussão causou nos bastidores que o próprio Itamaraty teve que entrar em cena para em carta defender nosso comandante. Por mais que se pretenda defender o mandatário, as críticas, na sua grande maioria, são procedentes e mostram que o líder nacional está perdido no espaço, talvez pelo pesar dos anos de uma vida regada a álcool e a excessos de todo o tipo. O importante aqui é saber até que ponto o atual governo tem sido de fato o responsável pelo aprofundamento da crise econômica e política que, mais uma vez, vai empurrando o país para a periferia do mundo civilizado, transformando o Brasil numa espécie de pária internacional, ligado aos piores e mais falidos regimes do planeta.

Neste momento, vivemos um grave risco estrutural: à medida que o mundo se realinha geopoliticamente e fortalece cadeias de valor modernas, a atuação do governo sinaliza um recuo em suas capacidades como ator internacional relevante e coloca em xeque o projeto de retomada econômica sustentada. A recente avaliação da The Economist de que Lula “perdeu influência no exterior e é impopular no Brasil” traz, em forma de alerta editorial, o que está em jogo para o país. O primeiro grande problema é a política externa. O Brasil tem dado preferência visível a países como China, Rússia e Irã, numa guinada que a revista qualifica como “cada vez mais hostil ao Ocidente”. O alinhamento ou a aparência de alinhamento com regimes autoritários ou contestados internacionalmente compromete a credibilidade do país junto a mercados, investidores e parceiros tradicionais.

Em um mundo onde confiança, previsibilidade e integração global geram crescimento, o Brasil corre o risco de se tornar peripheral – menos interlocutor, mais espectador. Em segundo lugar, um perfil interno de fraqueza institucional parece crescer. The Economist destaca que a desaprovação popular atingiu níveis críticos, e que o Legislativo derrubou um decreto presidencial, algo inédito em décadas, mostrando que o Executivo perdeu fôlego político.

Se a política econômica e institucional perde sustentação, a estabilidade requerida para investimentos, reformas e credibilidade se esvai rapidamente. A economia, claro, sofre o impacto. Apesar de alguns dados pontuais positivos, a tendência é de estagnação ou de crescimento fraco se nada for feito para modernizar a estrutura produtiva, logística, regulação e geração de valor agregado. Um presidente que se isola internacionalmente e que acumula desgaste interno dificilmente mobiliza energias para reformas profundas. Assim, o Brasil pode estar prestes a repetir ciclos de baixo crescimento, déficit estrutural e falta de dinamismo, exatamente o oposto da narrativa de “novo ciclo” que muitos pregam. Além disso, a identidade internacional do Brasil que, há poucos anos, era de “potência intermediária” em ascensão corre o risco de se converter em país alinhado majoritariamente a regimes falidos ou contestados. Isso não só fragiliza o soft-power brasileiro, mas cria vulnerabilidades: mercados multilateralizados podem preferir fornecedores, parceiros ou blocos que ofereçam menor risco reputacional ou político.

Se o Brasil se torna aliado de regimes vistos como instáveis ou autoritários, ele se expõe e pode pagar o preço em barreiras comerciais, financiamento internacional e até insegurança geopolítica. No âmbito interno, a imagem de um presidente “perdido no espaço” fruto, segundo alguns críticos, de anos de vida pública marcada por excessos embora mereça cautela, simboliza para muitos a sensação de que não há uma liderança clara, renovadora e propositiva. A combinação de desgaste, rumor de alianças de conveniência e ausência de projeto claro de futuro configura um terreno fértil para que o país fique refém de “gestão do dia a dia” em vez de “dobradinha de rumo e execução”.

Essa é a fórmula para que o país tenha muito a perder: a falta de influência externa, o declínio interno de legitimidade, a incapacidade de gerar crescimento robusto, o risco de isolamento diplomático e econômico, e a possível transformação de parceiro relevante em bem-menos-importante. A estagnação econômica pavimenta o caminho para o desemprego, a migração de cérebros, a fuga de capitais, e o retrocesso social. O prestígio perdido dificulta reformas estruturais porque reduz tanto o “capital político” quanto o “capital internacional”, que viabilizam grandes movimentos.

Para reverter esse quadro, o país precisa urgentemente que o presidente e a coalizão que o apoia retornem à lógica de construção de confiança: confiança internacional (parcerias sólidas, não conjunturais), confiança doméstica (instituições funcionando, execução crível) e confiança econômica (produto crescente, investimento privado, funcionamentos de mercado). Sem isso, o Brasil não apenas deixará de decolar, ele corre o risco de retroceder. O cenário ideal em vez de “país pária” não é inevitável, mas exige que se pare de repetir erros do passado e venha a assumir com humildade que, sob a liderança atual, há mais interrogações do que certezas.

A reportagem da The Economist não deve ser lida como simples provocação estrangeira, ela serve como espelho desconfortável de uma situação que parece melhor compreendida à distância, fora do alcance da censura e dos adesismos de ocasião.

 

A frase que foi pronunciada:

“O trabalho foi o primeiro preço, o dinheiro original que foi pago por todas as coisas. Não foi com ouro ou prata, mas com trabalho, que toda a riqueza do mundo foi originalmente comprada.”

Adam Smith

Adam Smith The Muir portrait. Imagem: wikipedia.org

História de Brasília

Na Quadra 7 do SCR as calçadas não estão completas. Onde há casa comercial, a calçada é feita. Onde há passagem para a W-2 é todo esburacado o piso. (Publicada em 10.05.1962)

Mercado de ilusões

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Foto: Ricardo Stuckert – 02 de julho de 2025

 

Discussões sobre taxar grandes fortunas e investimentos dos chamados super-ricos, por mais antiga que seja, insiste em ressurgir nos corredores do poder como se fosse a mais brilhante das inovações econômicas. Não é. A história política e econômica mundial já forneceu inúmeros exemplos, em distintas épocas e contextos, demonstrando que tais medidas, quando gestadas às pressas, apenas para cobrir déficits ou aplacar pressões sociais, pouco ou nada alteram a realidade estrutural de um país. A insistência nessa tecla, travestida de justiça social, não se sustenta diante da experiência acumulada. É como um disco arranhado que volta sempre ao mesmo refrão, mas sem convencer a plateia que já percebeu a falsidade da melodia.

Curioso, ou talvez  trágico, é que mesmo após sucessivos fracassos, governos continuam a apostar nesse expediente. Apresenta-se ao povo a imagem de que se trata de uma correção moral, de uma reparação simbólica contra desigualdades que seriam responsabilidade exclusiva dos detentores de grandes patrimônios. Nada mais ilusório. Essa retórica, ao mesmo tempo sedutora e maniqueísta, transfere, para uma classe social determinada, a culpa pelos males que têm raízes bem mais profundas: a ineficiência administrativa, o gasto público descontrolado, a corrupção endêmica e, sobretudo, a incapacidade do Estado de reformar a si mesmo. É mais fácil apontar o dedo para os ricos do que olhar para dentro dos palácios governamentais, onde se tomam as decisões que repercutem, quase sempre negativamente, na vida de todos.

Diferentemente das pessoas, o capital não tem nacionalidade nem apego emocional à terra em que repousa. Move-se silenciosamente, atraído pela previsibilidade, pela estabilidade e pela segurança. Se um país ameaça, pela via tributária, confiscar parte relevante, não hesitará em buscar outros destinos. Há, no mundo, um mercado ávido por acolher investimentos, e dele participam países que competem, justamente, oferecendo menos risco e mais confiança. Por isso, quando o governo anuncia que arrecadará dezenas de bilhões com uma nova taxação, como se fosse um maná caído do céu, omite o detalhe de que essa previsão já nasce falha. O que se projeta como R$ 54 bilhões, em cálculos otimistas, dificilmente se confirmará diante das múltiplas rotas de fuga que o capital encontrará.

Enquanto isso, permanece inalterada a essência da economia real: são os empresários, os investidores e os empreendedores que, por meio de suas iniciativas, criam empregos e dinamizam cadeias produtivas. A demonização dessa parcela da sociedade, embora útil como discurso político, ignora que é dela que depende, em boa parte, a geração de riqueza do país. Nas economias centralizadas, onde o Estado se impõe como único motor, a história já mostrou os resultados: escassez, burocracia sufocante, desestímulo à inovação e, por consequência, pobreza generalizada. No entanto, governos efetivamente democráticos, que deveriam aprender com tais exemplos, preferem repetir o erro, com roupagens modernas, mas com igual essência.

Tão proclamada e tão raramente praticada, a verdadeira justiça tributária exigiria uma postura diversa. Antes de qualquer nova cobrança, seria necessário reconhecer os próprios erros, admitir a irresponsabilidade nos gastos, a falta de planejamento, a persistência de desvios e privilégios. Esse gesto de humildade, embora raro, seria o primeiro passo para uma correção de rumos. Mas a política, com frequência, prefere a conveniência à sinceridade.

Não se pode ignorar ainda que os grandes grupos econômicos, dada a influência que possuem nos diversos setores da vida nacional, inclusive na máquina pública, dificilmente são pegos de surpresa. Possuem canais de informação privilegiados, relações estratégicas e mecanismos jurídicos que lhes permitem antecipar-se a qualquer investida arrecadatória. Quando a lei entra em vigor, já trataram de blindar seus ativos, transformando-os em fundos de previdência, transferindo-os ao exterior ou utilizando instrumentos financeiros que os protejam. O Estado, que se julga esperto, invariavelmente, chega atrasado à corrida.

Quem fica preso à armadilha é o cidadão comum. Para ele, não há paraísos fiscais, nem fundos blindados, nem assessorias jurídicas sofisticadas. Paga-se o preço da arrecadação mal conduzida e da ineficiência pública com impostos cada vez mais pesados sobre consumo, sobre trabalho, sobre serviços básicos. A farsa da taxação dos super-ricos não se reverte em alívio para os mais pobres, não reduz tributos indiretos, não amplia a justiça social. É apenas um jogo de cena, no qual se anuncia um castigo para poucos e se impõe, em silêncio, uma carga ainda maior para muitos.

Se o governo, de fato, desejasse aumentar sua arrecadação sem ferir a confiança dos investidores e sem promover a evasão de capitais, poderia voltar-se para si mesmo. O combate sistemático à corrupção, que corrói recursos bilionários todos os anos, teria efeito muito mais robusto e imediato. A revisão de privilégios de altos cargos, frequentemente sustentados por salários e benefícios muito acima da média, traria credibilidade às medidas de ajuste. Mas essa agenda, todos sabemos, é incômoda.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Nós temos um problema que é uma deficiência cultural no Brasil. Todo benefício que você dá para o setor produtivo, para os empresários, para que uma empresa possa se instalar num estado, para que a gente possa evitar crise econômica – e eu já fiz muito –, você dá por um ano, por dois anos… Quando você quer tirar, é muito difícil, as pessoas querem que seja permanente”.

Presidente Lula

Presidente Lula. Foto: Ricardo Stuckert/PR

 

História de Brasília

Uma nota para os que falam no retorno da Capital; há vagas em todas as escolas do Plano Piloto para qualquer ano do curso primário. (Publicada em 09.05.1962)

A fuga

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Ilustração: revistaexilio.substack

 

Na equação matemática que analisa a variação nos números da riqueza de um indivíduo ou empresa, não há lugar para variantes que representem perdas ou diminuição de patrimônio. Ao primeiro sinal de que essa variação na riqueza tende a decrescer, soa o alarme e as luzes vermelhas, indicando que é hora de proteger o capital. Em toda a parte e em todo o tempo da história humana, o senso de proteção dos bens é uma atitude natural. A questão é simples: se você não cuida de proteger o que é seu por direito, não espere que outros venham a fazê-lo em seu lugar.

Na atual situação de penúria econômica em que vive o Brasil, resultado, como sabemos, da ação perdulária da atual gestão do país, não chega a ser estranho que parte da população mais rica tenha escolhido o caminho do aeroporto para salvaguardar a si e a seus bens. Não tendo a quem mais culpar pelos descaminhos das finanças, o governo, movido por ideais de matizes socialistas, passou a mirar nos mais ricos, acusando-os primeiro de serem insensíveis à evidente bancarrota nacional, para depois justificar um conjunto de medidas draconianas, visando dilapidar também todo e qualquer patrimônio privado, na forma de novos e escorchantes impostos.

Pelo o que foi divulgado, a intenção é impor uma tributação progressiva para aqueles que o governo chama de super-ricos. Ora, ora, ora, se fosse para tributar, com essa sede, os muitos super-ricos que compõem o atual governo, a medida ficaria de bom tamanho. Mas nesse lado do muro não se mexe em nada. A questão está do outro lado e recai, principalmente, sobre os empresários que nada devem ao governo e estão fora do clube dos campeões eleitos. Como aqueles que geram riquezas não padecem do mal da burrice, a solução é colocar o dinheiro nas malas e sair o mais rapidamente do país. Quem entende minimamente da aritmética das finanças, e percebe a ladeira abaixo em que vai rolando o país, sabe que nem com todo o dinheiro arrancado dos super-ricos seria possível salvar o Brasil. Também nesse ponto, a questão é simples: não é o dinheiro que falta ao país, e sim a boa gestão dos recursos que já possui e que nos tornaram o país com a maior carga tributária do planeta. É como repetia o filósofo de Mondubim: quem não respeita os centavos, não respeita os milhões, pois dinheiro não aceita desaforo e por ele não se deve nem brigar, nem brincar.

No Febeapá que assola o Ministério da Economia, ninguém está livre de ser tungado, até que mostre os bolsos vazios virados ao avesso. É claro que a culpa pela falência anunciada não é dos super-ricos, mas tão só e exclusivamente da atual desastrosa gestão do país. Mas isso não se diz. Êxodo de milionários: Para se ter uma ideia do desastre que é mirar nos super-ricos, acusando-os de serem os responsáveis por mais essa crise, temos que em 2025, o Brasil deve registrar a saída líquida de cerca de 1.200 milionários (pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão), um recorde para a América Latina, o que representa uma perda estimada de US$ 8,4 bilhões em riqueza transferida para o exterior. Isso também marca um aumento expressivo de 50% em relação a 2024, quando apenas cerca de 800 milionários deixaram o país.

Esse  movimento para fora, coloca o Brasil como o 6º maior país no êxodo global de milionários em 2025, atrás apenas do Reino Unido, China, Índia, Coreia do Sul e Rússia. Entre os principais destinos desse pessoal incluem EUA (notadamente a Flórida), Portugal, Ilhas Cayman, Costa Rica e Panamá, ou seja. onde seu dinheiro é respeitado. Essa migração certamente valida a impressão de que os mais ricos, alertados por instabilidade política, carga tributária elevada, insegurança e gestão econômica problemática, estão realmente buscando proteção para seus bens (e suas famílias) em outros lugares bem longe do Brasil e do seu governo. Outros dados também influenciam nesse êxodo como a percepção de que a corrupção continua altíssima: 59,1% dos brasileiros relatam ter “pouca ou nenhuma” confiança na imparcialidade do sistema judiciário.

Além disso, 90,1% acham que políticos são raramente ou nunca punidos, número que sinaliza descrédito institucional profundo. Talvez, não seja surpresa nesse momento que a apropriação de gestão econômica também está sob fogo: pesquisas entre janeiro e fevereiro de 2025 mostram desaprovação da gestão presidencial muito superior à aprovação, chegando a 51% de reprovação e apenas 24% de aprovação. Por outro lado, as preocupações com inflação, carga tributária, economia e reforma tributária são predominantes entre os brasileiros, sobretudo, a inflação foi apontada por 75% como o maior problema econômico do nosso país hoje.

O sistema tributário brasileiro e a burocracia são reconhecidos como um dos principais entraves às empresas: o chamado “Custo Brasil” inclui infraestrutura deficiente, carga tributária alta e complexa, o que torna a indústria menos competitiva, segundo levantamento recente. A política de taxação agressiva contra os mais ricos, em especial propostas como maior tributação sobre patrimônio, herança e dividendos, parece uma contradição flagrante: em vez de aumentar a arrecadação, pode acelerar a fuga de pessoas e recursos, diminuindo a base tributável efetiva e fragilizando ainda mais o país. É o tiro no pé que faltava. Além disso, a saída anual de 1.200 milionários representa não só uma perda imediata de capital, mas também de poder influente, investimentos, empregos e inovação, fatores críticos para recuperação econômica. Ignorar falhas de gestão, corrupção e baixa confiança pública, ao atribuir a “falta de respeito por centavos” apenas a um grupo econômico, desvia o foco do núcleo do problema: a derrocada estrutural vem da má administração, e não da concentração de riqueza per si.

 

A frase que foi pronunciada:
 “Sell in may and ago away”. (Venda em maio e vá embora)
Provérbio do Mercado Financeiro

Charge do Cazo

 

História de Brasília
O senhor Martins Rodrigues, que reside em Brasília, e que daqui a pouco arrasta o pé , bem poderia patrocinar essa causa em benefício do Distrito Federal, com a autoridade de líder da maioria. (Publicado em 08.05.1962)

Brasil perdeu o bonde da economia

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Presidente Lula. Foto: Ricardo Stuckert/PR

 

Com a ascensão de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos, um rompimento explícito com a ordem econômica global estabelecida a partir da década de 1990 foi deflagrado, contra a então predominância do globalismo. Com isso, houve um rompimento nos mercados abertos, nas cadeias produtivas transnacionais, na livre circulação de capitais e a busca de organismos multilaterais como a OMC, o FMI e o Banco Mundial como instâncias reguladoras. O que estamos assistindo é uma revolução não só nos Estados Unidos, como no restante do mundo. Trump, desde a campanha de 2016, apostou em uma visão de geoeconomia soberanista, baseada na lógica do “America First”. Essa linha, como não podia deixar de acontecer, rompeu com a ortodoxia liberal internacionalista dos próprios republicanos e democratas tradicionais, produzindo impactos profundos em todo o sistema então vigente.

A começar pela guerra comercial com a China, com as tarifas impostas por Trump em 2018, abrindo uma nova fase de rivalidade econômica, onde a interdependência passou a ser vista não como segurança, mas como vulnerabilidade estratégica. Esse movimento levou a uma fragmentação nas cadeias globais de suprimentos, acelerando a busca pelos chamados reshoring (trazer indústrias de volta ao território nacional) e nearshoring (aproximação da produção em países vizinhos, como o México).

A administração Trump provocou também uma erosão do multilateralismo, enfraquecendo, por tabela, o papel da OMC, ao bloquear indicações para seu órgão de apelação, pressionando, ainda, aliados europeus a aumentarem gastos militares sob ameaça de sanções comerciais, além de questionar abertamente as alianças como a Otan sob a ótica custo-benefício. Com essas medidas, a economia mundial deixou de ter os EUA como líder previsível do “consenso globalista” e passou a lidar com uma potência mais transacional e pragmática. Afinal, já era tempo.

O resultado foi a elaboração de uma nova lógica de alianças. Em vez de defender a universalidade do livre comércio, os EUA passaram a firmar acordos bilaterais vantajosos, como renegociações com o México e o Canadá (USMCA, substituto do Nafta), em que garantiram melhores condições para a indústria americana. Isso, obviamente, mudou a lógica do comércio internacional, estimulando outros países a pensarem em termos de blocos fechados ou pactos estratégicos seletivos.

É o mundo se reciclando. O impacto sobre a antiga ordem globalista foi e está sendo fatal. O globalismo, baseado na ideia de um mercado único e interdependente, perdeu vigor. A pandemia de covid-19 e, depois, a guerra na Ucrânia apenas reforçaram essa tendência de desconfiar das cadeias longas de suprimento e buscar autonomia estratégica. Hoje, governos em várias partes do mundo começam a aplicar as políticas protecionistas propostas por Trump, sobretudo no setor tecnológico e energético. A rearrumação da economia em escala global, segue a todo o vapor dentro agora dos princípios da geoeconomia — ou seja, abarcando não só os aspectos espaciais da economia, mas também os aspectos temporais e políticos, sempre de olho nos recursos.

O que estamos assistindo é a uma inter-relação entre economia, geografia e política. Fosse lida nas entrelinhas, a carta endereçada por Trump ao governo brasileiro já seria necessária para uma mudança de rumos no cenário nacional, evitando, ao máximo, a geração de conflitos de ordem ideológica com o governo americano. O Brasil, ao longo das últimas décadas, oscilou entre o entusiasmo globalista e a retórica ideológica. O problema é que, ao permanecer preso a narrativas antiquadas de um comunismo ultrapassado e a disputas políticas internas, perdeu capacidade de reposicionamento no cenário internacional. Com isso, as consequências não poderiam ser outras daquelas que agora vemos. A começar pela perda de protagonismo comercial: enquanto México e países do Sudeste Asiático se beneficiam do “desvio de comércio” provocado pela guerra EUA-China, o Brasil segue grudado em debates ideológicos e a uma excessiva dependência da exportação de commodities.

O próprio Brics se constitui neste momento como uma espécie de amarras para nosso país. O que se vê, logo de saída, é a dificuldade de integração a novas cadeias produtivas: a indústria brasileira não conseguiu atrair investimentos estratégicos em semicondutores, baterias, inteligência artificial e biotecnologia, setores centrais da nova geoeconomia. Também se vê apego a modelos ultrapassados: parte da elite política e intelectual insiste em discursos de luta de classes e narrativas anti-imperialistas do século 20, enquanto o mundo caminha para um realismo geoeconômico pragmático, em que países buscam soberania produtiva e alianças flexíveis.

Dessa forma, o risco de irrelevância estratégica desponta no horizonte. Sem uma política externa clara que saiba negociar com EUA, China e Europa ao mesmo tempo, o Brasil corre o risco de permanecer apenas como fornecedor de produtos primários, sem influência real nos novos arranjos globais. É o prolongamento de um subdesenvolvimento crônico, atado a políticas anacrônicas. Em vez de se adaptar a essa nova lógica de pragmatismo econômico, o Brasil ignora a oportunidade de sua inserção soberana e competitiva nessa nova ordem que parece ter vindo para ficar. É uma pena.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“A América não tem amigos permanentes ou inimigos, apenas interesses.”
Henry Kissinger

Henry Kissinger. Foto: O secretário de Estado Henry Kissinger em 12 de outubro de 1973 — Foto: AP Photo, File

 

História de Brasília
A Universidade de Brasília solicitou ao Iapi e êste à Novacap para que sejam abertas fossas “provisórias” para os blocos 4 e 7 da superquadra 305. Nada mais absurdo. Ou muda tudo ou não deve haver privilégio em detrimento de outros.
(Publicada em 5/5/1962)

Mundo fake

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Arquivo pessoal: imagem gerada por IA

 

Quão fake e fantasiosos seriam os serviços e produtos oferecidos ao público em geral, sobretudo aqueles que são colocados à venda para uma pequena minoria de pessoas abastadas, para as quais o dinheiro não é problema. É então que a busca por status e por produtos e serviços exclusivos levam esses consumidores privilegiados a se tornarem presas fáceis nas mãos de empresas e empresários gananciosos, que, literalmente, seguem vendendo e ofertando gatos por lebres.

Embalado em finos adereços e dispostos pretensiosamente em cenários chiques, o que não passaria por ser um produto comum e barato, é colocado nessas verdadeiras ratoeiras apenas para fisgar os incautos. Para tanto, mudam o nome do produto, colocando outro mais palatável e, se possível, carregado de francesismo. Dessa forma, o elementar arroz misturado com ovo, prato predileto dos mais pobres dos brasileiros, passa a ser servido com nome exótico de “riz mèlangé avec des oeufs dur ou riz d’ouefs”.

O que os botecos venderiam por R$ 10,00 aos transeuntes, nesse cenário chique, não sairia por menos de R$ 150,00, sem os serviços. A mesma calça jeans, que nas lojas populares não custam mais do que R$ 110,00, são vendidos em lojas de endereços renomados, pela bagatela de R$ 900,00, bastando ao espertalhão mudar apenas a etiqueta da marca. Assim, esse mundo fantasioso e fake, bancado por quem se ilude com o luxo, sobrevive e prospera graças à esperteza de alguns.

Nada é o que parece e o que parece não é nada, apenas uma fantasia desse mundo cada vez mais fake. O que poderia ser um retrato ácido e realista de uma engrenagem que movimenta bilhões, sob o pretexto do “exclusivo”, não passa de enganação. Uma enganação lucrativa e aparentemente dentro da lei. A economia do supérfluo sofisticado gira em torno de uma lógica perversa: não é o valor intrínseco do produto que importa, mas a narrativa construída ao seu redor. Quanto mais rara, inusitada ou instagramável for essa narrativa, maior o valor percebido pelo consumidor de luxo — mesmo que, no fundo, o que esteja sendo comprado seja apenas um produto ordinário com embalagem de fantasia.

A elite consumista, em busca constante de distinção social, torna-se presa fácil dessa armadilha. Muitas vezes, o desejo não é possuir algo de qualidade superior, mas algo que os outros não tenham. Essa lógica de exclusividade empurra consumidores para escolhas irracionais, em que o valor simbólico se sobrepõe ao valor real. Nessa dinâmica, um café coado com grãos comuns pode se transformar em “infusão artesanal de arábica de origem controlada”, custando dez vezes mais. Um prato simples de picadinho de carne servido em pratos de louça importada e regado a discursos vazios de sofisticação com gosto de molho de pacotinho vale uma cesta básica e meia. É o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou de distinção: um mecanismo de diferenciação cultural que serve para demarcar classes sociais. Marcas e empresários se aproveitam disso e atuam como verdadeiros ilusionistas, substituem o conteúdo pela embalagem, o sabor pela aparência, a utilidade pela ostentação.

Mais grave ainda é quando essa lógica ultrapassa o campo dos produtos e entra nos serviços: clínicas estéticas que prometem o impossível, experiências sensoriais supostamente únicas, pacotes de viagens absurdamente caros que oferecem pouco, além de um nome de impacto. Tudo é vendido como “inesquecível”, “personalizado”, “exclusivo”, mas, na prática, é apenas mais do mesmo, embrulhado em papel de presente luxuoso.

Na verdade, o problema não está só na astúcia dos vendedores, mas na credulidade dos compradores, que participam desse jogo voluntariamente e “se achando”. Essa cumplicidade silenciosa alimenta um mercado que vive de aparência, status e desejo, não de substância. Em última análise, esse mundo fake é sustentado por um teatro de vaidades. Um teatro caro, vazio e muitas vezes patético, onde a autenticidade foi substituída por etiquetas, e o bom senso por cifrões.

O luxo verdadeiro — aquele que representa excelência, história, técnica e arte é cada vez mais raro. No lugar dele, proliferam vitrines falsas, promessas ocas e produtos que são, na essência, meros “arroz com ovo” disfarçados de caviar. “Eu, minha alma, enviei para o espaço sem fim para um traço aprender nos destinos do além, minha alma devagar foi retornando a mim e me disse: eu sou o céu e o inferno também.” Registra Omar Khayyam, no livro Rubaiyat. De fato, os homens são o céu e o inferno de si mesmos, e tudo ao mesmo tempo, luxo e lixo, tudo num mesmo produto.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido em que se libertou do seu ego.”

Albert Einstein

Albert Einsten. Foto: Arthur Sasse/Nate D Sanders Auctions/Reprodução

 

História de Brasília:

O nome empregado na maioria dos golpes foi do servidor Barros de Carvalho, e os chantagistas conheciam tanto seus hábitos, que falando pelo telefone para sua residência, recomendavam com insistência para que quando fizessem a mala não esquecessem dos remédios. (Publicada em 06.05.1962)