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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Durante décadas, o futebol brasileiro foi visto como muito mais que um esporte. Foi elemento de identidade nacional, instrumento de integração social e um dos poucos espaços onde ricos e pobres dividiam a mesma paixão. Nas arquibancadas, nos campos de várzea e nos grandes estádios, consolidou-se uma das mais importantes manifestações culturais do país. Hoje, porém, essa tradição enfrenta um adversário muito mais perigoso do que qualquer rival dentro das quatro linhas: a expansão silenciosa do crime organizado sobre a economia do futebol.
Recentes investigações conduzidas por autoridades brasileiras e estrangeiras mostram que organizações criminosas passaram a enxergar o futebol não apenas como entretenimento, mas como um ambiente extremamente atraente para movimentação de recursos financeiros, lavagem de dinheiro, manipulação de resultados e ampliação de influência econômica. Trata-se de um fenômeno que já havia sido observado em diversas partes do mundo e que agora desperta crescente preocupação também no Brasil.
Relatórios de órgãos de segurança pública, investigações da Polícia Federal e estudos de organismos internacionais apontam que essas organizações diversificaram suas fontes de receita, passando a atuar em setores como mineração ilegal, contrabando de combustíveis, comércio clandestino de cigarros, grilagem de terras, transporte, logística, mercado imobiliário, fintechs clandestinas, empresas de fachada e esquemas de lavagem de dinheiro. Além disso afirmam investigadores que nos últimos anos, o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e outras organizações ampliaram significativamente sua atuação para além do tráfico de drogas. Essa diversificação segue uma lógica empresarial. Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, já afirmou que o tráfico continua extremamente lucrativo, mas também se tornou mais arriscado diante da cooperação internacional entre agências de combate ao narcotráfico.
Para reduzir riscos e ampliar receitas, essas organizações passaram a investir em atividades que ofereçam aparência de legalidade. Infelizmente o futebol tornou-se um desses ambientes. O setor reúne algumas características particularmente vulneráveis. A circulação de grandes volumes financeiros, as negociações internacionais de atletas, a valorização subjetiva dos direitos econômicos, os contratos de publicidade, o patrocínio privado e a enorme quantidade de empresas intermediárias que criam oportunidades que podem ser exploradas para ocultação da origem ilícita de recursos.
Não se trata de um problema exclusivamente brasileiro. Na Europa, diferentes operações policiais já identificaram grupos mafiosos infiltrados em clubes, torcidas organizadas, casas de apostas e esquemas de manipulação de partidas. A Interpol, a Europol e organismos ligados à FIFA vêm alertando há anos para o crescimento das chamadas redes internacionais de manipulação esportiva. A Ásia tornou-se um dos maiores mercados clandestinos de apostas do planeta. Na Itália, investigações envolvendo a máfia demonstraram, em diferentes momentos, tentativas de utilização de clubes para lavagem de capitais. Na Bélgica, Espanha, Grécia e outros países europeus também surgiram operações policiais relacionadas à manipulação de resultados. O Brasil passou a integrar esse mapa de preocupação. A explosão das plataformas de apostas esportivas acelerou ainda mais esse cenário. A regulamentação do setor buscou criar regras para um mercado que já existia informalmente, mas especialistas em prevenção à lavagem de dinheiro alertam que a fiscalização precisa acompanhar a velocidade da expansão dessas empresas.
Atualmente as apostas esportivas movimentam atualmente centenas de bilhões de dólares por ano em todo o mundo. Grande parte desse volume circula por empresas sediadas em diferentes jurisdições, dificultando o rastreamento financeiro. No Brasil, o crescimento foi extraordinário. Patrocínios de empresas de apostas passaram a ocupar praticamente todas as camisas dos clubes das principais divisões. Estádios receberam nomes comerciais vinculados às plataformas. Programas esportivos, transmissões televisivas e redes sociais passaram a incorporar publicidade permanente dessas empresas. Esse novo modelo econômico trouxe receitas importantes para clubes que enfrentavam graves dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo, aumentou o desafio regulatório. A manipulação de resultados tornou-se uma preocupação constante.
Operações conduzidas pelo Ministério Público e pelas polícias estaduais identificaram esquemas envolvendo atletas, intermediários e apostadores interessados em eventos específicos das partidas, como cartões amarelos, escanteios e faltas, sem necessidade de alterar necessariamente o placar final. Essa modalidade de fraude tornou-se sofisticada exatamente porque movimenta enormes volumes financeiros em mercados pouco perceptíveis ao torcedor comum. É importante distinguir fenômenos diferentes. A grande maioria dos clubes, atletas, dirigentes e empresas do setor atua dentro da legalidade. Também não há base para afirmar que plataformas de apostas regularmente autorizadas participem de atividades criminosas apenas por integrarem esse mercado. Essencialmente, o problema reside na utilização desse ecossistema por indivíduos ou organizações que buscam explorar suas vulnerabilidades. É justamente por isso que fiscalização eficiente se torna indispensável.
A frase que foi pronunciada:
“É só o começo”
Carlo Ancelotti
História de Brasília
A exposição de arte popular do aeroporto abriu, inaugurou, fechou e nunca mais abriu. (Publicada em 22.05.1962)

