Erro histórico do intelectual e a armadilha do porta-voz ideológico

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É certo que o pensador que abraça uma ideologia e passa a combater todos os divergentes comete um erro histórico do intelectual, pois acerta o alvo central, mas perde o entorno. Afinal, o mundo real é sempre mais diverso do que o ponto escolhido. Consequentemente, perde-se a bússola, a régua e o compasso, isto é, a orientação e a capacidade de traçar o círculo de um mundo inteiro. A imagem final mostra um filósofo dividido e cativo, com um muro no meio do universo, enxergando apenas metade de tudo. Essa observação é menos uma questão de gosto político e mais uma questão de método. Portanto, o que está em causa é a função do pensamento, e não o conteúdo da crença.

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Diagnósticos clássicos sobre o erro histórico do intelectual

Essa intuição possui forte pedigree histórico. Em 1927, Julien Benda publicou “A Traição dos Intelectuais” para denunciar exatamente o fenômeno. Os clérigos, que deveriam servir a valores universais como a verdade, a justiça e a razão, entregavam-se às paixões políticas de classe, de nação e de partido. Para Benda, o intelectual que se faz porta-voz deixa de ser guardião do universal e passa a ser advogado de interesses particulares. Posteriormente, Raymond Aron publicou “O Ópio dos Intelectuais” em 1955, acrescentando um diagnóstico complementar: a fé política dos letrados costuma ser mais dogmática do que a do homem comum, pois dispensa o contato com o custo concreto das decisões.

Exemplos históricos e as faces do erro histórico do intelectual

A história oferece um acervo doloroso de exemplos que ilustram claramente o erro histórico do intelectual. É fundamental notar que eles vêm de todos os lados, indicando que o problema não está na ideologia escolhida, mas no gesto de se tornar seu porta-voz. Martin Heidegger, profundo filósofo do século XX, aderiu ao partido nazista e assumiu o reitorado de Friburgo em 1933. Ezra Pound transmitiu propaganda fascista pelo rádio italiano durante a guerra. Louis-Ferdinand Céline escreveu panfletos antissemitas que mancharam sua obra. Na outra margem, Pablo Neruda compôs odes a Stalin quando o terror já era notório. André Gide viajou à União Soviética em 1936, voltou desiludido e foi tratado como traidor por descrever a realidade. Jean-Paul Sartre relativizou crimes soviéticos e rompeu com Albert Camus quando este recusou a máxima de que o fim justifica os meios.

O padrão se repete com notável regularidade. Primeiro ocorre a escolha do lado, muitas vezes movida por indignação legítima ou amor pela pátria. Em seguida surge a lealdade exigida pela facção, forçando a leitura favorável de fatos incômodos. Por fim, instala-se o silêncio seletivo: o intelectual deixa de ver os erros do próprio campo. Quem cumpre essa trajetória descobre, tarde demais, que cedeu a credibilidade de quem não precisa dizer o que convém.

Contraponto de pensadores fiéis aos valores universais

Há, porém, um erro simétrico que precisa ser evitado. A honestidade intelectual exige reconhecer que não se prega a neutralidade como virtude nem o silêncio como prudência. Émile Zola publicou “J’accuse” em 1898 escolhendo um lado, mas defendeu um homem, Dreyfus, e um princípio de justiça, e não um partido. George Orwell lutou na Guerra Civil Espanhola e denunciou as mentiras da própria esquerda com absoluta lucidez. Václav Havel criticou o regime comunista sem virar propagandista de outra bandeira. A diferença nesses casos reside na direção da lealdade: Zola, Orwell e Havel serviram a valores permanentes, enquanto os outros serviram a organizações.

Efeitos nocivos da militância e o erro histórico do intelectual

O custo não recai apenas sobre quem se alista. A esfera pública, dependente de vozes justas para arbitrar disputas, sofre graves danos. Quando essas vozes se alinham cegamente, o árbitro desaparece. Cada fato ganha uma etiqueta de origem, e o cidadão comum aprende a descontar o que vem do adversário e a absorver sem filtro o que vem do seu grupo.

A confiança social, construída ao longo de séculos, consome-se em poucas décadas de militância partidária. Não por acaso, as sociedades mais polarizadas são exatamente aquelas onde o respeito pelos pensadores e pela imprensa mais se deteriora. Como já discutimos em nossa análise sobre o que as escolas deixaram de ensinar, a perda de referências críticas compromete as novas gerações.

Urgência como inimiga da lucidez no debate público

O muro no meio do universo representa o mecanismo mental que classifica as pessoas antes de ouvi-las. O interlocutor vira representante do inimigo, e o debate transforma-se em guerra de trincheiras. O filósofo militante já não investiga a verdade, mas avalia a utilidade política do argumento.

Seria ingenuidade atribuir esse desvio apenas à vaidade. Na maioria das vezes, o intelectual é movido por uma sinceridade genuína, tornando o erro persistente. Contudo, a urgência converte-se na grande inimiga da lucidez. Ela convence de que matizar é trair e de que a complexidade é um luxo desnecessário.

O papel distorcido de jornalistas e artistas na política

Para o jornalista, o cantor e o ator militantes, o problema agrava-se porque a eles se confia a mediação cultural. Quando o jornalista seleciona fatos por causa da ideologia ou o artista transforma o palco em palanque, ambos reduzem seu alcance à facção. Quem busca informação ou beleza no teatro e no jornal descobre que participa de uma assembleia doutrinária. A arte torna-se panfleto, e a causa perde o poder de convencer quem pensa diferente.

Nos dias atuais, as redes sociais aceleram esse processo. As plataformas premiam a declaração de pertencimento em detrimento da ponderação. O pensador que hesita perde seguidores, enquanto o extremista colhe curtidas imediatas. Resistir a esse incentivo perverso constitui, hoje, uma verdadeira forma silenciosa de coragem.

Conclusão sobre a verdadeira independência do pensador

Convém distinguir o intelectual do cidadão comum. Todo pensador tem o direito de votar, filiar-se e debater com paixão em sua vida privada. O problema surge quando a obra transforma-se em instrumento permanente de uma facção, abandonando o público inteiro.

A verdadeira independência exige dizer a verdade a qualquer poder e preservar o espaço de diálogo entre adversários. Camus resumiu essa postura ao recusar ser vítima ou carrasco. Trata-se de uma posição incômoda, mas indispensável para conservar a bússola, a régua e o compasso diante da complexidade do mundo.

O que as escolas deixaram de ensinar na crise da educação nacional

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Em setembro, a OCDE divulgou os resultados do Pisa 2025. O Brasil marcou 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, ficando abaixo da média da organização nas três áreas. Ficamos em 71º lugar em matemática, 67º em ciências e 52º em leitura entre os países com resultados comparáveis. Em ciências, apenas cerca de 48% dos nossos estudantes de 15 anos alcançam o nível básico de proficiência. Na média da OCDE, por sua vez, esse número atinge 74%. Além disso, em leitura, apenas 1% dos alunos chega aos níveis mais altos, contra 6% da média dos países ricos. Desse modo, surge inevitavelmente o debate sobre o que as escolas deixaram de ensinar ao longo dos últimos anos.

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Questionamento de fundo sobre os objetivos da educação brasileira

Esses dados já são amplamente conhecidos. A cada nova edição, produzem o mesmo ritual de lamento, promessas e planos governamentais. Contudo, raramente se faz a pergunta de fundo sobre a real aplicação das horas letivas. Se o resultado final permanece tão baixo, talvez o problema não esteja apenas nos recursos investidos, mas nas metas do sistema.

Analisando o impacto econômico, observa-se que esse atraso possui um custo concreto para o país. Em 2022, a OCDE estimou que estudantes de Singapura estavam até cinco anos de escolaridade à frente da média. Consequentemente, jovens que saem da escola sem dominar leitura e matemática chegam ao mercado com sérias limitações intelectuais. Onde o ensino falha, sobra inevitavelmente a dependência individual.

Tese de Bernardin sobre Maquiavel Pedagogo e a engenharia social

Essa reflexão dialoga diretamente com a obra Maquiavel Pedagogo, do engenheiro francês Pascal Bernardin. Publicado em 1995 e traduzido no Brasil em 2013, o livro sustenta uma mudança discreta nos objetivos educacionais. Segundo o autor, organismos internacionais deslocaram o foco da transmissão do conhecimento para a alteração de comportamentos. Assim, a criança deixa de ser alguém a instruir para se tornar matéria a moldar.

Analisando o método, Bernardin destaca o uso de um vocabulário técnico e atraente. Termos como “competências”, “habilidades”, “inovação” e “protagonismo” dificultam a crítica pública. Afinal, quem questiona tais conceitos é rapidamente rotulado como conservador ou ultrapassado.

Conexões teóricas entre Gramsci e a Escola de Frankfurt

Essa transformação educacional dialoga com duas correntes teóricas marcantes. Primeiramente, refere-se ao pensamento de Antonio Gramsci sobre a conquista da hegemonia cultural antes da tomada do poder. Em segundo lugar, conecta-se à Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, que usou a cultura para desconstruir valores sociais.

Nessa perspectiva, o ensino rigoroso de conteúdos perde o protagonismo. Ler com fluência, calcular com precisão e argumentar logicamente passam a ocupar um papel secundário. Prioriza-se, dessa forma, a tarefa de “conscientizar” ideologicamente os estudantes.

Diagnóstico das falhas estruturais e da pedagogia engajada no Brasil

Diversos críticos apontam que o Brasil seguiu rigorosamente essa trajetória ideológica. Citam a obra de Paulo Freire como referência quase exclusiva nas faculdades de pedagogia. Além disso, observam que os cursos de licenciatura priorizam teorias educacionais em detrimento do domínio da matéria a ser lecionada.

Outro ponto levantado envolve o viés militante presente em materiais didáticos e currículos. Há uma clara desconfiança da autoridade do professor, do esforço individual, da repetição e das avaliações externas. Portanto, a estagnação nas avaliações do Pisa passa a ser vista não como um acidente, mas como consequência direta de prioridades equivocadas.

Aumento da desigualdade social provocado pela falta de conteúdo

Importante ressaltar que essa abordagem pedagógica gera profundas injustiças sociais. Famílias de renda mais alta compensam as falhas do ensino público com aulas particulares, colégios seletivos e livros. Em contrapartida, os alunos mais pobres dependem exclusivamente da escola pública.

Dados recentes do Pisa mostram que a distância em matemática entre as notas mais altas e as mais baixas aumentou entre 2022 e 2025. Desse modo, o abandono do conteúdo acadêmico aprofunda a desigualdade em nome de combatê-la. Quem tem alternativas aprende apesar da escola; os desfavorecidos aprendem apenas o que a sala de aula oferece.

Requisitos fundamentais para a reconstrução do ensino de qualidade

Educar consiste em introduzir as novas gerações no patrimônio cultural acumulado pela humanidade. Esse processo exige alfabetização sólida nos anos iniciais, matemática ensinada com rigor e amplo domínio da língua portuguesa. História e ciências devem ser tratadas como saber acadêmico, e não como instrumento de militância política.

Exige-se, da mesma forma, valorização da autoridade intelectual do professor e empenho dos estudantes. Uma instituição que informa e ensina a pensar forma cidadãos livres. Por outro lado, um sistema que conduz o aluno a conclusões preconcebidas gera apenas militantes.

Comparação com modelos internacionais de alto desempenho

Modelos bem-sucedidos em países como a Coreia do Sul demonstraram que reformas reais focam nos meios de ensino. Nesses locais, houve valorização docente, maior tempo de estudo e exigência acadêmica, em vez de experimentos ideológicos.

Sistemas que lideram o Pisa — a exemplo de Singapura, Japão e Estônia — compartilham currículos exigentes e avaliações constantes. Nenhum desses países utiliza o estudante como ferramenta para projetos políticos alheios ao aprendizado real.

Centralidade do método fônico e da alfabetização baseada em evidências

No tocante ao aprendizado inicial, a alfabetização surge como o teste mais claro dessa divisão. Atrasos na leitura nos primeiros anos geram defasagens que acompanham o estudante por toda a vida.

Defensores do ensino estruturado sustentam que a alfabetização explícita e sistemática deve prevalecer sobre teorias construtivistas. A ideia de que a criança é autora espontânea do próprio aprendizado falhou na prática. Afinal, ler é o direito básico de todo estudante.

Transparência e prestação de contas na gestão educacional

Diante do cenário atual, a discussão sobre os rumos da educação exige debate público imediato. Famílias, professores e pesquisadores precisam analisar abertamente currículos, diretrizes e materiais didáticos distribuídos pelo Estado.

Caso a escola esteja cumprindo sua missão de ensinar, os indicadores demonstrarão os avanços. Contudo, se os resultados permanecerem negativos, a sociedade tem o direito de saber a quem esses métodos estão servindo.

Ponto de vista oposto sobre os fatores socioeconômicos do Pisa

Para garantir a honestidade do debate, cumpre apresentar as objeções formuladas pelos críticos dessa tese. Quanto à obra de Bernardin, analistas lembram que o texto analisa reformas europeias e norte-americanas, sem provar causalidade direta com as notas do Pisa.

Argumenta-se também que os resultados brasileiros apresentaram avanços nas últimas duas décadas. Desde 2006, a distância para a média da OCDE caiu em matemática, leitura e ciências. Entretanto, especialistas ponderam que parte dessa aproximação decorreu da queda do desempenho dos países ricos.

Desafios operacionais e variações regionais no desempenho escolar

A maioria dos pesquisadores atribui os baixos resultados a fatores estruturais históricos. Entre eles, destacam-se a desigualdade socioeconômica, a formação deficiente de docentes, a jornada escolar reduzida e a precariedade das instalações. Adicionalmente, pontuam que até mesmo os alunos da rede privada brasileira pontuam abaixo da média da OCDE em matemática.

Por fim, dados regionais dentro do próprio Brasil trazem novos elementos para a reflexão. Sob as mesmas diretrizes curriculares nacionais, o estado do Paraná obteve 423 pontos em matemática no Pisa 2025 e São Paulo alcançou 404 pontos, resultados bem superiores à média nacional. Isso demonstra que a gestão escolar e as práticas pedagógicas adotadas em sala de aula exercem um peso decisivo no aprendizado real.

França é o Brasil de amanhã na alerta sobre a expansão do Estado

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A expansão do Estado, o peso dos impostos e a concentração de poder econômico nas mãos da burocracia são problemas globais. Diante desse cenário, surge o alerta de que a França é o Brasil de amanhã caso escolhas econômicas equivocadas persistam. Afinal, uma das maiores economias do planeta oferece ao nosso país uma advertência urgente. Com efeito, até nações ricas enfrentam ciclos de endividamento, crescimento medíocre e conflitos sociais quando o poder público gasta mais do que arrecada de forma sustentável.

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Paralelos econômicos entre o modelo francês e o cenário brasileiro

Certamente, ninguém afirma que os dois países sejam idênticos ou caminhem para o mesmo resultado exato. Pelo contrário, trata-se de reconhecer que determinadas escolhas econômicas produzem consequências semelhantes, independentemente da história ou geografia. Portanto, quando governos prometem mais do que podem entregar e aumentam despesas sem prioridades, a conta recai diretamente sobre o contribuinte.

Analisando os indicadores recentes, a dimensão do problema francês fica evidente. Com efeito, projeções da Comissão Europeia indicam que a dívida pública francesa pode alcançar 118,1% em 2026 e 120,2% em 2027. Além disso, o déficit público deve permanecer em 5,1% do PIB em 2026, podendo atingir 5,7% no ano seguinte. Paralelamente, projeções de crescimento econômico de apenas 0,8% no mesmo período revelam a enorme dificuldade de conciliar um Estado gigante com uma economia estagnada.

Peso das despesas públicas na sustentabilidade financeira

Relatórios da Comissão Europeia mostram que os gastos governamentais franceses atingiram 57,2% do PIB em 2025. Esse patamar supera consideravelmente a média dos países da União Europeia. Desse modo, manter uma estrutura desse porte exige arrecadação pesada, endividamento contínuo ou uma combinação perigosa de ambos.

Serviços públicos são indispensáveis para qualquer sociedade desenvolvida. Todavia, a grande questão reside na capacidade de financiá-los sem comprometer o futuro econômico. Por conseguinte, o acúmulo de dívidas reduz a margem de manobra dos governantes e transfere o custo das decisões atuais para as próximas gerações.

Alertas internacionais sobre o avanço do endividamento público

Observando o cenário brasileiro, fica claro que não podemos nos iludir com nossa dimensão continental. Estruturas tributárias complexas, necessidades sociais imensas e baixa produtividade marcam a realidade nacional. Consequentemente, reproduzir os erros de economias maduras significa desperdiçar a oportunidade de aprender com a experiência alheia.

Diferenças institucionais e de renda por habitante entre Brasil e França existem e são expressivas. Apesar disso, a expansão permanente das despesas sem estratégia clara de crescimento gera travamentos inevitáveis. Assim, mais cedo ou mais tarde, a realidade força os governos a escolher entre cortar gastos, elevar impostos ou emitir mais dívida.

Tentação do aumento de impostos no debate fiscal

Historicamente, o debate fiscal no Brasil trata a arrecadação como se pudesse crescer indefinidamente. Diante de cada crise, surgem propostas para criar contribuições, aumentar alíquotas e expandir bases de incidência. Por outro lado, raramente a classe política demonstra a mesma coragem para cortar privilégios, avaliar programas ou eliminar despesas ineficientes.

Efeitos concretos desse desequilíbrio afetam o setor produtivo diariamente. Por exemplo, empresas adiam investimentos necessários, empreendedores lutam para sobreviver e famílias perdem poder de compra. Ademais, a tributação excessiva destrói a capacidade de poupança e limita a geração espontânea de riquezas.

Círculo vicioso do baixo crescimento econômico

Travamentos na produtividade mantêm a renda limitada e expandem as demandas sociais por socorro estatal. Como resposta, o governo eleva a pressão por mais impostos, alimentando um círculo vicioso. Portanto, superar essa armadilha exige a retirada parcial do Estado de atividades próprias da iniciativa privada e a melhoria do gasto público.

Com efeito, promessas irrealistas feitas por políticas de esquerda frequentemente comprometem a saúde das finanças públicas mundialmente. Desse modo, esse modelo gera dependência e enfraquece as bases da prosperidade sustentável.

União da Poupança e direcionamento do capital privado

Debates recentes na Europa examinam também a relação entre poupança privada e financiamento estatal. Em março de 2025, a Comissão Europeia apresentou a iniciativa União da Poupança e dos Investimentos. O objetivo oficial busca aproximar os cerca de 10 trilhões de euros parados em depósitos bancários dos mercados de capitais e das empresas.

Oferecer instrumentos para o cidadão investir voluntariamente difere radicalmente de impor direcionamentos compulsórios. A primeira opção estimula a concorrência e fortalece a formação de patrimônio. Em contrapartida, qualquer grau de coerção estatal compromete a liberdade econômica e transfere riscos indevidos ao poupador.

Fronteiras entre incentivo voluntário e coerção estatal

Propostas europeias em sua forma oficial não preveem o confisco da poupança dos cidadãos. É fundamental fazer essa distinção para manter a precisão das críticas com base em documentos públicos.

Contudo, monitorar tentativas futuras de transformar a poupança privada em instrumento obrigatório de financiamento político permanece essencial. Portanto, a linha entre incentivo econômico e imposição governamental precisa continuar claramente definida.

Avanço das moedas digitais e o projeto Drex no Brasil

Acompanhar esse cenário exige atenção redobrada do Brasil quanto ao desenvolvimento de infraestruturas financeiras digitais. O Banco Central vem testando gradualmente a adoção do Drex, moeda digital associada a plataformas de ativos financeiros. A autoridade monetária destaca a busca por eficiência, segurança e integração de serviços.

Tecnologias de digitalização podem reduzir custos operacionais e acelerar transações complexas. No entanto, os riscos principais não residem no software, mas nas regras jurídicas que disciplinarão seu uso.

Garantias fundamentais e limites ao poder de vigilância

Sistemas digitais avançados exigem proteção rigorosa da privacidade, transparência e limites legally claros à atuação do Estado. Sem essas salvaguardas, ferramentas criadas para gerar eficiência podem se transformar em mecanismos de vigilância ou restrição financeira.

Atualmente, não existem provas de que as regras do Drex autorizem confiscos automáticos ou controle arbitrário de despesas. Todavia, debater os limites da tecnologia antes de sua implementação em larga escala representa uma medida de prudência institucional.

Correção de rumos e proteção da liberdade econômica

O leitor não deve interpretar os alertas do exemplo francês como profecias de desastre inevitável, mas como um convite à responsabilidade fiscal. Dívidas fora de controle não surgem da noite para o dia; resultam de sucessivas decisões que os governantes justificam como exceções.

Defender a liberdade econômica exige mais do que discursos genéricos contra a burocracia. Requer contas públicas transparentes, avaliação rigorosa de programas, segurança jurídica e respeito à propriedade privada.

Lições urgentes para a sustentabilidade da economia brasileira

Recursos são escassos em qualquer regime político, e a prosperidade depende de produzir mais do que se consome ao longo do tempo. Consequentemente, ignorar essa realidade limita as condições materiais que sustentam até as políticas sociais mais bem intencionadas.

O momento adequado para corrigir incentivos, estabelecer limites e proteger o patrimônio dos cidadãos é agora, antes que a escassez de opções imponha escolhas dolorosas. Caso o governo nada faça para melhorar a qualidade do gasto e estimular a produtividade, o Brasil enfrentará custos cada vez mais altos pela inércia.

Política como arte do amparo

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Arquivo Pessoal

 

         É certo que a arte de fazer política, na verdadeira acepção da palavra, não é exclusividade dos políticos profissionais. Na realidade, muitos desses políticos que aí estão não entendem o que vem a ser a verdadeira política. Se entendem, não a praticam, preferindo exercer um cargo de status para dele retirar e desfrutar as benesses para si.

         Exercem mandatos, tendo em mira objetivos egoístas, como o enriquecimento material e a satisfação do ego. Auxílios que são bancados com o suor do povo brasileiro e que em outros países são absurdos e inimagináveis.

         Muitos brasileiros comuns, afastados das luzes dos holofotes e dentro das limitações que lhes são próprias, exercem, às vezes sem saber, a práxis política em toda a sua inteireza e com grande galhardia, sem disso retirar proveito próprio ou buscar satisfação para o sempre enganoso ego. São cidadãos desconhecidos, espalhados por todo esse imenso país, que têm no seu dia a dia o costume, e mesmo o caráter, de se entregar espontaneamente em favor do próximo, realizando pequenos trabalhos que resultam sempre no desenvolvimento de sua comunidade.

         Nem mesmo a falta de recursos desanima esses brasileiros de exercer uma função social, realizando o que pode ser definido como verdadeira política. No início da construção de Brasília, muitos daqueles que para aqui vieram se estabelecer, em busca de uma vida nova, tinham, como prática normal, a ajuda aos novos candangos que chegavam, auxiliando-os na busca de empregos,  alojamento e outras necessidades. Essa era uma prática constante e muito comum, que ajudou a cidade no fortalecimento dos seus laços sociais.

         Nessa época, não importava a função exercida pela pessoa, todos se amparavam, pois sabiam no fundo, que a concretização definitiva da capital só seria possível se todos se irmanassem num objetivo comum. Realizavam assim a verdadeira política, fortalecendo a cidadania. A fundação da capital teve, nesse alicerce humano, seu mais significativo pilar.

         Também eram tempos diferentes e em que os escândalos políticos, mesmo por sua insignificância, comparados aos de hoje, pareciam ter ficado para trás, na antiga capital, o Rio de Janeiro. Por essas bandas, perdidas no interior do Brasil, buscavam os migrantes não apenas uma nova capital material, mas, sobretudo, um novo homem e mulher brasileiros, capazes de deixar para as próximas gerações um país reformado e fundado no seu sentido moral e ético.

         Milhares dessas histórias podem ser aqui mencionadas, contando as dificuldades daquela época e como as pessoas comuns, ou nem tanto, apoiavam-se mutuamente para fazer frente a esses desafios. Exerciam, assim, a política que interessa e que produz resultados reais. Muitos também que estão hoje em posição de destaque nessa cidade podem testemunhar o quão foi preciso a ajuda recebida e a mão solidária daqueles idos dos anos sessenta.

         Da mesma forma aqueles abnegados benfeitores não faziam alarde de sua atuação em prol de seus semelhantes. Não vale aqui citar nomes, até para não ter que cometer a injustiça de deixar outros personagens de fora. Mas do que vi e vivi desse tempo de colonização do Centro-Oeste, deixo aqui o testemunho real e sem fantasias, de quanto o meu pai, jornalista, fundador desse jornal e dessa, talvez mais antiga coluna do mundo, fez por Brasília e, principalmente, por sua gente, defendendo a cidade para que não fossem perdidos seus princípios norteadores, angariando com isso muitos admiradores e, obviamente, alguns detratores também.

         Lembro ter presenciado, por diversas vezes, sua sala de trabalho no jornal, abarrotada de pessoas que buscavam amparo de todo o tipo. Todos recebiam sua atenção. Ao passear com Ari Cunha, já estava acostumada a fazer o mesmo percurso que os outros por mais tempo. Todos queriam conversar com ele, dar sugestões de nota, agradecer pelo que ele havia escrito.

          Uma multidão se aglomerou no cemitério, ao contrário do que ocorrem com o velório dos políticos profissionais, quando a multidão vai ao cemitério apenas para se certificar de que o político morreu mesmo. Na despedida, todos da família ouviram o quanto ele ajudou. O primeiro emprego, a bronca que transformou a vida, o terno dado para que o repórter pudesse cobrir o parlamento, o inimigo de suas palavras confessando, hoje, que Ari Cunha tinha razão. Assim, não foram poucos os que ajudou a dar os primeiros passos na cidade. Exercia a política sem ser político, apenas cidadão. Nunca fez alarde dessa sua atuação e nunca buscou proveito próprio para si ou os seus. Sabia, por experiência, que jamais deveria ficar devendo algo a alguém, pois entendia que essa liberdade lhe dava o direito de criticar as autoridades. Não devia favores, prestava, isso sim muitos favores e isso lhe dava alegria.

         Ainda hoje, não são poucos os leitores e não leitores que conversam conosco reconhecendo o amparo e a ajuda recebida de meu velho pai. Nunca quis nada em troca. Não aceitava bajulações. Recebeu muitas medalhas em vida. Respeitava as homenagens, mas isso não lhe tirava o ego do lugar, nem alterava o tamanho.

          Morreu sem dívidas e sem riqueza material, embora as oportunidades fossem muitas. Exerceu a profissão de jornalista como poucos nesse país. Como um político, no sentido solidário e humano, foi um exemplo.

A frase que foi pronunciada:

“Vamos aguardar que as melancias se acomodem na carroça.”

Ari Cunha

Foto: arquivo pessoal

 

História de Brasília

Mais uma contra o povo, apresentada pela ponte Rio-Brasília. Se uma pessoa desejar interromper o percurso em Belo Horizonte, a passagem para o Rio ficará em Cr$ 9.300,00, enquanto que o Viscount cobrava Cr$ 8.700,00. (Publicada em 17.03.1962)