Vontade política, ou a falta dela

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Ruas alagadas em Juiz de Fora. Foto: Ales de Jesus/ O Tempo

 

Carlos Penna Brescianini lembrou bem. Como é que representantes do governo declaram que nada podem fazer em relação aos problemas causados pelas chuvas se, na antiguidade, sem inteligência artificial, sem computadores e sem eletricidade, aquele povo conseguia drenar as águas das chuvas para enfrentar as inundações?

Como base para a engenharia atual, a tecnologia hidráulica desenvolvida por civilizações antigas revela grau de sofisticação em sistemas de captação e retenção de águas pluviais que estruturava cidades inteiras muito antes da mecanização contemporânea, articulando arquitetura, topografia e conhecimento climático de forma integrada. No território da Roma Antiga, cisternas escavadas no subsolo armazenavam milhares de litros de água coletados por telhados inclinados e pátios internos, garantindo abastecimento durante estiagens prolongadas. Escavações arqueológicas demonstram que esses reservatórios eram impermeabilizados com argamassa especial à base de cal e fragmentos cerâmicos, técnica que assegurava durabilidade secular. Povos da Mesoamérica, na região correspondente ao atual México, construíram os chamados chultuns, cavidades talhadas na rocha calcária para reter água da chuva em áreas sem rios perenes. Engenhosidade semelhante floresceu na Grécia Antiga, onde reservatórios públicos integravam o desenho urbano, reconhecendo a chuva como recurso estratégico, e não como ameaça a ser eliminada.

Em caminho inverso percorre a modernidade brasileira, entretanto, ao longo do século 20, convertendo várzeas em avenidas, retificando cursos d’água e selando o terreno com concreto. Dados consolidados pelo MapBiomas indicam expansão acelerada da mancha urbana nas últimas décadas, acompanhada de expressiva redução de áreas verdes em regiões metropolitanas. Em São Paulo, levantamentos municipais apontam índices de impermeabilização superiores a 70% em diversos distritos, condição que compromete a infiltração natural e intensifica picos de vazão durante tempestades. Relatórios técnicos da prefeitura e análises do Tribunal de Contas do município já advertiram que o sistema de macrodrenagem enfrenta limites estruturais diante da frequência crescente de eventos extremos.

Minas Gerais oferece quadro igualmente revelador. Temporais recentes registraram volumes pluviométricos acima de 200 milímetros em menos de 24 horas em áreas da Região Metropolitana de Belo Horizonte, conforme boletins da Defesa Civil estadual. Deslizamentos e inundações expuseram vulnerabilidades históricas relacionadas à ocupação de encostas e fundos de vale. No Rio de Janeiro, relatórios do Instituto Estadual do Ambiente destacam que relevo acidentado combinado a adensamento populacional e drenagem insuficiente potencializa enxurradas rápidas e destrutivas. Especialistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, órgão federal vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, reiteram que padrões climáticos alterados ampliam a intensidade das precipitações, exigindo revisão dos parâmetros tradicionais de projeto.

Cálculos econômicos reforçam a dimensão do desafio. Estimativas da Confederação Nacional de Municípios apontam que desastres associados a chuvas provocaram prejuízos de bilhões de reais na última década, considerando danos a infraestrutura, moradias e atividades produtivas. Frente a esses números, investimentos preventivos deixam de representar gastos e passam a configurar estratégia fiscal prudente. Simulações conduzidas por pesquisadores da Universidade de São Paulo indicam que a combinação de pavimentos permeáveis, jardins de chuva e recuperação de várzeas reduz, significativamente, o pico de cheia em bacias densamente urbanizadas.

Experiências internacionais corroboram tal diagnóstico. O Programa Sponge City, implementado em diversas cidades da China, estabeleceu metas nacionais de retenção e reaproveitamento de águas pluviais, mobilizando investimentos bilionários e integrando drenagem ao planejamento urbano. Modelos adotados em Roterdã, nos Países Baixos, transformaram praças públicas em bacias temporárias de retenção, conciliando lazer e controle de cheias com eficiência reconhecida internacionalmente, mais ou menos como o governo Ibaneis implantou perto do Iate Clube de Brasília.

Projeção conservadora para adaptar parcialmente metrópole como São Paulo, tornando permeáveis cerca de 300 quilômetros quadrados ao longo de duas décadas, alcançaria valores próximos de R$ 60 bilhões, equivalentes a, aproximadamente, 3 bilhões anuais, percentual modesto ante a orçamento municipal superior a 90 bilhões por ano. Engenheira hidróloga, Maria do Carmo Barros afirmou em seminário promovido pela Universidade Federal de Minas Gerais que “cada real aplicado em prevenção hídrica economiza múltiplos em reconstrução e assistência emergencial”, frase que traduz racionalidade econômica frequentemente eclipsada por prioridades de curto prazo.

 

A frase que foi pronunciada:
“A administração pública não é apenas sobre regras, mas sobre resultados.”
James Q. Wilson

James Q. Wilson. Foto: divulgação

 

História de Brasília
Continua Hipólito José da Costa na primeira edição do Correio Braziliense de 1808: O indivíduo que abrange o bem geral d’uma sociedade, vem a ser o membro mais distincto della; as luzes que elle espalha, tiraõ das trevas ou da illuzaõ aquelles que a ignorancia preciptou no labyrintho da apathia, da inepcia e do engano. (Publicada em 26/2/1962)

Do outro lado do mundo

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VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)

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De acordo com a Neoenergia, o fornecimento foi normalizado às 15h30. – (crédito: Divulgação/Neoenergia)

 

         Em nome dos pais, das mães e dos filhos desta capital do país, é preciso que as autoridades e os políticos locais venham a público esclarecer as razões que levaram o GDF, com a assentimento da Câmara Legislativa, a privatizar, em 4 de junho de 2021, a CEB Distribuição. Com isso, aparentemente, tiraram dos ombros do Distrito Federal, as responsabilidades sobre o fornecimento de um dos mais importantes insumos para a população que é a energia elétrica. A Neoenergia é responsável pela distribuição de energia e manutenção da rede elétrica no Distrito Federal. A CEB Ipes é a empresa que ficou responsável pela gestão da iluminação pública no DF.

         Sem bons serviços no fornecimento de energia elétrica às famílias do DF e entorno, não há, nem ao menos, cidadania, que dirá progresso. O que ocorre agora em Brasília é o mesmo que vem ocorrendo em outras capitais brasileiras, onde os serviços essenciais de distribuição de energia foram privatizados sem um devido processo de impactos ou sem uma consulta prévia e acurada junto à população.

         Experiências em várias partes do mundo e mesmo aqui em nosso país demonstram que a isenção do Estado na distribuição de energia elétrica acarretou enormes prejuízos à população, além de transformar esses serviços num mercado altamente lucrativo para os proprietários desse tipo de negócio. Pena que a Constituição do Distrito Federal e mesmo a Constituição Federal de 1988 não tenham incluído, entre suas cláusulas pétreas, um dispositivo que vedasse a privatização dos serviços de geração e distribuição de energia elétrica, fornecimento de água potável, além do tratamento adequado de esgoto e do encaminhamento ecológico do lixo urbano.

          Tendo que conviver com a maior carga tributária do planeta, esses serviços essenciais e vitais deveriam ser, ao menos, garantidos pela Lei Maior, como direitos inalienáveis, e obrigação máxima do governo e do Estado. Ao empurrar ou lavar as mãos sobre o fornecimento desses serviços básicos, deixando esses contratempos para a iniciativa privada, a população, que antes sabia a quem recorrer ou mesmo levar aos tribunais em caso de falhas, ficou desamparada e à mercê de uma burocracia empresarial alheia às necessidades do povo. Não por outros motivos, as reclamações se avolumam tanto junto à Neoenergia como a outros órgãos, como é o caso do site Reclame Aqui. Já são mais de 76 mil reclamações registradas, sendo que outras milhares não foram sequer registradas.

         É bom lembrar que a privatização da CEB, dando o controle dessa empresa ao grupo espanhol Iberdrola, rendeu ao GDF R$ 2,515 bilhões, um valor, que foi capitalizado pela empresa local graças, unicamente, ao dinheiro pago todo mês pelos brasilienses ao longo de décadas. Com o retorno das chuvas e com as previsões nada pacíficas sobre o comportamento do tempo, que, segundo a meteorologia, serão de fortes pancadas de chuvas e trovoadas fora dos padrões normais, as interrupções e falhas nas redes de energia serão comuns e muito além do que poderá essa empresa atender.

          O aquecimento global, que também entra nessa equação para aumentar as angústias da população, irá demonstrar que a privatização da CEB foi será um negócio cada vez mais prejudicial para a população, que ficou entregue à própria sorte. Água, luz, esgoto, segurança, educação e saúde não podem ser transformados em mercadorias, nem entregues às dinâmicas do mercado, tampouco às previsões de lucros de empresários. Diante do volume de reclamações que cresce dia a dia e diante dos precários retornos e atendimento, não será surpresa se, daqui a pouco, esse assunto não irá se transformar em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que será realizada na mesma Casa Legislativa local que permitiu a venda desse importante serviço para os espanhóis do outro lado do mundo.

           No início do mês, a Neoenergia fez a apresentação de um plano de contingência operacional e de atendimento e mostrou o aumento de investimentos para enfrentar as chuvas que se anunciam. Nesse plano, está previsto o pronto atendimento das equipes para o reforço nas ruas e no Centro de Operações Integradas (COI) e para o atendimento das solicitações emergenciais. A Neoenergia garante que engenheiros, técnicos e eletricistas permanecerão de plantão durante todo o período chuvoso. Inclusive o SAC receberá mais atendentes para atendimento pelos números 116, o WhatsApp ((61) 3465-9318), o aplicativo Neoenergia Brasília e a Agência Virtual. Vamos acompanhar!

 

A frase que foi pronunciada:

“Benjamin Franklin pode ter descoberto a eletricidade, mas foi o homem que inventou o medidor que ganhou dinheiro.”

Conde Wilson

Conde de Wilson – Fotografia do século XIX – Original da Coleção Waldyr Cordovil Pires – Rio de Janeiro

 

História de Brasília

É por isto que acontece o que acontece, e quem a paga é a cidade. Quem de prejudica é a cidade. É preciso que haja alguém que diga ao sr. Laranja Filho como Brasília foi construída. Em que moldes, e em que caráter de honestidade. (Publicada em 19.04.1962)