A conta alta que chega em janeiro de 2027

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Os desafios econômicos do Brasil em 2027 mostram-se extremamente complexos. O segundo turno de 25 de outubro opõe duas visões de país. Contudo, essa disputa coloca o vencedor diante de um mesmo problema fiscal. O Brasil chega a 2027 com inflação acima da meta. Além disso, os juros seguem entre os mais altos do mundo. A dívida pública mantém trajetória ascendente. Por conseguinte, existe um espaço político muito estreito para corrigir esses desequilíbrios.

O primeiro turno antecipou esse cenário de divisão. Flávio Bolsonaro (PL) somou 47,03% dos votos válidos. Por outro lado, Lula (PT) alcançou 45,16%. Portanto, o eleitorado mostrou-se dividido quase ao meio. Essa divisão antecipa um governo sem folga de capital político, independentemente do resultado. Se o eleito for de direita, o mercado esperará ajuste e reformas. No entanto, o eleitor exigirá a manutenção dos benefícios. Conciliar essas duas expectativas será o desafio central.

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O cálculo fiscal e os desafios econômicos do Brasil em 2027

O governo federal opera com déficit primário projetado em torno de 0,5% do PIB em 2026. Esse dado consta nos relatórios oficiais do Boletim Focus do Banco Central. Paralelamente, a dívida líquida do setor público deve passar de cerca de 70% do PIB neste ano para aproximadamente 79% em 2029. Além disso, a dívida bruta caminha para a casa dos 90%. Vale lembrar que essa é a métrica observada pelas agências de risco.

O arcabouço fiscal em vigor limita o crescimento real da despesa. Contudo, a norma depende de arrecadação crescente para ser cumprida. Dessa forma, boa parte do mercado duvida do alcance das metas dos próximos anos sem receitas extraordinárias. O novo presidente herda, portanto, uma decisão incômoda. Ele precisará perseguir o equilíbrio por meio de cortes politicamente custosos. Caso contrário, aceitará a deterioração e pagará o preço em prêmio de risco.

Juros altos e o peso da dívida pública

Esse movimento marcou o quinto corte consecutivo. A taxa Selic caiu para 13,75% ao ano em setembro. Apesar disso, a taxa permanece em patamar fortemente restritivo. Por conseguinte, o resultado nominal tem déficit próximo de 8,5% do PIB. É exatamente aí que a dívida cresce, pois o cálculo inclui os juros.

Cada ponto percentual de juros a mais encarece o serviço da dívida em dezenas de bilhões de reais por ano. A queda dos juros é o maior alívio fiscal disponível. No entanto, essa redução não se decreta por canetada. Ela depende de credibilidade no mercado. Se um governo sinalizar frouxidão nas contas, ele verá o efeito oposto. Nesse caso, a curva futura se afastará do desejado.

Inflação e a autonomia do Banco Central

As projeções para o IPCA de 2026 estão em torno de 5%. Esse valor fica acima do teto de tolerância da meta de 3%. Além disso, o Banco Central projeta inflação acima do centro da meta no horizonte relevante.

Um presidente eleito será tentado a pressionar por cortes mais rápidos de juros. Afinal, qualquer governante busca destravar o crescimento econômico. O respeito à autonomia da autoridade monetária será um teste de maturidade. Esse teste ocorrerá mesmo quando as decisões atrapalharem o calendário político. Afinal, interferir na instituição garante dólar mais caro e inflação mais persistente. Para um governo de direita, esse teste é ainda mais simbólico, pois ele se apresenta como fiador da ortodoxia.

Como superar os gargalos orçamentários nos desafios econômicos do Brasil em 2027

Orçamento rígido e promessas generosas

A maior parte da despesa federal é obrigatória. Esse grupo inclui Previdência, benefícios assistenciais, pessoal e pisos constitucionais de saúde e educação. Além disso, existe a vinculação do salário mínimo a diversos gastos. Somam-se a isso as emendas parlamentares impositivas. Essas emendas reduziram a margem de manobra do Executivo.

Há também a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Essa medida já está em vigor e é popular demais para ser revertida. Contudo, sua compensação depende de tributação mínima sobre rendas mais altas. Prometer redução de impostos, manutenção de programas sociais e ajuste fiscal ao mesmo tempo é aritmeticamente inviável. Portanto, o eleito terá de escolher o que será sacrificado. A conta do eleitor, em geral, chega muito depressa.

Governabilidade e o papel do Congresso Nacional

Qualquer agenda econômica passa necessariamente pelo Legislativo. O Congresso eleito em outubro tende a ser fragmentado e protagonista do Orçamento. Um presidente de direita poderá contar com uma bancada afinada em pautas liberais. Essas pautas incluem privatizações e desburocratização. No entanto, o apoio do Centrão costuma ter preço em cargos e emendas.

A tensão política é bastante conhecida no Brasília. A base que ajuda a aprovar reformas é a mesma que pressiona por gastos. Sem uma coalizão sólida, as reformas administrativa e previdenciária dificilmente avançam. Afinal, essas são as matérias mais difíceis no Parlamento.

Crescimento medíocre e produtividade estagnada

O mercado projeta expansão do PIB em torno de 1,9% em 2026. Esse ritmo esconde um problema estrutural do país. O crescimento potencial brasileiro é baixo, o mercado de trabalho está aquecido e a produtividade avança pouco. Com o desemprego em patamares reduzidos, qualquer estímulo de demanda converte-se em inflação. Ou seja, o estímulo não vira produção real.

A saída exige obrigatoriamente ganhos de oferta. Isso significa investimento em infraestrutura, melhora do ambiente de negócios e segurança jurídica para concessões. Além disso, exige qualificação da mão de obra. No entanto, essa é uma agenda de longo prazo que não rende dividendos eleitorais em quatro anos.

O cenário internacional e a estrutura fiscal de 2027

Reformas em transição e o impacto tributário

A reforma tributária sobre o consumo já foi aprovada. Porém, sua implementação se estenderá por anos. Esse processo trará regulamentações, conflitos federativos e riscos de aumento da complexidade. O próximo presidente terá de conduzir essa transição sem desfigurá-la.

Além disso, ele precisará enfrentar o que ficou de fora da proposta original. Isso inclui a tributação da renda e do patrimônio, além da reforma administrativa. Também exige a revisão de subsídios e renúncias fiscais. Afinal, esses benefícios consomem parcela relevante da arrecadação e raramente sofrem cortes.

Cenário externo, câmbio e geopolítica

O dólar projetado perto de R$ 5,20 depende de fatores externos e internos. Ele reflete a percepção de risco fiscal e o ciclo de juros americano. Além disso, as tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos afetam as projeções. A disputa tecnológica entre Washington e Pequim também gera impactos. Paralelamente, a dependência do agronegócio em relação à China exige uma diplomacia comercial pragmática.

Afinidade ideológica com Washington não garante concessões automáticas. Inclusive, um alinhamento automático pode custar mercados valiosos. A ratificação do acordo Mercosul-União Europeia e a reputação ambiental do país também pesam bastante. Especialmente após a COP30, esses fatores definirão o acesso a mercados e capital.

Famílias endividadas e o crédito caro

O crédito caro e o comprometimento da renda com dívidas reduzem o consumo. Por conseguinte, esses fatores aumentam a taxa de inadimplência. Medidas de renegociação parecem tentadoras para qualquer governo. Contudo, se forem mal desenhadas, elas estimulam novo endividamento e pressionam bancos públicos. Trata-se de um problema complexo que combina economia, política social e risco fiscal.

Previdência, estatais e as escolhas do novo governante

Previdência, indexação e gastos sociais

A pressão demográfica atua de forma lenta, porém implacável. O envelhecimento da população eleva despesas com aposentadorias e com o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Além disso, a regra de reajuste do salário mínimo transmite cada aumento a toda a folha de benefícios.

A reforma de 2019 comprou tempo, mas não resolveu o problema estrutural. Por isso, discutir a desindexação de benefícios ou rever pisos constitucionais é um tabu em ano eleitoral. Um presidente de direita precisará dizer com franqueza onde pretende cortar. Ele precisará agir sem atingir os mais pobres, que formam parte de sua base eleitoral. Programas como o Bolsa Família dificilmente serão desmontados. Portanto, a questão central é definir quem os financiará e com qual critério.

Estatais, preços administrados e investimentos

A política de preços de combustíveis e energia é fonte recorrente de atrito. O mesmo ocorre com a governança da Petrobras e o papel dos bancos públicos. Privatizar pode reduzir a pressão fiscal e atrair capital estrangeiro. No entanto, processos mal conduzidos geram contestação judicial e perda de valor.

Ao mesmo tempo, o investimento público encontra-se comprimido pelo custeio. Por essa razão, a infraestrutura depende de concessões e parcerias com o setor privado. Todavia, essas parcerias só aparecem quando há previsibilidade regulatória. A direita costuma prometer destravar o investimento privado. Para cumpri-la, ela precisará oferecer regras estáveis e respeitá-las no longo prazo

Dilemas do mandato e o que esperar de 2027

O dilema próprio da direita no poder

Um governo de direita enfrenta uma contradição que a campanha raramente admite. O discurso de redução de impostos colide com a necessidade de manter programas populares. Além disso, enfrenta o apetite do Centrão por recursos e a rigidez dos gastos obrigatórios.

Há também o risco de buscar resultados por atalhos. Esses atalhos incluem renúncias fiscais, créditos subsidiados ou pressão sobre estatais. Tais medidas desmontariam a credibilidade conquistada com o mercado. Por fim, existe a dimensão política. O capital eleitoral de um líder polarizador pode dificultar acordos no Congresso. Isso ocorre no momento em que as reformas exigem ampla interlocução.

Confiança, classificação de risco e fluxo de capital

O Brasil segue abaixo do grau de investimento na maioria das agências de risco. Por isso, o custo de financiamento do Tesouro reflete essa percepção negativa. Os primeiros sinais do presidente eleito serão lidos em tempo real pelos investidores. Essa leitura começará pela escolha da equipe econômica.

Nomes respeitados e um desenho fiscal crível podem reduzir o prêmio de risco. Por outro lado, ruídos ou interferências em instituições técnicas produzem o efeito inverso. A janela entre a eleição e a posse é o período em que a incerteza cobra seu preço no câmbio e nos juros futuros.

Custo de vida e poder de compra da população

Por trás dos indicadores agregados está o orçamento doméstico. Alimentos, aluguéis, serviços e tarifas pesam mais para quem ganha menos. Por conseguinte, o eleitor cobra do governo aquilo que sente no supermercado. Ele não julga o governo pelos relatórios do Banco Central.

Políticas de contenção de preços por meio de tabelamentos ou controle artificial aliviam apenas no curto prazo. Contudo, elas cobram uma conta alta no médio prazo. Essa conta vem na forma de déficits maiores ou represamento de tarifas. O presidente que resistir a esse atalho enfrentará impopularidade antes de colher resultados. Trata-se de um custo que poucos governantes aceitam pagar.

O que esperar do futuro econômico do país

O próximo presidente não terá lua de mel com o eleitorado. A janela de legitimidade, de poucos meses, deverá ser usada com extrema clareza. Ele precisará anunciar a âncora fiscal, definir a relação com o Banco Central e apresentar um calendário de reformas.

Um governo de direita que honre a responsabilidade fiscal poderá colher queda de juros e valorização do real. Contudo, se ceder à tentação de gastar para agradar o eleitor, repetirá erros históricos. Em ambos os casos, o país já não tem margem para adiar suas escolhas.

O calote silencioso de 2027

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A inadimplência das empresas atingiu o maior nível da série histórica no Brasil. O levantamento divulgado nesta semana pela FecomercioSP, com base em dados do Banco Central, mostra que há nuvens negras se aproximando além do horizonte das eleições de outubro. Apenas no segundo trimestre de 2026, as empresas brasileiras acumulavam R$ 86,1 bilhões em operações de crédito com atraso superior a três meses. Em apenas um ano, o montante cresceu 24% — o equivalente a quase R$ 17 bilhões a mais, já descontada a inflação do período. Este recorde não é sazonal, pois vale quando comparado a qualquer outro trimestre do calendário.

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O raio-x do endividamento

O detalhe mais incômodo do estudo não está no valor absoluto, mas sim na sua origem. O volume total de crédito concedido às empresas avançou apenas 2,3% no período. Portanto, o país não se endividou mais; o setor produtivo simplesmente parou de conseguir pagar as contas. A parcela da carteira em atraso subiu de 2,7% para 3,3%. A FecomercioSP atribui o movimento, sobretudo, ao efeito defasado do ciclo de juros elevados entre 2022 e 2025. Consequentemente, esse impacto só agora se reflete com força no caixa das corporações. Isso equivale a dizer que a conta de hoje foi contratada há cerca de um ano ou mais.

Asfixia

A distribuição desse peso transforma um dado técnico em um grave problema social. As pequenas e médias empresas respondem por aproximadamente 43% da carteira de crédito, mas concentram três de cada quatro reais em atraso. As pequenas devem R$ 33,4 bilhões (39% do total) e as médias, R$ 31,7 bilhões (37%), apresentando uma alta de 34% em doze meses. Além disso, entre as microempresas, o salto foi de 45%, subindo de R$ 6,9 bilhões para R$ 9,9 bilhões.

Orçamento secreto bem escondido nas algibeiras

Setor produtivo

Por outro lado, as grandes companhias, que detêm quase metade de todo o crédito, mantêm o atraso bem abaixo da média. Elas possuem caixa, tesouraria e maior poder de negociação. Assim, não estamos diante de uma crise geral do setor produtivo, mas sim de uma asfixia seletiva das empresas mais frágeis.

Dispersão geográfica

Tampouco se trata de um fenômeno regional. A inadimplência das empresas bateu o maior nível da história em 18 das 27 unidades da Federação simultaneamente. As maiores altas em doze meses vieram de economias muito distintas entre si:

  • Paraíba: alta de 123%
  • Amapá: alta de 73%
  • Rio Grande do Sul: alta de 67%
  • Amazonas: alta de 66%

São Paulo, como seria de esperar, concentra o maior valor absoluto: R$ 23 bilhões, o equivalente a 27% de todo o atraso empresarial do país. Contudo, é longe dos grandes centros urbanos que a deterioração corre mais rápido.

Serasa

Os dados da Serasa Experian completam esse retrato preocupante. Em junho de 2026, mais de 9,1 milhões de CNPJs estavam negativados, somando R$ 232,9 bilhões em dívidas. Trata-se de uma alta de 16,67% em um ano e um recorde na série iniciada em 2016. São Paulo lidera o ranking nacional, registrando 3,12 milhões de empresas negativadas.Além disso, no ano passado, 2.466 empresas ingressaram com pedidos de recuperação judicial, o maior número já registrado. A proporção de companhias que acabam falindo depois da recuperação subiu para cerca de 30%, ante uma média histórica próxima de 20%. Em suma, o instrumento jurídico é mais acionado, porém funciona menos.

Desaceleração econômica

A moldura macroeconômica explica por que o quadro não deve se resolver sozinho. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, após registrar 1,1% no primeiro. Simultaneamente, o consumo das famílias recuou 0,4%. O mercado projeta uma expansão de cerca de 1,9% em 2026, sendo o primeiro ano abaixo de 2% desde a pandemia.

Teto

O Copom cortou a taxa Selic para 13,75% em 16 de setembro, realizando o quinto corte consecutivo. No entanto, manteve o tom cauteloso. A inflação cheia desacelerou para 4,22% em doze meses até agosto, mas as projeções para o ano rondam 4,9%, permanecendo acima do teto da meta.

Pressão sobre o varejo

Em São Paulo, o faturamento real do varejo da capital caiu 8,8% no primeiro semestre. Houve recuo até mesmo em setores essenciais como supermercados (-6,9%) e farmácias (-2,1%) — segmentos que, por definição, não deveriam ser adiáveis.

Dívidas

O que há de verdadeiramente novo nesse conjunto é a combinação dos fatores. Nas outras ocasiões em que o atraso empresarial atingiu patamares semelhantes — como no início dos anos 2000 e em 2016-2017 —, o país vivia uma recessão aberta ou tinha um mercado de crédito muito mais estreito. Desta vez, a inadimplência das empresas se aproxima do maior nível histórico com a economia ainda crescendo perto de 2% e com o emprego formal resistente. Este é um sinal grave: significa que a atividade existe, mas a receita não chega ao caixa das empresas na velocidade necessária para quitar as obrigações.

Maldita herança

Quem vencer as urnas em outubro não tomará posse em um cenário de crise espetacular, com corridas bancárias ou disparada cambial. O eleito tomará posse, em 1º de janeiro de 2027, sobre uma corrosão lenta, difusa e já contratada.

Cenário

A política monetária opera com defasagem temporal. Mesmo que os cortes da Selic continuem, leva cerca de um ano para que a queda dos juros alcance as contas em atraso. Da mesma forma, levará mais tempo para que as corporações recomponham o caixa e voltem a investir. Em outras palavras, boa parte do ajuste que será cobrado do próximo governo já decorre de decisões tomadas entre 2022 e 2026.

Restrição fiscal

A restrição fiscal agrava consideravelmente o quadro. A dívida bruta do governo geral chegou a 81,9% do PIB em junho, o maior nível desde 2021. O déficit primário acumulado atingiu R$ 157,2 bilhões em doze meses, com despesas de juros próximas de 9% do PIB. Projeções de mercado e da Instituição Fiscal Independente colocam a dívida acima de 86% do PIB em 2027.

Balança

Portanto, não há espaço para que o novo mandatário compre a paz social com aumento de gastos públicos. Tampouco será possível financiar a sobrevivência de empresas por meio de crédito público barato e indiscriminado. Esse seria o caminho mais rápido para transformar um problema de fluxo de caixa privado em um passivo fiscal permanente.

Espaço para subsídios

Também não haverá lua de mel com a inflação. As expectativas para 2027 já rondam 4,3%, ficando acima do centro da meta, enquanto o Copom mantém a avaliação de riscos assimétricos para cima. Um governo que estreie prometendo estímulo à demanda encontrará o Banco Central obrigado a interromper — ou reverter — o ciclo de cortes. Isso jogaria de volta sobre as pequenas e médias empresas exatamente o custo financeiro que hoje as sufoca.

A agenda econômica realista para o próximo governo

A agenda realista é menos vistosa e mais árida do que qualquer palanque admitirá até outubro. Ela exige obrigatoriamente:

  • Credibilidade fiscal: adoção de regras sustentáveis que sobrevivam ao próprio mandato.
  • Transição tributária: implementação disciplinada da reforma, que começará a afetar o caixa das empresas nos primeiros anos do próximo governo.
  • Redução do custo do crédito: avanço por vias microeconômicas (garantias, informação e execução previsível de contratos), e não por subsídios artificiais.
  • Reestruturação de dívidas: tratamento sério para micro e pequenas empresas, que hoje chegam à recuperação judicial tarde demais para viabilizar a recuperação.

75%

Há ainda um risco estrutural que os indicadores atuais escondem: o mercado de trabalho. O emprego aquecido tem sido o principal amortecedor social desta desaceleração. Por essa razão, a inadimplência das famílias, medida mensalmente pela PEIC da FecomercioSP na capital paulista, oscila em torno de 20% sem explodir. Isso ocorre embora o endividamento dos lares ronde 75% e o comprometimento da renda esteja no maior patamar já medido pelo Banco Central.

Sem trabalho

Entretanto, o emprego é a última variável a ceder em momentos de crise. Empresas com caixa apertado cortam investimentos, reduzem estoques, suspendem fornecedores e só então demitem pessoal. Se o atraso recorde de hoje ainda não virou desemprego em massa, é porque a fila está andando. O próximo governo pode receber justamente a etapa final dessa sequência.

Inadimplência

Há ainda um risco estrutural que os indicadores atuais escondem: o mercado de trabalho. O emprego aquecido tem sido o principal O silêncio do debate eleitoral e a urgência do tema

Indiferença

Portanto, nada disso aparecerá no debate eleitoral com a devida franqueza por uma razão simples: não há solução de curto prazo compatível com o horário eleitoral. Além disso, a solução não dependerá apenas do Palácio do Planalto. A agenda de crédito, tributação e reestruturação de dívidas depende do Congresso Nacional que será eleito em outubro. Como resultado, a experiência recente sugere que a fragmentação parlamentar costuma cobrar seu preço em emendas e renúncias fiscais, exatamente o oposto do que a trajetória da dívida pública comporta.

Sem ideias?

Mas o eleitor tem o direito de exigir dos candidatos, ainda durante a campanha, que expliquem como pretendem tratar os R$ 86 bilhões que as empresas brasileiras já não conseguem pagar. Neste contexto, o silêncio é uma resposta clara.

No vermelho, literalmente

De acordo com a FecomercioSP o aspecto mais preocupante do estudo aponta a ausência de qualquer sinal de melhora. Sem alarmismo, resta a constatação de que, quando 9,1 milhões de empresas estão negativadas e a inadimplência das empresas bate recorde em dois terços dos estados ao mesmo tempo, o problema deixou de ser conjuntural e passou a ser estrutural.

Vencedor de quê

Por outro lado, o vencedor de outubro herdará um país economicamente fragilizado, cujo tecido empresarial já opera sem margem de manobra. Convém que os candidatos ao governo compreendam essa realidade bem antes da posse, evitando surpresas no primeiro balanço trimestral de 2027, quando já será tarde demais.

A frase que foi pronunciada

“O problema deixou de ser conjuntural e passou a ser estrutural. Não há qualquer sinal de melhora no curto prazo.”

FecomercioSP, em relatório sobre a inadimplência empresarial no Brasil.

História de Brasília

A Quadra 48 ainda é a grande sem sorte da W-3. Começaram o serviço de urbanização. Deixaram pelo meio, com esgotos e telefones cortados. Consertaram, e deixaram a poeira. Agora, está sendo preferida pelos ladrões de automóveis. .( Publicada em 26.05.1962)