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Davos entre dois mundos: globalismo em debate e o retorno do soberanismo
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Reuniões anuais do Fórum Econômico Mundial em Davos costumam funcionar como termômetro das grandes correntes de pensamento que atravessam a economia e a política internacional. Na edição realizada em janeiro de 2026, porém, o encontro revelou algo mais profundo do que debates sobre crescimento, tecnologia ou clima. O que se viu foi um confronto explícito entre duas visões distintas de organização do mundo: de um lado a perspectiva globalista, baseada na integração econômica e na governança internacional ampliada; de outro, o retorno vigoroso do soberanismo político e de uma leitura mais pragmática das relações internacionais.
Esse embate não surgiu de forma repentina. Ao longo da última década, crises sucessivas abalaram a confiança no modelo de globalização que se consolidou após o fim da Guerra Fria. A crise financeira internacional de 2008, os efeitos sociais da desindustrialização em várias economias ocidentais, a pandemia e os conflitos geopolíticos recentes contribuíram para fortalecer correntes políticas que defendem maior autonomia nacional nas decisões econômicas e estratégicas. Nesse contexto, lideranças políticas que defendem agendas mais voltadas ao interesse nacional passaram a ganhar espaço no debate global. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tornou-se um dos principais símbolos dessa corrente ao defender políticas comerciais protecionistas, controle migratório mais rígido e revisão de acordos multilaterais considerados prejudiciais à economia norte-americana. Seu discurso encontrou eco em diferentes regiões do mundo, alimentando uma onda política que passou a questionar abertamente o consenso globalista predominante em fóruns internacionais.
Na América Latina, o presidente argentino, Javier Milei, também tem sido uma das vozes mais críticas em relação a modelos internacionais de governança econômica. Em diversos pronunciamentos, Milei denunciou aquilo que chama de “burocracia global” e criticou políticas que, segundo sua visão, ampliam a intervenção estatal e reduzem a autonomia das nações. Seu discurso ganhou destaque internacional justamente por confrontar algumas das ideias mais presentes nos debates promovidos em Davos. Na Europa, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, representa outra vertente desse movimento. Meloni tem defendido publicamente políticas de fortalecimento das fronteiras nacionais e de revisão da política migratória europeia, argumentando que a União Europeia precisa equilibrar valores humanitários com a capacidade real de absorção econômica e social de novos fluxos populacionais. A questão migratória tornou-se, de fato, um dos temas mais sensíveis do debate europeu contemporâneo. Dados da Eurostat indicam que milhões de imigrantes chegaram ao continente ao longo da última década, pressionando sistemas de assistência social, políticas habitacionais e mercados de trabalho em vários países.
Enquanto defensores da integração global argumentam que a imigração pode compensar o envelhecimento demográfico europeu, críticos apontam dificuldades de integração cultural e desafios de segurança em determinadas regiões. Ao mesmo tempo, agenda ambiental e energética também esteve no centro das discussões em Davos. Propostas ligadas à transição energética, descarbonização da economia e investimentos em tecnologias verdes continuam sendo defendidas por organizações internacionais e por parte significativa da liderança política europeia.
Entretanto, opositores dessa agenda argumentam que determinadas políticas ambientais podem gerar custos econômicos elevados, especialmente em setores industriais tradicionais. Em alguns países europeus, protestos de agricultores e trabalhadores industriais têm expressado preocupações sobre o impacto de regulações ambientais mais rigorosas sobre competitividade e emprego. Essa divergência ilustra o núcleo do debate atual.
De um lado, defensores da governança global sustentam que problemas como mudança climática, migração e segurança digital exigem soluções multilaterais coordenadas. De outro, líderes e movimentos soberanistas argumentam que decisões fundamentais devem permanecer sob controle direto das nações, que seriam as verdadeiras responsáveis perante seus cidadãos.
A edição de 2026 do encontro em Davos tornou visível essa fratura intelectual e política. Propostas apresentadas no fórum enfatizaram cooperação internacional, investimentos sustentáveis e integração econômica ampliada. Paralelamente, discursos e posicionamentos de vários líderes políticos refletiram crescente eticismo em relação a projetos que possam reduzir a autonomia decisória dos Estados nacionais.
Europa aparece como um dos principais cenários dessa tensão. O continente enfrenta simultaneamente desafios demográficos, pressão migratória, competição econômica global e necessidade de adaptação energética. Nesse ambiente complexo, diferentes correntes políticas disputam interpretações sobre qual caminho seguir. Alguns defendem aprofundar a integração e fortalecer instituições multilaterais. Outros argumentam que a recuperação da capacidade decisória nacional representa condição necessária para preservar estabilidade econômica e coesão social.
A frase que foi pronunciada:
A globalização desenfreada beneficiou alguns, mas foi uma catástrofe para a maioria.
Marine Le Pen

História de Brasília
O comércio de Brasília está apavorado com o número de publicações que tem saido ultimamente. Quando sai uma publicidade local no Correio Braziliense, os nossos dêsses jornais” atiram-se contra os comerciantes, e, às vezes, ameaçam até chantagem. Denunciem, e nós publicaremos. (Publicada em 16.05.1962)
O mundo imaterial das bets e das criptos e a justiça tradicional
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Transformações tecnológicas vêm alterando profundamente a natureza da criminalidade econômica contemporânea. Conforme observa análise publicada pelo portal jurídico Migalhas, “a criminalidade contemporânea, especialmente no domínio econômico, cada vez mais, manifesta-se de forma desmaterializada, desintermediada e transnacional”. Tal diagnóstico sintetiza um fenômeno que desafia sistemas jurídicos concebidos em uma época na qual crimes financeiros dependiam de instituições físicas, intermediários identificáveis e fronteiras relativamente definidas. O crescimento das criptomoedas e a explosão das chamadas plataformas de apostas digitais, conhecidas popularmente como bets, representam exemplos emblemáticos desse novo ambiente econômico e jurídico.
Sistemas baseados em blockchain permitem transações rápidas, descentralizadas e, em muitos casos, difíceis de rastrear. Segundo relatório de 2023 da empresa de análise de blockchain Chainalysis, cerca de US$ 24 bilhões em transações ilícitas foram identificadas em redes de criptomoedas naquele ano, envolvendo esquemas de fraude, lavagem de dinheiro e mercados ilegais. A difusão das apostas online também revela dimensão econômica expressiva desse setor. Estimativas da consultoria Statista apontam que o mercado global de apostas digitais superou US$ 90 bilhões em 2024, impulsionado pela digitalização do entretenimento e pela expansão das plataformas móveis.
Parte considerável dessas operações ocorre em jurisdições estrangeiras ou em ambientes digitais de difícil fiscalização, criando desafios adicionais para autoridades tributárias e regulatórias. Nesse universo virtual onde se inserem as bets e as criptomoedas, a justiça tradicional, equipada com instrumentos concebidos para um mundo econômico físico, parece muitas vezes não possuir efetividade suficiente para frear os diversos crimes que podem decorrer dessas atividades. Investigações financeiras clássicas dependem de registros bancários centralizados, cooperação institucional e identificação clara de intermediários. Nas redes digitais descentralizadas, porém, fluxos financeiros podem atravessar fronteiras em segundos, passando por múltiplas carteiras virtuais antes que qualquer autoridade consiga iniciar um rastreamento consistente.
Para organizações criminosas, tais características representam oportunidades inéditas. A facilidade de movimentação de valores, o anonimato relativo e o alcance global criam um ambiente que muitos especialistas descrevem como extremamente atraente para operações de lavagem de dinheiro. Em certos casos, apostas digitais e moedas virtuais funcionam como camadas adicionais de ocultação de recursos ilícitos, dificultando a reconstrução do caminho percorrido pelo dinheiro. Autoridades financeiras internacionais vêm alertando para esse fenômeno. O Financial Action Task Force, organismo global responsável por diretrizes contra lavagem de dinheiro, afirma, em seus relatórios, que ativos digitais já aparecem com frequência crescente em investigações relacionadas ao financiamento ilícito. Recomendações recentes incluem maior cooperação internacional, identificação obrigatória de usuários em plataformas digitais e mecanismos de rastreamento tecnológico mais sofisticados.
Diante desse cenário, sistemas de justiça enfrentam um dilema complexo. Instrumentos tradicionais de investigação tornam-se menos eficazes quando fluxos financeiros circulam em redes distribuídas e pseudônimas. Ao mesmo tempo, respostas legislativas precipitadas podem gerar expansão excessiva do Direito Penal, criando novas tipificações sem resolver o problema estrutural. Especialistas em regulação financeira defendem que o desafio central não venha apenas punir crimes, mas adaptar mecanismos de supervisão preventiva ao ambiente digital.
O ex-presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, já ressaltou, em debates públicos, que inovação financeira exige equilíbrio entre estímulo tecnológico e proteção contra abusos. A praga das bets ilustra bem essa tensão. Em diversos países, plataformas de apostas digitais cresceram rapidamente antes que marcos regulatórios adequados fossem estabelecidos. A expansão acelerada trouxe preocupações envolvendo lavagem de dinheiro, manipulação de resultados esportivos, publicidade agressiva e vulnerabilidade financeira de jogadores. A criminalidade econômica do século XXI deixou de depender de cofres físicos, empresas de fachada ou malas de dinheiro. Hoje, ela pode ocorrer por meio de códigos criptográficos, algoritmos e plataformas digitais distribuídas pelo planeta.
Diante dessa nova paisagem, respostas simplistas mostram-se insuficientes. Regulamentação inteligente, cooperação internacional e atualização institucional parecem ser os únicos caminhos capazes de enfrentar um crime que, cada vez mais, não reconhece fronteiras nem limites territoriais.
A frase que foi pronunciada:
“As criptomoedas vieram para ficar. Se você ainda não percebeu isso, é hora de aprender mais sobre o assunto.”
Joel McLeod

História de Brasília
Ainda sôbre o IAPC: os vigias e serventes dos blocos construidos pelo IAPC, em decorrência de uma lei, não poderão ser registrados, e por isto, embora trabalhando para um Instituto não poderão descontar para a Previdência Social. (Publicada em 16.05.1962)
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De acordo com a tradição, a frase: “a verdade está espalhada por aí” é atribuída ao primeiro poeta grego, Píndaro (518 a.C – 438 a.C), posteriormente replicada pelo filósofo Nietzsche na obra autobiográfica Ecce Homo, de 1888. Com essa expressão, o que se busca demonstrar é que a ideia da verdade pode ser encontrada em contextos e fontes diversas, espalhadas aos quatro cantos. Isso ocorre porque as convicções pessoais e empedernidas podem facilmente vir a se tornarem mais perigosas até do que a própria mentira. O sentido profundo dessa expressão sugere algo fundamental para a vida intelectual e política das sociedades: a verdade não pertence a um indivíduo, a um grupo ou a uma autoridade específica. Ela se encontra dispersa na experiência humana, na razão, no debate público e na realidade dos fatos. Nenhuma autoridade, por mais poderosa que seja, possui monopólio sobre ela. A pluralidade de perspectivas constitui justamente o mecanismo pelo qual sociedades conseguem se aproximar de interpretações mais próximas da realidade.
O problema grave surge quando essa concepção é substituída por outra mais perigosa: a crença de que a verdade pode ser definida por decreto, por autoridade ou pela simples repetição de narrativas políticas. Nesse momento, convicções pessoais passam a ocupar o lugar que deveria ser reservado aos fatos. Aquilo que antes era objeto de investigação e debate transforma-se em dogma. E dogmas políticos, quando se consolidam, tendem a produzir crises institucionais profundas.
O Brasil contemporâneo vive, em larga medida, sob os efeitos desse fenômeno. Polarização política intensa, discursos mutuamente excludentes e disputas de narrativas permanentes criaram um ambiente em que cada grupo acredita possuir a própria versão incontestável da realidade. Em vez de debate racional, instala-se uma guerra de narrativas. Em vez de busca pela verdade comum, prevalece a tentativa de impor versões particulares como se fossem fatos incontestáveis. A consequência inevitável desse ambiente é o enfraquecimento das instituições. Quando diferentes grupos passam a afirmar que a verdade depende apenas da posição política de quem a proclama, o terreno comum da convivência republicana começa a desaparecer.
Instituições públicas, que deveriam funcionar como árbitros imparciais, acabam sendo arrastadas para disputas políticas intensas. Em vez de mediadoras, tornam-se parte do conflito. Essa transformação produz efeitos corrosivos sobre a confiança pública. Pesquisas de opinião, realizadas pelo Datafolha e por outros institutos indicam, ao longo da última década, níveis elevados de desconfiança da população em relação a instituições políticas e administrativas. Tal desconfiança não surge apenas de escândalos ou crises econômicas. Ela nasce também da percepção de que diferentes autoridades apresentam interpretações incompatíveis com a realidade, muitas vezes moldadas por interesses circunstanciais. Filósofos políticos, frequentemente, lembram que democracias dependem de um mínimo consenso sobre os fatos básicos da vida pública.
Hannah Arendt observou que a destruição da verdade factual representa uma das formas mais perigosas de corrosão da esfera pública. Sem fatos reconhecidos coletivamente, debate político perde seu fundamento racional e passa a operar, exclusivamente, no campo da propaganda e da mobilização emocional. A situação brasileira contemporânea reflete, em parte, esse processo. A própria ideia de verdade passa a ser substituída por uma disputa permanente de versões.
Retorno à antiga intuição atribuída a Píndaro oferece uma lição importante para tempos como os atuais. Se a verdade está espalhada, ela não pode ser monopolizada. Nenhum partido, governo ou instituição possui autoridade absoluta para defini-la. Ela emerge, gradualmente, do confronto entre evidências, argumentos e experiências diversas. A crise política e institucional brasileira não pode ser compreendida apenas como resultado de divergências ideológicas ou disputas eleitorais. Em grande medida, ela decorre da erosão de um princípio fundamental da vida republicana: o reconhecimento de que a verdade pertence ao domínio comum e deve ser buscada coletivamente.
Resgatar esse princípio não significa eliminar divergências políticas, algo impossível em qualquer sociedade livre. Significa reconhecer que o debate democrático precisa de um terreno mínimo compartilhado, onde fatos possam ser discutidos com base em evidências e não apenas em convicções. Nesse ambiente, a verdade deixa de estar espalhada pela realidade e passa a ser substituída por versões particulares. Quando isso ocorre, crises institucionais deixam de ser exceção e passam a se tornar parte permanente da vida pública.
A frase que foi pronunciada:
“Lealdade ao país, sempre! Lealdade ao governo, quando ele a merecer.”
Mark Twain

História de Brasília
Não foi dos melhores, o movimento da Proclamação de Brasília. O sr. Garcia, da Cidade Livre, levou claque, e tôda vez que dizia alguma coisa com mais ênfase, lá de traz batiam palmas e diziam muito bem. Não era coisa tão interessante porque só lá atrás batiam palmas. (Publicada em 16/5/1962)
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A crise envolvendo o Banco Regional de Brasília ganhou dimensão política e fiscal após reportagens apontarem exposição relevante da instituição a ativos de alto risco vinculados ao chamado “Caso Banco Master”. Cobertura de veículos como Metrópoles, Correio Braziliense e Valor Econômico tem destacado a complexidade contábil do episódio, incluindo operações estruturadas e aquisição de papéis cuja precificação e lastro passaram a ser questionados por analistas de mercado. Em paralelo, circulam estimativas preliminares de perdas potenciais que poderiam alcançar cifras bilionárias, elevando a preocupação com impactos sistêmicos. Responsabilidade institucional recai, em última instância, sobre o controlador do banco, o Governo do Distrito Federal, chefiado por Ibaneis Rocha.
Em bancos públicos, governança e gestão de risco não constituem apenas temas técnicos; representam compromisso direto com o erário. Caso operações com títulos de baixa liquidez e ativos depreciados sejam confirmadas como fonte de perdas expressivas, eventual necessidade de capitalização poderá pressionar as contas locais e, por consequência, o contribuinte brasiliense. Relatórios públicos e notas oficiais mencionadas pela imprensa indicam que parte da estratégia recente incluiu reestruturação de carteira e venda de ativos para reforço de caixa. Tal movimento, descrito por analistas como venda acelerada ou “desalavancagem forçada”, costuma ocorrer quando instituições buscam recompor indicadores de capital. A literatura financeira aponta que liquidações em ambiente adverso frequentemente se dão com desconto relevante, cristalizando perdas que, em cenários de normalidade, poderiam ser administradas ao longo do tempo. Preocupação adicional surge quando ativos estratégicos entram no radar de alienação.
Matérias veiculadas localmente mencionam a possibilidade de colocação à venda de áreas de propriedade do banco, entre elas, terras na região da Serra do Paranoazinho, área sensível por sua relevância ambiental e por integrar a bacia que abastece o Lago Paranoá. Especialistas em recursos hídricos alertam que territórios de recarga aquífera possuem valor ecológico superior ao meramente imobiliário, devendo qualquer negociação observar critérios técnicos rigorosos e transparência plena.
Comparações com episódios anteriores do sistema financeiro brasileiro reforçam a importância de resposta institucional tempestiva. Durante a crise bancária dos anos 1990, programas de saneamento como o PROER envolveram injeção de recursos públicos para evitar colapsos sistêmicos. A diferença fundamental reside no fato de que, à época, tratava-se de estabilização macroeconômica nacional. No caso atual, discute-se instituição regional cujo controlador é o governo distrital, o que concentra impacto potencial sobre orçamento local.
Dados do Banco Central mostram que indicadores de capitalização e provisão constituem principais amortecedores contra perdas inesperadas. Caso carteira de ativos apresente deterioração relevante, exigências regulatórias podem demandar reforço de capital. Em bancos públicos, tal reforço frequentemente decorre de aporte do ente controlador. Traduzido em termos fiscais, significa que recursos originalmente destinados a políticas públicas podem ser redirecionados para estabilização financeira.
Cobertura jornalística também registra questionamentos de parlamentares distritais quanto à extensão da exposição do BRB a operações estruturadas associadas ao Banco Master. Demandas por instalação de comissões de investigação e auditorias independentes refletem a compreensão de que transparência constitui elemento central para preservar confiança. O mercado reage não apenas a números, mas à qualidade das informações disponibilizadas. Venda apressada de ativos, quando percebida como tentativa de cobrir rombo contábil, tende a ampliar desconfiança.
Analistas financeiros observam que liquidação sob pressão reduz poder de barganha e pode comprometer patrimônio estratégico construído ao longo de décadas. Em banco público, patrimônio não pertence a acionistas privados dispersos, mas à coletividade representada pelo ente federativo. A transparência informativa cumpre papel preventivo, pois amplia escrutínio e incentiva correções tempestivas.
Risco maior reside na socialização de prejuízos. Se perdas se confirmarem em escala elevada, alternativas clássicas incluem capitalização pelo governo, redução de dividendos futuros ao Tesouro distrital ou reorganização societária. Cada uma dessas opções possui implicações orçamentárias. Em última instância, o custo pode refletir-se em menor capacidade de investimento público ou aumento indireto da carga tributária local. Contexto exige serenidade analítica.
A presunção de irregularidade não substitui auditoria técnica, assim como boatos não podem guiar decisões de política pública. Instituições financeiras públicas operam sob dever reforçado de governança justamente porque administram poupança e patrimônio de natureza coletiva. A conclusão aponta para necessidade de três medidas centrais: divulgação integral e tempestiva da exposição do banco, auditoria independente com publicidade de resultados e avaliação criteriosa de qualquer alienação de ativos sensíveis, especialmente aqueles com impacto ambiental e hídrico. A confiança, no sistema financeiro, constitui ativo intangível de maior valor. Preservá-la requer luz plena sobre operações, responsabilidades claramente delimitadas e compromisso inequívoco com interesse público.
Frase que foi pronunciada:
“Quem pariu o pato que o embale”
Dona Dita e a população de Brasília se recusando a pagar as dívidas do governo

História de Brasília
O IAPC abriu inscrição para financiamento da Casa Própria. Enorme multidão acorreu à Delegacia e não pôde fazer outra coisa senão escrever o nome num livro, porque não haviam chegados os formulários. (Publicada em 16.05.1962)
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Na tradição republicana, a publicidade dos atos do poder não é um detalhe administrativo, é o próprio fundamento da legitimidade. O que se faz em nome do público deve ser conhecido pelo público. Ainda assim, no Brasil, consolida-se um padrão inquietante: a ampliação de mecanismos de sigilo sobre gastos e condutas de autoridades, frequentemente sob justificativas vagas de segurança institucional ou interesse estratégico. O resultado é uma inversão de princípios. O que deveria ser exceção torna-se regra; o que deveria ser visível passa a ser ocultado.
Não é difícil compreender por que isso preocupa. O bem e a ética não dependem da sombra para existir. A virtude administrativa não necessita de compartimentos herméticos. Quando a opacidade se transforma em rotina, instala-se a suspeita de que o sigilo não protege o interesse público, mas resguarda o constrangimento de revelações incômodas. O paradoxo republicano do segredo não é uma criação inocente.
A república nasce da ideia de coisa pública. Sua lógica é a do escrutínio. O sigilo, por definição, restringe o olhar coletivo e limita a capacidade de controle social. Ele pode ser necessário em circunstâncias específicas e temporárias, mas torna-se contraditório quando aplicado a despesas ordinárias, decisões administrativas corriqueiras ou atos que envolvem recursos do contribuinte. A institucionalização de prazos extensos de confidencialidade, como sigilos prolongados sobre determinados gastos ou agendas oficiais, não apenas posterga o controle; ele o esvazia. O tempo, nesse contexto, funciona como instrumento de esquecimento. A informação chega tarde demais para produzir responsabilidade política ou jurídica. A opacidade prolongada não protege a estabilidade; ela protege a impunidade.
A história administrativa demonstra uma regularidade: quanto maior a distância entre o ato público e a fiscalização pública, maior o risco de desvio. O segredo funciona como um amortecedor moral, pois reduz o custo reputacional imediato de decisões questionáveis e dilui a possibilidade de reação social. Quando despesas, contratos ou deslocamentos oficiais são retirados do alcance dos olhos dos contribuintes, cria-se um ambiente propício a despadronização de controles, com os critérios tornando-se flexíveis e casuísticos. Nessas condições, a administração deixa de ser apenas ineficiente; ela se torna estruturalmente vulnerável. O custo democrático do segredo é alto e impreciso. O dano provocado pelo sigilo não é apenas financeiro. Ele atinge a própria arquitetura da confiança pública. A transparência permite que o cidadão compreenda não apenas quanto se gasta, mas a razão dos investimentos. Sem essa mediação, a autoridade se distancia da sociedade e o poder perde seu caráter justificável.
A infiltração oportunista passa a ser a regra geral. Ambientes institucionais cobertos de névoa tornam-se mais permeáveis a influências indevidas. A fragilidade de controles e a rarefação de fiscalização pública ampliam o espaço para interesses paralelos e redes informais de poder. Não se trata de um evento abrupto, mas de um processo incremental: pequenas concessões de opacidade que, somadas, abrem portas a práticas cada vez mais difíceis de rastrear. A presença de mecanismos robustos de publicidade não elimina o risco de desvio, mas eleva o custo de sua prática. O sigilo permanente, ao contrário, reduz esse custo e aumenta a previsibilidade da impunidade.
Em democracias maduras, despesas de autoridades são objeto de prestação de contas contínua: relatórios periódicos, justificativas documentadas, auditorias independentes e acesso público a dados essenciais. Quando essas etapas são suprimidas ou adiadas por longos períodos de confidencialidade, o controle deixa de ser preventivo e torna-se meramente histórico, isso é, quando ainda ocorre. O prejuízo é duplo. Primeiro, porque a sociedade não pode avaliar a razoabilidade do gasto no tempo em que ele produz efeitos. Segundo, porque a responsabilização, quando possível, perde eficácia pedagógica.
O aspecto mais preocupante não é a existência pontual de segredo, mas sua transformação em cultura. Quando a administração passa a operar sob a presunção de que a publicidade é um risco e não um dever, inverte-se o vetor republicano. A exceção torna-se hábito; o hábito, norma; e a norma, tradição. Não se engane, esse tipo de cultura produz efeitos sistêmicos e de longo prazo. O enfraquecimento de órgãos de controle é o primeiro efeito. Vem ainda a redução da qualidade do gasto público, com o aumento do custo de conformidade para quem atua corretamente.
Num Estado, o que não são luzes são trevas. Em regimes de baixa transparência, o que se vê não é apenas a falta de informação, mas a forma que o poder assume quando não precisa prestar contas. É uma paisagem de contornos distópicos e duros. O que temos em nosso caso é o claro do discurso público e o escuro das práticas resguardadas. E, como em uma fotografia hiper-realista, o contraste excessivo não embeleza, pelo contrário, ele evidencia nosso drama. A ética pública repousa sobre um princípio elementar: quem administra recursos coletivos deve explicá-los ao coletivo.
A frase que foi pronunciada:
“A Europa foi criada pela história. A América foi criada pela filosofia.”
Margaret Thatcher

História de Brasília
Causou estranheza na Novacap a presença do cel. Barlem e do dr. Bessa, examinando processos relacionados com o inquérito. É que os dois membros da Comissão estiveram na Novacap sem que o dr. Waldir Santos, outro membro da comissão, tivesse conhecimento do assunto. (Publicada em 16.05.1962)
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Carlos Penna Brescianini lembrou bem. Como é que representantes do governo declaram que nada podem fazer em relação aos problemas causados pelas chuvas se, na antiguidade, sem inteligência artificial, sem computadores e sem eletricidade, aquele povo conseguia drenar as águas das chuvas para enfrentar as inundações?
Como base para a engenharia atual, a tecnologia hidráulica desenvolvida por civilizações antigas revela grau de sofisticação em sistemas de captação e retenção de águas pluviais que estruturava cidades inteiras muito antes da mecanização contemporânea, articulando arquitetura, topografia e conhecimento climático de forma integrada. No território da Roma Antiga, cisternas escavadas no subsolo armazenavam milhares de litros de água coletados por telhados inclinados e pátios internos, garantindo abastecimento durante estiagens prolongadas. Escavações arqueológicas demonstram que esses reservatórios eram impermeabilizados com argamassa especial à base de cal e fragmentos cerâmicos, técnica que assegurava durabilidade secular. Povos da Mesoamérica, na região correspondente ao atual México, construíram os chamados chultuns, cavidades talhadas na rocha calcária para reter água da chuva em áreas sem rios perenes. Engenhosidade semelhante floresceu na Grécia Antiga, onde reservatórios públicos integravam o desenho urbano, reconhecendo a chuva como recurso estratégico, e não como ameaça a ser eliminada.
Em caminho inverso percorre a modernidade brasileira, entretanto, ao longo do século 20, convertendo várzeas em avenidas, retificando cursos d’água e selando o terreno com concreto. Dados consolidados pelo MapBiomas indicam expansão acelerada da mancha urbana nas últimas décadas, acompanhada de expressiva redução de áreas verdes em regiões metropolitanas. Em São Paulo, levantamentos municipais apontam índices de impermeabilização superiores a 70% em diversos distritos, condição que compromete a infiltração natural e intensifica picos de vazão durante tempestades. Relatórios técnicos da prefeitura e análises do Tribunal de Contas do município já advertiram que o sistema de macrodrenagem enfrenta limites estruturais diante da frequência crescente de eventos extremos.
Minas Gerais oferece quadro igualmente revelador. Temporais recentes registraram volumes pluviométricos acima de 200 milímetros em menos de 24 horas em áreas da Região Metropolitana de Belo Horizonte, conforme boletins da Defesa Civil estadual. Deslizamentos e inundações expuseram vulnerabilidades históricas relacionadas à ocupação de encostas e fundos de vale. No Rio de Janeiro, relatórios do Instituto Estadual do Ambiente destacam que relevo acidentado combinado a adensamento populacional e drenagem insuficiente potencializa enxurradas rápidas e destrutivas. Especialistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, órgão federal vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, reiteram que padrões climáticos alterados ampliam a intensidade das precipitações, exigindo revisão dos parâmetros tradicionais de projeto.
Cálculos econômicos reforçam a dimensão do desafio. Estimativas da Confederação Nacional de Municípios apontam que desastres associados a chuvas provocaram prejuízos de bilhões de reais na última década, considerando danos a infraestrutura, moradias e atividades produtivas. Frente a esses números, investimentos preventivos deixam de representar gastos e passam a configurar estratégia fiscal prudente. Simulações conduzidas por pesquisadores da Universidade de São Paulo indicam que a combinação de pavimentos permeáveis, jardins de chuva e recuperação de várzeas reduz, significativamente, o pico de cheia em bacias densamente urbanizadas.
Experiências internacionais corroboram tal diagnóstico. O Programa Sponge City, implementado em diversas cidades da China, estabeleceu metas nacionais de retenção e reaproveitamento de águas pluviais, mobilizando investimentos bilionários e integrando drenagem ao planejamento urbano. Modelos adotados em Roterdã, nos Países Baixos, transformaram praças públicas em bacias temporárias de retenção, conciliando lazer e controle de cheias com eficiência reconhecida internacionalmente, mais ou menos como o governo Ibaneis implantou perto do Iate Clube de Brasília.
Projeção conservadora para adaptar parcialmente metrópole como São Paulo, tornando permeáveis cerca de 300 quilômetros quadrados ao longo de duas décadas, alcançaria valores próximos de R$ 60 bilhões, equivalentes a, aproximadamente, 3 bilhões anuais, percentual modesto ante a orçamento municipal superior a 90 bilhões por ano. Engenheira hidróloga, Maria do Carmo Barros afirmou em seminário promovido pela Universidade Federal de Minas Gerais que “cada real aplicado em prevenção hídrica economiza múltiplos em reconstrução e assistência emergencial”, frase que traduz racionalidade econômica frequentemente eclipsada por prioridades de curto prazo.
A frase que foi pronunciada:
“A administração pública não é apenas sobre regras, mas sobre resultados.”
James Q. Wilson

História de Brasília
Continua Hipólito José da Costa na primeira edição do Correio Braziliense de 1808: O indivíduo que abrange o bem geral d’uma sociedade, vem a ser o membro mais distincto della; as luzes que elle espalha, tiraõ das trevas ou da illuzaõ aquelles que a ignorancia preciptou no labyrintho da apathia, da inepcia e do engano. (Publicada em 26/2/1962)
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Existe uma aritmética que se repete com regularidade perturbadora na vida pública do Brasil. É uma matemática peculiar, na qual o resultado das operações nunca recai sobre quem executa o desvio, mas sobre quem jamais participou dele. Trata-se da socialização do prejuízo e da privatização da culpa, um mecanismo que transforma a corrupção em um imposto informal permanente, cobrado sobretudo dos mais vulneráveis.
Na lógica perversa desse sistema, o ciclo é previsível: um escândalo é revelado, cifras bilionárias são mencionadas, investigações são anunciadas, e, ao final, o rombo é incor porado ao orçamento público. O dano não desaparece; ele apenas muda de titular. O que era um passivo decorrente de condutas ilícitas converte-se em ônus coletivo, distribuído entre contribuintes que não tiveram qualquer participação no delito. O mecanismo do deslocamento de responsabilidade é contínuo e injusto.
A corrupção, em sua forma estrutural, não é apenas a apropriação indevida de recursos. É, sobretudo, um processo de transferência de custos. O agente que desvia não apenas subtrai valores: ele cria uma lacuna fiscal que precisa ser preenchida. E essa recomposição, raramente, ocorre por meio de ressarcimento efetivo. Em vez disso, observa-se um padrão recorrente que torna o dano reconhecido como passivo público. Com isso, o orçamento absorve o impacto; ajustes fiscais são implementados e a carga recai sobre serviços públicos ou elevação da tributação.
O resultado é uma equação assimétrica: quem comete o ato ilícito, raramente, repara integralmente o dano, enquanto quem nada fez passa a financiá-lo ad infinitum. Essa dinâmica rompe um princípio básico de justiça distributiva: a correspondência entre responsabilidade e consequência. Quando o vínculo entre ato e reparação se dissolve, a punição perde seu caráter pedagógico e a lei perde sua função equilibradora. Daí, advém a erosão silenciosa da renda social e suas consequências no IDH. O efeito macroeconômico desse processo é cumulativo. Cada episódio de malversação incorporado ao orçamento público representa uma redução indireta da renda social disponível. O prejuízo manifesta-se de diversas formas: na redução de investimentos públicos es senciais; na deterioração de serviços sociais; no aumento de tributos diretos ou indiretos; na expansão da dívida pública e na compressão do poder de compra coletivo.
Diante desse quadro, propostas mais rigorosas surgem no debate público: transformar corrupção em crime hediondo e imprescritível; extinguir ou restringir drasticamente o foro privilegiado; endurecer regras de inelegibilidade; fortalecer mecanismos de compliance e transparência; aprimorar sistemas de controle interno e externo; e ampliar a digitalização e rastreabilidade dos gastos públicos. Trata-se de uma forma difusa de transferência regressiva de renda, em que os recursos que deveriam ampliar o bem-estar coletivo convertem-se em perdas absorvidas pelos próprios contribuintes.
A psicologia social da impunidade passa a ser aceita como regra geral e como processo contra o qual nada pode ser feito. A repetição desse padrão produz um efeito psicológico profundo na sociedade. A cada novo escândalo, instala-se uma sensação de inevitabilidade. O cidadão passa a antecipar o desfecho antes mesmo do julgamento: o dano será coletivo, a restauração incerta e a vida seguirá com um custo adicional invisível. Esse processo gera algumas consequências sociais relevantes, como o descrédito institucional na percepção de que a justiça não recompõe o equilíbrio; na normalização do desvio com a ideia de que a corrupção é estrutural e inevitável e na desmobilização cívica, com a sensação de impotência diante do sistema que privilegia os poderosos. A justiça, quando incapaz de restaurar o equilíbrio entre dano e o ajuste, deixa de ser percebida como balança imparcial e passa a ser vista como registro formal de desigualdades. Daí a regressividade do prejuízo se instala de forma permanente.
Um dos aspectos mais paradoxais dessa “matemática do desvio” é seu caráter regressivo. Embora a corrupção seja frequentemente associada a altos escalões administrativos e políticos, seus custos são distribuídos de maneira inversa à renda. E isso ocorre porque os tributos indiretos pesam proporcionalmente mais sobre os mais pobres, com os serviços públicos deteriorados afetando principalmente quem mais depende deles e com ajustes fiscais incidentes sobre consumo e a renda do trabalho. Assim, a corrupção opera como um mecanismo indireto de redistribuição negativa: retira recursos do conjunto da sociedade e os transforma em perda coletiva concentrada nos estratos inferiores. A quebra do princípio reparatório passa a ser norma.
Em sistemas jurídicos orientados pelo princípio da res ponsabilidade, o dano gera a obrigação de reparar. Esse princípio não é apenas jurídico; é civilizatório. Ele assegura que a ordem social não seja sustentada pela transferência arbitrária de custos. Trata-se de uma situação em que perdas extraor dinárias tornam-se parte da normalidade fiscal. Essa norma lização produz ainda outros efeitos sistêmicos com o plane jamento público baseado e transformado em perdas previsíveis. O custo da corrupção, portanto, não é apenas financeiro. É também institucional e moral. Ele corrói a ideia de que o esforço produtivo individual será protegido por regras justas.
Quando o contribuinte percebe que financia prejuízos alheios sem compensação institucional, o contrato social se fragiliza. Uma ordem pública sustentável exige que o dano recaia sobre quem o produz e que o preço seja pago efetiva mente e não simbolicamente. O princípio é simples: quem gera o prejuízo deve suportar seu custo.
A frase que foi pronunciada:
“A corrupção é paga pelos pobres.”
Papa Francisco

História de Brasília
O sr. Laranja Filho depôs na Comissão de Inquérito, apresentando suas declarações por escrito, e, pelos comentários dos jornais, referia-se somente à situação da emprêsa, nada declarando sôbre os cinco ou dez por cento da Caixinha. (Publicada em 16/5/1962)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Com o debate sobre a adoção ampla de uma jornada de trabalho do tipo “cinco por dois”, apresentada por setores políticos como avanço civilizatório e promessa de campanha, um ponto importante é recolocado no centro da agenda nacional acompanhado de uma questão clássica: até que ponto políticas trabalhistas podem ser dissociadas da produtividade real de uma economia. Em um país com crescimento modesto, elevada informalidade e carga tributária complexa e alta como o Brasil, mudanças estruturais no regime de trabalho exigem análise rigorosa de seus efeitos econômicos concretos, a médio e longo prazo. A discussão não é, em si, ilegítima.
Ao longo do século XX, a redução progressiva da jornada de trabalho acompanhou ganhos de produtividade, inovação tecnológica e expansão do capital humano. O problema surge quando a promessa de menos trabalho antecede, em vez de resultar, desses ganhos estruturais. Dados de organismos internacionais indicam que a produtividade do trabalho no Brasil permanece estagnada há décadas quando comparada a economias desenvolvidas e mesmo a países emergentes. Isso significa que o país produz menos valor por hora trabalhada do que a maioria de seus concorrentes globais. Quando a produtividade cresce, é possível trabalhar menos sem reduzir renda agregada. Quando não cresce, reduzir horas implica um dilema econômico inevitável, como manter salários com menos produção, elevando custos unitários; reduzir salários para preservar custos, afetando o poder de compra ou absorver o impacto via desemprego e informalidade.
Em setores de alta tecnologia, ganhos de eficiência podem compensar reduções de jornada. Mas a estrutura produtiva brasileira é fortemente composta por serviços de baixa margem, comércio e pequenas empresas, cuja capacidade de absorver aumento de custos é limitada. Com isso pequenas empresas, o elo mais vulnerável serão as mais afetadas. Mais de 90% das empresas brasileiras são micro e pequenas. São elas que concentram grande parte do emprego formal e informal do país. Para esse segmento, a jornada de trabalho não é apenas uma variável social, é uma variável de sobrevivência financeira. Uma redução compulsória de horas, sem contrapartida de produtividade ou desoneração tributária significativa, pode gerar efeitos encadeados tais como a necessidade de contratar mais trabalhadores para manter a operação; o aumento do custo trabalhista total; a elevação de preços finais; a perda de competitividade e a redução de postos formais.
Outro elemento estrutural do debate é o peso dos encargos sobre a folha salarial. O custo total de um trabalhador formal no Brasil ultrapassa significativamente o valor líquido recebido por ele. Qualquer alteração na organização da jornada que não enfrente essa distorção pode ampliar o descompasso entre custo empresarial e renda efetiva do trabalhador. Sem reforma tributária sobre o trabalho ou aumento relevante de produtividade, a redução generalizada de horas pode significar além de um custo maior para empregar, gerar incentivo à automação defensiva com redução de oportunidades para trabalhadores menos qualificados. O impacto distributivo é evidente. Políticas trabalhistas têm efeitos distributivos complexos.
Trabalhadores qualificados, inseridos em setores produtivos, tendem a preservar renda e benefícios. Já os trabalhadores de menor renda, mais expostos à informalidade e ao desemprego, absorvem a maior parte dos ajustes econômicos. Assim, uma política concebida como ampliação de bem-estar pode, paradoxalmente, aprofundar desigualdades no mercado de trabalho, caso não esteja ancorada em bases produtivas sólidas.
Em períodos eleitorais, propostas de impacto imediato sobre o cotidiano do trabalhador ganham apelo político. A redução da jornada é facilmente compreendida como melhoria direta da qualidade de vida. No entanto, políticas públicas estruturais não podem ser avaliadas apenas por sua atratividade simbólica, mas por sua sustentabilidade econômica. Experiências internacionais mostram que reduções bem-sucedidas de jornada ocorreram quando foram acompanhadas por um forte crescimento de produtividade; investimentos em tecnologia; reorganização produtiva e diálogo social amplo entre Estado, empresas e trabalhadores. Sem esses fatores, a política tende a gerar custos difusos e benefícios concentrados. O dilema é central. A pergunta fundamental não é se trabalhar menos é desejável, mas quando e sob quais condições isso se torna viável. Economias mais produtivas podem distribuir melhor o tempo de trabalho.
O debate sobre a jornada 5×2 deveria ser precedido por uma discussão mais ampla sobre: produtividade nacional; custo do trabalho formal; estrutura tributária; competitividade empresarial além de qualificação da força de trabalho. Sem esse alicerce, a promessa de trabalhar menos pode converter-se em um ajuste econômico mais severo do que o previsto especialmente para os mais vulneráveis. O desafio do país não é escolher entre bem-estar e responsabilidade econômica, mas construir políticas que permitam ambos coexistirem de forma sustentável. Até agora nem uma coisa nem outra tem sido levado adiante com responsabilidade.
A frase que foi pronunciada:
“Uma nação desunida jamais vai prosperar.”
Senador Cleitinho
História de Brasília
Ninguém mais util, pois, do que aquelle que se destina a mostrar, com evidência, os accontecimentos do presente, e desenvolver as sombras do futuro”. (Publicada em 15.05.1962)
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Nenhuma sociedade complexa pode prescindir de regras mínimas para o funcionamento de espaços que concentram informação, comércio, relações sociais e disputa política. O debate sobre a chamada “regulação das redes” tornou-se um dos temas mais sensíveis do ambiente político contemporâneo no Brasil. Em tese, trata-se de uma discussão legítima. A questão central, contudo, não é a existência ou não de regulação mas a finalidade concreta dessa regulação e os interesses que a impulsionam.
A história ensina que mecanismos de controle informacional, mesmo quando apresentados como instrumentos de proteção social, podem se converter em ferramentas de restrição da liberdade pública. É nesse ponto que o debate exige prudência, rigor institucional e, sobretudo, transparência. A urgência real deveria ser a proteção contra o crime digital.
Existe um campo em que a necessidade de ação estatal é inequívoca: o combate aos crimes on-line. Milhões de brasileiros são diariamente expostos a fraudes digitais, golpes financeiros, falsos serviços e esquemas comerciais fraudulentos que exploram a vulnerabilidade informacional do cidadão comum com práticas como: venda de produtos inexistentes em lojas virtuais fraudulentas; clonagem de identidades digitais; esquemas de investimento falsos; engenharia social para obtenção de dados bancários; manipulação de plataformas de pagamento, entre outros crimes.
Essas operações não são episódicas. Constituem uma economia paralela estruturada, altamente lucrativa, que se beneficia da velocidade da internet e da dificuldade de responsabilização internacional. O prejuízo acumulado alcança bilhões de reais por ano e atinge principalmente aposentados, trabalhadores informais e pequenos consumidores. Se a prioridade pública fosse genuinamente a proteção do cidadão, o eixo central de qualquer proposta regulatória deveria ser, além do fortalecimento de mecanismos de rastreio de fraudes digitais; a responsabilização rápida de redes criminosas; a educação digital massiva da população; a transparência obrigatória em publicidade online bem como a cooperação internacional contra crimes cibernéticos.
Entretanto, o foco do debate político frequentemente se desloca da proteção do usuário para o controle do conteúdo político. Essa inversão de prioridades levanta dúvidas legítimas sobre os objetivos reais das propostas de regulação. Regulação é poder e isso cria o risco da instrumentalização. Toda regulação informacional envolve um problema clássico da teoria política: quem regula o regulador.
Quando o Estado adquire capacidade ampliada de controlar circulação de ideias, interpretações e críticas, abre-se espaço para a instrumentalização política desse poder. A preocupação não reside apenas em eventuais abusos imediatos, mas na criação de um precedente institucional duradouro. Estruturas de controle, uma vez estabelecidas, raramente são revertidas. Mudam apenas os grupos que as administram. Em democracias consolidadas, a liberdade de crítica ao poder não é um detalhe acessório, é um mecanismo estrutural de equilíbrio institucional. A possibilidade de questionar governos, autoridades e decisões públicas constitui parte essencial do controle social difuso, sem o qual a representação política perde sua base de legitimidade.
Quando políticas de regulação passam a incidir prioritariamente sobre o discurso político, e não sobre práticas criminosas objetivas, o risco é a transformação do ambiente informacional em um espaço de autocensura preventiva. O medo de sanções substitui o debate aberto. A prudência cívica converte-se em silêncio social. O impacto institucional do controle do discurso é perigoso. A restrição excessiva do espaço público digital produz efeitos que vão além do campo político imediato, enfraquecendo o pluralismo de ideias; reduzindo a capacidade de fiscalização cidadã; concentrando poder interpretativo em instâncias restritas; limitando a circulação de denúncias e investigações independentes, além de deteriorar a confiança entre sociedade e instituições.
Não só de eleições periódicas a democracia depende, mas da existência de um ambiente permanente de contestação legítima. Sem ele, as instituições tendem a se tornar circuitos fechados, com baixa permeabilidade às demandas sociais. Liberdade e responsabilidade não podem se tornar uma falsa oposição.
O debate público frequentemente apresenta uma dicotomia simplificadora: ou se regula para proteger a sociedade, ou se preserva a liberdade absoluta. Essa oposição é artificial e falsa até a medula. Uma política pública equilibrada pode e deve combinar o combate rigoroso ao crime digital; a proteção efetiva do consumidor online; a transparência algorítmica proporcional; a preservação ampla da liberdade de expressão política e os mecanismos independentes de revisão de decisões regulatórias. Existe uma dimensão civilizatória do debate de ideias. O modo como uma sociedade regula a circulação de informação revela sua concepção de cidadania. Se o cidadão é visto como sujeito capaz de discernimento, a política pública buscará protegê-lo de crimes e abusos objetivos. Se é visto como objeto de tutela permanente, a tendência será restringir sua autonomia informacional.
O futuro democrático de uma nação depende de preservar o princípio de que o poder deve tolerar a crítica, e não administrá-la. Cidadãos brasileiros enfrentam um desafio duplo a observar: proteger o cidadão dos crimes digitais e proteger o espaço público do silêncio. A regulação que o país necessita é aquela que fortalece o cidadão e não a que o torna mais vulnerável ao poder e aos desejos dos poderosos.
A frase que foi pronunciada:
“Se o Congresso não deliberar sobre as redes sociais, ou o governo Lula, ou o STF o fará.
Senador Eduardo Girão

História de Brasília
“O primeiro dever do homem em sociedade é ser util nos membros della; eh cada hum deve segundo as suas forças Phisicas ou moraes, administrar em beneficio da mesma, os conhecimentos ou talentos que a natureza, a arte ou a educação lhe prestou.” (Publicada em 15.05.1962)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Nos últimos três anos, o Brasil tem ocupado posições que constrangem uma nação com ambição de protagonismo global. Não se trata de um tropeço isolado, mas de um padrão que se repete em indicadores internacionais que medem aquilo que sustenta o desenvolvimento moderno: integridade institucional, ambiente econômico e capacidade de inovar. O retrato é conhecido, mas, nem por isso, menos inquietante.
No Índice de Percepção da Corrupção 2025, divulgado pela Transparência Internacional, o país caiu para a 107ª posição entre 182 países, com 35 pontos em uma escala de 0 a 100. Trata-se de uma das piores colocações da série histórica recente, refletindo deterioração da percepção institucional no cenário internacional.
Em competitividade, o diagnóstico também é severo. No
ranking de 2025 do IMD World Competitiveness Center, o Brasil ocupa a 53ª posição entre 69 economias avaliadas, evidenciando entraves estruturais à produtividade, à eficiência do setor público e ao ambiente de negócios. Já no Índice de Liberdade Econômica 2025, produzido pela The Heritage Foundation, o país é classificado como “Mostly Unfree” (majoritariamente não livre), com pontuação inferior à média mundial, posição incompatível com a retórica de modernização. Independentemente da matriz ideológica do instituto, o dado reforça a percepção internacional de insegurança regulatória e instabilidade normativa.
Esses números não são meras abstrações. Eles se traduzem em investimento menor, inovação mais lenta, oportunidades escassas e dialogam com dados internos. Segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o Brasil registrou cerca de 29 mil pedidos de patente em 2023, número modesto para uma economia do porte brasileiro e ainda fortemente concentrado em depositantes estrangeiros. No cenário global, conforme a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, o país permanece distante das nações líderes em depósitos de patentes.
Em termos práticos, significam menos empresas de base tecnológica, menos patentes, menos empregos qualificados, menor densidade inovadora e inserção periférica nas
cadeias globais de valor. E, sobretudo, significam um Estado que falha em criar as condições mínimas para que a inteligência nacional floresça.
É nesse contexto que ganha contornos simbólicos o episódio envolvendo a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Reportagens publicadas em 2024 indicaram que a instituição deixou de manter a vigência de uma patente relacionada à tecnologia conhecida como polilaminina por inadimplência de taxas junto ao INPI. Logo, a instituição teria perdido a proteção de patente de uma tecnologia conhecida como Polilamina, resultado de anos de pesquisa pública. O caso, ainda que específico, tornou-se metáfora de uma fragilidade estrutural, a dificuldade de transformar pesquisa pública em ativo protegido e economicamente explorável.
Mais do que um revés administrativo, o episódio expõe um paradoxo. O Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, segundo dados do Banco Mundial, percentual inferior ao de países que lideram a inovação global, como Coreia do Sul e Israel, que superam 4% do PIB. Investimos pouco e, quando investimos, frequentemente falhamos na proteção estratégica do resultado. O fato expõe uma ferida aberta: o país que se pretende potência científica não consegue honrar custos básicos para proteger a própria invenção. A Polilamina é fruto de pesquisa de ponta em materiais e poderia ter impulsionado cadeias industriais inteiras, atraído investimentos e projetado o Brasil no circuito internacional de inovação.
Em ambientes onde ciência é tratada como política de Estado, descobertas com potencial disruptivo são cercadas por mecanismos ágeis de proteção e transferência tecnológica. Aqui, sucumbem à burocracia, à escassez orçamentária e à indiferença. O dano é duplo. Perde-se o retorno econômico direto e, ao mesmo tempo, dilui-se o prestígio científico. Há casos na história recente em que descobertas laboratoriais, devidamente protegidas e desenvolvidas, renderam reconhecimento máximo à pesquisa, inclusive o mais alto prêmio internacional da área. Ao permitir que uma inovação se perca por inadimplência, o Brasil envia ao mundo uma mensagem inequívoca: a ciência não é prioridade. Esse descompasso entre discurso e prática não é novo.
Laboratórios operam com equipamentos obsoletos, editais são irregulares, bolsas não acompanham a inflação e jovens pesquisadores migram para centros estrangeiros. A evasão de cérebros, frequentemente tratada como fatalidade, é, na verdade, consequência lógica de um ambiente que oferece pouco horizonte. A inteligência não abandona o país por capricho; ela busca condições de trabalho.
O argumento de restrição fiscal, recorrente em tempos de aperto, não resiste a um exame mais atento. Países que hoje lideram em inovação fizeram escolhas claras: protegeram seus sistemas de ciência e tecnologia mesmo em períodos de crise. Investimento em pesquisa não é gasto supérfluo; é infraestrutura do século XXI. Sem ele, qualquer projeto de desenvolvimento é retórica vazia.
Há, ainda, um problema de coordenação. O Brasil produz ciência de qualidade em diversas áreas, mas falha na tradução do conhecimento em produto, na proteção da propriedade intelectual e na conexão com o setor produtivo. A perda de uma patente relevante por inadimplência revela a ausência de um sistema robusto de governança da inovação, aquele que acompanha prazos, assegura recursos e transforma descobertas em valor econômico e social.
Os rankings internacionais, tão frequentemente descartados como percepções externas, são, na verdade, espelhos imperfeitos de realidades internas. Quando um país figura mal em integridade, competitividade e liberdade econômica, o efeito cumulativo recai justamente sobre o ecossistema que deveria produzir soluções: a ciência. Sem ambiente institucional estável, o laboratório se isola; sem mercado dinâmico, a invenção não escala; sem proteção jurídica eficiente, a patente não sobrevive.
O custo dessa trajetória é pago em silêncio. É pago pelo estudante que abandona a pesquisa por falta de bolsa; pelo laboratório que fecha as portas; pela empresa que deixa de inovar; pela sociedade que perde acesso a tecnologias próprias. É pago, sobretudo, pelo futuro, que se torna cada vez mais dependente de soluções importadas.
Não faltam exemplos de reversão possível. Onde houve continuidade de financiamento, metas claras de inovação e valorização da carreira científica, resultados surgiram. O Brasil possui massa crítica, universidades consolidadas e pesquisadores reconhecidos internacionalmente. O que falta é decisão política consistente, previsibilidade orçamentária e gestão eficiente da propriedade intelectual.
A agenda é conhecida: garantir financiamento estável e plurianual; simplificar processos de registro e manutenção de patentes; fortalecer núcleos de inovação tecnológica nas universidades; criar pontes efetivas com a indústria; valorizar carreiras científicas.
A frase que foi pronunciada:
“Todo filme de desastre começa com o governo ignorando um cientista.”
Anônimo

História de Brasília
Ela surgiu, inocentemente, de uma conversa no bar do acampamento do jornal, àquela época secretariado pelo Eduardo Santa Maria. Êle sugeriu que o jornal deveria ter uma coluna para defender a cidade, e assim teve início o nosso trabalho. (Publicada em 15.05.1962)


