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Haveria sinais de um possível reset financeiro global? Parte 2
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Temos testemunhado a instabilidade crescente no mercado financeiro. Oscilações abruptas em bolsas de valores, mudanças rápidas na política monetária de bancos centrais e fuga periódica de capitais de economias emergentes indicam ambiente de incerteza prolongada.
Outro sinal relevante está na gradual contestação da centralidade do dólar no sistema financeiro internacional. Embora ainda dominante, a moeda americana passou a enfrentar questionamentos mais frequentes entre países emergentes.
A participação do dólar nas reservas internacionais caiu de cerca de 71%, em 1999, para menos de 60% atualmente. Paralelamente, bancos centrais passaram a ampliar reservas de ouro em ritmo acelerado. Segundo dados do Conselho Mundial do Ouro, compras de ouro por bancos centrais atingiram, em 2022, o maior nível registrado desde o início das estatísticas modernas.
O economista Ray Dalio argumenta que esse tipo de movimento costuma ocorrer em períodos de transição histórica entre ordens monetárias internacionais. Em estudo sobre ciclos de poder global, Dalio afirma que ordens financeiras baseadas em moedas dominantes costumam durar entre sete e dez décadas antes de sofrer transformações significativas. Iniciativas recentes reforçam esse movimento gradual de diversificação monetária. Países do bloco BRICS discutem ampliação do comércio bilateral em moedas locais. China e Rússia já realizam parcela crescente de suas transações energéticas utilizando yuan ou rublo.
Executivos do setor financeiro também demonstram preocupação crescente com a estabilidade do sistema econômico internacional. Larry Fink, CEO da BlackRock, afirmou em carta anual a investidores que o mundo atravessa transformação estrutural na forma como capital, cadeias produtivas e segurança energética se interconectam.
Jamie Dimon, executivo-chefe do JPMorgan Chase, disse em entrevista que a economia global enfrenta ambiente potencialmente mais perigoso do que qualquer outro observado nas últimas décadas, citando inflação persistente, tensões geopolíticas e fragilidade do sistema financeiro.
Outro fenômeno importante é a reorganização das cadeias produtivas globais. Após décadas de globalização acelerada, empresas multinacionais começaram a rever estratégias de produção. Pandemia, conflitos geopolíticos e rupturas logísticas expuseram vulnerabilidades de cadeias produtivas excessivamente concentradas.
As estratégias conhecidas como reshoring e friend-shoring passaram a ganhar espaço. Produção industrial começa a ser transferida para regiões consideradas politicamente mais alinhadas ou geograficamente mais próximas dos mercados consumidores.
Zoltan Pozsar, estrategista financeiro, conhecido por suas análises sobre sistema monetário internacional, chegou a sugerir que o mundo pode estar caminhando para uma nova configuração que ele descreveu como Bretton Woods III, na qual commodities estratégicas e alianças geopolíticas desempenhariam papel central na organização do sistema financeiro global.
Consequência desse processo tende a ser aumento de custos produtivos e possível persistência de pressões inflacionárias estruturais. Durante décadas, a globalização contribuiu para redução de preços ao deslocar produção para regiões de menor custo.
Relações entre Estados Unidos e China acrescentam outra camada de complexidade ao cenário global. Disputas envolvendo semicondutores, inteligência artificial e infraestrutura digital transformaram tecnologia em elemento central da rivalidade estratégica entre as duas maiores economias do planeta.
Economista Nouriel Roubini descreve esse contexto como início de uma era de megachoques. Segundo ele economia mundial passa a enfrentar simultaneamente pressões geopolíticas, transformações tecnológicas, mudanças demográficas e riscos climáticos capazes de gerar instabilidade prolongada.
O conjunto de todos esses fatores sugere que economia mundial pode estar atravessando período de transição comparável a outros momentos de inflexão histórica. Em 1914 o colapso do padrão ouro marcou fim de uma era de globalização financeira do século XIX. Em 1971 o abandono da conversibilidade do dólar em ouro redefiniu ordem monetária internacional. Em 2008 crise financeira global revelou fragilidades profundas do sistema bancário internacional. O momento atual talvez represente mais um desses pontos de inflexão. Não necessariamente um colapso imediato, mas um processo gradual de redefinição das bases econômicas e financeiras que sustentam o sistema internacional.
A história econômica mostra que grandes transformações raramente são percebidas em tempo real. Os sinais frequentemente aparecem de forma dispersa, interpretados como episódios isolados. Apenas retrospectivamente esses movimentos tornam-se evidentes como parte de uma mudança estrutural mais profunda.
Parece que hoje estão reunidos diversos desses sinais simultaneamente: rearranjos geopolíticos, pressões inflacionárias persistentes, reorganização das cadeias produtivas, questionamentos sobre moedas de reserva e instabilidade crescente nos mercados financeiros.
Chamar esse processo de reset financeiro global pode parecer exagerado para alguns analistas. Ignorar convergência desses fatores, porém, talvez represente erro ainda maior.
A frase que foi pronunciada:
“A liberdade financeira é mais uma jornada do que um destino.”
Rob Berger

História de Brasília
Os nossos agradecimentos às pessoas que nos telefonaram ou nos cumprimentaram pessoalmente pelo segundo aniversário desta coluna. E’ um estimulo para novas lutas e novas campanhas. (Publicada em 16.05.1962)
VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Um pouco mais de 1,4 milhão de pessoas exercem hoje, em nosso país e de forma regular, a atividade de advocacia. Isso dá uma média de um advogado para cada 140 brasileiros. Trata-se de uma das maiores proporções de advogados por habitante do planeta. Talvez perca para a populosa Índia, que conta hoje com aproximadamente 2 milhões de causídicos. Esse fenômeno pode fornecer uma pista para entendermos parte da própria dinâmica das relações sociais em nosso país. Talvez, por isso, milhões e milhões de processos, de todos os tipos e de todos os tempos, acumulam-se hoje nos diversos escaninhos do Estado. Muitos desses processos irão ser deixados às calêndulas, extintos por decurso de prazos e outros males da burocracia.
Ocorre que, no meio desse baú, existem também aqueles processos, cujos protagonistas são servidos pelos melhores escritórios da praça, onde os honorários justificam a defesa a qualquer custo. Esses, obviamente, chegam a termo em tempo recorde e sempre em atendimento à nobre defesa. Com isso, também,são formados nichos de escritórios de advocacia, cujo esplendor econômico advém honorários impublicáveis.
Numa situação dessa natureza, boa parte da dinâmica das relações sociais acaba sendo alterada, pois a justiça passa a ser exercida por um pendor econômico, atendendo assim àqueles que estão acordados, ou seja, com boa retaguarda, deixando a maioria que dorme, ou seja, aquela que apenas sonha com justiça, deixada na beira da estrada.
Essa constatação lança luz sobre uma realidade complexa e desconcertante do sistema jurídico brasileiro: a impressionante quantidade de advogados e a enorme judicialização da vida social, em contraste com o precário acesso à justiça para a maioria da população. A proporção de advogados e a excessiva judicialização de tudo é um fenômeno nosso. Essa realidade mostra uma cara do Brasil onde a sociedade é fortemente judicializada. Não se trata aqui de justiça, mas de querelas judiciais. Isso pode indicar tanto um elevado grau de litígio nas relações sociais, quanto uma estrutura institucional que empurra os conflitos para a via judicial por falta de soluções administrativas ou alternativas extrajudiciais eficazes (como a mediação ou conciliação).
A justiça de baixo clero pouco interessa aos advogados. Pois hiper judicialização não significa, no entanto, acesso efetivo à justiça. Pelo contrário: revela uma disputa desigual por esse acesso. A massa de processos que se acumula nos escaninhos do Judiciário, muitos dos quais fadados à prescrição, mostra um sistema lento, sobrecarregado e seletivo. Existe, de fato, uma desigualdade no acesso à Justiça em nosso país, embora tenhamos uma das justiças mais caras do planeta.
Temos, do ponto de vista da sociologia, uma sociedade onde uma minoria está desperta e atuante, contra uma maioria que dorme, formada por cidadãos comuns, sem recursos ou representatividade, cujos pleitos se perdem na morosidade kafkiana da máquina judiciária. “Dormientibus non succurrit jus”, diz a máxima latina do Direito.
Aqueles, amparados por escritórios caros e especializados, obtêm decisões rápidas, estratégicas e, por vezes, moldadas à conveniência de seus interesses econômicos ou políticos. Nada disso é novidade entre nós, embora continue sendo uma prática absurda. Esse retrato espelha ainda um fenômeno mais amplo: a mercantilização da justiça, em que os direitos tornam-se proporcionalmente acessíveis à capacidade de pagamento dos indivíduos.
A equidade, princípio fundamental do Estado Democrático de Direito, é fragilizada, se não ignorada. Com isso, temos a violência e corrupção como pano de fundo de um Brasil adoecido. Essa análise se torna ainda mais crítica ao ser contextualizada com dois traços estruturantes da sociedade brasileira: a violência e a corrupção endêmica. Somos, de fato, uma das sociedades mais violentas do mundo, com taxas elevadas de homicídios, desigualdade social aguda e uma sensação crônica de impunidade. A corrupção, disseminada em todos os níveis — do poder executivo aos pequenos órgãos administrativos —, distorce o funcionamento das instituições, inclusive do Judiciário. Quando as decisões judiciais passam a ser percebidas (ou de fato são), orientadas por interesses econômicos, políticos ou corporativos, isso mina a confiança pública no sistema e alimenta o descrédito da lei. Temos advogados de mais e justiça escassa.
Essa justiça seletiva reforça a desigualdade, perpetua a violência estrutural e institucional, e gera uma sensação de orfandade cívica para grande parte da população. Em vez de promover a pacificação social, o sistema acaba sendo um fator de perpetuação do conflito.
A frase que foi pronunciada:
“A burocracia dá à luz a si mesma e depois espera benefícios de maternidade.”
Dale Dauten

História de Brasília
O DTUI está com uma mostra excelente do que está fazendo, e do que não pode fazer. Não está, entretanto, ao seu alcance, o que é mais essencial: a compra de cabos para instalar novos aparelhos. (Publicada em 04.05.1962)

