Penitenciárias, escritórios de quadrilhas

Publicado em ÍNTEGRA

Do ponto de vista do marketing, é certo que as rebeliões em vários presídios do país resultaram num sucesso estrondoso sem igual. As organizações criminosas obtiveram exposição na mídia nacional e estrangeira que mesmo aquelas empresas mais famosas do planeta não conseguiriam, ainda que investissem centenas de milhões de reais. Para o crime organizado, a divulgação de suas ações e poderio foi feita sem gastar um só centavo. Para isso, recorreram ao capital que tinham à mão, no caso, a vida de uma centena de presos que foram sacrificados com a degola no altar da impunidade. Nesse caso, pode-se afirmar, com certeza, que a missão foi cumprida à risca.

Além da exposição de seu poder intimidatório, as organizações obtiveram o que esperavam do Estado: a transferência dos líderes da rebelião e de facções para presídios federais, onde as condições carcerárias são bem melhores e onde se encontram também seus comparsas. Para organizações de qualquer espécie — exceto, claro, aquelas de cunho secreto —, imagem é tudo, mesmo as mais tenebrosas. Sem a propaganda dos feitos criminosos, não há como causar o efeito desejado de incutir o medo em uns e provocar o respeito e a admiração em outros, principalmente perante os novos integrantes e futuros pretendentes.

Pertencer a esses grupos do crime, que ganham manchetes aqui e alhures, é tudo que os neófitos desejam. Nesse sentido, é bom observar o que alguns países, como Portugal, procedem em relação a situações semelhantes. Naquele país, considerado hoje um dos mais seguros de toda a Europa, quando um criminoso cai nas malhas da Justiça e é condenado, praticamente ele some do horizonte e é deletado da sociedade até o último dia de sua condenação. Nem mesmo a impressa sensacionalista tem acesso ao seu paradeiro. Trata-se de um morto-vivo, cujo destino só interessa à Justiça que o condenou.

No Brasil, as penitenciárias, no entanto, transformadas em escritórios centrais do crime, toda a divulgação é permitida. Para isso, retardam, ao máximo, a simples instalação de bloqueadores de celulares. Aliás, nesse ponto, é bom destacar que os sinais de celulares funcionam bem melhor intramuros do que fora das prisões, onde os consumidores são tosquiados pelas operadoras omissas.

Vivemos uma contradição: prendemos, mas queremos permitir mordomias, como visitas íntimas, churrascos, bebidas, drogas, e um entra e sai de pessoas das mais diversas, que, em parte, fazem o papel de pombos-correio. Em democracias muito mais justas do que a nossa, os presos não têm direito a conversas particulares e outras regalias comuns em nossas cadeias.

Qualquer pesquisa feita entre as classes menos favorecidas, justamente as mais prejudicadas pela criminalidade, mostrará que elas desejam uma atitude mais dura por parte das autoridades. Teorias como a humanização de presídios é coisa de discurso de pessoas situadas no alto da pirâmide social. O povão quer mesmo é que bandido pague sua pena, de preferência trabalhando enquanto cumpre a condenação, até para reparar o mal causado. Que trabalhe para pagar pelo que come e pelo abrigo.

Neste mês, as revoltas nas penitenciárias empurraram das manchetes dos jornais a Operação Lava-Jato e colocaram em seu lugar o morticínio de presos. Para não ser acusado de omisso e sob forte pressão dos governadores, a maioria da base política, o presidente Temer resolveu colocar as Forças Armadas para garantir a segurança nos presídios.

Especialistas alertam para o perigo de lançar as FA em missões que não dizem respeito a seu papel constitucional. Muito mais proveitoso do que colocar mil homens das FA, seria utilizar essa força especialíssima para formar um forte cordão de segurança ao longo dos milhares de quilômetros de nossas fronteiras com os países produtores de drogas e vendedores de armamentos.

A população carcerária hoje é de 600 mil presos, outros 400 mil condenados e com mandado de prisão aguardam na fila. Além disso, não há controle do tempo de internação, o que, com a tecnologia disponível, deveria ser automático. Cumpriu a pena, liberdade imediata. Infelizmente, até hoje um problema simples como esse não foi resolvido. A impressão do cidadão comum é que estamos enxugando gelo sob o Sol. A situação ameaça sair dos muros frágeis das prisões e ganhar as ruas, já excessivamente violentas do país. Soluções extremas não chegariam à origem do problema, que está nas escolas abandonadas, sem equipamentos, com professores desprestigiados e mal pagos.

>>A frase que foi pronunciada
“O caráter de alguns homens públicos é como o próprio cheiro de corpo. Só incomoda os outros. ”

Dona Dita, lendo jornal

>>História de Brasília
O ministério do Trabalho está dano comida de graça aos candangos, à custa do Saps. Mas não tem nenhum controle, e muita gente está mandando chamar parente para viver à custa do governo. (Publicado em 21/9/1961)

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