O novo macartismo

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Professora Kathleen Stock. Foto: Humphrey Nemar (express.co.uk)

Uma corte superior britânica acaba de anular a multa de 585 mil libras esterlinas imposta à Universidade de Sussex pelo regulador do ensino superior a Office for Students (OfS). A multa foi aplicada sob a alegação de que a instituição havia tolerado a perseguição e a expulsão da professora Kathleen Stock, cujo crime foi afirmar que o sexo biológico é real. O veredicto é uma derrota para a liberdade acadêmica e um sinal ominoso: no Ocidente dominado pelo pensamento Woke, a ciência e o bom senso estão cada vez mais na berlinda ou no fio da navalha.

Kathleen Stock é filósofa, oficial da Ordem do Império Britânico (OBE), premiada pela rainha pelos seus serviços à educação superior. Trabalhou como professora de filosofia na Universidade de Sussex de 2003 a 2021. Publicou trabalhos sobre estética, ficção, orientação sexual e identidade de gênero. Sua posição acadêmica era simples, lastreada em biologia e filosofia analítica: o sexo biológico é uma realidade objetiva e importa para o direito, para a medicina, para o esporte e para as políticas públicas. Por sustentar essa posição, foi alvo de uma campanha organizada de perseguição. Grupos de ativistas criaram contas nas redes sociais com o nome “AntiTerfSussex”, colaram cartazes nas dependências da universidade pedindo sua demissão, realizaram protestos dentro do campus e chegaram a emitir ameaças de morte.

Reconhecendo a gravidade das ameaças, a polícia britânica aconselhou-a a não comparecer à universidade para garantir sua segurança. Em outubro de 2021, sem condições de trabalhar, ela entregou o cargo. Ironicamente, quem investigou o caso foi a própria OfS, órgão regulador do ensino superior, que, em março de 2025, concluiu que a universidade havia falhado em proteger a liberdade de expressão. A multa aplicada foi a maior já imposta pelo regulador ao setor. A Universidade de Sussex contestou a decisão por revisão judicial, alegando que a penalidade era kafkiana e desproporcional. Em 29 de abril de 2026, o Alto Tribunal deu razão à universidade, anulou a multa e, na prática, esvaziou a legislação de liberdade de expressão no ensino superior britânico.

O resultado prático é claro: professores que ousem contrariar a ortodoxia de gênero seguem desamparados. Como bem alertou o Free Speech Union, a sentença “deixa acadêmicos como Kathleen Stock indefesos, ao mesmo tempo em que empodera ativistas para expulsar do campus qualquer pessoa de quem discordem”. Há um paradoxo dilacerante nessa história. Kathleen Stock não negou a existência de pessoas transgênero. Não pregou ódio. Não incitou violência. Ela simplesmente escreveu, em artigos acadêmicos revisados por pares, que o sexo biológico determinado pela genética, pela anatomia e pela fisiologia é uma realidade objetiva que não pode ser apagada por decreto ou por sentimento subjetivo.

Essa é a posição de praticamente toda a biologia, medicina e genética modernas. No entanto, essa posição em linha reta com o conhecimento científico consolidado foi tratada como discurso de ódio por uma parcela radicalizada do movimento identitário. E a universidade, em vez de defender a integridade acadêmica, preferiu acomodar-se ao zeitgeist ideológico, adotando uma política que exigia que funcionários e alunos “representassem positivamente as pessoas trans” e que declarava que “a transfobia não seria tolerada”, um código que, na prática, criminalizava qualquer análise crítica da ideologia de gênero.

Estamos diante de algo sem precedentes na história das instituições de saber: uma professora premiada pela própria monarquia britânica, com décadas de carreira respeitável, sendo tratada como criminosa por enunciar fatos verificáveis. A ciência foi colocada no banco dos réus, e o tribunal ideológico a condenou. O caso Stock não é uma anomalia. É a face visível de uma avalanche que vem soterrando as universidades e as instituições ocidentais há pelo menos duas décadas.

Alguns exemplos recentes são suficientes para revelar a escala do problema: nos Estados Unidos, pesquisa da Fire (Foundation for Individual Rights and Expression) revelou que 69% dos professores conservadores fazem autocensura nas redes sociais e 47% declaram que não conseguem expressar suas opiniões em determinados temas dentro das universidades por medo de retaliação de colegas, alunos e chefias. Na Universidade de Kent, Reino Unido, o professor Matthew Goodwin, após duas décadas de carreira, deixou sua cátedra de política por não suportar mais o sufocamento ideológico da academia britânica. Em seu livro, Bad education, documentou como o dogma woke deformou o ensino, a pesquisa e o aprendizado nas universidades do país.

Na Universidade da Virgínia (EUA), dados revelaram que a instituição gastava US$ 20 milhões por ano para sustentar 235 funcionários exclusivamente dedicados a programas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão), uma estrutura burocrática ideológica que rivaliza em tamanho com departamentos acadêmicos inteiros. Harvard e outras universidades de elite norte-americanas passaram a exigir dos candidatos a professor as chamadas “diversity statements”, declarações de fidelidade ideológica à agenda DEI. Um quinto dos pesquisadores admitiu falsificar os temas de pesquisa que escolhem para não contrariar a ortodoxia dominante. É o macartismo revisitado.

A frase que foi pronunciada:

“A monarquia degenera em tirania, a aristocracia em oligarquia e a democracia em anarquia.”
Políbio

Políbio. Foto: giovannighiselli.blogspot.com

História de Brasília:

Agora que Brasília já está crescendo, e está muito diferente, vem recebendo a visita de muita gente. Há, entretanto, uma dificuldade tremenda: quanto à numeração dos blocos e das quadras residenciais da W3. (Publicada em 18/5/1962)

Circe Cunha

Publicado por
Circe Cunha
Tags: #AriCunha #Biologia #Brasília #CirceCunha #Educação #Gênero #HistóriadeBrasília #KathleenStock #Mamfil #Sexo

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