O caminho das incertezas

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Charge do Jean Galvão

Dados disponíveis nas bases do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam, com precisão desconfortável, o diagnóstico de que o Brasil atravessa uma longa e silenciosa estagnação relativa a uma espécie de declínio de gerações que não aparece nos discursos de posse, mas assombra as projeções de cada fórum econômico global.

Em 2024, o PIB per capita brasileiro ficou em aproximadamente US$ 10.255 em valores correntes, o equivalente a 76% da média mundial, segundo o Trading Economics, e US$ 3.634 a menos do que a estimativa global do FMI para 2025, fixada em US$ 14.450. O Brasil ocupa hoje a 79ª posição no ranking global de renda per capita, atrás não apenas das economias desenvolvidas, mas de Chile, Argentina e México na América Latina. O retrato histórico é ainda mais severo. Em 1980, o PIB per capita brasileiro equivalia a cerca de 20% do norte-americano. Em 2024, havia recuado para 14,4%, segundo levantamento da Gazeta do Povo com base em dados históricos do FMI.

No mesmo período, a Coreia do Sul, que, em 1980, era mais pobre que o Brasil, com apenas 13,6% da renda americana, atingiu 55,8% da renda per capita dos EUA. Na escala do ranking global, os números são igualmente eloquentes: em 1980, o Brasil estava entre os 50 países com maior PIB per capita. Em 1990, havia caído para a 60ª posição; em 2000, para a 67ª; e em 2020, chegou à 85ª. As projeções do FMI apontavam para a 90ª posição em 2026. O Brasil não cai por acidente cai por estrutura. O quadro abaixo mostra com clareza o que está acontecendo com o país.

O fenômeno que o Brasil vivencia tem nome técnico: armadilha da renda média. Trata-se da dificuldade crônica que países de renda intermediária enfrentam para avançar ao estágio das economias desenvolvidas. O Relatório de Desenvolvimento Global 2024 do Banco Mundial é explícito ao alertar que, se as tendências atuais persistirem, Brasil e México poderão se distanciar ainda mais dos Estados Unidos até o final do século. Entre 2000 e 2010, enquanto o PIB mundial cresceu 46,7%, o Brasil avançou 43,5%: já ficávamos atrás. Nos anos seguintes, a recessão de 2014–2016, três anos de baixo crescimento e uma nova contração em 2020 aprofundaram o fosso. A China, nesse mesmo intervalo, multiplicou sua renda per capita em 500%. Segundo a coordenadora do boletim macroeconômico do FGV IBRE, Silvia Mattos, a “mediocridade brasileira” decorre do fracasso histórico em gerar ganhos de produtividade sustentados.

Nos estágios iniciais do desenvolvimento, economias crescem pela acumulação de capital infraestrutura, indústria, ativos físicos. Nos estágios mais avançados, o motor é a inovação. O Brasil jamais fez a transição completa. A isso se somam: baixa poupança doméstica, fragilidade institucional com o Estado capturado por grupos de interesse — e uma carga tributária que desencoraja investimento produtivo sem gerar serviços públicos de qualidade proporcional. O resultado é uma economia que cresce, mas não suficientemente; que distribui, mas insuficientemente; que reforma, mas lentamente.

“Se o crescimento da renda for de 2,3% ao ano, a média histórica brasileira entre 1956 e 2026, o Brasil levaria décadas para dobrar sua renda per capita e alcançar o patamar das economias avançadas. Com os ritmos atuais, ainda mais.” Isso de acordo com Análise do Projeto Colabora, com base em dados do FMI (WEO 2024). A distância em relação ao mundo rico seria, por si só, alarmante. Mas ela é agravada internamente por uma desigualdade que não cede de forma consistente.

Em 2025, o índice de Gini brasileiro subiu de 0,504 para 0,511, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE divulgados nesta semana. Após o piso histórico atingido em 2024, resultado de mercado de trabalho aquecido e transferências de renda, a concentração voltou a crescer, puxada pelos rendimentos financeiros e imobiliários dos estratos mais ricos. Os números são brutais em sua concretude: em 2025, os 10% mais pobres do Brasil viveram com R$ 268 mensais em média, o equivalente a R$ 8,93 por dia. Os 10% mais ricos receberam R$ 9.117 mensais: 34 vezes mais. O 1% no topo da pirâmide alcançou renda média de R$ 24.973, com crescimento de 9,9% em relação a 2024, impulsionado pelos juros elevados que remuneram aplicações financeiras concentradas nas mãos da elite.

Isso significa que, mesmo quando o Brasil cresce, o crescimento não se distribui de forma a reduzir a distância em relação ao mundo. O brasileiro médio fica relativamente mais pobre no cenário global porque os ganhos se concentram no topo, e o topo, ainda que mais rico em termos absolutos, não é suficientemente produtivo para puxar o país na competição global por renda e inovação. Em 2025, os 10% mais ricos ganharam 13,8 vezes mais do que os 40% com menores rendimentos. Essa proporção não é um acidente distributivo: é um retrato do modelo de desenvolvimento que o Brasil escolheu ou, mais precisamente, que nunca teve coragem de reformar em profundidade.

A frase que foi pronunciada:
“Não defendemos, nem no Brasil nem na Argentina, que o FMI deva intervir para proteger os bancos.”

Charles Dallara

Charles Dallara. Foto: Wayne Taylor

História de Brasília
Quanto às quadras do Setor Comercial Residencial, é preciso que o povo veja (VEJA) a numeração, para saber que é correspondente à da superquadra que fica logo atrás. (Publicada em 18.05.1962)

Circe Cunha

Publicado por
Circe Cunha
Tags: #Crescimento #Economia #FMI #HistóriadeBrasília #ÍndiceDeGini #Mundo #PIB AriCunha Brasil Brasília CirceCunha mamfil

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