Autor: Circe Cunha
VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Já se sabe que a dependência cada vez maior das pessoas em relação a Inteligência Artificial tem poder de comprometer a capacidade cognitiva humana. Segundo pesquisadores, o uso excessivo da IA pode levar à atrofia cognitiva, limitando a capacidade mental, diminuindo o pensamento crítico e mesmo a criatividade. Com isso, o ser humano deixa de inovar e criar novas ideias. Tudo isso pode afetar a saúde mental. A situação tem escalado a um tal ponto que hoje se fala em uma “Psicose de IA”.
São milhares de casos reais que mostram pessoas passando a acreditar que a IA possui consciência própria e que, por isso, começam a se relacionar com essa ferramenta, na tentativa de encontrar o que elas, definitivamente, não possuem.
Há poucos dias foi revelado o caso de uma jovem irlandesa, que, magoada com o fim abrupto de um relacionamento sentimental, passou a buscar uma espécie de consolo com a IA, fornecendo a ela todos os dados de sua personalidade e de seu antigo namorado, suas movimentações na cidade, seus relacionamentos, livros e filmes preferidos, casos de família, até fofocas compartilhou com a máquina. Com base nesses dados, a IA passou a fazer uma série de conjecturas e previsões que, de certa forma, alimentavam a esperança de que haveria um reatamento desse namoro, mostrando, em seguida, todas as possibilidades para que isso se concretizasse. Jamais discordou da interlocutora. Sempre elogiando sua inteligência e amabilidade.
A jovem, diante dessas afirmações, imediatamente adotou a IA como uma espécie de cartomante ou aconselhadora sentimental, estabelecendo uma relação tão próxima à IA que já não dava um passo fora sem antes consultar sua “cigana eletrônica”. Outros casos mostram até envolvimentos amorosos entre pessoas e IA. O preenchimento de um vazio existencial ou mesmo a solidão, tão comum hoje em dia, têm levado muitas pessoas a buscar, nessa lacuna, o auxílio da IA. O pior é quando essa dependência chega às raias da loucura.
Na educação de jovens é que os estragos são ainda maiores. Estudos realizados na Universidade de Carnegie Mellon, junto com a Microsoft, observaram que, com o uso intensivo da IA, os estudantes tendem a confiar mais nas respostas da IA do que em si mesmos. De certa forma, não é a IA que reduz o pensamento crítico, mas a forma como se utiliza essa ferramenta. A própria Psicologia se ressente com a IA. Não que a IA vá substituir os psicólogos, mas o uso da IA no tratamento de casos que requerem a intervenção de um psicólogo ainda é um assunto mal resolvido. A questão é como encontrar um equilíbrio entre tecnologia e humanidade. O que muitos não entendem ainda é que a IA é uma ferramenta e não uma muleta.
O tema é um dos mais instigantes do nosso tempo, porque toca diretamente no ponto em que a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta e passa a ocupar um espaço íntimo na vida das pessoas — às vezes, substituindo vínculos humanos, emoções e capacidade de pensar por conta própria. De fato, os riscos não são desprezíveis. A dependência excessiva da IA pode, como já citado, comprometer o pensamento crítico. Quando alguém confia cegamente nas respostas de uma máquina, perde, gradualmente, o hábito de questionar, de duvidar e de elaborar hipóteses próprias, exatamente as competências que moldam a criatividade e a capacidade de inovação. Esse processo é comparável ao enfraquecimento muscular por falta de exercício: quanto mais se terceiriza o raciocínio, mais atrofiada fica a mente.
O caso da jovem irlandesa ilustra isso de forma dolorosa, ela deslocou seu sofrimento para uma “cigana eletrônica”, projetando sobre a IA uma consciência que não existe. Aí se revelam um dos perigos: a confusão entre simulação e realidade, entre respostas probabilísticas e sabedoria humana. No entanto, seria ingênuo pensar apenas nos perigos sem reconhecer as vantagens.
A IA pode ser uma poderosa aliada no campo humano quando usada com consciência. Ela pode servir como suporte para pessoas solitárias, funcionando como um espaço de expressão emocional em momentos de vulnerabilidade. Pode auxiliar psicólogos no acompanhamento de pacientes, fornecendo dados e padrões de comportamento que talvez escapem à percepção humana. No ensino, pode personalizar o aprendizado, adaptando o conteúdo às dificuldades e ao ritmo de cada estudante. No trabalho criativo, pode inspirar novas combinações de ideias, funcionando como uma espécie de “laboratório de possibilidades”. O desafio, portanto, está no equilíbrio. A IA deve ser entendida como ferramenta e não como substituto da experiência humana.
Como qualquer tecnologia, ela amplia nossas capacidades, mas também pode nos fragilizar se usada de forma acrítica. O que falta é alfabetização digital e emocional: ensinar, desde cedo, que a IA não é oráculo, nem consciência autônoma, mas um espelho sofisticado que reflete, com distorções, os dados que colocamos nela. No fundo, o perigo maior não é a IA em si, mas a nossa tendência de projetar nela aquilo que falta em nós: consolo, direção, afeto, certezas. Se conseguirmos usá-la sem entregar a ela nossa autonomia mental e emocional, a IA funcionará a contento.
A frase que foi pronunciada:
“A IA tem o potencial de ser mais transformadora do que a eletricidade ou o fogo.”
Sundar Pichai, CEO do Google

História de Brasília
Não repercutiu bem a campanha de pichamento da cidade pedindo Sette Câmara para Primeiro Ministro. Aliás, estas campanhas à base do piche não dão certo. Exemplo: Vital é Vital ; Queremos votar; JK-65; e Edmilson para o. Foram Gama campanhas à base do piche que ficaram no esquecimento. (Publicada em 04.05.1962)
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Entre todas as revoluções científicas que marcam o século XXI, talvez nenhuma seja mais surpreendente do que a que emerge no campo das neurociências. Durante muito tempo, acreditou-se que o cérebro era o centro produtor do pensamento e da consciência. Contudo, novas teorias apontam para uma hipótese radicalmente distinta: o cérebro não seria o criador da mente, mas um mediador entre frequências invisíveis e nossa experiência consciente. Essa visão sugere que o cérebro funcionaria como uma antena biológica. Assim como um rádio não produz a música, apenas a sintoniza, o cérebro não geraria ideias por si só, mas captaria vibrações de um campo maior de consciência universal.
O físico indiano Amit Goswami resume essa inversão de perspectiva ao afirmar: “A consciência não está no cérebro, o cérebro está na consciência”. Para o biólogo celular Bruce Lipton, somos receptores de um campo informacional e até o DNA funcionaria como antena capaz de captar sinais do ambiente. Gregg Braden, pesquisador que transita entre ciência e espiritualidade, acrescenta: “O cérebro é o hardware; o campo de consciência é o software”. Já Rupert Sheldrake, com sua teoria dos campos mórficos, sustenta que a memória não está armazenada no cérebro, mas ressoa em campos invisíveis que conectam todos os seres.
Essa nova abordagem começa a desafiar a neurociência clássica, tradicionalmente materialista, que procura localizar pensamentos apenas em redes neurais. Agora, a questão ganha contornos espirituais sem perder o diálogo com analogias científicas. O debate toca num ponto essencial: se o cérebro é apenas antena, onde estaria a fonte real da consciência? Nesse contexto, a glândula pineal ressurge como peça central. Conhecida, desde a Antiguidade, como o “terceiro olho” e descrita por Descartes como a “sede da alma”, sempre foi vista pelos Yogis como portal de acesso a estados ampliados de percepção.
Hoje, investigações a relacionam com ritmos biológicos, produção de melatonina e até experiências místicas. O neurocientista Rick Strassman chegou a propor que a pineal poderia estar ligada à produção de DMT, molécula que induz estados alterados de consciência. Assim, ciência e espiritualidade encontram um ponto de contato. Surge também a noção de metacognição, o pensar sobre o próprio pensar, e de meta-plasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro de remodelar-se não apenas internamente, mas em sintonia com algo maior. A Psicologia e a Psicanálise são chamadas a refletir sobre essas descobertas. Freud via o inconsciente como um reservatório de pulsões reprimidas; Jung avançou ao falar do inconsciente coletivo, um campo simbólico partilhado por todos. A nova neurociência sugere que esse campo poderia ser literal, um oceano vibracional que conecta mentes em diferentes níveis. Esse deslocamento rompe com a visão cartesiana do ser humano como máquina biológica e devolve, ao conceito de “alma”, um estatuto renovado.
Amit Goswami insiste: “A consciência é a base de todo o ser; matéria e mente emergem dela”. A afirmação subverte o paradigma clássico: não é a mente que nasce do cérebro, mas o cérebro que opera como instrumento da mente maior. Naturalmente, essa hipótese enfrenta resistências. Muitos cientistas lembram que ainda faltam evidências experimentais sólidas. No entanto, é inegável que a consciência permanece como um dos maiores mistérios não resolvidos da ciência. Nenhuma teoria materialista conseguiu explicar plenamente sua origem. E quando as respostas não surgem, novas hipóteses tornam-se não apenas possíveis, mas necessárias.
A concepção do cérebro como antena pode não ser a explicação definitiva, mas tem o mérito de abrir horizontes e aproximar a neurociência de antigas tradições filosóficas e espirituais. Mais do que isso, convida-nos a refletir: somos autores de nossos pensamentos ou apenas receptores de uma transmissão maior? Se estivermos, de fato, sintonizando frequências universais, a responsabilidade pelo que captamos e manifestamos em nossas vidas se torna ainda maior. Talvez a neurociência do futuro seja também, inevitavelmente, uma ciência da alma. Nesse ponto, ciência e espiritualidade, antes vistas como opostas, podem enfim se reencontrar.
A frase que foi pronunciada:
“O cérebro é mais vasto do que o céu.”
Emily Dickinson

Pensando bem
Interessante que, enquanto eram gratuitas, as sacolas de mercado faziam mal para a natureza. Agora, ao cobrar pela embalagem, parece que alguém agradece… e não é o meio ambiente.

História de Brasília
Observe-se que isto está acontecendo no setor residencial, onde não poderia haver tal tipo de negócio.(Publicada em 08.05.1962)
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Nesta altura dos acontecimentos, não chega a ser segredo para ninguém que o Brasil caminha ao encontro de uma encruzilhada decisiva, onde terá que escolher figurar entre as nações do mundo com a maior carga tributária bruta, superior a 32% do PIB, ou virar totalmente as costas para a atual política econômica. Para um país do tipo emergente, como somos, temos uma carga tributária extremamente alta, vis a vis o retorno desses impostos em forma de serviços básicos para a população.
Na velocidade em que vamos distorcendo os primados da economia, como no caso da relação entre receitas e gastos, logo seremos um país a exibir a maior carga tributária do planeta. O problema aqui, além da insistência do governo em seguir gastando além das possibilidades reais do país, é que nossa nação adentrou em um processo perigoso e rápido de envelhecimento da população, numa transição demográfica mais veloz ainda, com pessoas vivendo mais tempo e com um pequeno número de crianças nascendo.
Essa defasagem é perigosa não só para o Brasil, mas para qualquer outra nação, pois esse desequilíbrio acaba por pressionar a Previdência e a saúde pública, que representam os dois gastos mais importantes e volumosos do governo. Para aqueles que conhecem esses cálculos a fundo, chama a atenção o fato de que cada 1% no nível de envelhecimento da população está associado diretamente a um aumento maior do que 1% na carga tributária. Trata-se de uma pressão para lá de preocupante. É o caso clássico do indivíduo que envelheceu antes de garantir seu sustento na velhice, quando sua força de trabalho diminui.
A carga tributária tende a ser mais elevada em países que envelheceram mais. E isso, no nosso caso, pode ser um desastre sem precedentes. Some-se ao envelhecimento da população o fato de que apresentamos também um elevado nível de desigualdade social e econômica. Postos juntos na balança, esses problemas estruturais se transformarão no maior desafio a
ser enfrentado neste século e com sérias consequências para as futuras gerações. A grande questão, quando se pensa em equacionar toda essa aritmética enviesada do Estado, é que não se pode confiar cegamente nos dados fornecidos por qualquer instituto de pesquisa.
O que se sabe e se sente na pele é que a carga tributária consome mais de um terço de toda a riqueza produzida e segue aumentando em ritmo veloz. Com isso, a dívida bruta já ultrapassa 76% do Produto Interno Bruto (PIB). A inflação mensal e anual é o que as donas de casa sentem ao irem ao mercado. Meio quilo de café a R$ 40. Não bate com o que divulga o governo, como sendo 5,23% nos últimos 12 meses.
A taxa de fecundidade, em torno de 1,55 a 1,57 filho por mulher, está bem abaixo do nível de reposição, o que pode ser interpretado como um aviso de que os jovens não se sentem seguros com relação ao futuro, o que, naturalmente, faz cair a taxa de natalidade. Com cada vez menos pessoas contribuindo para a Previdência e com a população envelhecendo rapidamente, o Brasil tem, obrigatoriamente neste século, que resolver essa equação, sob pena de vermos a estagnação total do país a médio prazo.
Em algumas décadas, caso essa situação não se reverta, teremos mais idosos do que jovens, o que provocará a falência da Previdência tal qual a conhecemos, assim como do sistema de saúde pública. Para governos que têm como horizonte político apenas as próximas eleições, todo esse conjunto de problemas estruturais do país acabam sempre empurrados para um futuro distante.
Diante de um quadro tão complicado como o nosso, qualquer exercício de futurologia conduz-nos sempre ao pessimismo. Quer queira, quer não, toda a preparação para o futuro começa a ser feita ainda no passado, e isso é o que não temos feito. Projetos de Estado e de longo prazo não são levados a sério. Caso sigamos persistindo nessas condições, com crescimento fraco, inflação resiliente, Selic elevada por mais tempo, postergação de ajustes previdenciários/saúde, judicialização de despesas, desaceleração da execução da reforma e outros contratempos, simplesmente não há que se falar em futuro para o país e para os brasileiros, pois o que temos em mãos é a velha e conhecida vanguarda do atraso.
A frase que foi pronunciada:
“O Brasil não perde a oportunidade de perder oportunidades.”
Roberto Campos

História de Brasília
Na quadra 26 da W3 no último bloco dando para a W4, o proprietário de uma casa alugou sua residência a um guarda-móveis, e os caminhões de transporte tomam toda a rua durante quase todo o dia. (Publicada em 8/5/1962)
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Em matéria tributária, o paradoxo brasileiro é tão evidente que quase já não causa estranhamento. A recente atualização da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física, apresentada como medida de alívio às camadas de menor renda, repete um enredo conhecido: na prática, mantém privilégios para os mais ricos e pouco altera a desigualdade estrutural.
Em 2024, a carga tributária bruta brasileira alcançou 32,32% do Produto Interno Bruto, segundo dados do Tesouro Nacional. O número coloca o país entre os que mais tributam no mundo, em patamar semelhante ao de economias desenvolvidas, mas sem a correspondente qualidade nos serviços públicos. O paradoxo se agrava quando se observa que, apesar da pesada arrecadação, o Brasil ocupa a pior posição no ranking do Estudo IRBES 2023 — que avaliou o retorno social dos tributos entre os 30 países com maior carga tributária. Na prática, cobra-se como país rico e devolve-se como nação pobre.
Cotidianamente a percepção dessa contradição explica a disseminação da chamada cultura do escapismo fiscal. O contribuinte médio, consciente de seu esforço, sabe que não terá acesso a hospitais adequados, escolas dignas ou transporte decente, e a partir daí o problema não se resume apenas à evasão. A maior distorção está no próprio desenho da tributação, que isenta lucros e dividendos e concentra o peso sobre salários. De acordo com estudos oficiais, para cada real pago em imposto pelos mais ricos, outros dois reais permanecem intocados em rendimentos não tributáveis.
Em contrapartida, trabalhadores que recebem entre um e dois salários mínimos veem, para cada real isento, outros R$ 7,60 confiscados na fonte ou na declaração. Nesse contexto, as promessas de campanha que ampliam gastos públicos apenas reforçam a engrenagem do desequilíbrio. A multiplicação de ministérios, a manutenção de programas sem fonte de custeio e a ampliação de benefícios sociais sem a correspondente base arrecadatória aumentam a pressão sobre o orçamento. O Tesouro Nacional informou que a dívida bruta já supera 75% do PIB, percentual elevado para uma economia emergente. Alguém inevitavelmente terá de pagar essa conta, e a história mostra que a fatura recai quase sempre sobre a classe média e os trabalhadores formais.
Há, ademais, o problema da opacidade fiscal. Apesar das normas de transparência, a execução orçamentária continua marcada por manobras, apelidadas de “pedaladas” quando ganharam notoriedade política. O mecanismo de mascarar resultados, embora duramente criticado, ainda resiste sob novas roupagens. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, a própria complexidade do sistema custa às empresas cerca de R$ 60 bilhões anuais apenas em horas destinadas ao cumprimento de obrigações acessórias. É um peso que desestimula investimentos e corrói a competitividade.
O Projeto de Lei nº 1.087/2025, atualmente em tramitação no Congresso, tenta alterar esse quadro. A proposta prevê isenção para quem recebe até R$ 5 mil por mês, redução de alíquotas até R$ 7 mil e, sobretudo, a criação de um imposto mínimo sobre super-ricos. Estudo do Ministério da Fazenda indica que a medida poderia elevar em até 45% a tributação sobre o 0,01% mais rico da população, corrigindo uma distorção histórica. Além disso, a desigualdade medida pelo Índice de Gini cairia de 0,6185 para 0,6178, e a progressividade do sistema aumentaria em 30%. Ainda que modestos, são efeitos concretos na busca por maior justiça fiscal.
Na tabela já definida para 2025/2026, a faixa de isenção foi ampliada para R$ 27.110,40 anuais, com alíquotas progressivas que chegam a 27,5% para rendimentos acima de R$ 55.976,16. Embora o avanço represente alívio pontual, não enfrenta a raiz da desigualdade: a ausência de tributação sobre grandes fortunas, lucros e dividendos. Sem essa correção, o discurso de justiça tributária permanece mais retórico do que efetivo.
Imposto, em qualquer tempo histórico, foi percebido como imposição. A diferença está no que o Estado devolve à sociedade. Países que alcançaram equilíbrio social transformaram tributos em serviços públicos de qualidade, entendendo a arrecadação como pacto coletivo. No Brasil, o pacto está rompido. Cidadãos pagam muito, recebem pouco e ainda convivem com o espetáculo de desperdícios e privilégios. O contribuinte comum não se recusa a colaborar, mas cobra transparência, eficiência e retorno, no mínimo.
A cada nova eleição, renova-se a promessa de alívio. Contudo, o que se observa é a repetição de práticas que oneram quem menos pode e preservam quem mais acumula. Sem coragem política para rever isenções, simplificar o sistema e combater o desperdício, o país continuará condenado a viver sob o signo do paradoxo: tributa como nação rica, devolve como sociedade pobre, e perpetua a desigualdade que promete combater.
A frase que foi pronunciada:
“O desafio da esquerda é maior do que nunca. A gente nunca conviveu com uma situação tão adversa.”
Fernando Haddad

História de Brasília
O que há é falso sensacionalismo. Pura e simplesmente. O rapaz está há um ano esperando julgamento e já foi adiado duas vêzes. (Publicado em 08.05.1961)
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Fenômeno mais grave manifesta-se na ponta do sistema de saúde e não é só o sucateamento de unidades ou a superlotação crônica de hospitais e postos de atendimento. A deterioração do vínculo humano entre profissionais de saúde e pacientes é um grande problema. Nesse estágio, quando o cidadão finalmente obtém atendimento, relação que deveria pautar-se pela escuta e pelo cuidado, transforma-se, muitas vezes, em distanciamento e impessoalidade. Alunos não são preparados para esse contato. A notícia de uma doença séria é dada pelo profissional de uma forma banal e sem empatia.
Em outra perspectiva, casos de tensão e violência verbal, e por vezes física, multiplicam-se nas áreas de espera dos serviços públicos. Aglomerações, filas extensas e sensação de abandono desencadeiam hostilidade, invasões de consultórios e conflitos que se tornam rotina. Transferir a culpa, exclusivamente, para médicos e atendentes é um equívoco: tal simplificação não apenas obscurece as causas profundas do problema, como agrava a desmotivação e o desgaste desses profissionais, comprometendo ainda mais a qualidade do serviço.
Recursos federais destinados à saúde, embora elevados, mostram-se insuficientes frente à demanda. A Lei Orçamentária Anual de 2025 prevê R$ 245 bilhões para o setor (Agência Senado, 2025), valor significativo, mas inadequado para atender ama população superior a 203 milhões de habitantes (IBGE, 2024). Insuficiência não se resume à quantidade; a qualidade da gestão também é crítica. Alocação deficiente de recursos, ausência de planejamento de longo prazo e escolha de dirigentes sem critérios técnicos reduzem a capacidade do sistema de responder eficientemente às necessidades da sociedade.
Outros setores essenciais recebem o reflexo do desempenho da saúde pública, como educação e segurança. Prioridade estratégica ausente e condução condicionada a interesses imediatistas e conveniências administrativas produzem serviços precários e corroem a confiança da população no Estado. Má gestão combinada com mau uso das verbas são o principal fator corrosivo que se propaga do topo às instâncias mais elementares do atendimento. Profissionais de linha de frente, sobrecarregados, enfrentam pressões constantes e tornam-se alvo direto da insatisfação popular. Consequência inevitável é o cidadão frustrado em seu direito constitucional a um serviço público digno.
Desumanização não surge só do contato individual entre servidor e usuário, emerge de negligência institucional sistemática. O distanciamento das instâncias decisórias em relação à realidade concreta da população alimenta impessoalidade. Superar esse quadro exige um compromisso político autêntico com gestão eficiente e transparente dos recursos, aliado a investimentos proporcionais à complexidade do sistema. Reverter o endurecimento das relações requer políticas públicas que resgatem caráter humano do atendimento, incluindo capacitação contínua de equipes, melhoria das condições de trabalho, redução da sobrecarga operacional e valorização profissional baseada em mérito e competência técnica. Sem tais medidas, a saúde pública permanecerá presa ao ciclo de ineficiência e desgaste social. Um exemplo de que é possível trabalhar com verba pública e oferecer qualidade ao contribuinte: A Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação, que é uma instituição pública federal vinculada à Fundação das Pioneiras Sociais, é mantida com recursos do Governo Federal. Em 2023, a dotação orçamentária final da Rede SARAH foi de R$ 1.053.000.000,00, conforme o Relatório de Gestão do mesmo ano. A Rede SARAH é referência nacional em reabilitação, com unidades em diversas capitais brasileiras, incluindo Brasília, Salvador, São Luís, Belo Horizonte, Fortaleza, Belém, Rio de Janeiro e Macapá. Em 2023, a instituição atendeu pacientes provenientes de 4.889 municípios, representando 88% do total de 5.570 municípios brasileiros (dados da própria rede). Embora o número exato de pacientes atendidos em 2023 não esteja especificado nos documentos disponíveis, a ampla cobertura geográfica e a especialização da Rede SARAH indicam um volume significativo de atendimentos realizados ao longo do ano.
A compreensão da realidade dessa rede hospitalar reconhecida internacionalmente deve permear o debate público, porque somente com profunda análise é possível que se alcance as origens da crise da saúde pública no país.
Estatísticas internacionais revelam disparidade preocupante: enquanto o Brasil investe cerca de US$ 1.200 per capita em saúde, comparado a US$ 5.500 em países de renda alta, está clara a necessidade urgente de gestão mais eficiente e foco em resultados concretos. Pesquisa do IBGE de 2022 indica que 47% da população ainda enfrenta filas superiores a duas horas para atendimento ambulatorial o que reforça a necessidade de implantação de políticas estruturais.
A frase que foi pronunciada:
“Nesses tempos em que as utopias se esgotam por falta de rumos, valores e referenciais, a sociedade se canibaliza.”
Aloysio Campos da Paz

História de Brasília
Adiado, novamente, o julgamento de João Peles. O advogado auxiliar da acusação teima em dizer que está ameaçado de morte, e já está ficando sem graça, porque não acontece nada. (Publicada em 08.05.1962)
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Ignorar as relações estreitas entre economia e política pode ser a mais imprudente atitude de um governante. Embora a população possa não perceber essa relação de imediato, é certo que, em algum momento, todos, invariavelmente, irão sentir que a adoção de políticas erradas e mal adotadas trarão malefícios para todos. Política, nesse caso, é a arte de perceber a realidade e não se deixar levar por projetos e ideias fora dela.
Desde abril de 2025, uma escalada de tensões transformou o relacionamento entre Brasil e Estados Unidos em uma crise diplomática profunda e jamais vista nesses últimos dois séculos de relações com o irmão do Norte. A imposição inicial de 10% de tarifas em abril evoluiu para uma alíquota monumental de 50% em julho, com vigor a partir de 1º de agosto. Os impactos diretos sobre as exportações brasileiras de café, carne, suco, produtos aeroespaciais e outros setores estratégicos foram duramente sentidos. Estima-se perda de mais de 100 mil empregos, redução das exportações à metade e queda de 0,2 ponto percentual no PIB já imediatamente. O governo estuda essas consequências e segue realizando uma sequência de promessas quando afirma que o Brasil vai sair desse impasse sem prejuízos. O fato é que, se fosse pelo gosto da população, as relações entre Brasil e Estados Unidos não seriam abaladas de modo algum. O aumento do risco-país e da dívida pública prevista para superar os 82% do PIB, pressionando a economia com juros em patamares elevados é o próximo evento negativo a chegar. Também o setor financeiro e empresarial pressionam por uma saída negociada, mas o tom dos discursos oficiais ainda mantém forte componente ideológico, o que é ruim para o país. O custo da retórica ideológica será maior do que o previsto pelo governo. Mas isso não parece incomodar nossos líderes. A população assiste a tudo com um misto de medo e de maus presságios.
Analistas afirmam que a política externa do governo Lula tem sido movida por um claro alinhamento com regimes antagonistas ao Ocidente (como Irã, Rússia, China), reforçando uma diplomacia muito menos pragmática e mais simbólica. Esse posicionamento teria agravado a retaliação americana e ainda pode piorar a situação. A oposição acusa o governo de usar o “inimigo externo” como cortina de fumaça para problemas internos, apontando que o confronto com os EUA desvia a atenção do agravamento econômico e da queda acentuada da popularidade presidencial. Pesquisa recente feita pela Ipsos revela que 69% dos brasileiros percebem uma deterioração social, um aumento de 7 pontos em relação a 2023. Além disso, 62% sentem que o país está em franco declínio. Somado a isso, 76% acreditam que a economia favorece os mais poderosos, e 73% sentem que os representantes políticos não se importam com a população nem com o delicado momento que atravessamos.
Dados do Datafolha apontam aprovação de apenas 28% para o atual comandante do país, com desaprovação em 40%, patamar mais baixo de seu terceiro mandato até agora. Isso alimenta uma polarização que bloqueia o diálogo e diminui a capacidade de resposta do governo a crises reais. Quando políticas são conduzidas com base em ideais descolados da realidade prática, os prejuízos podem se espalhar, ainda que tardiamente, por toda a população. A atual crise Brasil–EUA é exemplo emblemático disso. Temos que admitir que a retaliação econômica americana não foi motivada por desequilíbrio comercial, mas, unicamente, por uma retórica política exaustivamente levada a público, especialmente no que diz respeito ao apoio declarado a Bolsonaro por Trump, e por decisões intempestivas da Justiça brasileira.
Os jornais americanos, mesmo aqueles que são contra Trump, falam dessa situação a todo o momento, comparando a situação do Brasil a de outros países como a Venezuela ou Cuba. O governo brasileiro respondeu com cortes diplomáticos e discurso soberanista, mas faltou uma agenda clara de contenção de perdas ou negociação técnica. Enquanto isso, a população sente o peso: menor crescimento, inflação, empregos ameaçados, sentimento de insegurança social e institucional. Quando governantes se apegam mais a uma ideologia do que ao interesse nacional que aflige diretamente as pessoas, o resultado pode ser devastador e a população acaba pagando o preço. O distanciamento entre o que quer o governo e o que quer a população tem, efetivamente, custado caro ao Brasil tanto na economia exportadora, nos empregos, no bem-estar social como até na estabilidade institucional. Quando um governo levanta a bandeira da “soberania” mas, na prática, essa defesa serve apenas como retórica eleitoral, entramos no terreno da política performática, aquela que prioriza a imagem e o discurso em detrimento de resultados concretos. No caso atual, o apelo à soberania frente aos EUA poderia ser legítimo se viesse acompanhado de uma estratégia econômica robusta, negociações discretas e alternativas reais para compensar as perdas comerciais. Mas o que se vê é quase o oposto.
A frase que foi pronunciada:
“Estamos em uma situação muito inusitada, presidente. O Brasil é um país que está sendo sancionado por ser mais democrático do que seu agressor.”
Ministro Haddad

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O que há de falso sensacionalismo. Pura e simplesmente. P rapaz está há um ano esperando julgamento e já foi adiado duas vêzes. (Publicada em 08.05.1962)
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A expectativa de vida do brasileiro ao nascer chegou, em 2023, a 76,4 anos. O avanço é fruto de décadas de melhorias na medicina, no saneamento, na alimentação e nas políticas de saúde pública. Contudo, para além da conquista estatística, persiste um fato incômodo: o Brasil ainda não se preparou para a realidade de envelhecer bem, incluindo governo, iniciativa privada, sociedade civil e, não raramente, as próprias famílias. Parece que a longevidade e dignidade seguem caminhos que raramente se cruzam.
À medida que o indivíduo avança para a terceira idade, multiplicam-se os obstáculos a uma vida saudável e produtiva. Os ganhos obtidos com a ciência ameaçam ser neutralizados pela negligência social. Não se trata apenas de garantir anos a mais na certidão de nascimento; trata-se de assegurar que esses anos sejam vividos com qualidade. Em um país onde, segundo dados oficiais, 65.488 denúncias de violência contra pessoas idosas foram registradas apenas entre janeiro e abril de 2025 (um crescimento de 38% em relação ao mesmo período em 2023), viver mais também significa correr mais riscos. Esse dado, obviamente, não registra as omissões de lares onde não se imagina a realidade. Realidade essa que assusta quando se constata que 70% das vítimas são mulheres e que a maior parte das agressões ocorre dentro do próprio lar, espaço que deveria representar amparo e segurança.
A violência contra a pessoa idosa, na verdade, não é exclusividade brasileira. Tanto que a Organização das Nações Unidas instituiu, há anos, o Dia Mundial de Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa (15 de junho). Mas, no Brasil, o problema assume contornos mais severos, pois soma-se a um sistema de proteção insuficiente e a uma cultura que, em vez de valorizar a experiência e a memória, tende a descartá-las. O Estatuto do Idoso, de 2013, foi um marco legislativo, mas segue o destino de outras leis nacionais: o risco de tornar-se letra morta, por ausência de fiscalização e políticas públicas consistentes.
Enquanto isso, as estatísticas demográficas avançam. Em 2023, 15,6% da população brasileira tinha 60 anos ou mais, superando o percentual de jovens entre 15 e 24 anos (14,8%). Há apenas duas décadas, eram 15,2 milhões; hoje, já são 33 milhões de idosos. Uma transformação social dessa magnitude exigiria preparo estratégico, investimento em saúde preventiva, redes de apoio e, sobretudo, mudança cultural. Mas o país parece ainda atônito diante do fenômeno.
A comparação internacional ajuda a dimensionar o desafio: Nos Estados Unidos, levantamento da AARP mostra que 70% das pessoas com 50 anos ou mais planejam viajar em 2025, contra 65% no ano anterior. Em média, cada indivíduo realizou 3,9 viagens em 2024, superando a previsão inicial. Quase metade pretende fazer viagens internacionais. Trata-se de um indicativo de que, para muitos aposentados norte-americanos, a terceira idade é vivida como oportunidade de lazer, descoberta e integração social.
Já na Alemanha e em outros países europeus, onde mais de 21% da população tem 65 anos ou mais, a velhice costuma ser acompanhada por robustos sistemas de bem-estar social, pensões adequadas e acesso universal à saúde de qualidade. Lá, o idoso não é visto como peso econômico, mas como integrante ativo da vida comunitária. Isso permite que continue participando de atividades culturais, viagens e práticas esportivas, mantendo-se saudável física e mentalmente.
O contraste com o Brasil é contundente. Aqui, um número expressivo de aposentados é obrigado a retornar ao trabalho para complementar a renda, enquanto outros veem mais da metade de seus proventos drenados por medicamentos e planos de saúde. Lazer, turismo e cultura tornam-se luxos inalcançáveis. E, em muitos casos, a rede familiar, fragilizada por crises econômicas e transformações sociais, não consegue prover o suporte afetivo e material necessário.
O Estudo Longitudinal das Condições de Saúde e Bem-Estar da População Idosa (ELSI), em andamento há seis anos, busca traçar um retrato abrangente dessa população, cruzando dados e mapeando vulnerabilidades. Mas o diagnóstico, por si só, não basta. É preciso transformar números em ação: ampliar centros de convivência, reforçar programas de saúde integral, promover campanhas de valorização da experiência de vida e treinar profissionais para lidar com as especificidades da terceira idade.
A educação também pode ter papel decisivo. Inserir nas escolas conteúdos sobre envelhecimento e respeito intergeracional ajudaria a formar novas gerações menos propensas à indiferença ou à violência. Afinal, envelhecer é destino comum. A cultura do cuidado não se improvisa; constrói-se com o tempo, o mesmo tempo que, se bem usado, transforma longevidade em verdadeira conquista civilizatória.
Enquanto o Brasil continuar aplaudindo a longevidade apenas como dado estatístico, sem enfrentar a deterioração silenciosa da qualidade de vida, estaremos celebrando uma vitória incompleta. A vida prolongada, quando vivida sob a sombra da violência, da precariedade econômica e da exclusão social, deixa de ser bênção para se tornar sobrevivência. É hora de assumir que envelhecer com dignidade não é privilégio: é direito. E, como todo direito, precisa ser defendido com políticas concretas, recursos consistentes e, acima de tudo, respeito.
A frase que foi pronunciada:
“Qualquer um que mantenha a habilidade de enxergar a beleza, não envelhece.”
Franz Kafka

História de Brasília
Não para por aí. A chapa não pode ser pregada pelo proprietário do carro, nem a Prefeitura dá condições. Então, o motorista precisará de parafusos. Não há uma única casa com parafusos a venda nas proximidades. Terá que cair nas mãos do Paraguaio, que cobra 25 cruzeiros por um parafuso. (Publicada em 08.05.1962)
VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
jornalistacircecunha@gmail.com
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Não restam dúvidas de que as redes sociais foram, dentre os vários setores da economia tecnológica, as que mais lucraram, em todos os sentidos, com a expansão global da internet. A internet é do povo como o ar é do avião. O que esses tempos conturbados mostram é que cresce, em ocasiões assim, a procura por magos, ciganos, feiticeiros e outros Xamãs. Todos buscam saídas para o futuro, qualquer um que seja. Um desses programas de prognosticar o dia de amanhã é feito por um tal Cigano do Além Mar. Num desses episódios, o tal cigano expôs tudo o que viria em seguida. Ou seja, amanhã, no mês que vem e assim por diante até as próximas eleições. Contou ele que toda trama atual está agora atingindo seu clímax.
Um folhetim sobre um país que procura, no futuro, a resposta que perdeu no presente é o que temos para hoje. Dizem que o século XXI seria a era da informação. E é. Só esqueceram de avisar que informação não é sinônimo de entendimento. O Brasil, esta grande embarcação que avança a remos e contra marés, navega em águas turvas. A política não dá trégua, a economia aperta o cinto até onde não há mais furo, e a população vive, como dizem os mais antigos, “a pão e água” — mas conectada, sempre conectada.
Se há um setor que ganhou com essa história toda, foi o das redes sociais. Plataformas globais, com nomes reluzentes e bolsos profundos, transformaram-se em verdadeiras catedrais digitais. E o povo, fiel devoto, comparece diariamente ao culto. A internet é do povo como o ar é do avião. Nos tempos de crise, o coração humano se volta para o que não pode ver, tocar ou medir. E é aí que florescem, como pragas ou como jardins, as figuras dos adivinhos digitais. Programas como Visão 2025, Oráculo News, AstroPolítica Brasil e Linha Direta com o Amanhã ganham seguidores fiéis. O algoritmo trata de entregar mais do mesmo, embalado em promessas de que, sim, o futuro pode ser antecipado e, com sorte, até manipulado. Entre eles, brilha, ou pelo menos pisca, o tal “Cigano do Além Mar”. Personagem ou pessoa? Ninguém sabe. Ele próprio garante ser um alter ego coletivo, uma voz que fala pelo povo, mas sem a obrigação de acertar. Afinal, nestes tempos de regulação iminente, opinar é quase como sussurrar num confessionário: não se sabe quem escuta, nem o que farão com as palavras ditas.
O Cigano é irreverente, diz o que pensa e pensa o que quer, o que já é luxo raro. A plateia digital, entre gargalhadas e espanto, lotou a caixa de comentários. Segundo o Cigano, o que virá amanhã, no mês que vem, ou até as próximas eleições, já está escrito. Só que a escrita, ele adverte, não é em papel — é em nuvem, e, na nuvem, tudo pode ser editado. Por isso, garante: nada é definitivo, só o provisório.
O que hoje parece desgraça pode ser, amanhã, anúncio de prosperidade. Ou vice-versa. Enquanto isso, o país real segue seu curso: preços subindo, empregos rareando, discursos endurecendo. A cada nova tensão no noticiário, aumenta a audiência dos programas de adivinhação política. Não são só os crentes ou crédulos que assistem. Há também os curiosos, os desesperados e, claro, os que buscam confirmar apenas aquilo que já acreditam. Os políticos, na surdina, adoram esses xamãs e não dão um passo sem antes escutar o que predizem. No fundo, o que move esse interesse não é o amor pelo misticismo, mas o desespero por alguma certeza.
Em um Brasil onde a realidade é volátil como trending topic, ter alguém, mesmo um personagem de chapéu largo e olhar astuto, que arrisque dizer o que vem pela frente é um alívio. O Cigano, por sua vez, sabe que suas “visões” são mais espelho do que janela. Refletem a ansiedade coletiva, o desejo de ordem em meio ao caos. E quando exagera, quando provoca, quando ri de sua própria profecia, é como se dissesse: “Eu sou vocês, e vocês são eu. Estamos todos tentando adivinhar o amanhã”.
Talvez seja por isso que, mesmo sem credenciais, sem estatísticas, sem fontes oficiais, ele siga conquistando espaço. Porque, num país onde até o passado é incerto, quem não quer ouvir alguém falar do futuro com a confiança de quem leu o roteiro inteiro? E assim, entre lives, áudios de WhatsApp e cortes para o TikTok, o “Cigano do Além Mar” vai tecendo sua narrativa. Uma novela interativa, onde cada seguidor se torna cúmplice e personagem. Ninguém sabe como termina e, talvez, essa seja a única previsão realmente confiável. O mais difícil seja mesmo prever o futuro daquilo que nos parece ficção.
A frase que foi pronunciada:
“Não conheço maneira de julgar o futuro, a não ser pelo passado”
Confúcio

História de Brasília
Lá, a pessoa é informada de que precisará de selos, e não tem ninguém vendendo. Terá que vir ao Plano Pilôto e voltar, perfazendo um total de 36 quilômetros a mais. (Publicada em 08.05.1962)
VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Brasília, a capital do país e onde se concentram brasileiros de várias origens, firmou-se, ao longo dos anos, como uma vitrine a exibir a síntese do que é o Brasil real na atualidade. Nesse retrato em preto e branco do país, centrado nesse pequeno quadrilátero no centro do Brasil, temos uma pequena amostra das nossas belezas e mazelas.
Como toda capital, nacional ou estrangeira, Brasília, nesses poucos anos de existência, já apresenta um conjunto complexo de problemas que reclamam providências urgentes e necessitam ser enfrentados de frente e com coragem. Entre as questões do mundo moderno merecedoras de atenção, uma se destaca e requer a atenção redobrada de nossas autoridades: trata-se do consumo exagerado — e põe exagerado nisso — de bebidas alcoólicas.
São milhares de bares abertos diuturnamente, espalhados por toda a capital, a oferecerem uma infinidade de bebidas alcoólicas. Esse tipo de consumo não conhece crise econômica. Para os adeptos do álcool, além dos bares e botecos, existem as distribuidoras de bebidas em cada esquina, as lojas de conveniência e os supermercados. A oferta desses produtos segue o consumo igualmente gigante e crescente. Não há limite de idade. Todos bebem — e bebem muito.
Em Brasília, mais de 26% dos adultos consumiram álcool de forma abusiva no ano passado. Tal disposição a esse tipo de consumo coloca nossa capital em segundo lugar, atrás apenas de Salvador, onde quase 30% da população consome álcool regularmente.
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se de um verdadeiro problema de saúde pública a lotar hospitais e todo o sistema de saúde e a fomentar outro problema ainda mais sério, como a violência no trânsito e outros tipos de violência — crimes de roubo e de assassinato, por exemplo. Ganha ainda uma dimensão mais assustadora quando se verifica que o consumo abusivo de álcool vem crescendo entre as mulheres. É sabido que as mulheres morrem mais de problemas como hipertensão associada ao álcool. Em muitas capitais do país, incluindo Brasília, o consumo de álcool pelas mulheres dobrou, atingindo inclusive as menores de idade.
O pior é que a indústria do álcool faz cara de paisagem para o problema, assim como as autoridades, que fingem que ele não tem toda essa dimensão que a mídia divulga. De acordo com o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), o problema vem num crescendo preocupante, embora não se tenha notícias de programa oficial algum que busque combatê-lo. Não se fala no assunto nas redes de TV, nas escolas, em parte alguma. Trata-se de uma espécie de problema tabu, pouco ou nada discutido com a população. Talvez, por isso mesmo, os hospitais de centros de saúde estejam cada vez mais lotados de vítimas voluntárias do álcool. Além disso, esse pode ser o motivo da lotação em clínicas de saúde mental.
Aliás, o índice cada vez maior de casos de transtornos mentais na capital está ligado diretamente ao consumo exagerado do álcool pela população e, em especial, pelas mulheres. Entre 2016 e 2021, 3.227 pessoas morreram de causas ligadas ao consumo de álcool no Distrito Federal. O prejuízo econômico para a capital e para o próprio país é imenso. O pior é que os relatórios oficiais mostram uma realidade que está muito aquém do que acontece de fato na capital e no restante do país.
O alcoolismo é, para os especialistas no assunto, uma verdadeira bomba relógio contra a sociedade a minar a saúde física e mental da população, a consumir os recursos públicos de saúde e a fomentar a violência em todas as suas variantes.
A frase que foi pronunciada:
“Uma das coisas mais difíceis foi aprender que eu merecia a recuperação.”
Demi Lovato, sobre a luta contra o alcoolismo e drogas
Alto custo
O nome da farmácia reflete também o alto custo para os pacientes conseguirem a medicação. Não é possível que qualquer questionamento precise ser feito pessoalmente, tirando todos os envolvidos da sua rotina enquanto um simples telefonema resolveria tudo. Hora de rever a rotina de atendimento.
Força tarefa
Tanto no Plano Piloto quanto nas outras cidades administrativas, as faixas de pedestre não têm recebido manutenção. Na estiagem é o melhor momento para isso. Forma simples de dar mais segurança aos motoristas e aos pedestres.

Força
Terezinha Bleyer será homenageada na celebração dos 50 anos da Secretaria de Articulação Nacional (SAN) de Santa Catarina, no dia 15 do próximo mês. Bem antes de 1975, dona Terezinha já era a política em pessoa. Daquelas raridades que sempre têm o bem comum como objetivo.
História de Brasília
A Prefeitura, na hora do venha a nós, faz tudo. Ao vosso reino, nada. No que se refere a emplacamento de carros então, é um Deus nos acuda. O posto é na Velhacap, distante 18 quilômetros do Plano Pilôto. (Publicada em 8/5/1962)
VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)
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Tem crescido o número de pessoas que se dizem pessimistas não só com os resultados concretos da 30ª Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP 30, como chegam até a apostar que essa Conferência seja de fato realizada na cidade de Belém do Pará, como está prevista para acontecer entre 10 e 21 de novembro próximo.
Reuniões de emergência têm sido realizadas para discutir não só os custos elevadíssimos, como a possibilidade de a cidade nortista apresentar, em tempo hábil, condições mínimas para a efetivação do evento. De fato, pelo que é mostrado nas diversas reportagens nacionais e internacionais, é que os custos previstos e bancados pela ONU estariam cinco ou seis vezes acima da ajuda proposta pelas Nações Unidas. De acordo com o que tem saído das reuniões do Secretariado da Convenção do Clima das Nações Unidas, os problemas são de diversas ordens, a começar pelos preços cobrados para a acomodação dos participantes. O número de participantes por delegações tem sido reduzido em prejuízo dos trabalhos.
Diante do que vem sendo exposto aos participantes, diversos países têm insistido para que a Conferência não seja realizada em Belém. Alguns hotéis da cidade, diante da oportunidade única, estariam cobrando até 15 vezes mais do que os preços normais, igualando espeluncas a hotéis internacionais de seis estrelas. Em resposta, o Brasil tem rejeitado mudanças de local, afirmando que “não há plano B”, mas garantiu que uma série de medidas está em curso.
Em 1º de agosto, foi anunciada uma proposta oficial para oferecer hospedagens “inclusivas e acessíveis”, com tarifas entre US$ 100 e US$ 600, priorizando delegações de países menos desenvolvidos. Além disso, cerca de 500 quartos em hotéis de Belém e Castanhal foram negociados com preços entre US$ 100 e US$ 300 para essas delegações. Para suprir essa demanda, estão previstas várias iniciativas. Navios cruzeiros, oferecendo cerca de 6.000 leitos. Conexões com Airbnb, escolas, igrejas, motéis, e uma “Vila COP” modular, como alternativa de hospedagem. Um dos projetos mais polêmicos é a Avenida Liberdade, uma estrada de 13 km construída através de um trecho protegido da Amazônia para melhorar o acesso a Belém. Apesar de planejada antes da escolha da cidade como sede, sua construção tem sido criticada por seu impacto ambiental e contradição com os objetivos da conferência. Outros investimentos incluem a expansão do aeroporto, revitalização do porto, melhorias no saneamento e mobilidade urbana, tudo voltado para receber o evento e reduzir gargalos logísticos. Há, no horizonte, um cenário de exclusão, não apenas com acomodações, mas com transportes, segurança, alimentação e outros quesitos.
Quem conhece a outrora aprazível Belém sabe que, hoje, a cidade não possui as mínimas condições para a realização de um evento mundial dessa magnitude.
O estado do Pará não possui infraestrutura adequada nem para atender a sua própria população. Para esconder o vexame, o governo federal vem destinando verbas bilionárias de emergência a serem utilizadas em obras que, segundo a população, buscam apenas maquiar e dar uma aparência de melhoria. Não há saneamento básico, os indicadores de educação estão entre os mais baixos do Brasil, a saúde pública é precária e alvo de várias denúncias, além disso o índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Pará é um dos piores do nosso país. O que antes era uma realidade conhecida apenas pelos paraenses, já chegou a todo o Brasil e ao mundo, revelando os estragos.
Todo o processo de preparar, minimamente, a cidade para receber a Conferência tem sido realizado à toque de caixa, as denúncias de superfaturamento em obras emergenciais têm sido frequentes. O mundo sabe dessa situação, que coloca, mais uma vez, nosso país como inseguro e suspeito para a realização de eventos desse porte. As autoridades que fingem nada saber, mais uma vez, voltam a falar no falso legado da COP 30 que será herdado pelos paraenses. Se formos levar em conta os legados prometidos pela Copa e pelas Olimpíadas, os paraenses podem ir se preparando para mais um engodo.
A frase que foi pronunciada:
“Se não houvesse hotéis disponíveis, eles deveriam dormir sob as estrelas”.
Lula para os críticos da COP 30

Alto Custo
O nome da farmácia reflete também o alto custo para os pacientes conseguirem a medicação. Não é possível que qualquer questionamento precise ser feito pessoalmente, tirando todos os envolvidos da sua rotina, enquanto um simples telefonema resolveria tudo. Hora de rever a rotina de atendimento.
História de Brasília
A Prefeitura na hora do venha a nós, faz tudo. Ao vosso reino, nada. No que se refere a emplacamento de carros, então é um Deus nos acuda. O posto é na Velhacap distante 18 quilômetros.


