VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960
Hoje com Circe Cunha e Manoel de Andrade – MAMFIL
De acordo com o Cadastro Único (CadÚnico) e do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com População em Situação de Rua (OBPopRua/UFMG) em junho desse ano (2026) 392.400 pessoas viviam em situação de rua em todo o país. Esse número é quase o dobro de dezembro de 2022, quando o registro era de 198.700. Ou seja, houve um aumento de 97,4%. Na verdade. não é preciso consultar organismos oficiais para verificar que o número de mendigos e moradores de rua tem aumentado exponencialmente em todas as cidades brasileiras. Não há uma praça sequer ou área verde que não estejam tomadas por famílias inteiras, vivendo ao relento, em marquises, pontes ao em debaixo de lonas de plástico. Observe que esses são números oficiais. Na realidade esses números são significativamente maiores do que os divulgados e há quem diga que existem hoje mais de meio milhão de pessoas vivendo nas ruas do país, sem quaisquer direitos ou obrigações civis. Apesar de declarações garantirem que esses números são bem menores, não há como esconder essa imensa população desamparada dos olhos da população. Poucas estatísticas conseguem retratar com tanta força o estado real de um país quanto o número de pessoas que vivem nas ruas.
Mesmo que o Produto Interno Bruto possa crescer, a arrecadação aumentar, bolsas de valores podem atingir recordes e governos podem anunciar sucessivos programas sociais. Independentemente das discussões metodológicas sobre os levantamentos, há um fato que dispensa qualquer planilha estatística. Basta caminhar pelas cidades brasileiras. Praças antes ocupadas por crianças brincando transformaram-se em acampamentos improvisados. Viadutos converteram-se em dormitórios permanentes. Canteiros centrais passaram a servir de residência. Áreas verdes, parques urbanos e terrenos públicos foram ocupados por barracas, colchões e lonas plásticas. A pobreza deixou de ser um dado estatístico. Passou a fazer parte da paisagem urbana. As grandes capitais concentram a maior parte dessa população, mas o fenômeno já alcança cidades médias e até pequenos municípios. O que antes parecia restrito aos grandes centros tornou-se uma realidade nacional.
É verdade que períodos prolongados de baixo crescimento econômico costumam ampliar a vulnerabilidade social. Economias que geram poucos empregos formais oferecem menos oportunidades para famílias que já vivem em situação de fragilidade. O debate público, entretanto, frequentemente transforma uma questão humana em disputa política.
A realidade possui uma característica inconveniente. Ela não desaparece porque alguém decide ignorá-la. Esse crescimento de desamparados também impõe novos desafios às cidades. Serviços de saúde enfrentam maior demanda. Redes de assistência social tornam-se insuficientes. A segurança pública convive com situações cada vez mais complexas. Comerciantes, moradores e usuários dos espaços urbanos passam a disputar áreas que deveriam cumprir funções coletivas. A consequência é uma deterioração gradual da convivência urbana. Ao mesmo tempo, cresce o risco de naturalização do problema. Uma sociedade acostuma-se lentamente com aquilo que deveria considerá-lo intolerável. Esse talvez seja o aspecto mais preocupante. A pobreza extrema deixa de ser percebida como emergência e transforma-se em cenário permanente.
Nosso país ocupa posição relevante entre as maiores economias do planeta. Possui uma das maiores produções agrícolas do mundo, amplo parque industrial, sistema financeiro sofisticado e enorme capacidade produtiva. Ainda assim, convive com um contingente expressivo de cidadãos privados das condições mais elementares de existência. Essa contradição merece reflexão. O Índice de Desenvolvimento Humano não mede apenas renda. Considera também educação e expectativa de vida. Mais do que isso, procura avaliar o interesse de um governo em oferecer oportunidades concretas para que seus cidadãos desenvolvam plenamente suas potencialidades. Não basta produzir riqueza. É necessário criar condições para que essa riqueza se traduza em melhoria efetiva da qualidade de vida. O desafio não será resolvido por um único programa governamental nem por soluções simplistas. Exige que parte da sociedade exija crescimento econômico sustentado, políticas públicas eficientes, atenção à saúde mental, combate às dependências químicas, qualificação profissional, ampliação da oferta habitacional e melhor coordenação entre União, estados e municípios.
Mais do que um problema estatístico, a população em situação de rua tornou-se um dos retratos mais visíveis das dificuldades de gestão do governo brasileiro. O verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas pela expansão da economia ou pelo volume de investimentos anunciados. Mede-se também pela capacidade de reduzir a vulnerabilidade humana e de assegurar que a dignidade deixe de ser privilégio de alguns para tornar-se uma condição acessível ao conjunto da população. Enquanto centenas de milhares de brasileiros continuarem vivendo sem moradia estável, sem escolas que preparem para o futuro, sem acesso regular a políticas de emprego que valorizem a própria força e sem perspectivas concretas de reintegração social, permanecerá aberta uma distância significativa entre o discurso e a prática.
A frase que foi pronunciada:
“Há o suficiente no mundo para as necessidades de todos, mas não o suficiente para a ganância de todos.”
Frank Buchman
História de Brasília
O padre José Bertoldo é o unico do mundo que tem 64 igrejas. É que êle é pároco da Asa Norte e celebra nos pilotis dos 64 blocos residenciais daquela Asa. (Publicada em 24.05.1962)
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