VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960
hoje
Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade
Com a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, encerrava-se um dos capítulos mais dramáticos da história contemporânea. Não foi apenas o colapso de um muro de concreto. Foi o desmoronamento de uma visão de mundo que durante décadas prometera igualdade, prosperidade e justiça social, mas que entregou escassez, repressão política, economia estagnada e milhões de vidas destruídas. Finalmente a Europa Oriental despertava de um longo pesadelo. Quem percorreu aqueles países nos primeiros anos após o desaparecimento da Cortina de Ferro encontrou um cenário difícil de esquecer. Ruas deterioradas, fábricas obsoletas, edifícios cinzentos, infraestrutura envelhecida e uma população que, embora finalmente livre para escolher seus governantes, ainda carregava no rosto as marcas de quase meio século de planejamento centralizado. Era como visitar uma parte da Europa que havia permanecido congelada no tempo, atrasada e arruinada. Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental e os países bálticos iniciavam praticamente do zero uma reconstrução econômica, institucional e cultural. O desafio era gigantesco. Não bastava substituir bandeiras, derrubar estátuas de Lenin ou realizar eleições livres. Era necessário reconstruir hábitos, mentalidades e instituições moldadas durante gerações por um regime em que o Estado decidia praticamente tudo. Economias planejadas não produzem empresários. Produzem sim, administradores de escassez.
Décadas de ausência de concorrência haviam eliminado a cultura da eficiência. A qualidade dos produtos importava pouco quando não existia competição. O consumidor não escolhia. Aceitava aquilo que havia nas prateleiras. Quando o capitalismo finalmente chegou, muitos imaginaram que sua essência consistia simplesmente em cobrar o maior preço possível. Em diversas cidades da antiga Europa comunista, turistas estrangeiros eram frequentemente vistos como oportunidade única para compensar anos de privação econômica. Hotéis, táxis, restaurantes e pequenos comércios praticavam preços muitas vezes incompatíveis com a qualidade oferecida. Não era exatamente capitalismo. Era sobrevivência. O mercado livre exige algo muito mais complexo do que liberdade de preços. Exige segurança jurídica, concorrência, investimento, inovação, produtividade, confiança institucional e respeito aos contratos.
Apesar das enormes dificuldades, muitos desses países conseguiram avançar. Polônia, República Tcheca, Estônia e outros integrantes do antigo bloco soviético transformaram-se em economias competitivas, atraíram investimentos, ampliaram exportações e elevaram significativamente sua renda per capita. A memória do comunismo permaneceu viva. Talvez exatamente por isso, grande parte dessas sociedades desenvolveu profunda desconfiança em relação a qualquer projeto político que implique excessiva concentração de poder nas estruturas estatais ou supranacionais. É nesse ponto que emerge um novo debate. Para alguns analistas, a integração europeia representa um extraordinário projeto de paz, cooperação econômica e fortalecimento institucional após séculos de guerras. Para outros, determinadas tendências recentes da União Europeia caminham para uma crescente centralização política e regulatória, reduzindo a autonomia dos Estados nacionais e enfraquecendo tradições culturais locais. Essa segunda interpretação costuma utilizar o termo “globalismo” para descrever esse processo. Seus críticos sustentam que, sob o argumento da harmonização internacional, amplia-se progressivamente o poder de burocracias supranacionais sobre políticas migratórias, ambientais, econômicas e culturais que antes pertenciam aos parlamentos nacionais. Seus defensores respondem que muitos dos grandes desafios contemporâneos como mudanças climáticas, comércio internacional, terrorismo, migração e segurança energética exigem justamente maior cooperação entre países.
A história europeia do século XX demonstra como sociedades altamente civilizadas podem, em poucos anos, entregar parcela significativa de sua autonomia em troca de promessas grandiosas de segurança, igualdade ou prosperidade. Nenhum regime autoritário começa anunciando que restringirá liberdades. Todos prometem resolver problemas. A Europa Oriental conheceu essa experiência de forma particularmente dolorosa. Milhões viveram sob censura, polícia política, economia dirigida e ausência de eleições livres. A reconstrução iniciada em 1989 demonstrou que recuperar instituições é muito mais difícil do que as destruir. Essa talvez seja a principal herança daquele período.
A história raramente se repete da mesma forma. Mas frequentemente apresenta dilemas semelhantes sob novas roupagens. A experiência do século XX permanece como um convite permanente à prudência diante de projetos políticos que concentrem poder, reduzam espaços de dissenso ou proponham soluções simples para problemas complexos. É justamente por isso que a queda do Muro de Berlim continua sendo um dos acontecimentos mais importantes da história contemporânea. Não apenas porque encerrou uma ordem geopolítica, mas porque lembrou ao mundo que liberdade, prosperidade e democracia dependem menos de promessas ideológicas do que da solidez das instituições e da capacidade das sociedades de preservar, geração após geração, o espaço da crítica, da pluralidade e da responsabilidade política.
A frase que foi pronunciada: “A solução do problema alemão dependerá de decisões em nível político internacional. Mas há muito a ser feito dentro da Alemanha em prol da Europa, da democracia e da paz. Existem forças positivas dentro do povo alemão que poderão deixar sua marca nos acontecimentos futuros.”
Willy Brandt, em novembro de 1957
História de Brasília
De tôdas as árvores plantadas na W-3, as mais bonitas são as magnólias, em frente às casas da ECEL, que começarão a florir dentro em pouco.(Publicada em 26.05.1962)