VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960
hoje
Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade
jornalistacircecunha@gmail.com
Ser filósofo, hoje, é um ato de resistência. Num mundo polarizado, ruidoso e saturado de opiniões instantâneas, o exercício do pensamento filosófico tornou-se uma atividade quase subversiva. A reflexão, que exige silêncio, tempo e profundidade, parece incompatível com a velocidade dos dias modernos e com a superficialidade que domina o debate público. O filósofo contemporâneo, portanto, encontra-se numa encruzilhada: se cede à pressão ideológica, perde sua autonomia; se se isola completamente, corre o risco de ser ignorado. A filosofia, desde suas origens, sempre foi uma arte de desconfiar de duvidar das verdades prontas e de questionar o que parece evidente. O verdadeiro filósofo não busca aplauso nem pertencimento: busca a verdade, mesmo que ela doa, mesmo que ela o condene ao silêncio ou ao exílio moral. O Brasil, em sua breve tradição filosófica, conheceu pensadores que enfrentaram esse desafio. Benedito Nunes, por exemplo, soube pensar a partir da Amazônia, elaborando uma filosofia enraizada na realidade brasileira, mas aberta ao diálogo universal. Gerd Bornheim, com sua crítica à alienação estética e política, mostrou como o pensamento pode ser ferramenta de libertação. Vilém Flusser, em seu exílio, antecipou as transformações tecnológicas e o poder das imagens na formação da consciência contemporânea um pensador à frente de seu tempo, que jamais se deixou capturar por dogmas. Há também o exemplo de Marilena Chauí, que, embora marcada por sua proximidade com a vida política, sempre defendeu a autonomia da filosofia como espaço de crítica e não de propaganda. Rubem Alves, filósofo-poeta, mostrou que pensar é também um ato de amor e coragem: pensar é desobedecer suavemente, é abrir janelas num mundo de muros.
Esses nomes, tão distintos, têm algo em comum: não se deixaram prender pela moda intelectual ou pela conveniência política. Em tempos em que a filosofia é tratada como ornamento acadêmico ou mero discurso moral, lembrar-se da coragem desses pensadores é um gesto de lucidez. O verdadeiro filósofo, como um eremita do pensamento, vive no limite entre o isolamento e o engajamento, entre o silêncio e a palavra. Ele fala ao mundo sem ser do mundo. A filosofia continua sendo indispensável. É ela que ensina o homem a compreender a si mesmo, a reconhecer seus limites e a transformar a realidade sem ser tragado por ela. Em meio ao barulho das redes, à fragmentação das verdades e ao domínio das emoções sobre a razão, o pensamento filosófico é o último reduto da liberdade interior. Que o filósofo, mesmo solitário, continue a ser o guardião da lucidez humana esse bem raro e essencial, sem o qual a civilização se torna apenas um reflexo de suas próprias sombras.
A relação entre filosofia e política é antiga, profunda e, ao mesmo tempo, marcada por tensões inevitáveis. Se a filosofia é o espaço do pensamento e da reflexão, a política é o espaço da ação e uma não sobrevive sem a outra. A filosofia, ao longo da história, ofereceu à política os fundamentos éticos e racionais para o exercício do poder. Foi ela que ensinou que governar não é apenas administrar, mas buscar o bem comum. Platão imaginou o governante ideal como o “rei-filósofo”, aquele capaz de enxergar além das aparências e conduzir o povo pela luz da razão. Aristóteles, por sua vez, mostrou que a política é uma extensão da ética: o homem é um ser político porque só se realiza plenamente na vida coletiva. Mas se a filosofia oferece à política o senso de justiça, a política devolve à filosofia a experiência concreta do real. É no confronto com as desigualdades, com as paixões humanas e com os conflitos de poder que o pensamento filosófico é testado.
Sem o contato com a vida pública, a filosofia corre o risco de se tornar estéril, confinada à torre de marfim das universidades. Essa troca é vital: a política precisa da filosofia para não se transformar em puro pragmatismo, e a filosofia precisa da política para não se perder em abstrações. No Brasil, pensadores como Miguel Reale procuraram unir esses dois campos, desenvolvendo uma filosofia do direito e da sociedade fundada na ideia de pessoa e de valor. Paulo Arantes e Marilena Chauí, cada um à sua maneira, refletem sobre como o pensamento crítico pode revelar as contradições da vida política e social. E, antes deles, Alceu Amoroso Lima já advertia que toda política sem base filosófica tende ao despotismo ou à demagogia. Em última instância, a filosofia dá à política a bússola moral; a política dá à filosofia o chão da realidade. Ambas se educam mutuamente, e é nesse diálogo tenso, mas fecundo que a humanidade encontra o caminho da sabedoria e da liberdade.
A frase que foi pronunciada:
“A liberdade é o único objetivo que vale a pena na vida. Ela é conquistada ao ignorarmos as coisas que estão além do nosso controle.”
― Epicteto
História de Brasília
Jogar futebol na Itália, na França, no Congo ou na China, não acarreta a perda da nacionalidade. Mas se um brasileiro, voluntàriamente, sem nenhuma coação de país estrangeiro, pratica um ato, qualquer que seja, demonstrando a sua preferência por outra nacionalidade, está dando causa expressa para que seja declarada a perda da sua nacionalidade brasileira. (Publicada em 25.05.1962)
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