A eleição de 2026 e a fotografia de um Brasil dividido
Em 25 de outubro, o Brasil cumpriu mais uma vez o rito que o define como democracia: foi às urnas, contou os votos e proclamou um vencedor. Às 21h08, o Tribunal Superior Eleitoral anunciou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro, ou 48,21%. Diferença de pouco mais de 4,4 milhões de votos não representa uma goleada, mas estabelece um resultado que, num sistema eleitoral que se pretende confiável, deve ser respeitado enquanto não houver decisão judicial que o modifique.
VISTO, LIDO E OUVIDO
Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Houve uma virada, e ela merece registro. Flávio terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% contra 45,16% de Lula. Historicamente, quem chega ao segundo turno na liderança tende a confirmar a vantagem. Desta vez, a regra não se confirmou. Pesquisas realizadas na reta final apontavam empate técnico e, em algumas delas, ligeira vantagem numérica do senador. O eleitor, mais uma vez, contrariou as previsões e mostrou que a dinâmica das urnas nem sempre acompanha os prognósticos. O resultado também revela uma realidade mais profunda: parcela expressiva da população demonstra desconfiança nos números oficiais e nas instituições do Estado, circunstância que não pode ser ignorada na interpretação do cenário político.
Rachadinho
País chega ao desfecho eleitoral dividido quase ao meio, e é preciso reconhecer essa realidade sem eufemismos. Resultado de 51,79% a 48,21% é a fotografia de duas metades que votaram com convicção e que, em boa medida, não se reconhecem uma na outra. Nessas condições, o vencedor tem o dever de não confundir maioria com unanimidade, assim como o derrotado não deve confundir derrota com fraude. A democracia exige as duas atitudes, embora raramente consiga obtê-las sem tensão.
Contestação eleitoral e os desafios da Justiça Eleitoral
O que perturba não é propriamente a virada nas urnas, mas o que veio e ainda poderá vir depois dela. Candidato derrotado anunciou que não reconhece o resultado e mencionou a possibilidade de pedir a anulação do pleito. No dia seguinte, sinalizou que buscará a cassação da chapa vencedora, iniciativa que deverá ser examinada dentro da atual composição da Justiça Eleitoral.
Olhar
Seria precipitado, entretanto, tratar toda contestação como simples inconformismo ou birra da oposição. Adversários políticos têm o direito e, diante de dúvidas fundamentadas, o dever de encaminhar questionamentos às instâncias competentes, no Brasil ou em organismos internacionais. O que a oposição afirma reunir são possíveis evidências de que aspectos da apuração mereceriam esclarecimento. A discussão entre matemática, procedimentos eleitorais e convicções ideológicas não pode ser resolvida apenas pelo discurso de qualquer dos lados.
Super poder
Prorrogação do horário de votação, determinada pelo ministro Cristiano Zanin, tornou-se um dos pontos questionados, embora a própria campanha de Flávio Bolsonaro tivesse solicitado mais tempo para cidades atingidas por fortes chuvas. Dúvidas legítimas precisam ser demonstradas por fatos e submetidas ao juiz natural. Até o momento, nenhuma prova pública de fraude foi apresentada, e o resultado permanece oficialmente proclamado. A questão, portanto, está em saber se os questionamentos produzirão elementos concretos capazes de modificar a controvérsia ou se permanecerão no terreno das narrativas políticas.
Trump, Milei e o reconhecimento internacional da eleição brasileira
No exterior, a reação à reeleição de Lula apresenta sinais distintos. Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a eleição brasileira “pareceu fraudada”, sem apresentar elementos conclusivos que sustentassem a declaração, além de mencionar a prorrogação do horário de votação. Casa Branca adiou a manifestação oficial de reconhecimento, enquanto, em Buenos Aires, o governo de Javier Milei informou ter tomado conhecimento do resultado, sem oferecer, por enquanto, o gesto diplomático esperado.
Não é validação
Antigamente, colunistas sociais resumiriam as divergências entre os personagens com uma recomendação: não convidem Lula e Milei para a mesma mesa. A relação entre os dois governos, marcada por diferenças ideológicas e políticas, ajuda a compreender a frieza argentina diante da vitória do presidente brasileiro. Convém, porém, dar às coisas o tamanho que têm. Reconhecimento por parte de um governo estrangeiro constitui gesto diplomático, não requisito de validade jurídica. Eleição brasileira vale pelo resultado proclamado pela Justiça Eleitoral do próprio país.
Mão estendida
Boa parte da comunidade internacional, aliás, seguiu esse entendimento. Xi Jinping e Vladimir Putin cumprimentaram prontamente o presidente reeleito. Até o PRO, partido de Mauricio Macri e integrante da base política de Milei, felicitou Lula. A Argentina, por sua vez, aceitou formalmente o resultado sem celebrá-lo nos moldes diplomáticos habituais, mantendo uma postura de espera que revela a distância política entre os governos.
Ainda tentando entender
Trump, envolvido também nas eleições de meio de mandato de seu país, parece dedicar atenção limitada ao impasse institucional brasileiro. Ainda assim, o questionamento público do processo eleitoral por parte do presidente americano, somado às dúvidas sobre os mecanismos de apuração, recontagem e emissão de comprovantes pelas urnas eletrônicas, mantém aberta uma frente de incerteza que ultrapassa o campo das declarações protocolares.
Os custos diplomáticos e econômicos do silêncio internacional
Silêncio diplomático não é necessariamente um gesto neutro. Pode produzir consequências políticas, comerciais e financeiras. Pelo menos quatro custos merecem atenção.
Primeiro, o custo da legitimidade interna. Dúvidas vocalizadas por um aliado internacional de grande influência podem alimentar, entre setores do eleitorado, a narrativa de que o resultado não seria legítimo. Portanto, governar sob suspeita permanente representa um desgaste adicional para qualquer administração, sobretudo num país cuja sociedade já se encontra profundamente dividida.
Segundo, o custo bilateral. Relação com Washington já estava marcada por uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros e pela classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Ausência de reconhecimento formal pode acrescentar mais um instrumento de pressão política e comercial, ampliando as dificuldades de negociação entre os dois governos.
Terceiro, o custo regional. Brasil foi, em 2025, o maior comprador das exportações argentinas, com US$ 12,8 bilhões. Essa dependência comercial torna a frieza diplomática de Buenos Aires uma situação potencialmente mais onerosa para a própria Argentina do que para Brasília. O distanciamento político não elimina a necessidade de cooperação econômica entre os dois países.
Quarto, o custo financeiro. Dólar avançou 11% na segunda-feira seguinte à apuração, movimento que reflete sobretudo as expectativas do mercado diante do resultado eleitoral, mas que a incerteza diplomática não contribui para acalmar. A instabilidade das relações internacionais, quando somada às dúvidas internas, pode ampliar a percepção de risco.
A verdade é que o Brasil corre o risco de se isolar dentro do próprio continente. Relações entre governos não dependem exclusivamente de afinidades ideológicas, mas também de interesses comerciais, estratégicos e institucionais. Quando a divergência política passa a contaminar essas relações, o custo deixa de ser apenas retórico e pode alcançar a economia e a posição internacional do país.
O que esperar de Trump, da oposição e da Justiça Eleitoral
Próximas semanas serão importantes para esclarecer a extensão dessa crise. Três movimentos merecem acompanhamento. Primeiro, a decisão da Casa Branca sobre a nota de reconhecimento adiada. Um gesto tardio de aceitação poderia reduzir parte do ruído diplomático. Uma recusa formal, por outro lado, alteraria significativamente o ambiente político e as relações entre Brasília e Washington.
Segundo, a atuação da Justiça Eleitoral diante dos pedidos e questionamentos apresentados pela campanha derrotada. É nas instâncias judiciais, e não nas declarações à imprensa, que as controvérsias precisam encontrar resposta. Terceiro, será necessário observar se o discurso de fraude, até aqui predominantemente verbal, se transforma em medidas concretas, como sanções, restrições a autoridades brasileiras ou iniciativas de aliados internacionais em favor de investigados.
Enquanto não houver consequências efetivas, o Planalto poderá tratar o silêncio internacional como circunstância passageira e adotar uma postura de aparente tranquilidade. Lula, ao que tudo indica, aposta também no enfraquecimento político de Trump depois das eleições de meio de mandato americanas. Essa expectativa, contudo, não elimina a possibilidade de novas mudanças na relação entre os dois países.
O tempo como fator de mudança nas relações políticas
Resta uma questão que atravessa toda essa disputa: tempo pode ser senhor da razão, mas também é um embaralhador de cartas. Num cenário internacional incerto, aquilo que hoje parece consolidado pode ser redistribuído amanhã. Alianças, tarifas comerciais, humores políticos e lideranças estão sujeitos a mudanças que nem sempre obedecem à lógica das expectativas imediatas.
Histórico recente das relações entre Trump e Lula demonstra essa volatilidade. Em maio, o presidente americano recebeu Lula na Casa Branca. Três semanas depois, recebeu Flávio e Eduardo Bolsonaro. Relação que parecia encaminhada voltou a enfrentar dificuldades em agosto. Se a diplomacia pode oscilar tanto em poucos meses, seria imprudente apostar o destino de uma eleição na permanência de um gesto de silêncio ou de reconhecimento.
O tempo dissolve gestos, mas não apaga fatos. Votos foram contados, atas assinadas e resultado proclamado. Esses registros permanecem válidos enquanto nenhuma prova consistente ou decisão judicial os modificar. É nesse ponto que a aritmética volta ao centro da discussão.
A cada dia, segundo as alegações que circulam entre setores da oposição, novas possíveis evidências de irregularidades são apontadas. Existe a hipótese, ainda sujeita à demonstração, de que procedimentos ou circunstâncias da apuração possam ter seguido um caminho contrário à lógica esperada. Diferença superior a quatro milhões de votos, apurada e totalizada pela Justiça Eleitoral sob fiscalização dos partidos, não se desfaz por conjecturas. Para alterar esse quadro, seriam necessários elementos concretos, capazes de resistir ao exame das instâncias competentes.
Dúvida não pode ser proibida por conveniência política, assim como não pode ser transformada em certeza apenas pela repetição. A investigação de eventuais inconsistências, quando fundamentada, deve lançar luz sobre áreas ainda pouco esclarecidas do processo. Nesse sentido, a chamada Área 51 da política brasileira, metáfora para os segredos, tabus e informações que alimentam suspeitas, continua sendo um território de narrativas que precisa ser confrontado com documentos e provas, não com suposições.
Brasil não precisa de aval estrangeiro para saber quem foi proclamado vencedor pela Justiça Eleitoral. Precisa, entretanto, preservar o respeito da comunidade internacional, fortalecer a confiança dos cidadãos nas instituições e demonstrar que suas regras são transparentes e verificáveis. Democracia não se sustenta apenas pela contagem dos votos, mas também pela credibilidade dos procedimentos que conduzem a essa contagem.
No fim, o tempo poderá esclarecer as dúvidas, reorganizar as alianças e revelar o verdadeiro peso das reações internacionais. Até lá, a política brasileira continuará dividida entre a certeza proclamada pelas urnas, os questionamentos da oposição e a expectativa de que os fatos, e não apenas as conveniências, tenham a última palavra.

