Tesouro Natterer

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Severino Francisco

O Museu do Mundo da Áustria abriga a maior coleção de artefatos indígenas brasileiros. Em depoimento para o documentário Tesouro Natterer, do brasiliense Renato Barbieri, a antropóloga cultural austríaca Claudia Augustat, afirma que a coleção de objetos arqueológicos da instituição abre um portal para o passado. No entanto, na verdade, o belo filme de Barbieri abre um portal para o passado, para o presente e para o futuro.

Tesouro Natterer ganhou o prêmio principal do Festival Internacional É Tudo Verdade, o Prêmio da Câmara Legislativa do DF e foi o primeiro documentário brasileiro a ser qualificado para o Oscar, embora não tenha à fase seguinte para indicação. Barbieri transforma o museu estático em museu vivo ao convocar os personagens envolvidos na história daquelas peças arqueológicas.

O professor indígena Hans Kaba Munduruku viaja até a Áustria para conhecer o museu e reconhece as marcas da ancestralidade naqueles artefatos: “Eu sou indígena, sou sangue do Brasil. Se fosse no Brasil, esse acervo não existiria mais. ” Corte para a imagem do incêndio no Museu Nacional: “Meu avô tocou esse instrumento. Esse acervo deveria voltar para o Brasil, mas não para os museus, mas para as nossas tribos, para a gente ver e voltar a fazer novamente essas peças”.

Johann Naterrer veio ao Brasil em 1817 chefiando uma expedição científica, que tinha entre os colaboradores o desenhista Thomas Ender. A ideia inicial era a de que ficasse três anos, mas ele permaneceu 18 anos, quando a maioria dos outros cientistas viajantes só ficou de 1 a 3 anos. Ele é uma espécie de Indiana Jones austríaco.

Naquele tempo, viajar ao Brasil e pelo Brasil era uma saga permeada de perigos. Com recursos de animação, Barbieri reconstitui a travessia pelo mar em meio a uma tempestade. Já as expedições internas dependiam, segundo vários relatos dos cientistas, do humor da mulas, que, algumas vezes, se revoltavam contra o peso da carga e empacavam ou jogavam tudo fora. As coleções eram acondicionadas em caixotes calafetados com piche e demoravam um ano para chegar à Áustria.

Zoólogo de formação, para Naterrer, as matas tinha mais importância do que as cidades. Ele caçou e empalhou 12 mil exemplares de pássaros, uma de suas paixões. Recolheu 1.309 peças de 68 etnias indígenas trocadas por outros objetos. O olhar de Natterer fica registrado pela presença do seu biógrafo Kurt Schmutzer, que refez o roteiro do cientista no Brasil, do Rio de Janeiro até Belém do Pará. A um só tempo, Kurt representa e marca uma distância crítica com o biografado. Natterer chegou com toda a soberba eurocêntrica da ciência, mas foi se abrasileirando e, por fim, casou-se com uma indígena, com quem teve três filhos.

O Tesouro de Naterrer é uma aula de história e de fazer história com o cinema. O filme levanta a possibilidade de repatriamento das peças do acervo reunido por Natterer. O documentário de Barbieri confronta a beleza da arte indígena com o envenenamento dos rios, as invasões e a degradação dos territórios dos mundurukus. Para os indígenas, sem matas não há arte, não há alimento e não há vida. Ao longo do filme, a trama nos lança no centro mais vivo e dramático da história brasileira. De repente, descobrimos que esse documentário é sobre o nosso futuro. É a vida de todos nós brasileiros que está em jogo na ameaça de destruição dos territórios indígenas.

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