Severino Francisco
Desde o fim da noite de terça-feira, fiquei muito triste com a notícia da morte de Néio Lúcio, meu vizinho de condomínio. Era sempre prazer em encontrá-lo nas ruas do condomínio, na bela casa rústica de madeira para longas conversas, no supermercado ou em algum evento cultural da cidade, montando no indefectível patinete elétrico.
Ele era uma pessoa da mais alta qualidade humana e um legítimo filhote da Brasília utópica dos tempos inaugurais, de onde assimilou o amor à arte, a consciência comunitária, a generosidade e a solidariedade ativa. Esses valores se materializaram no projeto Cabeças, que ensinou Brasília a fazer uma ocupação lúdica da cidade.
Na década de 1980, ele colocou nos gramados das superquadras o projeto que implodiria com vários mitos estigmatizadores de Brasília: cidade fria, cidade-fantasma, cidade de moradores alienados ou de projeto urbanístico que impedia e interação dos moradores com a superquadra. O Cabeças promoveu shows musicais que mobilizaram a juventude para assistir espetáculos ao ar livre, sentada nos amplos gramados.
Quem era sub-18 estava lá. Foi fundamental para a afirmação da cultura brasiliense. No Cabeças, surgiram Renato Mattos, Cássia Eller, Zélia Duncan, Nicolas Behr e Wagner Hermusche, entre outros. O Cabeças revelou artistas e formou público.
Lucio Costa, o autor do plano urbanístico da nova capital ficou encantado, pois o projeto comprovava as ideias comunitárias que acalentou no Plano Piloto de Brasília. Escreveu em letra desenhada: “Enquanto os maiorais, confinados nas suas monumentais redomas, brincam de administração e política, – ao ar livre das quadras das áreas de vizinhança estes bons samaritanos ensinam os usuários a vivê-la”.
Há mais de 15 anos, Neio sofreu um infarto. Imediatamente, pegou o carro e saiu voado até a casa de um grande amigo nosso no mesmo condomínio onde moramos, Everett Lee, americano que foi personagem desta coluna por diversas vezes. Lee se caracterizava por desfiar os mais cabeludos vocábulos da língua portuguesa com um sotaque inconfundível de americano.
Ao ver o amigo reclamando de dor aguda no peito, Lee fulminou desesperado: “PQP, meu amigo! Você não pode morrer, tome uma Coca-Coca!”. Neio destravou toda a tensão e soltou uma gargalhada salvadora. Com o riso, relaxou e pôde chegar até o hospital a tempo de receber cuidados médicos.
Salvou-se, mas sobreviveu com restrições de saúde. Teve dificuldade de respiração e mobilidade que o atormentaram durante muito tempo. No entanto, eis que um dia Neio descobriu, por acaso, o patinete elétrico e passou a usá-lo para mover-se por todos os lugares da cidade. A iniciativa representou um verdadeiro renascimento pessoal.
Ele sobreviveu, bravamente, a seis infartos, mas, na terça-feira, não resistiu. Néio ensinou a viver e a amar Brasília. A experiência do Cabeças inspirou o Panelão da Arte na 312 Norte, o Cine Clube Gavião no Cruzeiro e a transformação do Eixão da Morte no Eixão do Lazer nos fins de semana e nos feriados. O legado dele é de amor à arte e de humanização da cidade. A indagação que me intriga é se a Brasília distópica será capaz de gerar pessoas com a qualidade humana e a consciência comunitária de Néio Lúcio.

