Mestres da alegria

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Severino Francisco

 

 

Em meio à confusão do ataque boçal de racismo contra o nosso craque Vini Jr., legítimo representante do futebol-arte brasileiro, durante a partida entre Real Madrid e Benfica, as crianças africanas de Uganda do grupo Ghetto Kids nos brindaram com um presente dos deuses: uma dança sensacional em homenagem a Vinicius Jr. Todos eles trajavam a camisa de Vini e reproduziram a dança próximo a uma bandeira de escanteio, como o atacante costuma fazer.

Não precisava, pois a dança dizia tudo, mas eles fizeram questão de inserir uma legenda com a declaração em inglês: “Nós te amamos Vini Jr.” O craque do Real Madrid recebeu manifestações de solidariedade de vários pontos do mundo, mas essa, certamente, foi a mais tocante. O vídeo rodou pelas redes sociais até chegar a Vini, que compartilhou a dança. Foi um momento de alegria, leveza e afeto.

Vini vem travando uma luta titânica contra o racismo e, embora bata em um muro poderoso, conseguiu provocar um debate internacional sobre o tema. Com certeza, ele contribuiu no sentido de que fossem criadas medidas como a do protocolo da UEFA para a interrupção das partidas quando houver alguma manifestação racista.

O fato de não ser regulado pelas leis faz das redes sociais uma selva selvagem. Mas ela viraliza também eventos bacanas. E esse é o caso da dança do Vini recriada pelos meninos de Uganda. Impactado pelo vídeo, eu repassei para uma amiga de Salvador, a diretora Maria Eugênia, que fez o melhor teatro para adolescentes do país na ONG Cria. Só para se ter ideia, uma das admiradoras do trabalho dela é Fernanda Montenegro.

Pois bem, Maria Eugênia ficou muito comovida. E lembrou das meninas e dos meninos do Brasil que também acreditam nos deuses que sabem dançar. Ela me enviou vários vídeos gravados durante o carnaval. Miguelzinho faz diabruras com o tamborim na mão, é impressionante a infinidade de ritmos que ele arranca do instrumento, pedindo a dança.

O garotinho Matheus Lucas dança com uma elegância impecável, em movimentos ritmados, como se deslizasse em cima de um patins no gelo de Cortina, na Itália, onde foi realizada a Olimpíada de Inverno.

Os meninos e as meninas de Uganda e do Brasil, geograficamente tão distantes, estão conectados pela pulsação da herança  cultural africana, musical, rítmica, dançante. E foi somente por isso que eles resistiram e resistem até hoje à dominação econômica e ao racismo. Com sua dança, Vini revive a alegria de jogar futebol e de bailar, presente no carnaval.

Peço licença para reproduzir a mensagem de Maria Eugênia ao ver o vídeo da dança dos meninos de Uganda em homenagem a Vini Jr.“Que beleza!!! Chorei de emoção. Esses meninos (e todos os nossos das ditas periferias) são mestres da alegria. Alegria de todos os deuses e deusas, de toda a vida que pulsa. O carnaval para mim é isso. Momento de ligação com os deuses e deusas da alegria. Essas deusas e deuses zelam por nós. Vieram da África, com certeza. E estão aqui”.

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