Severino Francisco
Como dizem alguns colegas: o que as urnas disseram nesta recém-finda eleição para presidente do Brasil? As urnas apontaram que a maioria do povo brasileiro prefere a educação, a compaixão, a soberania, a civilidade, os direitos humanos, os direitos sociais, o respeito aos idosos, a humanidade, o livro em vez do fuzil. E não foram somente palavras; na própria campanha esses valores se transformaram em ações.
Vejamos o que ocorreu com Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara Gomes, a menina morta aos 5 anos, durante uma operação policial no Rio de Janeiro, que se transformou em uma das personagens mais importantes dessa eleição para presidente da República, vencida por Lula. O projeto Revelando fez uma campanha de arrecadação de dinheiro para ajudar a mãe de Ana Clara a comprar uma casa e, em cinco dias, com a participação de cerca de 15 mil doadores, conseguiu amealhar R$ 1,5 milhão.
Atualmente, Cristiane enfrentava uma situação dramática: vivia em uma casa cedida por terceiros. A doação lhe permitirá comprar uma casa, fazer uma poupança para a criação do filho Pedro e pagar tratamento psicológico para a família. Alcançada a meta, os organizadores encerraram a vaquinha.
Os fatos subsequentes à eleição comprovam que um dos candidatos representava o anti-Brasil. Fugiu rumo aos Estados Unidos para escapar de investigações criminais e, estando lá, publicou uma carta de teor golpista. Enquanto isso, alguns apoiadores desfecharam uma campanha de retaliações ilegais contra os que votaram contra tudo que ele representa.
Seria simples o candidato Flávio Bolsonaro, que se arvora em líder, fazer uma manifestação pública de desautorização e de repúdio a essas ações. Mas ele foi o primeiro a dar o mau exemplo de prometer que aceitaria o resultado em cadeia nacional e, logo em seguida, renegar as próprias palavras.
Quando parecia que tudo havia terminado no primeiro turno, o povo brasileiro acordou no segundo turno. Essa mobilização honrou a memória de Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Tarsila do Amaral, Josué de Castro, Paulo Emílio Sales Gomes, Nelson Pereira dos Santos, Chico Science, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Gilberto Freyre, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Oswald de Andrade, Glauber Rocha, pensadores e artistas que conceberam o Terceiro Mundo como uma mitologia afirmadora. Sem escamotear em nenhum momento as mazelas sociais.
Pelo contrário, o Cinema Novo se destacou no mundo com a estética da fome, que assumia, corajosamente, o Brasil com suas aberrações sociais e com suas possibilidades de grandeza. Esses artistas e intelectuais sempre vislumbraram o que o Brasil poderia ser. Não eram utopias ufanistas. A própria criação de Brasília é um desses símbolos da utopia materializada em forma de cidade, embora ela tenha se tornado um território distópico.
E a criação da Universidade de Brasília por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira também é um movimento nesta direção, pois não tinha como finalidade apenas formar profissionais competentes, mas, também, ser um instrumento para a superação do subdesenvolvimento.
E essa virada histórica do primeiro para o segundo turno reconciliou o Brasil consigo mesmo. Esquerda, centro e direita se uniram contra a extrema-direita. Tenho a impressão de que não se tratou de uma paixão ideológica. Foi uma reação afetiva que se transformou em loucura coletiva democrática lúcida pelo direito de sonhar com um Brasil menos desigual, mais justo, mais educado, mais civilizado e mais solidário. O levante irrompeu pelo direito de sonhar com um Brasil melhor.
Sem premeditar, só para defender os seus direitos e se contrapor ao fascismo tupinambá, o povo brasileiro deu uma lição de organização, de inventividade, de civismo e bravura ao mundo. Como bem disse Lucio Costa, o criador do plano urbanístico de Brasília.“Apesar dos contrastes e das circunstâncias, o país, graças à força viva que o impele está fadado a um grande destino porque não tem vocação para a mediocridade. O Brasil não será jamais medíocre”.

