00002-29231634 Robson Maia, o Sansão de Amor Perfeito | Crédito: Sergio Santoian

“Sou um homem em desconstrução”, afirma Robson Maia, de Amor perfeito

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Robson Maia comemora personagem romântico na novela das seis, após dar vida a homens tóxicos nas séries Sob pressão e Rio Heroes

 

Patrick Selvatti

 

Quem assiste Amor perfeito, na Globo, e acompanha a trama de Ione (Carol Badra) — que sai de uma relação abusiva ao encontrar o amor nos braços de outro homem com pinta de galã —, tem aquela sensação de “eu te conheço de algum lugar” ao observar o intérprete do novo personagem. Robson Maia, 40 anos, é um velho conhecido do público de tevê. Antes de encarar esse papel, que agita a reta final da novela das 18h, o ator marcou presença em diversos produtos da teledramaturgia — incluindo outros folhetins, como Rock Story (2017), O outro lado do paraíso (2018) e Apocalipse (2018). Mas, seus dois principais trabalhos foram em séries. O carioca faz uma participação muito especial na terceira temporada de Sob pressão, disponível no Globoplay, e vive o antagonista da segunda temporada de Rio Heroes, da Fox Premium — protagonizada pelo brasiliense Murilo Rosa.

Enquanto na atual trama Robson encarna um rapaz romântico e do bem, curiosamente, em ambos trabalhos anteriores, é o estilo bad boy que dá a tônica. Na produção médica da Globo, Robson surge como um homem gay que reage com agressividade à informação de que o parceiro convive com o vírus HIV e, na série da Fox, ele dá vida a um lutador de MMA talentoso e dedicado, mas com caráter duvidoso e atitudes cruéis, capaz de tudo para ser o melhor.

Para o ator, essas interpretações são importantes e legítimas, por retratar realidades que não devem rotular o ator. “Eu me considero uma pessoa progressista, que apoia e se identifica com questões sociais, políticas e humanitárias, então foi uma grande e boa surpresa ter participado de uma história tão emblemática e ter sido parte daquele momento”, conta ele, referindo-se ao personagem que impulsionou o encontro entre o homossexual assumido e soropositivo Kleber (Kelner Macedo) — vítima da violência do parceiro intolerante — e o médico discreto Décio (Bruno Garcia).

Beijo gay

No referido episódio de Sob pressão, os atores protagonizaram a primeira cena de beijo realista — com língua — entre dois homens na tevê aberta, que foi exibida, por obra do destino, no mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF) criminaliza a homofobia no Brasil. “Mesmo fazendo um vilão, me senti honrado e privilegiado de atuar naquela cena, e com atores maravilhosos”, celebra Robson, que aproveita a oportunidade para afirmar que não teria problema em estar no lugar dos colegas. “Ser heterossexual não influencia em uma possível personagem de orientação distinta da minha. Se eu me identificar com o projeto, faço cena de beijo e até de sexo mais picante entre dois homens, sim”, avisa.

 

Em Sob pressão, com Drica Moraes. Abaixo, a cena emblemática de beijo que foi protagonizada pelos atores Kelner Macedo e Bruno Garcia

Feminismo

Em relação a Rio Heroes, ainda que retrate um esporte legítimo, a série explora um ambiente masculino muito tóxico, de força física, luta, brutalidade e violência. Robson Maia destaca que procura fugir desse contexto machista e tóxico e busca, cada dia mais, se informar e se aproximar das questões feministas, por exemplo. Para ele, o feminismo é um movimento político, social e econômico de luta pelo direito de todas as mulheres, independentemente de cor, raça, religião, nacionalidade, orientação sexual e classe social. “Portanto, é prepotente e ignorante invalidar a importância e necessidade do movimento”, assinalando que encara o feminismo de maneira muito respeitosa, aceitando seus posicionamentos, que são: a luta pela igualdade social e de direitos homogêneos, o combate ao modelo social baseado no patriarcado e os abusos e a violência contra as mulheres.

“Eu busco me desconstruir a cada dia. Busco fazer sempre o exercício de auto-avaliação com relação aos meus posicionamentos e pensamentos, levando em conta que, simplesmente pelo fato de ser homem, já tenho uma visão machista. Por isso, é necessário ir além”, pontua ele, detalhando que lê, assiste documentários, filmes e reportagens e segue canais feministas em redes sociais com o intuito de aprender e se desconstruir.

Caracterização especial para Adam, vilão da segunda temporada de Rio Heroes |  Fox Premium

 

Transformação

Desconstrução é uma palavra que Robson conhece bem. Para viver o antagonista Adam, de Rio Heroes, o ator precisou passar por um processo forte de caracterização: o personagem tinha um visual totalmente diferente, com 10 tatuagens pelo corpo e o cabelo dourado que exigia um processo de descoloração duas vezes por semana e cerca de três horas de maquiagem. “Eu iria bem mais fundo para dar vida a uma nova personagem. Adoro sair do senso comum, da mesmice e do previsível. Coisa de ariano”, comenta o bonitão, que se considera vaidoso, especialmente no físico e na estética. “Obviamente, também em outros lugares, porém nesse é onde mais consigo enxergar.”

Robson, entretanto, ressalta que se incomodaria, de alguma forma, em ter o seu porte físico explorado nos trabalhos. “A palavra explorado me incomoda e, muito provavelmente, se a ideia do trabalho for voltada para a exploração do físico, pura e simplesmente, sem justificativa, não aceitaria fazer parte. Igualmente com a questão do nu. Em contrapartida, se a temática ou a narrativa passar por algo relacionado ao físico, ao nu, desde que não seja apelativo, abusivo ou injustificado, eu, enquanto ator, teria a tranquilidade de estar em cena, sim”, observa.

Esse é o caso de Sansão, de Amor perfeito, um personagem que tem características físicas parecidas com a do intérprete e que surge em cena exibindo um porte físico, mas não de forma gratuita: o moço de época simboliza um indivíduo que surge para valorizar o protagonismo de uma mulher romântica que decide sair de um lugar de sofrimento para assumir as rédeas da própria vida. “Não há exploração gratuita de corpo. Ao contrário, o porte físico do Sansão, por mais que represente o ideal heroico do galã que conhecemos, é pequeno perto da força própria que a Ione apresenta ao assumir esse protagonismo. Estamos vivendo uma transição nesse conceito”, declara Maia.

 

Robson Maia passou uma temporada de aperfeiçoamento profissional nos EUA | Arquivo pessoal

Internacional

O trabalho fixo na Globo chega para Robson Maia após uma experiência de estudos para aperfeiçoamento profissional nos Estados Unidos e uma participação no filme Jorge da Capadócia, gravado na Turquia. Para ele, ter tido a oportunidade de viver fora do país e, ainda melhor, de ter trabalhado no exterior, foi maravilhoso por trazer uma visão diferenciada sobre o humano, a cultura e a vida. “Isso, de certa forma, reflete na métrica de construir uma personagem, reflete no ser ator”, descreve.

Sobre estar plantando a semente de uma carreira internacional, o carioca declara que, “momentaneamente, não, porém, em um futuro breve, sim”. Finalizando, ele destaca as dificuldades de ser um artista no Brasil. “A maior delas é não ter o devido respeito e apoio das pessoas (a grande maioria). Ser artista geralmente é encarado, para a massa, como diversão, brincadeira, passatempo, e não visto como uma profissão”, lamenta.