“Só a justiça social realmente fará diferença”, afirma Luiz Bertazzo

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Em Betinho: no fio da navalha, série original do Globoplay, o ator vive personagem importante para a luta contra a fome no Brasil

Patrick Selvatti

Em um momento especial na carreira, o ator Luiz Bertazzo está em dose dupla na tevê. Na série Notícias Populares, do Canal Brasil, ele vive o jornalista Luna. Em Betinho no fio da navalha, que estreou em 1 de dezembro no Globoplay, o sul-mato-grossense de 38 anos é Carlos Afonso, um dos compadres na vida de Herbert de Souza e um dos nomes que esteve ligado na militância contra a ditadura, exílio e uma das figuras mais importantes na fundação do Ibase, o instituto que foi essencial para mapear a fome no país.

O personagem teve uma atuação discreta na mídia, ao contrário de Betinho, mas é um dos poucos brasileiros que pertencem ao Hall da Fama da Internet, considerado um dos principais responsáveis por trazer a internet pro Brasil, e até hoje ele trabalha para que o acesso seja universal e a conectividade possível a todos.

Luiz Bertazzo | Crédito: Julieta Bacchin

ENTREVISTA/Luiz Bertazzo

Como você vê a história do Ibase sendo retratada na série?

A série mostra os problemas enfrentados pelo instituto numa época em que o Brasil passava por um processo de redemocratização e muitos assuntos de cunho social ainda eram mal vistos pelos militares da ditadura e seus apoiadores, como se essas pautas fossem “coisas de comunistas”. É importante mostrar pra nova geração, na qual me incluo, que só a justiça social realmente fará diferença e revolução num país de dimensões continentais como o nosso, e a série retrata isso de uma forma muito bonita e poética, sem esconder as dores e desafios. Em um momento que vivemos de polaridades e tentativas de descredibilizar ações sociais e afirmativas, acho que Betinho vai tocar no coração daqueles que ainda tem alguma dúvida de que a revolução pode ser pelo afeto e pela solidariedade.

Você esteve muito tempo ao lado do Júlio Andrade para a série. Umas das coisas mais faladas é sobre a transformação física e com maquiagem dele para a trama. Para você, como parceiro de cena, como foi ver isso na prática?

Foi muito maluco. Porque quando sentávamos na cadeira do camarim do Martín Trujillo e de sua equipe éramos colegas de profissão, quando saíamos de lá éramos companheiros de luta. Teve alguns momentos em que era difícil olhar pro Julinho e não ver Betinho ali, teve um dia que depois do “corta” eu caí no choro, pois realmente parecia que eu estava diante do sociólogo. De alguma forma, acho que o Betinho ia nos visitar em alguns momentos e que o Julinho estava ali como canal de acesso. Não sei se isso entra necessariamente num campo espiritual, mas quando se fala dos assuntos que povoam o imaginário da série, acho que é natural que algumas energias sejam evocadas, e a energia do Betinho e do seu legado estava por lá.

Qual a mensagem que você considera primordial que a série aborda e quer passar?

Sem dúvida, a solidariedade e a empatia com o próximo. A série faz uma proposta muito bonita sobre o tema da solidariedade que muitas vezes é tão abstrato, tornando-a concreta. De um sentimento para uma ação… Tanto que, assim que a série estreou, as doações para o Ação da Cidadania para esse natal foram duplicadas. Isso nos deu muito orgulho.

A série aborda temas polêmicos e que ainda são estigmatizados no Brasil e no mundo. Você vê diferença entre a época que se passa a série e hoje com a atitude da sociedade com pessoas com HIV?

Há sim uma grande diferença para os primeiros casos de HIV/Aids e para os dias de hoje. Uma pessoa vivendo com HIV nos dias de hoje tem uma vida normal e saudável como qualquer outra que não vive com o vírus. Isso só foi possível porque naquela época o debate foi intenso e a luta pela vida era urgente, e a série retrata isso de uma forma muito visceral, não para chocar ou amedrontar ninguém, mas para informar e sensibilizar sobre o tema. Hoje, a medicina avançou muito e uma pessoa indetectável há mais de seis meses não transmite o vírus, por isso é tão importante que as pessoas se testem e façam o uso correto dos medicamentos, que vale lembrar é gratuito pelo SUS. Mas infelizmente ainda há muita desinformação e preconceito, o que leva muitos ao óbito por uma doença que já tem controle e muitas formas de prevenção.

A fome, um dos temas em que seu personagem Carlos Afonso está bastante inserido na série, vem sendo combatido com eficácia no Brasil de hoje?

O Brasil voltou para o mapa da fome nos últimos anos tenebrosos em que vivemos uma pandemia e um governo de extrema direita. Acredito que a retomada das ações sociais desse ano ajudem a tirar as pessoas da insegurança alimentar, mas nós enquanto sociedade civil precisamos estar sempre vigilantes e cobrar dos governantes, assim como eleger candidatos comprometidos com a causa. Mas a fome não é só sobre doar alimentos ou políticas públicas, ela está também ligada ao nosso modo de consumo, é só parar para pensar em quantas pessoas entraram em situações de extrema pobreza por conta das catástrofes climáticas desse ano, é importante também se atentar para o que e de quem você está consumindo, investigar qual o compromisso da empresa, da loja em que vc está comprando, com a redução da emissão de carbono? É um assunto deveras complexo e intimamente ligado aos nossos hábitos mais cotidianos.

Patrick Selvatti

Sabe noveleiro de carteirinha? A paixão começou ainda na infância, quando chorou na morte de Tancredo Neves porque a cobertura comeu um capítulo de A gata comeu. Fã de Gilberto Braga, ama Quatro por quatro e assiste até as que não gosta, só para comentar.

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