Diego-Martins Credito Leandro Ramos Diego Martins Credito Leandro Ramos

Diego Martins encontra o pote no fim do arco-íris

Publicado em Entrevista, Novela, Perfil

Revelação de Terra e paixão, na Globo, Diego Martins — o garçom homossexual Kelvin — é estreante em novelas, mas tem na bagagem a participação exitosa em três talent shows. No último, o Queen stars Brazil, exibido pela HBO Max, o rapaz de 26 anos foi campeão

Por Patrick Selvatti

Em 2018, ao ser eliminado na semifinal da primeira temporada do talent show Canta comigo, na Record, o jovem Diego Martins, então com 21 anos, ouviu do apresentador, Gugu Liberato, a seguinte mensagem de incentivo: “Eu tenho certeza de que você vai seguir em frente porque foi isso que você falou na primeira vez aqui: ‘Eu sei que eu vou vencer!'”. A profecia de Gugu — falecido no ano seguinte — cumpriu-se. Em 2022, o ator e cantor foi o campeão da primeira edição do concurso Queen stars Brazil — programa apresentado por Pabllo Vittar, Luisa Sonza, Tiago Abravanel, Vanessa da Mata e Diego Timbó, exibido pela HBO Max. E, como é, sim, possível encontrar um pote de ouro ao final do arco-íris, hoje, o rapaz de 26 anos, gay assumido, comprova que há um espaço para a diversidade brilhar em horário nobre da TV Globo. Desde maio, ele entra na casa de milhares de brasileiros com o personagem Kelvin, um dos mais populares e queridos de Terra e paixão.

O trabalho na novela das 21h tem sido a realização de um sonho considerado impossível para Diego. Na produção, o jovem, que desde cedo dribla a heterocisnormalidade, contracena com gigantes como Tony Ramos, Glória Pires e Susana Vieira — a veterana, segundo ele, “tem muita paciência com iniciantes”, ao contrário da fama materializada. “São artistas que eu acompanho desde criança e, sinceramente, era tão distante para mim… Hoje eu estou aqui, no camarim com eles, hora ou outra sendo elogiado pelos meus ídolos desde sempre. É um privilégio e uma honra muito grande! Trabalhei tanto pra isso…”, comemorou o estreante em novelas, em conversa com ao Próximo Capítulo.

Na trama de Walcyr Carrasco, o ator e cantor empresta o corpo para um garçom, assumidamente gay, que caiu deliciosamente nas graças do público. Um pouco caricato, com trejeitos e muita comicidade, Kelvin abusa do bordão “me tremi” sempre que está diante de um homem bonito e viril, como o protagonista Caio, de Cauã Reymond. “Ele dá em cima sem pudor, flerta mesmo”, admite Diego.

Nas redes sociais, porém, a preocupação quanto ao reforço de um estereótipo negativo em relação aos afeminados se manifesta desde o início, inclusive com o fato de o intérprete ser reconhecido nas ruas como “o gay da novela”. Mas o rapaz rechaça a possibilidade de uma depreciação. “Eu sou gay e não estou brincando com a nossa figura. Kelvin tem camadas, como todos nós: ele é alegre, livre, debochado, mas também muito solitário e humano”, defende ele, que admite ter se inspirado em Nicole Bahls. “Ela é do interior, como o Kelvin, sem filtros, e abraça a causa”, justifica.

De toda forma, existe, na web, uma torcida muito forte pelo personagem, em especial para que desabroche o romance com o jagunço Ramiro (Amaury Lorenzo), um homem machão e rústico que tem uma queda pelo garoto do bordel, mas tenta manter o lance na camaradagem e em absoluto sigilo. “Eu adoro a relação dos dois e como isso tem sido construído pelo Walcyr. Dois personagens de mundos tão diferentes se encontrarem em algo tão sincero, tão sensível! Torço para um romance, mas eu sou suspeito”, adianta, endossando que o shipp #kelmiro encontra a defesa de que o peão — um carrasco frio e cruel capaz de matar — encontra no jovem garçom um lugar de afeto e humanidade que desconhece.

O talento à prova

Apesar de só agora passar a ser aclamado nas ruas, a notoriedade nacional de Diego Martins é antiga. Antes do Queen stars Brazil e do Canta comigo, o jovem talentoso participou, em 2016, aos 19 anos, da primeira e única temporada do reality show X Factor Brasil, na Band, no qual ficou em quinto lugar. “Eu canto desde pequenininho, mas, ali, eu desenvolvi a persona cantor. Sempre amei cantar e sempre quis que essa fosse a minha profissão também”, contou ele, ressaltando que, na ocasião, experimentou a doçura da fama, mas também provou o sabor amargo de um certo “hate” por não ter técnica vocal. “Houve muito julgamento pesado. Quando saí do programa, eu busquei toda técnica do mundo e trabalhei muito. Fiz muita peça musical, muitos shows”, detalhou.

O ator musical seguiu uma carreira de sucesso nos palcos, integrando os elencos de Peter Pan, Beatles num céu de diamantes, O despertar da primavera e West Side Story. Em 2017, Diego foi indicado ao Prêmio Bibi Ferreira, na categoria Revelação, por seu desempenho no musical A era do Rock. Quando se inscreveu para o Canta Comigo, a personalidade como performer talentoso já estava sendo desenhada. Ao abrir o episódio do qual participou, Diego surgiu caracterizado e cantou o clássico Hallelujah, de Leonard Cohen, e recebeu, de cabeça erguida, as críticas de alguns dos 100 jurados por ter descaracterizado a canção com sua androginia. Na semifinal, novamente diante do painel gigante, diverso e implacável de avaliação, assumiu para o país a sua persona drag queen, revelou o apoio que sempre recebeu da família — o pai, inclusive, marcou presença na plateia usando batom — e declarou ser “um sobrevivente” ao emprestar a sua voz para I will survive, de Gloria Gaynor — que, de acordo com as palavras da jurada Penelopy Jean, “vai além de um hino da disco music, é um hino de sobrevivência”.

Ao se assumir homossexual, ainda na adolescência, Diego incorporou o salto alto e a maquiagem ao visual e afirma que nunca sofreu violência física por ser quem é, ainda que o preconceito atravesse sua jornada. “Perdi as contas de quantas vezes já sofri homofobia. Ela está no meu dia a dia e não dá para negar isso”, explicou. Como vencedor do Queen stars Brasil, o rapaz avalia que o mercado tem ficado cada vez mais aberto para a arte drag. “Principalmente no campo da música, e não dá para deixar de mencionar a importância que a Pabllo Vittar tem nessa história para as drags queens brasileiras. Porém, mesmo com toda essa evolução, ainda são pouquíssimas oportunidades, e a nossa arte ainda é vista de uma maneira muito nichada. É um processo lento, mas estamos indo”, destacou o artista, que levou a bolada de R$ 100 mil do programa de TV e um contrato com a Universal Music, ao lado das colegas Reddy Allor e Leyllah Diva Black. As três drags queen vencedoras formaram o trio Pitaya, que, inclusive, se apresentou em Brasília, no Festival da Diversidade, ano passado.

 

Carreira e biscoitos

O pote de ouro chegou em 2022 quando, logo após ser coroado como vencedor do Queen stars Brazil, foi aprovado nos testes para dois personagens no audiovisual. Diego emenda uma dobradinha importante na TV e no cinema. Além de Terra e paixão, ele pode ser visto, no Prime Vídeo, em Um ano inesquecível — Verão, a primeira parte de uma quadrilogia para as telas de uma franquia de sucesso da literatura juvenil. No filme lançado neste mês, de Cris D’ Amato, baseado no conto Amor de carnaval, de Thalita Rebouças, ele interpreta Tavinho, um rapaz que é filho de um político de uma cidade do interior que está sendo preparado para seguir os passos do pai, mas entra em conflito por ser um jovem delicado, sensível às artes, apaixonado pelas alegorias dos desfiles de escolas de samba.

O arco-íris, entretanto, não tem ponto final. A expectativa é de que outros trabalhos venham e trazem um desafio: apesar de compreender a importância da representatividade, Diego admite o receio de ficar rotulado como um intérprete gay. “Passa pela cabeça. Tomara que esse tipo de coisa não aconteça. Afinal, eu sou ator. Sempre vemos atores heterossexuais vivendo personagens gays, não vejo o porquê do contrário não acontecer”, conclui o artista, que acumula mais de 370 mil seguidores no Instagram e ultrapassou a marca de 2 milhões no Tik Tok. Em suas redes sociais, o rapaz explicita a sua versatilidade ao postar muitas imagens “montado”, mas também sem quase nenhum traje —  e deixa claro que adora um “biscoito”.

“Sou ‘biscoiteiro’, não nego”, ele já declarou, em outras entrevistas.