2Q1A2679 João Fenerich, ator | Crédito: Angel Castellanos

“A vida nos faz aprender a lidar com a morte”, afirma João Fenerich

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Ator paulistano fez novela Quanto mais vida melhor e está nas séries originais do Globoplay Fim e Betinho: no fio da navalha, que falam sobre a finitude da vida

 

Patrick Selvatti

 

Após participar de Quanto mais vida melhor, João Fenerich pode ser visto em dois novos trabalhos da Globo. Ele está, ao mesmo tempo, nas séries originais do Globoplay Fim e Betinho: no fio da navalha. Coincidentemente, as três produções falam sobre a morte. Para o ator, a própria vida faz a gente aprender a lidar com essas situações.

“Esse ano, eu acabei tendo que lidar com muita coisa, entre doenças, mortes e uma vida acontecendo. Isso fez com que, sem dúvida, este tenha sido o meu pior ano em questão de saúde mental. Minha mãe teve um câncer e precisou, em janeiro, se submeter a um transplante de medula óssea. No meio desse tratamento, eu gravava Betinho. Também tive que lidar com a morte de familiares, suas resoluções burocráticas e, em julho, eu tive muitas crises de pânico e de ansiedade”, relatou Fenerich.

O paulistano de 34 anos destaca que foi uma jornada muito difícil, mas o mais importante foi entender que não precisava passar por ela sozinho. “Eu tenho uma tendência de querer dar conta de segurar todos os pratinhos de uma só vez. Compartilhar é fundamental – e eu fiz isso”, destacou ele, que também está em Reis, na Record.

Para João, o que mais tem chamado sua atenção na série bíblica é a interseccionalidade entre os fatos. Nós estamos contando a história de Salomão, que se passa entre 970 e 930 a.C. e ver, ao mesmo tempo, a escalada da guerra entre Israel/Hamas, é algo que causa um certo estranhamento com relação à humanidade”, ele relaciona.

Além dos projetos no audiovisual, João Fenerich está, em São Paulo, com a peça Punk Rock, um texto de Simon Stephens que aborda temas como o bullying e o massacre infantil em uma escola. Ele vive Bennett, pivô do massacre, o aluno que pratica bullying com os colegas e instiga o assassino à realizar o atentado. O ator também assumiu a produção executiva do longa Consequências paralelas, que rodou no ano passado com os atores Carol Macedo e Felipe Hintze e direção de Gabriel França e CD Vallada.

Fenerich também é fotógrafo, paixão que lhe já rendeu dois prêmios internacionais com fotos feitas no Myanmar e no Nepal.  O hobby aconteceu por acaso, quando pegou a câmera de um amigo emprestada para uma ida a Cuba, e acabou rendendo bons cliques. Quando fez o mochilão pela Ásia, comprou a primeira câmera semi-profissional. Desde então, o virginiano vem apurando o olhar como fotógrafo e retratando um pouco da sua vida e das suas viagens. Entre seus projetos nessa área estão: retratar a importância dos botecos e suas personalidades para o desenvolvimento social das comunidades do Rio de Janeiro; um projeto-manifesto chamado Everyone is welcome sobre o fenômeno da situação dos refugiados no mundo e o atual cenário complexo das migrações; e um projeto de fotografar pessoas albinas na África, mais precisamente na Tanzânia e em Gana.

 

Em Quanto mais vida melhor, João Fenerich interpretou um médico

 

ENTREVISTA/ João Fenerich

O que você tira de maior aprendizado nas produções bíblicas em que atuou na Record?

Acho que o que mais têm me chamado à atenção é a interseccionalidade entre os fatos. Nós estamos contando a história de Salomão, que se passa entre 970 e 930 a.C. e ver, ao mesmo tempo, a escalada da guerra entre Israel – Hamas, é algo que causa um certo estranhamento com relação à humanidade. Além do mais, eu acho muito bonito poder contar uma história como essas e com tantos elementos que ajudam a contá-la de uma forma que só o audiovisual pode proporcionar. Os cenários, figurinos, caracterização dos atores, tudo é muito impecável. E o trabalho de preparação artística sobre a história em si é algo a ser elogiado. A energia das filmagens é ótima!

A novela Quanto mais vida melhor e as séries Fim e Betinho falam muito sobre a finitude da vida. Como você lida com situações ligadas à doença e morte?

Eu acho que a vida faz a gente aprender a lidar com essas situações. Esse ano eu acabei tendo que lidar com muita coisa, entre doenças, mortes e uma vida acontecendo. Isso fez com que, sem dúvida, esse tenha sido o meu pior ano em questão de saúde mental. Minha mãe teve um câncer e precisou, em janeiro, se submeter a um transplante de medula óssea. No meio desse tratamento, eu gravava Betinho. Também tive que lidar com a morte de familiares, suas resoluções burocráticas e em Julho eu tive muitas crises de pânico e de ansiedade. Foi muito difícil, mas o mais importante foi entender que eu não precisava passar por isso sozinho. Eu tenho uma tendência de querer dar conta de “segurar todos os pratinhos” de uma só vez. Compartilhar é fundamental – e eu fiz isso.

Quanto mais vida, melhor foi gravada em plena pandemia. Como foi essa experiência?

Não tem como descrever, mas foi uma experiência muito única. Os protocolos e o medo andavam na mesma direção. Mas fomos todos muito felizes. Éramos testados a cada 48h para COVID e assim conseguimos gravar a novela inteira. Foi muito mais trabalhoso, mais protocolar, todo mundo com as emoções muito à flor da pele, o que acabou aproximando também muito os colegas de trabalho. Mas poder trabalhar com total liberdade não tem preço. E inclusive, o momento em que o mundo estava sob total tensão, para mim, foi um dos momentos mais importantes da minha trajetória profissional.

De que forma você acredita que a sociedade conseguiria combater o bullying, que já provou ser um gatilho terrível para tragédias?

Esse assunto tem realmente sido frequente nas minhas pesquisas e estudos para a peça que estou fazendo. “Punk Rock” é um peça que discute o bullying e a violência em escolas. Acho que o diálogo, hoje, é a melhor ferramenta. Por isso, depois das apresentações do espetáculo, fazemos um debate com elenco, direção e plateia. É natural do ser humano a necessidade de pertencimento. Principalmente no período da escola, onde os adolescentes estão em processo de desenvolvimento, é onde encontramos a maior parte das violências escolares. É preciso falar sobre esse assunto com os alunos, ensinando como identificar as agressões e incentivar o diálogo juntamente com os familiares. Sobretudo, é preciso promover uma cultura de respeito, tolerância e segurança dentro das escolas.

Após participar do filme Consequências paralelas, o que mudou em relação à sua visão do feminismo?

Não basta ser feminista. É preciso ser antimachista. E o filme me trouxe um pouco dessa percepção, principalmente nos primeiros momentos de leitura e debate de roteiro. Eu levei essa questão para os diretores. Trata-se de um thriller psicológico mas que, no fim, tem uma mensagem muito importante sobre esse tema. Essa é outra pauta que eu tento sempre atrelar ao meu cotidiano. Acho importantíssimo a consciência sobre o assunto, principalmente no Brasil, um dos países com o maior índice de feminicídio no mundo. Chimamanda Ngozi Adichie, autora nigeriana e líder no movimento feminista, principalmente o feminismo negro, disse em um de seus livros que “feminista é todo homem e mulher que reconhece que existe um problema de gênero ainda hoje e que temos que resolvê-lo.”

De que forma você combate o machismo estrutural no seu cotidiano?

Eu acredito que estamos muito longe de um cenário de equidade de gênero na nossa sociedade. Falar sobre esse assunto, principalmente com homens – que muitas vezes não estão abertos para diálogo — é um dos pontos mais importantes. É preciso quebrar um ciclo altamente vicioso. É preciso ter voz ativa com atitudes machistas. A masculinidade tóxica acontece de forma exacerbada, por exemplo, em grupos de WhatsApp — e é preciso levantar a mão e pontuar. Nesse momento você passa a ser considerado o chato, o sem noção, o artista, o esquerdista. Lembrando que todos somos frutos de uma criação estruturalmente patriarcal e que levaremos anos para que esse cenário seja ao mínimo equiparado. Seria inclusive hipócrita da minha parte dizer que nunca tive alguma atitude machista, porque somos todos. E diante disso, hoje eu olho pra trás e reflito como eu não tinha acesso à informação e acabava por replicar um comportamento que nos é ensinado desde criança. Acredito, sobretudo, na arte e na educação como ferramenta de transformação social. A mudança está na formação de meninas e meninos baseada em equidade de gênero, sem discriminações.

Na fotografia, o que estimulou o seu olhar para os direitos humanos?

Nunca tinha parado pra fazer essa correlação. Acho que minha fotografia reflete um pouco de quem eu sou. Eu gosto de captar a vida, nua e crua – uma fotografia documental. Acho que documentar o mundo sob a própria ótica é sobretudo um desafio. E entendendo cada vez mais o poder que a arte tem de transformar a nossa sociedade, eu não vejo outro caminho senão esse. Quero que a minha arte, e isso inclui a fotografia, alce voos cada vez mais altos.