Falta de afeto está entre violências mais comuns contra crianças

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Maioria das violências contra crianças acontecem no ambiente familiar e envolvem omissões de cuidado, afeto e proteção, com impactos diretos no desenvolvimento infantil

A negligência emocional, a falta de cuidados básicos e a privação de afeto figuram entre as formas mais recorrentes — e menos visíveis — de violência contra crianças. Dados da UNICEF indicam que, no mundo, cerca de 400 milhões de crianças com menos de 5 anos sofrem regularmente algum tipo de violência psicológica ou negligência no ambiente doméstico.

No Brasil, levantamentos oficiais apontam que mais de 80% dos casos de violência contra crianças e adolescentes acontecem dentro de casa, o que dificulta a identificação e a denúncia dessas práticas.

Ao contrário da violência física ou sexual, as violências silenciosas costumam se manifestar por omissão. A negligência física inclui a falta de alimentação adequada, higiene, acompanhamento médico, vacinação, descanso e condições seguras de moradia. Já a negligência emocional está associada à ausência de escuta, acolhimento, afeto e vínculo, enquanto a negligência educacional envolve o abandono escolar ou a falta de acompanhamento da vida acadêmica da criança.

Também fazem parte desse conjunto as violências psicológicas, como humilhações, ameaças, rejeições, silêncios punitivos e invalidação constante dos sentimentos.

Embora pouco registradas nos sistemas oficiais, pesquisas internacionais também mostram que mais de 16% das crianças relatem negligência física e cerca de 18% negligência emocional, o que coloca essas práticas entre as formas mais frequentes de violação de direitos na infância.

Especialistas alertam que a subnotificação é elevada, já que muitas situações são naturalizadas no cotidiano familiar ou não deixam marcas visíveis.

Para a psicopedagoga e escritora infantil Paula Furtado, a violência observada na vida adulta costuma ter raízes na infância. “A violência que marca tantas histórias na vida adulta raramente começa ali. Ela é construída nos vínculos afetivos, nos modelos de cuidado e nos silêncios que cercam a infância”, afirma.

Segundo Furtado, a negligência emocional está frequentemente associada à sobrecarga dos cuidadores, à pobreza afetiva e à dificuldade de acesso à informação e à saúde mental. “Esse tipo de negligência não se restringe a contextos de vulnerabilidade socioeconômica. Também aparece em famílias com maior estabilidade material, quando o cuidado afetivo é substituído por rotinas rígidas, exigências excessivas ou ausência de escuta”.

Os impactos dessas violências sobre o desenvolvimento infantil são amplos. A literatura científica aponta que a ausência de cuidado, previsibilidade e afeto interfere na formação de funções emocionais e cognitivas, aumentando o risco de ansiedade, depressão, dificuldades de aprendizagem e problemas de relacionamento ao longo da vida. Na infância, esses efeitos costumam aparecer de forma indireta, por meio de alterações de comportamento, retraimento, agressividade ou baixo rendimento escolar.

No ambiente escolar, os sinais também são perceptíveis. “Quando há agressões, exclusões ou negligência afetiva, o sofrimento ocupa o lugar da atenção e da criatividade, interrompendo o processo de aprendizagem”, observa Paula Furtado.

Para ela, a escola precisa ser um espaço seguro não apenas para o ensino de conteúdos, mas também para a construção de vínculos, respeito e autoestima, o que exige investimento na formação emocional dos profissionais da educação.

A psicopedagoga destaca que crianças nem sempre conseguem verbalizar situações de violência ou negligência. “Sinais de sofrimento emocional podem aparecer de forma simbólica nos desenhos, nas brincadeiras e na fala”, explica.

Desenhos com temas recorrentes de agressividade, figuras incompletas ou conteúdos sexualizados inadequados à idade podem indicar a necessidade de avaliação especializada. Brincadeiras marcadas por dor, castigo ou submissão, assim como frases como “se eu sumisse, ninguém ia notar”, funcionam, segundo ela, como pedidos de socorro simbólicos.

A especialista alerta ainda que crianças expostas a ambientes violentos tendem a naturalizar essas experiências e podem reproduzi-las em relações futuras. “Somente o afeto e a intervenção consciente quebram esse ciclo”, afirma Paula Furtado.

Em casos de suspeita de abuso ou negligência, a orientação é agir com cautela, sem acusações ou confrontos diretos, priorizando a escuta e o acolhimento. Estratégias como perguntas abertas, histórias mediadoras e frases que transmitam proteção ajudam a criar um ambiente de confiança.

A recomendação é buscar ajuda profissional e acionar os canais oficiais de denúncia, como o Disque 100, o Conselho Tutelar e o Ministério Público. Escolas, unidades de saúde, instituições religiosas e organizações comunitárias também integram a rede de proteção e podem atuar no acolhimento e no encaminhamento dos casos.

Jéssica Andrade

Jornalista com especialização em Neurociência, Educação e Desenvolvimento Infantil. Coautora do livro Maternidade Atípica, integra o Colo — Coletivo de Jornalismo Infantojuvenil.

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