A Organização Mundial da Saúde (OMS) deu um passo histórico ao formular uma definição oficial de bem-estar materno, reconhecendo que a experiência da maternidade não pode ser avaliada apenas pela ausência de doenças ou de complicações médicas. A iniciativa, apresentada em 2025, amplia o entendimento sobre saúde materna ao incluir dimensões físicas, mentais, sociais e estruturais que atravessam a vida das mulheres durante a gestação, o parto e o pós-parto.
Para entender a relevância dessa mudança, é preciso voltar no tempo. Desde 1948, a organização define saúde, em sua Constituição, como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. Esse conceito geral orientou políticas públicas no mundo inteiro e foi amplamente aplicado à saúde materna e reprodutiva. Na prática, porém, a maior parte dos indicadores usados por governos e sistemas de saúde continuou focada quase exclusivamente em mortalidade, diagnósticos e eventos clínicos.
Isso criou um paradoxo. Muitas mulheres passaram a ser consideradas “saudáveis” simplesmente por terem sobrevivido à gravidez e ao parto, mesmo enfrentando sofrimento emocional, exaustão extrema, falta de apoio, violência institucional ou abandono no pós-parto. O novo conceito de bem-estar materno surge justamente para preencher essa lacuna entre o que se mede e o que, de fato, é vivido pelas mulheres.
A definição apresentada pela OMS reconhece que estar bem envolve muito mais do que parâmetros biológicos. Ela considera a experiência da mulher de forma integral e ao longo do tempo, desde a gestação até pelo menos um ano após o término da gravidez. Com isso, o pós-parto deixa de ser tratado como uma fase periférica e passa a integrar oficialmente o cuidado em saúde materna.
“A Unidade de Saúde Materna está desenvolvendo pacotes de intervenções para abordar e melhorar o bem-estar materno, em consonância com o quadro de bem-estar da saúde da criança e do adolescente. Esse quadro de bem-estar inclui boa saúde, nutrição adequada, oportunidades de aprendizagem e educação, segurança e um ambiente de apoio, relacionamentos responsivos e conexões, além da realização da autonomia pessoal e da resiliência. Esses domínios também são aplicáveis à saúde materna”, define a organização.
A Organização Mundial da Saúde não cria leis, mas estabelece referências globais. Quando ela define um conceito, esse conceito passa a moldar a forma como governos pensam políticas, como profissionais de saúde organizam o cuidado e como pesquisadores constroem indicadores. Ao nomear e definir o bem-estar materno, a OMS afirma que a saúde das mulheres não pode ser reduzida à sobrevivência ou a exames dentro da normalidade.
Essa definição transforma sofrimento invisível em questão de saúde pública. Ao reconhecer oficialmente que o bem-estar materno é um componente essencial da saúde, a OMS abre caminho para que temas historicamente negligenciados, como saúde mental no pós-parto, qualidade do cuidado, autonomia das mulheres e condições sociais da maternidade, ganhem centralidade nas agendas nacionais e internacionais.
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