Nosso Parque da Cidade
Cilene Vieira
Pessoas 13 min de leitura
Uma arqueira no Parque
Encontrei Marcela no Parque, em um evento da UNA – Unidade Nacional de Acessibilidade, projeto que promove a inclusão pro meio do esporte, onde atua como professora. Na nossa conversa, falamos sobre a prática do arco e flecha e vários aspectos desse esporte olímpico. Foi um grande prazer conhecer uma arqueira de verdade, que atualmente pratica arquearia montada, uma modalidade mais difícil, cuja imagem de guerreiras que laçam flechas em cima de cavalos ágeis nos remetem a batalhas históricas cinematográficas.
Marcela Simoni, tem 32 anos, casada, sem filhos, nasceu em Minas, mas se considera brasiliense, pois veio para a capital com a família quando era bebê. Moradora da Asa Sul, é formada em artes plásticas pela UnB e atualmente cursa educação física. Quando estava terminando a faculdade, Marcela começou a praticar arco e flecha. Tornou-se atleta na modalidade, conquistou várias medalhas participando de competições e é proprietária de uma escola de arquearia, junto com o marido, que também é arqueiro.
Leia a nossa conversa a seguir.



Perguntas para Marcela Simoni:
P- Como você conheceu o arco e flecha?
R- Uma colega minha da faculdade, num belo dia, virou para mim e falou: vamos fazer um negócio legal? Chegando lá, descobri que era arco e flecha. Era uma escola, a escola do meu técnico. Aí depois que ele se aposentou, eu e meu marido continuamos com a escola.
P- Você começou a praticar como atleta ou só para aprender?
R- Eu comecei só para aprender, depois eu comecei a entrar no circuito de competições para ajudar a completar a equipe feminina. Eu nem tinha a pretensão real de competir e tudo mais. Comecei por empolgação das outras meninas para fechar a equipe. E foi acontecendo. Fui gostando da brincadeira. Conseguimos medalha de prata por equipes no Brasileiro em 2018. Depois eu troquei de modalidade e continuei até hoje.
P- E você compete ainda?
R- Sim. Sou quatro vezes medalhista das Américas. Algumas vezes medalhista nacional.
P- Que bacana, parabéns! O arco e flecha é um esporte pouco divulgado, né?
R- A gente tenta divulgar. Mas como, culturalmente, no Brasil, a gente não está acostumado a associar o arco com a parte esportiva dele, a maioria das pessoas acha que não existe aula. Aí não procura. Então, isso é um obstáculo que todas as escolas do país estão enfrentando e que a gente está tentando superar. Tanto a divulgação das competições, como a divulgação dos eventos que a gente participa. Divulgação da coisa como esporte mesmo.
P- O que você acha que o arco e flecha traz para quem começa a praticar? O que ele vai desenvolvendo?
R- A gente tem toda a parte de desenvolvimento físico, que é natural de qualquer esporte. Você vai ter desenvolvimento físico praticando esportes, porque o seu corpo vai reagir aquilo. O que a gente percebe muito com o pessoal, que inclusive já foi retorno de alunos pra gente, é a melhora de postura corporal. Nem tanto por conta do exercício físico. Mas porque, pra usar um arco, a gente está o tempo todo prestando atenção na nossa própria postura. Então, a gente acaba se disciplinando a prestar atenção nela ao longo do dia. Como a gente está se corrigindo o tempo todo durante as duas horas de aula, quando a gente está no computador ou fazendo alguma coisa, a gente começa a perceber que está errado e a se policiar nesses momentos também. O exercício de foco e de persistência também. E já foi retorno que a gente teve de alunos nossos, gente falou que ajudou em colégio, que ajudou em outros aspectos da vida, exatamente por isso.
P- E a pessoa pode começar a partir de que idade?
R- A gente trabalha a partir dos 7, 10 anos. Mais novinho que isso, em eventos como esse que está tendo aqui no Parque, a gente até consegue fazer, porque a gente ajuda. Mais novo que isso, a gente não deixa a pessoa sozinha com o arco na mão por conta de desenvolvimento fisiológico mesmo. A gente precisa que, fisiologicamente, a capacidade de associação da criança, de causa e consequência, já esteja desenvolvida. Porque ela precisa entender o risco envolvido em quebrar uma regra de segurança. Abaixo dos 7 anos, a criança pode até seguir a regra porque eu mandei. Mas não necessariamente ela entende o risco envolvido em quebrar essa regra. Como a gente precisa que a pessoa já tenha um pouco mais de autonomia pra começar de verdade no esporte, a gente subiu um pouquinho a faixa etária.
P- E depois, tem limite da idade?
R- O nosso aluno mais velho começou com 82. Mas dá pra ir com qualquer idade.
P- Como funciona a escola, como é o processo de aprendizagem da prática de arco e flecha?
R- Em geral, o que a gente trabalha lá na escola é com aulas de uma ou duas horas de duração. De uma a três vezes por semana. Aí depende muito do nível de desempenho que a pessoa quer ter dentro do esporte, e de em que velocidade essa pessoa quer ter esse nível de desempenho. Se a pessoa só quer começar pra iniciar no esporte recreativamente, só como hobby mesmo, uma hora por semana você já vai ter crescimento. Se você quer competir pra entrar em circuito nacional, pra ter resultado, pelo menos são seis horas por semana, pra garantir que você vai ter algum crescimento rápido. Mas tudo vai depender de objetivo da pessoa, do tempo disponível que ela tem.
P- Comparando o arco e flecha e a esgrima, são dois tipos de luta, de defesa e ataque, mas a esgrima é um esporte mais conhecido. O arco e flecha é um esporte olímpico?
R- O arco e flecha é esporte olímpico desde o ano 1900. Ele entrou em 1900, saiu por volta de 1920, basicamente porque ninguém conseguiu entrar em consenso sobre qual seria a regra do esporte. Aí saiu das Olimpíadas. Então foi organizada a Federação Internacional. Depois que o esporte foi organizado a nível internacional, em matéria de tipo de material, regra de competição, formato de prova, ele voltou pras Olimpíadas, por volta de 1970. E seguimos o esporte até hoje.
P- Você tem algum ídolo brasileiro ou um ídolo de fora nesse esporte?
R- Eu particularmente prefiro assistir as competições do feminino, porque a técnica é muito mais bonita e é muito melhor de analisar. Internacionalmente, o que mais chama atenção é o pessoal da Coreia, inclusive, a linha técnica que a gente segue na escola é baseada na linha técnica coreana.
P- E aqui no Brasil tem alguém que se destaca muito, já ganhou alguma medalha?
R- A gente tá com o Marcos Vinícius, que é um atleta do Rio de Janeiro. Ele é o atleta de maior desempenho nacional no momento, inclusive, ele é campeão mundial no momento, ele tá no topo do ranking mundial. As meninas estão um pouco mais pra baixo a nível internacional. No Brasil, é difícil a gente conseguir ter um nível alto de desempenho por conta da quantidade de apoio que o nosso esporte tem. Então, como a gente não tem muita visibilidade como esporte, é difícil a gente conseguir patrocínio, e a gente é uma modalidade individual, então a gente não tem times inteiros que tem patrocínio, são contratados como atletas pra ter volume de gente. A gente tem bolsa nacional, a gente tem 3 homens e 3 mulheres que têm bolsa nacional de atleta. A gente tem, se eu não me engano, 6 ou 7 atletas que têm dedicação exclusiva ao esporte no Brasil. Todo o resto do país, mesmo gente que tem alto desempenho, mesmo gente que tá no topo do ranking, é gente que trabalha e treina. Então, o nível internacional de desempenho acaba caindo muito. A gente tem no Brasil registrados, no momento, eu diria que uns 1.000, 1.200 arqueiros competindo, ativos. Mais ou menos isso. Na Coreia, eles tem mais ou menos uns 30 mil arqueiros profissionais que vivem do esporte.
P- Nossa, que diferença! E eles são os melhores?
R- Eles são os melhores.
P- Esses 1.000, 1200 atletas estão distribuídos em todas as regiões?
R- Quase todas as regiões. É mais Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e aqui em Brasília. Tem o pessoal em Minas também, o pessoal do Nordeste tá crescendo agora também, mas é mais para os centros populacionais do país.
P- E aqui em Brasília, tem quantos praticantes?
R- Eu chuto na casa dos 60, mais ou menos, estamos trabalhando para aumentar.
P- Qual é o objetivo do arqueiro?
R- Acertar sempre no mesmo lugar. É um esporte de repetição. Então, ele é baseado em você conseguir repetir sempre exatamente o mesmo movimento, para acertar sempre exatamente no centro do alvo. E o grande desafio do nosso esporte é exatamente isso, porque a nossa coordenação motora em geral não é ensinada para ter esse nível de precisão. Então, por exemplo, você comparou com a esgrima. A esgrima é difícil porque você tem que reagir ao seu oponente. No arco, você tem que imitar exatamente o seu último movimento.
P- Para ser um bom arqueiro, tem que cuidar de quê primeiramente? Da respiração? Da postura?
R- Ele tem que ter paciência.
P- O esporte ajuda a exercitar a paciência?
R- Ajuda. O arco não te dá escolha. Se você tentar apressar essas coisas, ele vai jogar na sua cara que você vai inventando moda. Paciência, repetição. Repita, repita, repita. Entender que não é só porque você quer que a coisa vai te obedecer. Tem toda uma série de procedimentos que têm que ser realizados por trás.
R- E aí, no final, ele é bom arqueiro quando acerta o mesmo alvo?
R- Exatamente. E quando você consegue escolher exatamente onde você quer acertar e saber que a flecha vai lá. A gente fala pra galera que acertar um tiro exatamente no centro do alvo, por sorte, é fácil. O difícil é acertar todos os tiros onde você quer.
P- Você quis montar a escola por que você queria viver disso mesmo?
R- Eu comecei a trabalhar ajudando na escola do meu técnico primeiro. Aí, quando ele resolveu aposentar, a gente, eu e meu marido, a gente sentou pra conversar e falou assim: a gente tem a opção de continuar trabalhando no arco ou tentar entrar no mercado de trabalho, que já está saturado. O que a gente vai fazer? Ele é formado em física e artes plásticas. E a gente acabou trabalhando no arco. A gente é formado como instrutor e como técnico da modalidade. Com formação específica da confederação. Mas nossa formação de faculdade, originalmente, não era nessa área. Agora que a gente está entrando para a educação física.
P- E aí, o que vocês fizeram com o potencial criativo?
R- A gente continua fazendo. O artista não para de inventar algo, não. Só não vivemos disso. A gente focou o esforço em construir e crescer a escola de arco. E está indo bem. A escola se chama Seta Arquearia, fica aqui na Asa Sul, no Clube dos Previdenciários.
P- Você conhece bem o Parque da Cidade?
R- Não é um local que eu tenha frequentado muito, porque eu morava em um local muito distante. Agora que eu estou mais perto do Parque. Então, o que eu conheço muito daqui é dos eventos que o pessoal organizava aqui que eu frequentava. Mais de estrutura do Parque e coisas assim. Agora que eu estou vindo conhecer.
P- E na sua visão, o que o Parque significa para Brasília?
R- Gente, é um lugar de se conseguir respirar no meio da cidade! Porque é raro você conseguir, dentro do meio urbano, um espaço arborizado, grande, que você consiga realizar coisas, que você consiga praticar 15 milhões de esportes, que você consiga virar um centro econômico também, um centro recreativo para as pessoas, que você consiga viabilizar tanto a parte ativa, quanto a parte de negócio, parte de comércio, parte cultural, tudo num mesmo espaço, que está muito bem localizado.
P- Você já fez alguma aula da sua escola aqui?
R- Não, por questão de segurança. Como o Parque é um espaço aberto, a gente tem riscos de segurança envolvidos no arco, que a gente não pode ignorar. Então, por exemplo, aqui mesmo a gente está usando flechas de espuma exatamente por isso. Aqui é uma situação que eu não posso usar flecha real. As flechas reais nossas com ponta de metal, elas são perigosas. Ainda que eu saiba que nenhum dos atletas vai apontar para uma pessoa, eu não posso ignorar risco de falha de equipamento. As pessoas não levam a sério o risco de segurança do arco também, vê que você está atirando, tem gente que vai passar por trás. Então, considerando todas essas coisas, a gente prefere evitar, para garantir tanto a segurança nossa, quanto a segurança do esporte, quanto a segurança do Parque.
P- Você está treinando para alguma competição agora?
R- No momento, não. No momento, eu estou focando os treinos para a arquearia montada, porque a gente está trabalhando também com arco a cavalo.
P- O que lhe move na vida?
R- Eu gosto de umas coisas esquisitas, eu quero fazer que elas funcionem, eu quero que elas dêem certo, eu quero levar elas para mais pessoas, porque, não é porque ninguém falou que você não podia, que você não pode.
P- O que você chama de coisa esquisita?
R- Eu trabalho com arco e flecha, eu faço arquearia montada, eu já fiz combate medieval, luta de armadura, eu faço dança do ventre também.
P- Nessas atividades, você sempre tenta passar para alguém, atrair alguém?
R- Sempre. E aí a gente faz propaganda para os amigos, leva outras pessoas para fazer, divulga o negócio de todo mundo.
P- É isso que lhe faz feliz?
R- Exatamente.
P- E qual seria o seu recado para as pessoas, para viverem bem?
R- A vida adulta tem um superpoder muito incrível. Você tem os boletos para pagar? Tem, mas você também pode fazer as escolhas que deixam a sua vida mais divertida. Então o recado seria isso. Aproveitar o poder da vida adulta, de tomar a sua própria decisão e decidir pela coisa legal. Bora aproveitar coisas legais.
Mais informações: Seta Arquearia 61 981994179 Instagram: @setaarquearia