Nosso Parque da Cidade
Cilene Vieira
Pessoas 11 min de leitura
Hérnia de disco: “evite ficar sentado por muito tempo”
Elaine Wetler é educadora física, tem 53 anos, divorciada, um filho, é capixaba de Vitória, mas se considera brasiliense, pois vive na capital desde 1991. De uma família de professores de educação física, ela veio pra Brasília com 19 anos para fazer o curso de Educação Física na Universidade de Brasília – UnB, onde fez mestrado e atualmente faz o curso de saúde coletiva.
Como professora de educação física, trabalha especificamente com hérnia de disco lombar, na Centro Interescolar de Educação Física da Secretaria- CIEF de Educação, no Programa de Educação Postural: promoção, prevenção e tratamento, que agora virou um projeto de lei, o PL 907/2024, que aguarda análise de duas comissões na Câmara Legislativa para ir a plenário.
Elaine, dedica sua vida profissional à educação postural e à prevenção e tratamento da hérnia de disco na coluna vertebral. Para ela, alertar para esse grave problema de saúde, transformar a prevenção em política pública é uma paixão e uma luta de vida.
Já conhecia Elaine e nos encontramos na pista do Parque numa manhã de sábado, quando aproveitei para conversar com ela sobre hernia de disco, a importância da prevenção, tratamento, e falamos sobre o Parque, que define como um local de “conexão com o divino”. Confira essa conversa com mais uma incrível pessoa frequentadora do Parque.
Perguntas para Elaine Wetler:
P- O que seus estudos e experiência profissional dizem sobre hérnia de disco lombar?
A minha dissertação de mestrado foi um protocolo de educação postural. E aí a pessoa fazia, o antes e o depois, e eu mostrava que não existia mais hérnia de disco.
Quem tira a hérnia de disco não somos nós, profissionais. Não é o médico, não é o fisioterapeuta e não é o professor de educação física. O que acaba com a hérnia de disco são os macrófagos, as células de defesa do sistema imunológico. Então, é uma reabsorção espontânea. É do nosso sistema imunológico. Os macrófagos, fazem a fagocitose, é tipo um “come-come”. Esse conceito é importante porque as pessoas acham que o que saiu da hérnia volta, mas não volta. O que saiu é reabsorvido.
Então, por exemplo, se saiu 10%, a pessoa vai viver com 90% do disco. Se ela continuar com maus hábitos, exercícios errados, vai sair mais 10%, 80%. Até que vai chegar uma hora que vai ter colapso discal. E aí ninguém pode fazer nada. Aí é a cirurgia. São as orientações.
P- Então, a cirurgia pode ser evitada no começo de todas as hérnias de disco lombar?
R- Nem todas as hérnias são reabsorvíveis. As maiores são reabsorvidas. As menores, as que são uma protusão, nem tanto. Em termos de cirurgia, não sou eu que afirmo, é o protocolo mundial: 80%, 90% das hérnias de disco são trabalhadas no tratamento conservador. De forma conservadora. Que são as fisioterapias, os alongamentos, e as formas de descompressão da coluna.
P- A cirurgia é último recurso?
R- Só 3% a 5% é caso de cirurgia, porque a pessoa começa a ter uma perda motora muito grande.
Se a pessoa não fizer cirurgia na hora certa, ela fica com sequelas irreversíveis. Então, a cirurgia é recomendada para 3 a 5% das pessoas.
O que a gente faz? O que eu acredito, número 1, na promoção da educação postural.
Porque o desenvolvimento, o prognóstico que o médico vai te dar e eu só vou interpretar, analisar a biomecânica da coluna, a partir dos exames, e dizer como vai ser o treinamento.
Então, a gente trabalha com a prevenção. A promoção da prevenção é o que está no meu coração.
Porque a promoção é na escola, é quando a pessoa não tem doença, não tem nada.
P- De forma geral, quais as orientações para quem tem dor na coluna evitar uma hérnia de disco?
R- Primeira coisa, procurar fazer um exame, pelo menos, de raio-x para ter uma noção de qual é a estrutura da sua coluna. Um raio-x ortostático em pé. Isso aí é o número um.
Segunda, se persistirem as dores, procurar um médico e fazer uma ressonância, para ver se tem algum disco já em degeneração, que é a desidratação. Aí sim, aí o médico vai direcionar. Primeiro, fisioterapia, depois que termina a fisioterapia, um professor de educação física especializado para atender a pessoa na academia.
E a terceira dica, que é o pior, evitar ficar muito tempo sentado.
P- Isso é realmente ruim para a coluna?
R- É horrível! Porque a postura sentada, ela tira a curvatura da coluna. Imagina quem não tem curvatura, você cria uma cifose no lugar da lordose.
P- Qual é o máximo tempo que uma pessoa deve ficar sentada?
R- Ela deve ficar sentada em torno de cinquenta minutos a uma hora, e fazer pausas de cinco a dez minutos. Precisa evitar, evite ficar sentado por muito tempo.
Por isso que em 2004, lendo os artigos, a gente percebeu: o disco vai estourar, vai ter uma epidemia de hérnia de disco. Em 2004, era só ler, a comunidade científica internacional já via isso. Hoje, nós temos pelo terceiro ano consecutivo de hérnia de disco lombar com maior causa de afastamento do trabalho. Lombalgia/hérnia de disco.
E daqui a vinte anos, com essa uberização do trabalho, os jovens sendo contratados de forma PJ (pessoa jurídica), daqui a vinte anos, nós teremos um exército de sequelados.
Porque hoje as pessoas conseguem recorrer ao INSS. E daqui a vinte anos, elas vão recorrer a quê, se é tudo PJ? E eles acreditam que uma contratação PJ é melhor do que a CLT, mas a CLT te dá direito ao INSS. Agora, PJ são pouquíssimos os que reservam um dinheirinho para pagar o INSS. Daqui a vinte anos, onde estarão essas pessoas que não estão hoje no INSS, com afastamento? Onde elas estarão? Exército de sequelados.
Essa é a minha projeção para daqui a vinte anos. Como eu tinha em 2004, “o disco vai estourar,” então é essa. Com a contratação via PJ, não terão onde recorrer. E nós temos que resolver isso, porque as hérnias vão continuar.
P- Vamos falar do Parque agora. Você frequenta muito o Parque?
R- Sempre que posso. Acabei de sair de uma aula de anatomia. Estou fazendo anatomia pela terceira vez, agora nesse curso de saúde coletiva.
Quando eu saio de uma prova, quando eu saio de uma aula, eu sempre venho aqui. Eu sempre procuro vir aqui, porque aqui para mim é… É uma conexão com o divino. E aí agora a gente está ouvindo as araras. É uma conexão. Eu fico avaliando as árvores, a curvatura das árvores.
E é incrível, porque as árvores tortas são típicas do cerrado. Mas para mim, o torto são as curvaturas fisiológicas e naturais da coluna. Aí eu sempre vejo as árvores e penso nas colunas. Eu avalio as árvores como se elas fossem as curvaturas da coluna. E eu acho elas tão maravilhosas.
P- E sobre o Parque, em relação à Brasília, pra você, o que ele representa?
Olha, não se pode falar que é o pulmão, pra não desvirtuar os conceitos biológicos, mas se se fosse um corpo humano, aqui seriam os pulmões. A Esplanada seria o cérebro e aqui seriam os pulmões. E a UnB é o coração. A UnB é o coração, o Parque é o pulmão, e a Esplanada é o cérebro.
P- Elaine, o que lhe move na vida?
R-O que me move são os dois pilares. Tudo que eu faço são os dois pilares.
Impossível eu me desvincular de Deus, os meus pensamentos, impossível.
E como forma de uma gratidão a Deus, tudo que eu aprendi, eu passo para o próximo. Porque eu acharia uma covardia tudo que a vida investiu em mim, na UnB, programas sociais, universidade pública, o bom dia de uma pessoa, os neurocirurgiões que abrem as portas para mim, os meus alunos/pacientes da escola, que me dão muito carinho. Eu acharia uma covardia se eu não corresse tanto atrás, porque esse projeto de lei mesmo tem 15 anos. As pessoas falam: “mas 15 anos para conseguir uma lei, como é que você não desiste?”
É porque eu acharia o contrário, uma covardia se eu desistisse, porque eu recebo tanta coisa na vida.
P- Como você vê o futuro? Você é positiva ou é mais cautelosa?
R- Eu tento ser positiva e tento fugir dos modismos, tanto, que eu nunca tive Facebook, Instagram, Tik Tok, nunca tive isso, por que essas mídias são o oposto do Parque. Enquanto o Parque me traz bem-estar, essas mídias me trazem mal-estar e sofrimento.
Então eu sou bastante negativa em relação a isso.
Eu procuro ter uma visão positiva, mas eu sinto que esse meu jeito de viver, ele está sendo muito sufocado. E eu não sei se eu vou conseguir continuar vivendo desse jeito, sem um Instagram, sem um Tik Tok sem um Twitter eu não consigo ver isso, e isso me angustia, porque eu sei que um dia eu vou ter que ter essas coisas que eu não gosto.
P- Mas tem muita gente que está fora dessas midias, inclusive jovens, que não têm nada disso.
R- O problema é que essas pessoas que estão fora não se comunicam, porque não têm uma rede social, tem essa dificuldade A comunidade de quem está fora da mídia não existe, porque, se você tem a comunidade, então você está dentro da mídia. Grupo de WhatsApp para mim é onde as pessoas se machucam, é o oposto do Parque da Cidade.
P- Qual o seu lugar preferido do Parque?
R- Meu lugar preferido é onde tem as pessoas, ali no Estacionamento 10, porque eu conheço.
P- O que mais você gostaria de falar sobre o Parque?
R- Que as pessoas aproveitassem o momento da atividade física e desconectassem do celular.
Porque é um privilégio você sair da sua casa e vir para o Parque. É um privilégio. E agora que você está aqui, aproveite. Senão, você vai estar numa festa postando. Se você está numa festa postando, você está aproveitando menos a festa. Porque a festa aqui são as árvores, os pássaros, as pessoas caminhando, dando bom dia.
O que eu mais gosto é lá do estacionamento 10, depois que eu faço o meu social, aí eu venho aproveitar. Então, estar aqui e ficar postando, você aproveita pouco da festa, procure se desconectar.
P- E qual o seu recado para as pessoas?
R- Eu peço a colaboração da população para que esse projeto de lei, ele vire lei, porque vai beneficiar todos os servidores do GDF e a comunidade, toda a população.
É o projeto de lei 907/2024, da Câmara Legislativa.
Ele já passou em duas comissões, a comissão de saúde e a comissão de assistência social. Agora ele está na comissão de orçamento e na comissão de Constituição e Justiça, CCJ.
Então, eu preciso que os dois relatores, que os dois deputados façam relatório para ele poder ir para a plenária. Na comissão de orçamento está com Jaqueline Silva e na CCJ está com Chico Vigilante. É preciso que esses dois parlamentares façam o relatório para poder ir para a plenária.
Se as pessoas puderem ajudar falando com esses parlamentares, será muito bom.
Mais informações:
Contato: 61 999534004
Projeto de Lei 907/2024 https://www.cl.df.gov.br/-/comissao-aprova-projeto-que-combate-afastamentos-por-hernia-de-disco-entre-servidores
O Projeto de Lei nº 907/2024, de autoria do deputado Iolando (MDB), cria o Programa de Combate aos Afastamentos do Trabalho por Transtornos de Discos Lombares e Outros Discos Intervertebrais com Radiculopatia (Hérnia de Disco) no Distrito Federal. A proposta foca na saúde dos servidores públicos e na comunidade local.