Conheci Greice no Parque da Cidade, quando estava assistindo o ensaio do grupo Batalá, num sábado pela manhã. Ela estava com a filha vendendo tiaras artesanais e topou conversar comigo.
Greice Martins tem 63 anos, solteira, 3 filhas, nasceu em São Luís do Maranhão e mora em Brasília há 35 anos. Veio pra a capital em busca de melhores condições financeiras, veio sozinha ao encontro de duas irmãs que já viviam aqui e depois trouxe duas filhas adotivas para viverem com ela. Foi mãe solo da terceira. Tentou voltar quando ganhou a bebê, onde ficou 9 meses, mas não se acostumou mais na terra natal, “porque eu amei ficar aqui e amo Brasília”.
Quando mudou para a capital, a promessa era de trabalhar em um restaurante natural e, na verdade, o trabalho era de doméstica, na casa da dona do estabelecimento. Mas Greice veio pra trabalhar e assim foi passadeira, faxineira e cozinheira, profissão que adotou e exerce até hoje. Fiquei impressionada com sua energia, altivez, positividade, consciência racial, autoestima, sabedoria e amor à vida. Greice é uma pessoa espetacular. Confira nossa conversa:
Perguntas para Greice:
P- Antes de vir pra Brasília, a senhora fazia o quê no Maranhão?
R- Eu era camareira num hotel.
P- A senhora veio pra cá sem conhecer Brasília?
R- Sem conhecer, sem saber de nada.
P- E aí, o que a senhora sentiu quando chegou?
R- Aqui a gente se sente em casa. Apesar de a gente morar numa cidade satélite, a gente se sente acolhida, né? Porque aqui você se estabelece, você consegue… Mesmo sendo longe, você consegue comprar casa, você consegue comprar carro, né? Você consegue fazer um monte de coisa ao mesmo tempo.
P- Então a senhora chegou e foi morar onde?
R- Eu moro em Planaltina. Sempre morei lá.
P- E nesses 35 anos, a vida toda aqui, a senhora só ficou nove meses em São Luís, e não quer mais sair daqui?
R- Não, não. Porque não tem motivo mais. O motivo era minha mãe que morava lá, mas a minha mãe morou comigo 30 anos, ela faleceu agora em novembro. Hoje tá fazendo três meses que ela faleceu. Então assim, não tinha mais razão de ir pra lá. Eu fui algumas vezes de férias, mas assim, passava 10 dias, 15 dias, e depois que a minha mãe veio morar pra cá, eu fiquei 14 anos sem aparecer lá. Eu fui agora em 2019, e não fui mais.
P- E como é a vida lá em Planaltina? O que a senhora faz?
R- A vida em Planaltina é muito boa, é uma cidade pacata, uma cidade antiga, e todo mundo se conhece, a maioria se conhece, vive uma vida bacana com todo mundo, nos ajudamos. Eu trabalho com comida, eu cozinho, faço pronta entrega de proteínas, mas eu entrego aqui no Plano Piloto.
P- A senhora vem pra cá todo dia?
R- Não, eu mando o cardápio pro pessoal, e aí o pessoal escolhe as porções, o que vai querer, os pratos, e eu venho entregar, às vezes, por semana, de 15 em 15 dias. Mas eu também trabalho nas residências como personal chef, vou lá cozinhar pra 30 dias.
P- Qual é a sua especialidade?
R- Não tenho especialidade, faço um pouco de cada coisa. Faço um pouco de comida natural, um pouco de comida vegana, comidas regionais também.
P- O que a senhora mais gosta de cozinhar?
R- Tudo, gosto de tudo, porque quem gosta de cozinhar, não tem aquela coisa de só cozinhar isso ou aquilo. Pra mim, cozinhar é a arte. Então quando eu tô cozinhando, o que vier pra cozinhar, eu tô feliz da vida cozinhando.
P- Então, hoje, a senhora trabalha por conta própria?
R- Trabalho, já sou aposentada, mas eu continuo trabalhando.
P -A senhora se aposentou como?
R- Eu me aposentei porque eu trabalhei em algumas empresas antes. E sempre paguei o INSS, e hoje eu já sou aposentada. Eu me aposentei em 2022, e tô até agora, feliz. Mas eu continuo trabalhando. É como se eu não estivesse nem aposentada, porque a aposentadoria não te dá aquela estabilidade, você tem que continuar a trabalhar duro pra poder sobreviver, pra ter uma vida melhor.
P- A senhora é uma pessoa saudável?
R- Sou, sou muito, graças a Deus.
P- A senhora faz algum tipo de exercício?
R- Olha, no momento eu faço caminhada, todo dia, de manhã cedo eu faço uma hora de caminhada. E me alimento bem, a gente come muita comida saudável, né? Sem gordura, sem muita fritura, come fruta. A fruta que a gente mais gosta de comer lá em casa é banana.
Porque a fruta que é mais completa, tem potássio, tem aquela coisa toda. Então a gente vai de fruta. Tem mangueira no quintal e a gente guarda no freezer, acerola.
P- A senhora se considera uma pessoa feliz?
R- Sim, eu sou feliz. Porque eu acho que a felicidade você constrói junto com todo mundo.
Com os filhos, com a família, com os amigos. E quando não tem a família, você tem a família de coração. Tipo a Adriana que passou agora aqui, posso dizer que ela é da minha família de coração.
Então, a gente está sempre junto, os amigos estão sempre preocupadas com a gente. Então assim, quem tem amigo é feliz. Porque não falta o carinho, o amor. Não está sozinho. Eu estou solteira, mas eu nunca estou sozinha.
P- A senhora é uma mulher muito bonita…
R- Eu sou.
P- A senhora ficou solteira por que quis mesmo?
R- Sim, porque quando eu me separei do pai da minha filha (eu fiquei com ele quatro anos), eu estava com dois meses de grávida. E eu me separei dele e continuei. Porque não houve casamento, era uma relação estável, mas ele ficava na casa dele e eu ficava na minha. Era um namoro mais aconchegante, aí não deu muito certo. Porque, como eu sempre fui muito trabalhadeira, eu não aguentava muito aquela vida que ele levava de estar sempre naquele lugar, sem querer melhorar, sem querer pegar no pesado pra fazer as coisas. Porque a gente tem que ter uma estabilidade pra quando você fica mais idosa. A gente morava de aluguel. Agora eu tenho minha casa. A casa é o bem maior que a gente tem pra quando a gente fica idoso. Então, eu preferi ficar só, e não casei com outro, porque eu tinha três filhas meninas e trabalhava pra cá pro Plano Piloto, e eu tinha muito medo, porque a viagem de Planaltina para o Plano é muito longa, e eu tinha muito medo de estar com alguém e aqui na minha frente dizer que me amava e por detrás vinha pegar minhas meninas, passar a mão. Foi proteção. Mas eu não me arrependo de estar só.
Eu tive dois namorados que ficavam na casa deles e eu fiquei na minha. A gente namorou, mas não deu certo. Então, chega uma hora que você fica mais feliz com a sua própria companhia. Sabe?
P- Eu falei que a senhora é uma mulher muito bonita e , pelo turbante, dá pra ver que a senhora tem uma afirmação em relação à sua raça. A senhora tem alguma luta da senhora nessa questão da raça negra no Brasil? Alguma coisa que a senhora já fez ou atua hoje?
R- Não, por enquanto não. Mas quando eu morava em São Luís, eu fazia parte do Centro de Cultura Negra. Porque você tem que mostrar pra que você veio também. Você não tem que ter preconceito com nada. Com ninguém. E é isso que eu não tenho. Esse preconceito que as pessoas têm com o branco, com o negro. Porque o negro também tem preconceito com o próprio negro. Infelizmente. Mas isso eu já não tenho. Eu tiro tudo de letra.
P- A senhora acha que tem uma consciência de raça?
R- Tenho, sempre tive. Até porque, eu me acho linda.
Todo dia que eu acordo de manhã, que eu me olho no espelho, e se não tá do jeito que eu acho que tem que tá, eu vou ficar do jeito que eu acho que tem que tá. A minha roupa, o turbante, que tá combinando com isso, com aquilo. Entendeu?
P- E essa sua forma de vestir, de se preparar, é sempre com raízes na sua cultura negra, africana?
R- Sim. Antes eu usava muita trança no cabelo.
P- Nunca tentou alisar, parecer branca?
R- Quando eu era novinha, adolescente, você faz esse tipo de coisa. Porque você sabe que você é negra, mas você não se aceita muito. Porque as pessoas fazem com que você não se aceite.
Elas querem alisar o seu cabelo, elas querem fazer que você seja outra pessoa. Mas quando você começa a ficar adulta, você começa a ver que você não tem que fazer o que as pessoas querem, você tem que fazer o que você se sente melhor. O que você se sente bem. É aquilo que é bom pra você. Então você tem que dormir tranquila, acordar tranquila e deixar Deus agir com o resto. Muitas vezes eu passei por muitas dificuldades na vida, mas eu falo: vou dormir, amanhã Deus resolve. E eu me levanto, tomo o banho e sigo em frente.
P- O que é que lhe move na vida, no que é que você acredita pra manter a sua vida?
R- O que eu acredito na minha vida, pra continuar vivendo bem, é o amor que eu tenho por mim, é a minha possibilidade de sobreviver, é os amigos que eu tenho, e a própria vida.
Você tem que amar a vida. A vida não é só dificuldade. A vida é boa, a vida é bela, eu quero viver.
Eu quero ficar bem velhinha também. Eu quero ser igual à minha mãe. Minha mãe faleceu com 95 anos e não tinha ruga. E gostava de rua, era bela, sabe? Então, assim, eu me amo tanto, eu me amo tanto, que as vezes isso faz um pouquinho de ciúme nas pessoas. Porque as pessoas não querem se amar, às vezes. Eu me amo muito e amo as pessoas também. E isso me dá motivo pra continuar, pra viver bem, sabe? Você não tem que ficar só vendo o passado e nem chorando.
Minha mãe faleceu, mas eu vou continuar. Eu vou construir uma nova história daqui pra frente, sem mãe. Eu e a minha filha, que agora é só nós duas, porque as outras foram morar em outro estado. Então é eu e a Carol naquela casa e a gente vai continuar. E a gente já está continuando.
P- A senhora segue alguma religião?
R- Eu sou católica. Eu sou aquela católica que acredito em Deus. Acredito muito. Mas não sou beata de igreja. Eu vou, assim, quando eu estou com vontade, eu vou na igreja. Mas quando eu não estou com vontade, eu tenho uma conversa com Deus. Eu acordo e converso com Ele. Porque Ele é o meu melhor amigo. Então eu acordo de manhã e falo: Deus, olha, hoje eu estou assim, me dê força pra me levantar dessa cama. Aí Ele me levanta.
P- A senhora estudou?
R- Eu estudei até a quinta série. Mas o que eu aprendi foi porque eu quis, porque eu quero e porque eu posso. Eu fiz alguns cursos também, né?
P- A senhora aprendeu a cozinhar como?
R- A minha mãe era cozinheira e minha tia também. Uma das minhas tias é cozinheira. Eu tenho uma tia que é doceira. Faz doce de casamento. O meu primo, filho dela, é igual à minha tia. Então, um de cada família nasceu igual a sua própria mãe. Eu faço tudo que minha mãe fazia.
P- A senhora herdou esses conhecimentos…
R- Tudo da minha mãe.
P- E a senhora tem algum sonho pro futuro?
R- Eu tenho um sonho. O meu melhor sonho é viver plenamente. Ser feliz, sorrir com as pessoas, amar aquilo que é bom, que é gostoso e ajudar o próximo. Eu sempre faço isso.
P- E qual o recado que a senhora daria para as pessoas em geral?
R- Eu daria um recado para as pessoas, que as pessoas são muito elas, individuais. Esqueça um pouco o celular. Olhe mais pra você. Olhe mais pras pessoas. Converse mais com as pessoas.
Faça reuniões na sua casa pra convidar os seus amigos. Pra comer, pra beber. Não faz só aquela coisa do restaurante, que as pessoas aguardam e cada um paga o seu. Você fica ali no celular. Lá na minha casa, não. Eu convido as pessoas pra ir pra minha casa e eu faço tudo. É o prazer de receber. bem as pessoas. E das pessoas estarem bem também com as pessoas.
Então, as pessoas, hoje, elas não querem te ajudar, elas não querem fazer, elas querem receber. Mas elas não estão mais preparadas, não são mais aquelas pessoas pra te dar. Compartilhar direitinho com as pessoas. Isso é muito bom. Eu tô aqui pra isso. a gente veio aqui pra ajudar o outro, o próximo. Se você não fizer isso, como é que você vai viver? Você vai se isolar ? Porque minha mãe tá na cadeira de rodas, eu vou ficar ali trancada dentro de casa? Não vou mais sair? Não vou mais chamar ninguém? Não vou mais ser feliz? Vou ficar amargamente ali? Tem gente que fica assim. Eu não.
O recado é: seja feliz! E aproveite a vida hoje. Porque amanhã, só Deus sabe se você vai estar aqui.
Então, o ontem você já viveu. Foi muito bom. E o hoje tá sendo melhor ainda do que o ontem. Porque eu estou viva e quero viver mais ainda. E amanhã eu vou estar aqui, de novo.
P- A senhora já conhece o Parque, costuma vir aqui?
R- Conheço, de vez em quando eu venho.
Quando as meninas eram pequenas, eu vinha muito. Pra elas brincarem no parque, pra andar, pra tomar banho na piscina. Porque o ar livre te ajuda a recuperar a tua força, as tuas energias.
E fica saudável. As crianças gostam. Você também gosta, entendeu? E eu sempre fui aquela mãe de estar junto das crianças. E não estar comendo coisa fora. Eu acordava cedinho e fazia um lanche gostoso.
P- A senhora já fez piquenique aqui?
Muitos. Trazia fruta, pão, suco. Porque essa minha filha, ela não gosta muito de enlatados, ela gosta de coisa natural. É suco de fruta, de laranja, é banana amassada, com mel, com aveia. É banana no pote, açaí…
P- E o que a senhora acha do Parque?
R- Eu acho que o Parque, em si, ele é muito bom. Então, assim, as vezes é a questão dos banheiros, o que não é muito bom. Mas, assim, de alegria, de convivência… porque as pessoas que vêm no Parque são aquelas pessoas também que querem estar junto com as outras. Então, vale muito a pena você vir pro Parque. E sempre que a gente pode, eu venho com a Carol. A gente fica conversando, sentada. A gente vem ver o grupo das meninas do Batalá. Eu não consigo participar do Batalá porque eu tenho um trabalho que não é estável, como elas. Eu trabalho sábado, trabalho domingo, trabalho feriado, a hora que chamam para cozinhar, não tem dia e nem hora. Qualquer hora é hora para mim. É sábado, é domingo, é feriado. É tudo, todo o tempo.
P- E em relação a Brasília, o que a senhora acha que o Parque significa?
R- Olha, o Parque significa tudo aqui. Porque o Parque é do tamanho da Asa Sul. É uma cidade.
Passa carro, passa gente, passa tudo aqui no Parque. E o Parque te dá uma estabilidade também, de natureza. Porque Brasília é uma coisa de concreto, mas quando você vem para o Parque, você esquece e você fica achando foi para um outro estado. Você não está em Brasília, você está em outro lugar, muda tudo. O parque, as árvores, tudo dá convivência para todas as famílias.
P- É um prazer muito grande conhecer a senhora. A senhora tem mais alguma coisa que gostaria de falar?
R- O que eu gostaria de falar é que viva hoje. Viva bem. Ame mais. Ame tudo que você puder amar. O teu próximo, como a ti mesmo. Isso é muito bom. E isso ti leva para todos os lugares.

