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Curadoria especial para filmes no DF

Nos últimos anos, o Brasil viu o fechamento de diversas salas de cinema. A pressão do mercado, os custos operacionais e a concorrência com o streaming deixaram esse segmento à beira da extinção em várias capitais. Durante a pandemia, segundo a Agência Nacional do Cinema (ANCINE), quase metade das salas de cinema encerraram as suas atividades. No entanto, no ano passado, o segmento recuperou o fôlego e conquistou o recorde de 3.509 salas de cinema em funcionamento no país.

A forma como a população consome cultura mudou radicalmente na última década, cada vez mais imediata, digital e personalizada por algoritmos. Nesse cenário, os cinemas, especialmente os voltados à produção independente e ao cinema de arte, precisaram se reinventar para manter relevância e público. Em Brasília, o Cine Cultura se destaca como um dos vetores que fortalecem essa indústria.

Fundado há treze anos com o objetivo de oferecer uma programação de alta qualidade, o Cine Cultura se consolidou como uma referência na capital. “Somos um espaço agradável, confortável, bonito e com qualidade de exibição e de som, que não fica a dever a nenhum cinema do Brasil”, indica Nilson Rodrigues, o diretor.

De acordo com o profissional, o local conta com a melhor programação da cidade. Isso se deve ao cuidado com os conteúdos, que são avaliados individualmente. “Analisamos o que as distribuidoras programam para lançamentos em salas de cinema e estabelecemos critérios. Filmes premiados nos melhores festivais do mundo têm prioridade, assim como os filmes brasileiros. E também não abrimos mão da diversidade. Nosso lema e o nosso propósito é exibir os melhores filmes, de todo o mundo, em todos os gêneros”, explica.

A seleção de títulos prioriza filmes com reconhecimento em grandes festivais internacionais, o que garante ao público acesso a obras consagradas pela crítica especializada. Cannes, Veneza, Berlim, San Sebastián, Toronto, Londres, Guadalajara, Havana e até mesmo o Oscar estão entre as principais vitrines observadas pela curadoria. Ao acompanhar de perto esse circuito, o Cine Cultura assegura que sua programação reflita o que há de mais relevante e inovador na produção cinematográfica contemporânea, muitas vezes apresentando filmes que não chegam às salas comerciais tradicionais.

O compromisso com o cinema nacional também é uma prioridade. “Estamos entre os cinemas que mais exibem filmes brasileiros”, afirma Nilson. Ele destaca ainda a atenção dedicada à produção local: “Os brasilienses também estão sob nosso olhar e grande parte da produção local passa no Cine Cultura”. Ainda assim, ele aponta um desafio recorrente: muitos filmes produzidos no Distrito Federal não contam com distribuidora, o que inviabiliza sua exibição comercial, mesmo quando há interesse da curadoria.

Essa atenção à diversidade e à representatividade também se reflete na agenda cultural do espaço, que vai além das sessões regulares. O Cine Cultura é palco de importantes festivais e mostras nacionais e internacionais, como o Brasília International Film Festival (BIFF), o 8½ Festa do Cinema Italiano, o Festival do Cinema Italiano e o Festival Varilux de Cinema Francês, ampliando ainda mais seu papel como referência em cinema de qualidade e pluralidade.

Entre os momentos marcantes na história do Cine Cultura, o diretor ressalta a exibição do documentário sobre a luta pela liberdade do Julian Assange, fundador do site WikiLeaks, acusado de conspiração para obter e divulgar informações de defesa nacional. Na sequência, foi realizado um debate com seu pai, John Shipton. “Foi um dia inesquecível”, recorda. Outro momento especial para Nilson envolveu a presença de Ailton Krenak, liderança indígena, filósofo, escritor e ativista, que realizou uma palestra no Cine Cultura.

Resistência e persistência

Apesar de sua atuação consolidada no circuito cultural brasiliense, o Cine Cultura enfrentou diversos desafios históricos, muitos deles relacionados à ausência de políticas públicas estruturadas para o setor. Durante a pandemia, o impacto foi direto: “ficamos 18 meses fechados”, relembra o diretor. A dificuldade, no entanto, não se limitou ao contexto sanitário. Segundo ele, mesmo após a crise, faltou o repasse de recursos essenciais.

A falta de incentivo ao setor de exibição se soma a uma ausência mais ampla de políticas voltadas à formação de público. Para Nilson, não basta abrir as portas: é preciso investir em ações educativas e formativas. “Para se formar público é preciso ter persistência, fazer debates dos filmes e trabalhar com escolas, alcançando os estudantes. Sem a formação de plateias não se renova o público. Pena que as políticas públicas dos governos não enxergam isso. Só vai ao cinema quem criou o hábito”, destaca.

Três perguntas para Nilson Rodrigues, diretor do Cine Cultura:

Houve alguma mudança no perfil do público ao longo dos anos?

O público está mais exigente. E não podemos nutrir ilusões quanto ao interesse do público nos dias de hoje,  pois há muitas ofertas em todas as plataformas. Para levar o público para ver um filme no cinema, é preciso duas coisas: um bom filme e propaganda eficiente e de grande alcance. Sem isso não se pode ter ilusões. Não há mágica.

Quais estratégias o cinema tem adotado para manter o interesse do público?

Divulgamos nossa programação nas redes sociais e buscamos ser eficientes. Também temos um público fidelizado, com o qual conversamos semanalmente por e-mail e WhatsApp, informando sobre nossa programação.

Quais são os planos futuros para o Cine Cultura?

Fizemos recentemente  uma grande reforma e agora temos duas galerias, uma de arte e uma de fotografia. Batizamos a galeria de arte de Francisco Galeno e a de fotografia de Luis Humberto, dois ícones da nossa cultura.

Gabriella Collodetti

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Gabriella Collodetti

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