Croácia minou o Brasil no meio de campo. Foto: Gabriel Bouys/AFP
Uma declaração do auxiliar técnico de Tite na véspera da partida contra a Croácia, na sala de conferências do Centro de Mídia da Fifa no Qatar Convention National Centre, onde todas as entrevistas coletivas pré-jogo são realizadas, foi para mim a senha de que o Brasil corria seriamente o risco de ser eliminado pelos atuais vice-campeões da Copa do Mundo.
Tite dizia assim…
“A qualidade técnica é muito grande no trio de meio-campistas da Croácia”, elogiou.
De repente, foi interrompido pelo assistente Cléber Xavier, sentado à direita dele.
“Nossa forma de dar ritmo não é só a posse, fazer a bola circular mais rápido ou verticalizar, é também na agressividade de marcação. Um bom trio de meio onde passa o jogo da Croácia. Vamos fazer a mesma marcação que fizemos contra outras seleções, forte. É o jeito que gostamos de jogar, temos que manter o nosso jogo. Sabemos como eles funcionam, vamos manter o nosso jogo”, assegurou Cléber Xavier.
“Manter o nosso jogo” é o erro mais grave cometido pela Seleção na série de quatro eliminações contra europeus em 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. Nossos treinadores pararam no tempo. Acham que estamos em 2002, quando Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu e Roberto Carlos causavam uma tormenta no treinamento dos adversários.
O futebol mudou. Comete erro grave quem pensa na imposição de um estilo em vez de planejar os confrontos jogo a jogo. Um dos cotados à sucessão de Tite, o português Abel Ferreira ganhou títulos assim contra Renato Gaúcho na Copa do Brasil de 2020 e na Libertadores de 2021; e diante de Cuca na competição continental de 2020.
Tite desembarcou no Catar convicto de que o sucesso do Brasil passava pelos pontas, extremos, externos desequilibrantes ou perninhas rápidas como ele mesmo batizou. A estratégia era interessante, sim, mas demandava alternativas para duelos mais cascudos.
Futebol se ganha no meio de campo. Estava claro que o da Croácia era superior ao do Brasil — carente de um Modric no setor criativo da Seleção desde a aposentadoria de Zico. O que, então, Tite e seus auxiliares poderiam ter feito para combater o ponto forte croata?
Era necessário abrir mão de um ponta. Tite precisava se adaptar ao jogo. Daí a gravidade, para mim, da declaração de Cléber Xavier ao dizer “sabemos como eles funcionam, vamos manter o nosso jogo”. Raphinha fez péssima Copa do Mundo. Era o nome a ser sacado. Tite poderia usar a vaga para fortalecer o meio de campo. Minha opção seria Fabinho.
O jogador do Liverpool fez ótima partida contra Camarões. Com ele e Casemiro no meio de campo, o Brasil teria mais chance de competir com o excelente trio de meias elogiadíssimo por Tite formado por Modric, Brozovic e Kovacic. Regidos pelo maestro Modric, eles controlaram o ritmo da partida como bem quiseram. Sim, o Brasil agrediu de acordo com seu estilo, mas o confronto pedia outro nível de planejamento tático.
Um meio de campo reconfigurado no 4-4-2, por exemplo, equilibraria o jogo no setor mais importante de qualquer time. Exemplo: Casemiro e Fabinho no centro na marcação, Lucas Paquetá na direita e Vinicius Junior na esquerda. Na frente, Neymar e Richarlison. Tite passaria a ter dois e não apenas um marcador nato. Casemiro ficou sobrecarregado na maior parte do confronto e o meio de campo da Croácia engoliu o Brasil. Apegados ao sistema, Tite e seus auxiliares sofreram a maior derrota em seis anos e meio de trabalho.
Entre outros tantos pré-requisitos da CBF, um deles deve ser a contratação de um técnico capaz de pensar partidas também em função do adversário. Carlos Alberto Parreira, Dunga, Luiz Felipe Scolari e Tite não repensaram seus times contra França, Holanda, Alemanha, Bélgica e Croácia. Todos foram eliminados por adversários europeus que tinham excelentes meias. Zidane, Sneijder, Toni Kroos, De Bruyne e Modric.
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