A Copa do Mundo condensou 15 anos da história da Bélgica em uma única substituição. Aos 26 minutos do segundo tempo, Thibaut Courtois, 34 anos, sentiu uma lesão na coxa esquerda e deixou as quartas de final contra a Espanha. Deu lugar a Senne Lammens, 24, apontado havia tempos como o herdeiro da camisa 1. Minutos depois, Mikel Merino aproveitou uma falha do estreante para marcar o gol da vitória espanhola por 2 x 1 e garantir à Espanha uma vaga na semifinal pela primeira vez desde o título inédito de 2010, na África do Sul.
Nem toda sucessão espera o momento ideal.
Lammens não entrou apenas para substituir um goleiro. Pisou no gramado para assumir as luvas de um dos grandes nomes da posição no futebol mundial. Não por acaso, a primeira grande noite com a camisa da Bélgica terminou sob o peso de uma responsabilidade experimentada por poucos goleiros: substituir Courtois em uma Copa do Mundo.
A imagem da troca de guarda ajuda a explicar o momento do futebol belga. Kevin De Bruyne e Romelu Lukaku ainda estavam em campo, resistindo como os últimos expoentes da geração que encantou a Europa na década passada. Courtois, porém, foi o primeiro deles a ser vencido pelo tempo nesta edição. Não por um drible, nem por um chute indefensável, mas por uma lesão. Foi vencido pela dor.
A chamada geração de ouro parecia destinada a mudar a história do país. Courtois, Kompany, Vertonghen, Alderweireld, Witsel, De Bruyne, Hazard e Lukaku formaram um elenco quase sempre entre os favoritos em qualquer torneio. O auge veio com o terceiro lugar na Copa da Rússia, em 2018. Naquele Mundial, eliminou o Brasil nas quartas de final antes de cair diante da França, futura campeã.
Faltou o título. Poucas seleções permaneceram por tanto tempo entre as grandes forças do futebol mundial sem conquistar um grande torneio.
Aquela seleção produziu alguns dos melhores jogadores de uma época. Liderou o ranking da Fifa por quase dois anos, de agosto de 2021 a fevereiro de 2022; e depois de julho de 2020 a fevereiro de 2022; e tornou a Bélgica presença obrigatória entre as candidatas às grandes competições. Mas descobriu o que tantas outras gerações extraordinárias aprenderam antes: talento não garante troféus.
Courtois talvez seja o maior símbolo dessa contradição. Foi protagonista no Atlético de Madrid, campeão de tudo pelo Chelsea e pelo Real Madrid, eleito o melhor goleiro da Copa de 2018 e protagonista de atuações de almanaque na história da Liga dos Campeões. Com a seleção, porém, o currículo pode ter sido encerrado sem a Copa.
Se De Bruyne era o cérebro e Hazard o rosto mais carismático da geração belga, Courtois foi a última trincheira. Durante mais de uma década, transformou defesas difíceis em rotina e ofereceu à Bélgica a segurança de quem entrava em campo sabendo ter um dos melhores goleiros do mundo atrás da linha da bola. Foi também um dos jogadores mais regulares daquela geração. A lesão em Los Angeles não mudou esse legado. Apenas lembrou que nem mesmo os gigantes escapam da passagem do tempo.
A entrada de Lammens lembrou que nenhuma geração é eterna.
Formado no Club Brugge e hoje goleiro do Royal Antwerp, o sucessor tem idade suficiente para ter crescido tendo Courtois como referência na posição. Herdar o posto seria um desafio em qualquer circunstância. Fazê-lo no mata-mata de uma Copa do Mundo, diante da Espanha, transformou a transição em um rito de passagem brutal.
A falha no gol de Merino não define a carreira de Lammens. Talvez nem seja lembrada daqui a alguns anos. Mas ficará registrada como o lance que simbolizou uma mudança inevitável.
As grandes seleções sobrevivem porque sabem substituir os ídolos. A Itália trocou Buffon por Donnarumma. A Alemanha passou de Kahn para Lehmann e depois a Neuer. A Espanha deixou Casillas para trás antes de encontrar Unai Simón. A diferença é que, na Bélgica, a sucessão aconteceu de forma abrupta, provocada por uma lesão em pleno mata-mata de uma Copa do Mundo.
Talvez De Bruyne e Lukaku resistam por mais algum tempo. Quem sabe a próxima geração encontre novos protagonistas. Mas naquela tarde em Los Angeles, quando Courtois caminhou lentamente para o banco e Lammens correu para o gol, a Bélgica descobriu que sua geração de ouro começava, enfim, a pertencer mais à memória do que ao futuro.
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