França faz na Copa de 2026 o que o Brasil deveria ter feito em 2006

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Cobri três jogos da França nesta Copa. Cada vez que deixo o estádio, fica a mesma impressão: pode até ser cedo — como lembra a canção do Legião Urbana —, mas a seleção de Didier Deschamps joga como candidata real ao título.

No entorno do MetLife Stadium, palco da vitória por 3 x 0 sobre a Suécia e sede da final em 19 de julho, a sensação é de uma França marcada pela liberdade de expressão em campo. Mbappé, Olise, Dembélé, Barcola e companhia atuam com leveza rara. Deschamps observa tudo com um sorriso contido, como quem assiste a uma obra em andamento.

A Estátua da Liberdade, presente francês entregue a Nova York no século 19, parece ecoar o momento da equipe: uma seleção finalmente livre de amarras.

O paralelo inevitável leva ao Brasil de 2006.

Doze anos após o tetra conquistado em 1994 por Carlos Alberto Parreira, o técnico retornou à Seleção disposto a mudar completamente sua imagem. Se antes havia pragmatismo, agora havia um elenco considerado um dos mais talentosos da história: Cafu, Roberto Carlos, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo formavam uma constelação. No banco, ainda estavam Robinho, Juninho Pernambucano e Fred…

O título da Copa das Confederações de 2005, com goleada por 4 x 1 sobre a Argentina, reforçou a ideia de que aquele time estava pronto para encantar o mundo. Mas a Copa de 2006 expôs outra realidade: falta de equilíbrio, excesso de confiança e um talento que não encontrou organização suficiente para se sustentar.

A eliminação diante da França, nas quartas de final, ficou marcada como um dos maiores desperdícios da história recente do futebol brasileiro. Uma cobrança de Zidane para Henry bastou para encerrar o ciclo de uma geração que poderia ter ido mais longe.

A comparação com Deschamps não é gratuita. Campeão mundial em 2018, ele foi acusado de travar uma geração francesa repleta de talento. Em 2026, parece ter ajustado o eixo: menos controle, mais liberdade. O resultado é uma equipe capaz de combinar maturidade competitiva com improviso ofensivo.

Em 1886, a Estátua da Liberdade foi inaugurada em Nova York como presente da França aos Estados Unidos, celebrando a independência americana e a aliança entre os dois países. Cento e quarenta anos depois, o símbolo parece dialogar com a seleção francesa: uma equipe solta, livre, quase sem correntes.

Deschamps se aproxima do fim da trajetória como técnico da França com a sensação de estar concluindo sua obra mais bem resolvida. Liberdade para jogar, para criar, para arriscar. Um time que não quer apenas vencer — deseja marcar época.

Em 2006, o Brasil perdeu a chance de transformar talento em era. Em 2026, a França joga como se soubesse exatamente o preço daquele erro.

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Marcos Paulo Lima

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Marcos Paulo Lima
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