New Jersey — O Canadá viveu neste domingo um dia de almanaque. A vitória por 1 x 0 sobre a África do Sul garantiu a inédita classificação às oitavas de final da Copa do Mundo e confirmou Stephen Eustáquio como o cérebro da melhor geração da história do futebol canadense. Um lembrete a quem insiste em chamar o sucesso canadense de zebra: a seleção chegou às semifinais da Copa América de 2024, eliminou a Venezuela nas quartas de final e só caiu diante da Argentina, futura bicampeã continental e então campeã mundial.
Em uma seleção acostumada a atrair os holofotes pela velocidade de Alphonso Davies e pelos gols de Jonathan David, foi o camisa 7 quem comandou o momento mais importante da história do futebol do país. Não necessariamente na súmula, mas em cada movimento da partida. Eustáquio controlou o ritmo, organizou a saída de bola, distribuiu o jogo e ajudou a administrar a tensão de um duelo valendo mais do que uma vaga na fase seguinte.
Quando o apito final confirmou a classificação, o Canadá celebrava um feito inédito. E o principal responsável por transformar uma seleção promissora em uma equipe madura e competitiva estava mais uma vez no centro de tudo. A atuação contra os sul-africanos foi apenas o capítulo mais recente de uma trajetória impressionante.
Stephen Eustáquio nasceu em Leamington, na província de Ontário, filho de imigrantes portugueses. Criança, mudou-se com a família para Portugal e cresceu nos Açores, na Ilha Terceira. Lá, aprendeu a jogar futebol, construiu a formação esportiva e desenvolveu a identidade que o acompanha.
A ligação com Portugal era tão forte que ele chegou a defender as seleções de base do país e vestiu a camisa da equipe sub-21. Durante anos, parecia natural imaginar a carreira internacional representando as cores lusitanas. Em 2019, tomou uma decisão que mudaria sua vida e a história recente do futebol canadense: escolheu defender o país onde nasceu. O Canadá ganhava um meia. O futuro mostraria que estava recebendo um líder.
Nem sempre os protagonistas são os jogadores midiáticos. Eustáquio tem uma relevância revelada nos detalhes. É quem recua para iniciar a construção das jogadas. Oferece linhas de passe aos defensores. Acelera ou desacelera o jogo de acordo com a necessidade da equipe. Encontra os espaços quando os adversários fecham os caminhos.
Em uma seleção moldada pela intensidade do técnico Jesse Marsch, o camisa 7 funciona como um metrônomo. É o encarregado de dar equilíbrio ao caos. Muitos observadores do futebol canadense o consideram o jogador mais difícil de substituir no elenco. Davies pode decidir em uma arrancada. Jonathan David, dentro da área. Eustáquio faz o Canadá jogar.
A carreira poderia ter seguido um rumo completamente diferente. Em 2018, poucos minutos após estrear pelo Cruz Azul, do México, Eustáquio sofreu grave lesão no joelho. O problema interrompeu um dos momentos mais promissores da trajetória e o obrigou a enfrentar um longo período de recuperação. A experiência o transformou.
Durante meses, Eustáquio precisou reconstruir a carreira praticamente do zero. O processo fortaleceu a reputação de profissional disciplinado e resiliente. Quando voltou aos gramados, retomou a evolução até alcançar o futebol europeu de alto nível e consolidar-se no Porto. Hoje, é um dos jogadores mais respeitados do elenco canadense justamente pela capacidade de superar obstáculos.
Poucos jogadores representam tão bem a diversidade do Canadá. Eustáquio fala português fluentemente, mantém fortes vínculos com os Açores e construiu toda a formação futebolística em território lusitano. Ao mesmo tempo, tornou-se um dos principais símbolos de uma seleção formada por atletas de diferentes origens culturais.
A própria trajetória ajuda a explicar o estilo de jogo. A disciplina tática adquirida em Portugal se mistura à intensidade física e à competitividade características do futebol dos EUA. O resultado é um meia moderno, capaz de organizar o jogo sem renunciar à combatividade.
Embora nem sempre use a braçadeira de capitão, poucos jogadores exercem tanta influência sobre o grupo. Nos treinamentos, é uma das vozes mais respeitadas do elenco. Nas partidas, orienta posicionamentos, corrige movimentos e funciona como uma extensão do treinador dentro de campo.
Jesse Marsch costuma confiar a Eustáquio a missão de traduzir as ideias para os companheiros durante os jogos. Não é coincidência que os melhores momentos do Canadá nos últimos anos tenham acontecido com o camisa 7 em alto nível.
A classificação às oitavas ficará registrada no almanaque por causa do resultado contra a África do Sul. Mas a construção desse momento começou muito antes, quando um garoto nascido no Canadá e criado nos Açores decidiu trocar a possibilidade de defender Portugal pelo desafio de ajudar a desenvolver o futebol de seu país natal.
Contra a África do Sul, o Canadá alcançou a maior conquista em Copas do Mundo. Mais uma vez, a assinatura estava nos pés de Stephen Eustáquio. Ele não marcou o gol da classificação. Fez algo talvez ainda mais importante: organizou o caminho até ela. Em um esporte obcecado pelos protagonistas da última bola, o Canadá avançou graças ao homem responsável pelo primeiro passe.
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