FBL-WC-2026-MATCH66-URU-ESP Uruguai cai na fase de grupos: abstinência de título desde 1950. Foto: Carl de Souza/AFP Uruguai cai na fase de grupos: abstinência de título desde 1950. Foto: Carl de Souza/AFP

Personagem do Dia 16: Marcelo Bielsa, o arquiteto do caos do Uruguai

Publicado em Esporte

New Jersey — Marcelo Bielsa nunca foi um técnico de meios-termos. Ou é celebrado como um revolucionário capaz de mudar a forma de jogar de uma equipe, ou questionado por levar suas convicções ao limite. No Uruguai, viveu as duas versões do próprio personagem. Chegou para liderar uma transformação histórica da Celeste. Sai da Copa do Mundo como o arquiteto de uma obra que desmoronou antes de ficar pronta.

 

A derrota para a Espanha apenas encerrou um processo de desgaste que já havia começado muito antes. O Uruguai foi eliminado sem conseguir justificar o status de candidato às fases decisivas. Mais do que perder para uma das favoritas ao título, chamou a atenção a incapacidade de construir uma campanha consistente desde a fase de grupos, marcada pelos empates contra Cabo Verde e Arábia Saudita, resultados que comprometeram o caminho da seleção no torneio.

 

Bielsa também não pode recorrer ao argumento da falta de matéria-prima. Poucos treinadores receberam um elenco tão qualificado. A Celeste tinha Federico Valverde como líder técnico e emocional, Manuel Ugarte e Rodrigo Bentancur formando um dos meios-campos mais competitivos do futebol internacional, Ronald Araújo comandando a defesa, Darwin Núñez como referência ofensiva e uma nova geração representada por Facundo Pellistri, Maximiliano Araújo e outros jogadores acostumados às principais ligas da Europa.

 

Era um grupo capaz de competir com qualquer adversário. Faltou fazê-lo funcionar como equipe.

 

A proposta de Bielsa era clara desde o primeiro dia: recuperar o protagonismo do Uruguai por meio de um futebol agressivo, intenso e vertical. A ideia seduziu dirigentes, torcida e boa parte da imprensa. Durante as Eliminatórias, houve momentos em que parecia ter encontrado o caminho. Na Copa, porém, as virtudes deram lugar aos defeitos. A intensidade virou ansiedade. A pressão alta abriu espaços. A coragem ofensiva perdeu equilíbrio. E a convicção do treinador transformou-se em rigidez.

 

Os problemas não ficaram restritos ao campo. A relação desgastada com parte do elenco, as críticas públicas ao ambiente da seleção e a sensação de distanciamento entre comissão técnica e jogadores alimentaram uma crise silenciosa. Em vez de unir uma geração promissora, Bielsa terminou cercado por questionamentos sobre sua capacidade de gestão.

 

Esse talvez seja o maior paradoxo de sua passagem pela Celeste. O treinador que sempre defendeu o futebol coletivo terminou comandando uma equipe em que o talento individual aparecia mais do que a organização. Valverde corria por todos os setores, Ugarte combatia, Bentancur tentava organizar, Darwin buscava decidir. As peças existiam. A engrenagem nunca funcionou plenamente.

 

No fim, a eliminação para a Espanha foi consequência, não causa. O Uruguai caiu porque deixou escapar pontos contra adversários inferiores, porque perdeu consistência quando mais precisava e porque nunca conseguiu transformar um elenco de primeira linha em um time à altura de sua história.

 

Bielsa deixa a Copa da mesma maneira que sempre caminhou pelo futebol: fiel às próprias ideias. Mas desta vez elas não foram suficientes. O revolucionário que prometeu reinventar a Celeste termina o Mundial lembrando que, no futebol, nenhuma convicção sobrevive por muito tempo quando deixa de produzir resultados. A revolução ficou pelo caminho. O caos, esse sim, chegou até o apito final.

 

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